Arquivo da Categoria: Valupi

Nunca houve, nunca haverá

O mandato de Donald Trump é assumida e legitimamente um projecto de violação da Constituição dos Estados Unidos e de imposição de uma práxis criminosa como critério último (quando não primeiro) de decisão governativa. Projecto assumido porque foi anunciado na campanha, e projecto legítimo porque o eleitorado americano quis dar o poder, agora com a maioria do voto popular, a quem tentou derrubar e enfraquecer as instituições democráticas.

Nesse sentido, estamos perante algo que se inscreve numa possibilidade do sistema político norte-americano. Era possível, mesmo que impensável por ter sido altissimamente improvável durante dois séculos e tal, aparecer alguém como Trump para fazer o que Trump está a fazer. Apareceu, e também se chama Trump. Logo, este ciclo faz parte da evolução da democracia nos EUA; e por extensão, dada a sua importância histórica, da evolução da democracia — e do capitalismo — no mundo.

Um dia Trump estará morto. Se tudo correr bem, tal não acontecerá sem ele ter esgotado estes últimos 4 anos na Casa Branca para que foi escolhido sem qualquer falha, ou dúvida, no processo eleitoral. Outras pessoas continuarão a pensar de modo diferente do seu nesse país, outras pessoas continuarão a nascer por lá, ou lá a se tornarem americanos, que quererão viver de acordo com outros valores. Não fazemos ideia de como será a democracia nos EUA em 2050. Sequer em 2030.

Que fazer dado o impacto de termos uma superpotência outrora liberal a juntar-se à Rússia e à China no culto de ditadores? Temos de nos orgulhar daqueles que preservam a nossa democracia, defendem a nossa liberdade. E se para continuarmos assim for preciso combater, mesmo que só no plano das ideias, não há combate mais belo.

Nunca houve, nunca haverá.

Riacho

Rui Rio tem 67 anos. Ambicionou chegar ao topo do poder político, falhou. Ao não concorrer a estas presidenciais, sela o fim da sua carreira política. Não mais voltará a ser presidente do PSD, não estará em condições de ser candidato presidencial daqui a 10 anos, provavelmente. Igualmente impensável é o seu regresso à câmara do Porto, sequer o veremos como deputado, muito provavelmente.

Porém, a configuração da actual corrida presidencial tem tudo para favorecer uma candidatura independente de Rui Rio. Porque Gouveia e Melo, indo a uma hipotética segunda volta, tenderá a ter a esquerda e parte do centro contra si. Se juntarmos uma parte da direita que gosta de Rio, a coisa até poderia desembocar numa vitória fácil para o brilhante aluno da Deutsche Schule do Porto. O perfil pacóvio, parolo, pró-populista a fantasiar-se de estadista de Rio seria perfeito para isolar Gouveia e Melo num pedestal militaróide e sidonista de que a enorme maioria do eleitorado quer distância. E, quem sabe, talvez desse um Presidente muito melhor do que Cavaco e Marcelo (o que não é nadinha difícil, bastaria permanecer decente).

Do lado do PS, a crescente fraude que é Pedro Nuno Santos está a alimentar Seguro ao prolongar o que começa a ser uma agonia: não há uma pré-candidatura competitiva no lado socialista — logo, do lado da esquerda. Também aqui, há espaço para uma personalidade que concorra como independente, com plena liberdade estratégica para construir a sua campanha, a sua promessa, a sua esperança.

Revolution through evolution

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These apes can tell when humans don’t know something, study finds
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What MLK knew that today’s progressives keep forgetting
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Sociological research reveals how immigrants can reduce crime
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Dominguice

O Hamas demorou dois anos a planear o ataque de 7 de Outubro de 2023 a Israel. Durante esses dois anos, os seus responsáveis consideraram que iria valer muito a pena ir matar civis, indiscriminadamente (de todas as idades e nacionalidades, tanto fazia), e arrebanharem o maior número de reféns que fosse logisticamente viável levarem para a Faixa de Gaza antes da resposta das forças israelitas nesse mesmo dia. Para estes chefes e operacionais, tal plano aparecia como um acto de guerra justo e necessário para o avanço das causas por que lutam. Havia benefícios a recolher dessa matança, as coisas iriam ficar melhores para eles caso tivessem sucesso. E tiveram. Israel começou a responder ao ataque de dentro para fora. Não mais parou. A ocasião justificava uma resposta proporcional: ou seja, uma destruição bíblica. Tendo a desculpa de ser a vítima de um ataque no grau máximo da desumanidade, Netanyahu podia responder na mesma moeda. Assim foi, já se contam 45 vezes mais vítimas civis do lado palestiniano, a que acresce a destruição das infraestruturas urbanas e a deslocação de dois milhões de pessoas. Para Israel há benefícios a recolher desta matança e terraplanagem de Gaza, as coisas poderão ficar melhores para eles caso tenham sucesso. E estão a ter.

