Abençoado Trump

Imagine-se o que seria por essa imprensa fora se o PS estivesse, nesta altura do campeonato, sem candidato à maior Câmara do País? E não se percebe, afinal, e até nova contagem, o PSD continua a ser o maior partido. É perguntarem-lhes.

Ainda bem que o Trump existe e que todos os santos dias mantém ocupadíssimos todos os jornalistas e comentadores. Mas, por este andar, ainda chegamos ao dia das eleições autárquicas e ninguém dá pela falta do tal candidato do PSD.

Malhas que a Impresa tece

Após a entrevista a João Araújo, a SIC Notícias colocou no ar Ricardo Costa e José Gomes Ferreira para a comentarem sob a batuta da Clara de Sousa. O mano Costa é o director-geral de informação do grupo Impresa, cargo que acumula com a autoconvicção de ser o cromo com mais neurónios em toda a comunicação social portuguesa e arredores. José Gomes Ferreira é um dos mais notáveis profissionais da calúnia actualmente em actividade. Clara de Sousa é Clara de Sousa, provavelmente uma vítima.

O Zé aproveitou a ocasião para declarar, sem qualquer contraditório, o seguinte:

– As notícias que referem alegados indícios de corrupção efectuada por Ricardo Salgado e Sócrates criaram na sociedade uma divisão (leia-se: duas metades) entre aqueles que acham que se está a perseguir Sócrates por razões políticas e os outros que não dão importância especial ao caso. Pergunta: há mais alguém a alucinar desta maneira no Hemisfério Norte ou estamos perante um caso isolado e, portanto, não significativo?

– Os indícios de foro judicial podem ser verdadeiros ou falsos, fortes ou fracos. No caso de os indícios serem verdadeiros e fortes, então passam automaticamente ao estatuto de provas e devem gerar as reacções condenatórias adequadas por parte da população e quem a representa mediaticamente. Pergunta: o Zé é mesmo o que aparenta ser ou há um Zé secreto que anda a escrever uma biografia onde explica que tudo isto se deve a um trauma de infância por causa de um brinquedo roubado e ao infortúnio de não ter nascido rico?

– A partir dos indícios relativos à suposta corrupção que gerou o suposto envio de 17 milhões de euros de uma pessoa para outra passando por uma terceira, é obrigatório concluir que há um período onde essa tenha sido a prática generalizada. Exemplos desse despautério que chegaram ao conhecimento do Zé: “o interromper de uma OPA que tinha sido feita a partir do Norte, de uma família de empresários que estavam fora desta maneira de fazer negócios“; “depois uma venda de uma Vivo“; “depois uma compra de uma Oi“; “um primeiro-ministro que lançou o maior número de contratos do Estado, com tantos milhares de milhões de euros de valor, em rodovias, em saúde, em escolas, por aí fora, se não houve honorabilidade neste caso o que será dos outros“; “só me lembro de coisas como a aprovação dos RERT“; “lembro-me de coisas como a atribuição de concessões de barragens aos grandes operadores“. Pergunta: as centenas, se não forem milhares, de indivíduos envolvidos num qualquer grau de responsabilidade e conhecimento interno nesses casos aludidos pelo Zé, entre membros do Governo, funcionários do Estado, equipas dos privados, mais advogados e escritórios de advogados, também sacaram a sua parte na roubalheira ou Sócrates e Salgado trataram do assunto a mielas e por telepatia, não demorando muito até que esses dois génios do crime bazem do país para irem gozar as centenas de milhões (cálculo rasteiro) que estão à sua espera ninguém sabe onde apesar de a bófia já ter vasculhado tudo e mais alguma coisa nas suas contas, computadores, telemóveis e papelada e ainda nas contas, computadores, telemóveis e papelada de amigos e familiares?

– Não há interesse no Parlamento pela criação legal da delação premiada (que o Zé quer que se passe a chamar “colaboração premiada”, et pour cause + c’est tout un programme), porque isso iria permitir descobrir mais crimes e mais criminosos do tal período em que a corrupção apareceu em Portugal pela primeira e última vez. Pergunta: o Zé não seria capaz de nos informar com mais detalhe acerca daqueles que no PSD, CDS, BE e PCP querem proteger os ladrões do PS?

