Coisas que dão mau nome à Esquerda

Há muito que a malta do costume já nos tirou a pinta: sempre em pé de guerra com acusações estapafúrdias, sempre prontos a ensaiar grotescos levantamentos populares, cronicamente incapazes de entender o funcionamento do mundo real.
Notem que se trata de generalizações simplistas e redutoras, claro. Mas, de quando em vez, lá surge alguém que se empenha em dar-lhes uma amostra de razão. Fazendo eco de folclores ridículos via SMS; acusando de censura, nem mais, o doclisboa por se ter resguardado de um processo legal que talvez nem tivesse forma de custear; apontando hoje o dedo justiceiro para a Banca: que o que paga de impostos está “longe, muito longe, daquilo que legalmente deveria pagar”; que usufruiu de uma isenção fiscal para “depósitos colocados em Offshores”; que o “último registo de lucros da banca é da ordem dos 30%”, em pungente oposição às “famílias endividadas”.
Isto quando a realidade é bastante mais complexa. E menos passível de ser iluminada com tiradas estridentes, panfletárias e simplistas (claro que a Banca não paga menos do que a lei exige, apenas se agarra a todos os buracos da mesma; tratava-se sim de obrigações emitidas em paraísos fiscais, não de depósitos; 30%? De quê? ).
Pessoalmente, agradeço à Joana Amaral Dias por ter ajudado a afundar a última candidatura presidencial de Mário Soares; mas parece ideia recomendável que se abstenha de participações muito activas, por exemplo, na campanha pelo “sim” à despenalização da IVG.

11 thoughts on “Coisas que dão mau nome à Esquerda”

  1. Luís,
    Para além da tua embirração patológica em relação à JAD, consigo perceber muito pouco.
    – Pagam os bancos menos IRC efectivo que as empresas? Sim.
    – Usam os banco paraísos fiscais para fugir ao fisco? Sim.
    – Está o sector bancário numa situação de vampiro: os bancos dão lucros fantásticos, ao mesmo tempo que o resto da economia e os portugueses no geral estão de pantanas? Sim.
    A notícia que tu recorres é um arrazoado, que nem sequer consegue justificar a isenção concreta dada à banca. Aquilo era um press release do João Salgueiro?
    Acho que vais ter que fazer um esforço mais inteligente para não seres acusado de “bloguista do bloco de esquerda”, em tempos que o antigo marido da Laurinda Alves anda à caça…

  2. Eu vou responder-te pausadamente:

    – Pagam, como toda a gente está careca de saber; mas nunca nada “longe” do que “legalmente deveria pagar”. Estás a ver a diferença entre a realidade e o panfleto? Não há ilegalidade.
    – Neste caso, como o governo admitiu, não houve “fuga”; apenas aproveitamento de um descuido do legislador. Mas nada foi feito através de “depósitos colocados em Offshores”.
    – Confusão é mesmo aquele disparate do “registo” de “30%”.

    Quando se protesta e acusa, deve aplicar-se um mínimo de inteligência e clareza. Quando a coisa fica pelos berros e pelas acusações vagas, infundadas e descuidadas, só ganha o adversário.
    Estás a ver o problema?

  3. Por falar no rigor do teu comentário sobre a APORDOC. Deixo-te duas citações, uma do Spectrum e outra de um leitor no 5 dias, para pensares no assunto.

    1-“Continuamos a fingir que não percebemos.
    “O post de madalena miranda é um exercício demagógico que tem como único objectivo a defesa de um grupo restrito de interesses, a saber, os interesses da apordoc.
    A apordoc defendeu todos os interesses, os seus e o das entidades que a apoiam; mas continuo sem perceber o que fez para apoiar a realizadora.. Afinal quem serve esta associação..? A comunidade dos jovens realizadores que trabalham sem apoios do estado ou privados..?

    O post de mm é vergonhoso porque finge não saber que a direcção da apordoc seleccionou o filme para exibição no festival sabendo das condições em que o filme foi rodado, tendo sido a própria realizadora a informar pessoalmente a apordoc sob as condições em que o filme foi rodado.

    O post de mm é hipócrita pois afirma –
    “Quero ver um filme que não se fez deixando para trás o essencial de um documentário. O acordo, ou se quiser o consentimento, para o filmar e para o exibir públicamente, daqueles que estão envolvidos nele.”

    Novamente.. como é possível a apordoc, ou um dos seus elementos, ter o dislate de vir atacar a integridade da própria realizadora, quando era do conhecimento da apordoc as condições em que o filme foi rodado e da falta de autorizações..? e que, apesar disso, antes de a bronca rebentar a apordoc o manteve na programação..”
    In João Dias no 5 Dias

    2-“A Apordoc e a Culturgest decidiram não passar um documentário acerca de uma agência de viagens que burlava os seus clientes, devido a uma ameaça de acção judicial feita por essa agência.
    A Apordoc vai passar hoje à noite um documentário acerca de Hip-hop português, patrocinado pela Red Bull. Não há bilhetes disponíveis, porque a Red Bull reservou para si todos os lugares do Grande Auditórios da Culturgest.

    Pacheco Pereira pode dormir descansado.
    Nunca as documentaristas da Apordoc hão-de ocupar outra coisa senão uma posição confortável no mercado da «cultura». Nunca o Doc Lisboa há-de ser outra coisas que não uma flor na lapela e um bom certame para jovens aspirantes a documentaristas trabalharem como cães a troco de nada.
    Com artistas assim quem precisa de empresários?”
    In Spectrum

  4. Como tu sabes, eu estive em algumas redacções, se a gente não publicasse notícias de cada vez que alguém nos ameaça com um processo, os jornais e telejornais estariam vazios… E 90% desses processos não dão em nada, pq os jornalistas não fizeram mais do que cumprir o seu papel.
    Se o documentário fosse ilegal, a firma devia ter pedido uma providência cautelar sobre a exibição.
    Recentemente, no Festival de Cinema de San Sebastian a associação de vítimas do terrorismo quis proibir um documentário sobre o país basco (Pelota Basca) pq falava com gente favorável ao independentistas… A organização do festival não cedeu. Fez o seu papel num país que o pseudo-delito de apologia ao terrorismo dá 7 anos de prisão. É esta a diferença que devias pensar.

  5. Só uma coisa: a apordoc, não é, embora o seu nome talvez o sugira, uma associação profissional. “Apoiar a realizadora”? Porque é que isso seria uma obrigação?
    Nuno: se tiveste a sorte de trabalhar em órgãos de informação com “tomates” e músculo para aguentar com ameaças de processos, ainda bem; mas não podes exigir isso de toda a malta. A realizadora quis fazer uma peça de denúncia? Venda-a à TVI; esses não devem ter medo de a exibir.
    Podes ter toda a razão do mundo e os gajos até serem uma cambada de poltrões; mas continuo sem perceber onde pára a tal “censura”. Palavras dessas não se podem, como bem sabes, banalizar. Senão, um dia já nada significam.

  6. Luís,
    Não tenho nada contra a APORDOC, da qual só conheço duas pessoas que estimo. Só não estou de acordo com a forma que trataram da questão do documentário em questão.
    Acho que uma instituição que tem como projecto divulgar documentários e sem fins lucrativos não pode acagaçar-se à primeira ameaça e fazer exibições para a Red Bull.

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