A alegria e comoção dos familiares israelitas ao abraçarem os reféns libertados é exactamente igual à alegria e comoção dos familiares palestinos ao abraçarem os presos libertados. Só desta humanização virá a paz.

Este regime mete pen

«Um ano depois de terem sido efetuadas buscas a São Bento no âmbito da Operação Influencer, o DCIAP deu início a uma investigação — autónoma — depois de uma reunião mantida com os magistrados responsáveis pela investigação (a Vítor Escária, Diogo Lacerda Machado e António Costa) e Amadeu Guerra, um mês depois do novo PGR tomar posse. Um inquérito que data de novembro de 2024 e que se encontra em segredo de Justiça, conforme confirmou fonte oficial da Procuradoria-Geral da República ao ECO/Advocatus.»

Fonte

Dois meses e tal depois da reunião em causa, os magistrados responsáveis pela investigação e/ou Amadeu Guerra, alguém deste grupo obrigado ao segredo de justiça, resolveu entregar à revista Sábado a informação relativa à investigação em curso.

Ou seja, para tornar pública a suspeita de se ter cometido um crime de violação do segredo de Estado foi cometido um crime de violação do segredo de justiça. E aposto os 10 euros que tenho no bolso em como o criminoso do Ministério Público que passou a informação ao jornalista criminoso tomou o cuidado de apagar qualquer rasto do ilícito. Como? Simples, metendo os ficheiros secretos numa pen.

És linda, democracia

A 19 de Janeiro, na véspera de Trump voltar à Casa Branca, realizou-se na capital dos EUA uma manifestação da série “Women’s March”; iniciativa começada em 21 Janeiro de 2017, um dia após Trump ter inaugurado o seu primeiro mandato, nascida de várias entidades dedicadas à defesa dos direitos das mulheres e das minorias. Em 2025, depois de os organizadores terem levado a cabo múltiplas acções ao longo dos anos em múltiplos países, mudaram o nome do evento para “People’s March”, com o óbvio propósito de chamar o maior número de manifestantes possível. Há oito anos reuniram perto de 500 mil pessoas só em Washington. Este ano tiveram 20 vezes menos, à volta de 25 mil.

Eis um exemplo cristalino, entre inúmeros, da grande resignação na esquerda e no centro. E por excelentes razões. Os eleitores americanos preferiram dar o poder máximo a quem anunciou que ia tentar consumar a invasão do Capitólio. Não existiu o mínimo disfarce na campanha eleitoral de Trump. Ele foi honesto. Disse o que queria fazer, exibiu-se com quem o queria fazer. Houve até ostensiva displicência da sua parte, a raiar um estado de beatitude, ao mostrar que todas as regras conhecidas da ciência política não se aplicavam à sua pessoa. E assim ganhou também no voto popular, destruindo qualquer resistência moral perante o facto bruto da sua vitória sem espinhas.

Os Democratas pensaram, logicamente, que um tipo asqueroso como Trump, uma ameaça à democracia, mentor da diminuição dos direitos das mulheres, fanático do fim da luta contra as alterações climáticas, mais amigo de Putin do que dos serviços secretos americanos, pronto a violar a lei e a ordem se for no seu interesse, enterrado em processos judiciais onde a sua conduta criminosa ficou provada, jamais recolheria o voto das mulheres, dos jovens, das minorias, dos republicanos patriotas e defensores da democracia, para mais quatro anos do que é um projecto de ditadura. Mas, ilogicamente, deixaram que Biden implodisse em directo no primeiro debate de 2024, acabando a lançar Kamala Harris já em desespero e ameaça de tragédia. Em abono da verdade, não se pode sequer calcular as hipóteses de Harris mesmo que tivesse começado a sua campanha em 2022 ou 2023. Principalmente, por causa da lógica.