Este vendaval de insinuações, difamações e retintas calúnias em modo sonso e aldrabão, sensacionalista e hipócrita, cínico e manipulador, teve da parte do mano Costa o mais eloquente apoio através do silêncio. Só que apoiar o Zé era curto para esta vedeta da “imprensa de referência”, pelo que fez questão de nos dizer outras duas coisitas: (i) que não tinha medo de Carlos Alexandre e de Rosário Teixeira como tantos outros (mas quem?), tinha era “respeito” (o tipo de respeito, ficamos a imaginar, que um bacano de prancha de surf debaixo do braço igualmente sente ao contemplar as ondas da Nazaré durante uns minutos antes de voltar para o carro sem sequer ter molhado os pezinhos), e que (ii) era desta que Sócrates ia ser apanhado, pois graças ao último depoimento do Bataglia já dava para entalar o cabrão. Ou seja, o mano Costa falou como se tivesse tido acesso às declarações prestadas às autoridades e à restante documentação coligida, acrescentado-lhe uma avaliação de perito em direito penal. Percebe-se o entusiasmo, pois no Expresso e na SIC há uma campanha em curso para reclamar os louros da captura da besta via “Panama Papers”, no que rivalizam com o esgoto a céu aberto para o título de órgão oficial da judicialização da política portuguesa.

Em relação ao sórdido espectáculo, tenho só uma curiosidade: haverá alguém a estudar academicamente esta época da comunicação social e o regime de poderes fácticos que defende e promove?

Revolution through evolution

Research Finds Link Between Immigration Coverage, Partisan Identity
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Political affiliation can predict how people will react to false information about threats
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Teens, young adults explore differently
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To lose weight, and keep it off, be prepared to navigate interpersonal challenges
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Study Reveals Substantial Evidence of Holographic Universe
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Founding Fathers Used Fake News, Racial Fear-Mongering to Unite Colonies During American Revolution, New Book Reveals
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Polling is still best predictor of election outcomes, study suggests

“Um sabujo da Internet”, ó Dâmaso?

As páginas e páginas que o Correio da Manhã tem vendido com artigos sobre o Sócrates assentam num ódio inexplicável. Se dúvidas houvesse, e há muito que não há, a colunazinha assinada pelo Eduardo Dâmaso no CM de ontem, ao lado de páginas onde mais uma vez se repete a lenga-lenga do Ministério Público sobre o dinheiro de Carlos Santos Silva, que os juízes e toda a gente sabem ser do Sócrates, pois um engenheiro civil com negócios múltiplos e variados, no país e no estrangeiro, viveria na pobreza mais extrema não fossem os esquemas do amigo Sócrates, mas, dizia eu, a colunazinha do Dâmaso prova como nada do que o pasquim publica sobre esta matéria é minimamente objectivo e sem agenda.

Ora, para além do Sócrates, ou por causa dele, o Dâmaso odiava o Miguel Abrantes, do blogue Câmara Corporativa, e fica hiper-raivoso por saber que “Miguel Abrantes” era o pseudónimo de um senhor chamado António Peixoto, ex-funcionário do Ministério das Finanças, e que dizem ter sido remunerado a título particular pelo trabalho como bloguista político. Chama-lhe, então, “sabujo” (e ainda “cãozinho de guarda”). O termo é feio e ofensivo. Ó Dâmaso, a tua vontade era abatê-lo fisicamente, não era? Ou criares condições para? Porquê o ódio?

Ora, acontece que o autor do referido blogue era de uma competência, objectividade e qualidade que jamais observei em nenhum outro bloguer político. Não sei de onde saiu, nem onde o Sócrates ou algum seu amigo o desencantou, nem a sua história anterior como escrevinhador, mas o que é certo é que o Câmara Corporativa era imbatível em qualidade e eficácia. Era imperial. Fazia inveja. O Pacheco Pereira vivia obcecado.