Em 2016, o choque Trump foi racionalizado à esquerda e no centro invocando o efeito mediático onde era exímio a dar espectáculo, a arquitectura setecentista da eleição presidencial americana que favorece os Republicanos, o preconceito contra as mulheres que penalizava a candidata Democrata, a interferência russa na espionagem e nas redes sociais e a intervenção do director do FBI que torpedeou Hillary Clinton a 11 dias das eleições. A vitória no voto popular ficava como consolo psicologicamente vital para alimentar a indignação e dar esperança face ao absurdo violento. A América não era aquilo, aquilo era um erro grotesco do sistema político. Em 2024, vimos o fenómeno simétrico: aceita-se que a América é Trump. Esta é a realidade, não há mais engano nem ilusão.

O que nos leva para a democracia. Pode a democracia eleger quem a queira violar e destruir? Pode, claro. Não é a primeira vez, não será a última. Devemos criar regras especiais para evitar futuros Trumps? Não, jamais. Porque isso equivaleria a termos menos democracia, menos liberdade. Assim como há acidentes naturais, imprevisíveis e incontroláveis, assim como há crimes de guerra e crimes comuns, indefensáveis e muitas vezes impuníveis, assim há resultados eleitorais que, cumprindo todas as regras estabelecidas previamente, irão dar o poder a quem ameaça a cidade. Compete aos que se considerem cidadãos participar na heróica, gloriosa, linda história da democracia.

Revolution through evolution

White Men Promoted at Higher Rates Than Women and Minority Groups in Academic Medicine
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Women struggle in the boardroom to promote social responsibility initiatives
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Vacations Are Good for Employee Well-Being, and the Effects Are Long Lasting
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The big chill: Is cold-water immersion good for our health?
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Regular dental flossing may lower risk of stroke from blood clots, irregular heartbeats
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Being Social May Delay Dementia Onset by Five Years
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Aspects of marriage counseling may hold the key to depolarizing, unifying the country, study finds
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Dominguice

Os instrumentos de IA, como o ChatGPT e quejandos, vão tornar as pessoas mais inteligentes? Sim e não, óbvio. Sim, porque ficamos com mais inteligência prática e teórica à disposição. Não, porque ter inteligência à disposição, só por si, não nos torna mais inteligentes.

A fonte da inteligência é o espanto. E para lá chegar não há caminho.

Desagravo a Ricardo Leão

Primeiro estranha-se, depois desentranha-se. As declarações de Pedro Nuno Santos foram chocantes para uma parte do PS, que lhe respondeu sem rebuço. Essas críticas são inatacáveis pois apresentam factos e argumentos indesmentíveis. Tanto, que nem tiveram qualquer resposta do próprio. Ou melhor, tiveram, mas na forma de uma imbecil fuga para a frente: Pedro Nuno deixa aviso aos costistas: análise crítica é para continuar “sem hesitação”

A direita adorou a conversão de PNS a publicista da retórica das “portas abertas” por culpa de Costa. O Montenegro xerife, que mandou a polícia encostar imigrantes africanos e asiáticos à parede, ficava não só normalizado pelo líder do PS como até podia reclamar ter antecipado num mês a “coragem” que a entrevista ao Expresso ofereceu à sociedade carente de quem ponha os indostânicos violadores das nossas filhas, mães e avós na prisão ou a caminho da terra deles. Marcelo, com o altruísta projecto de ultrapassar Cavaco por baixo, aproveitou o reforço de peso para os “moderados” e anunciou que o Chega vai ter o Conselho de Estado que encomendou.

Só há duas maneiras de racionalizar o que se lembrou de fazer o socialista-mor. Ou estamos perante um tipo que acabou de ser eleito secretário-geral da Juventude Socialista e, no dia seguinte, manhã muito cedo, aparece para uma entrevista ainda completamente bêbado. Ou então, como única alternativa, temos de aceitar que o homem quis dizer exactamente aquilo que disse. E o que disse é um discurso que Ventura não se importaria de assinar. Porque é uma procissão de tropos dos nacionalismos fascistas e autoritários. É que nem dá para fingir que ele teve um descuido de linguagem, que tropeçou em ambiguidades, que no entusiasmo do assunto se deixou ir um pouco longe de mais. Porque se fosse o caso teria corrigido na própria entrevista. Ou depois.

Ricardo Leão, o tal dos despejos em Loures “sem dó nem piedade”, apressou-se a vir manifestar o seu êxtase com as declarações do líder. O líder tinha demorado um bocadinho nessa operação de resgate do autarca implacável, mas líder é líder. Finalmente apareceu, desagravou o Leão tão maltratado pelos extremistas defensores do Estado de direito e da decência, e anunciou que a nossa cultura é muito linda. Muito mais linda do que a Constituição!