E o que fazia de tão abjecto o “Miguel Abrantes” para deixar os direitolas de cabeça perdida? Divulgava notícias falsas? Mentia sobre a governação? Mentia sobre a oposição? Não, nada! Limitava-se a repor os factos quando eram por outros distorcidos, deixava a direita desorientada, apresentava números, documentação, citações, fazia humor quando era preciso, enfim, um profissional genial. Não sei se recebia dinheiro pelo trabalho. Se recebia, era merecido. Se há crime nisso, confesso que me surpreende.

Pessoas ligadas ao PSD confessaram espalhar notícias falsas e minar os programas de debate radiofónicos e nada lhes foi apontado.  O Dâmaso não lhes chama “tralha”, como chama aos blogues anti-direita. Inúmeros bloguistas, que não pertencem à tralha e são gente fina e mesmo escorreita,  transitaram para o governo do Passos. E o “Miguel Abrantes” é que é o “sabujo”?

Só sábios éramos bué

Nós — e quando digo “nós” refiro-me a jornalistas, analistas, colunistas, historiadores — estamos a gastar tempo de mais a caricaturá-lo e tempo de menos a compreendê-lo.


Caluniador pago pelo Público

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A clássica anedota académica tem no João Miguel Tavares a sua mais recente personificação in vivo. Este profissional das “polémicas” semanais com os alvos da sua sanha anti-esquerdolas (há quem lhe dê conversa, é o que temos e o que somos) considera-se parte de um colectivo, uma corporação, que junta jornalistas, analistas, historiadores e colunistas. Jornalistas e colunistas, enfim, passa com um bocejo porque a enorme maioria dos jornalistas portugueses o que ambiciona mesmo é verter sobre as ocas cabeças do povoléu as suas preciosas opiniões em vez de reportar factos o mais relevante e factualmente possível. Analistas e colunistas, a coisa começa a cheirar muito mal. O que será um analista para o nosso magnífico colunista? Alguém que analisa cenas com ou sem sangue, certamente, mas de acordo com que objecto de análise, metodologia e corpo teórico? Enigma que ele não irá resolver por falta de tempo, está demasiado ocupado a lutar contra a diabólica corrupção socrática. Historiadores e colunistas, eis a parolice no seu esplendor, com o caga-sentenças a equiparar-se ao cientista porque acha que a actividade de ambos se reduz exactamente ao mesmo: dizer uns disparates que lhes passem pelo bestunto e ser espertalhão o suficiente para conseguir que alguém pague por eles.

A mediocridade intelectual do JMT não o impede de ser um colunista de sucesso, daqueles que chegam à televisão e tudo, antes parece ser condição sine qua non. Estudos, discursos um bocadinho mais elaborados, estudos, procura de módica objectividade, estudos, respeito pela honra alheia, e estudos, estas características só tornam mais improvável a agilidade mental para despachar os simplismos caricaturais e sectários com que mostra serviço. Daí a satisfação exibida por este penduricalho de uma indústria que esvai de inteligência o espaço público. É tão fácil imaginar-se par dos jornalistas, analistas e historiadores. E poderia ter continuado, pois igualmente os políticos, os investigadores, os juízes, os médicos e quase todos os mecânicos automóveis o que fazem não passa do que o JMT igualmente poderia fazer se lhe pagassem: abrir a boca e falar, mexer os dedinhos e escrever.

Ele tem razão. E a culpa não é dele.

João Araújo exemplar

Nesta entrevista, constate-se como Clara de Sousa faz todas, mas todas, as perguntas de acordo com a lógica de que está a falar com alguém que partilha com ela, e com aqueles cujas posições representa na sua actividade profissional, o conhecimento de que Sócrates cometeu crimes de corrupção. Quanto a irregularidades, e até ilegalidades, do Ministério Público, a sua atenção é nula. O único tópico de interesse, a sua única motivação, é a intriga a partir de suspeitas caluniosas e ao serviço de adensar a intriga inicial. Perante a fúria perversa do interrogatório, João Araújo reage como se estivesse na sala de uma turma da 4ª classe (sim, já não existe) a explicar os fundamentos dos direitos e garantias dos cidadãos num Estado de direito democrático.

Há espaço para isto, e pior, na comunicação social tomada como mercado. E só se expõe nestes números quem quiser, mas não lhe chamem jornalismo. Chamem-lhe o que é, decadência ao serviço do lucro e/ou de agendas políticas.