
O jornal “Açores” era uma espécie de órgão oficioso da FLA. O tempo que se vivia era de autêntica pré-guerra civil, pelo que as mentiras ao serviço do movimento, como aquela notícia absolutamente fantasiosa com que comecei o «post» anterior, faziam parte da acção psicológica. O seu director, Gustavo Moura, veio a ser preso por causa disso e foi, honra lhe seja feita, o único até hoje, em cerca de trinta, que publicamente em entrevista na RTP ouvi reconhecer a justiça da sua prisão (na sequência do 6 de Junho, a que me referirei adiante.)
Porquê eu?
Eu, simplesmente porque estou a contar a história. Mas outros sabem tanto ou mais do que eu, e foram tanto ou mais protagonistas de um lado e outro das duas frentes.
O “Açores” foi o jornal em que comecei a escrever como colaborador gratuito, e mantive-me lá até ao Verão quente de 1975. Por essa altura publiquei um artigo contra a independência que foi mal aceito. Depois escrevi outro cuja publicação foi recusada, mas que foi levado para uma reunião da FLA em que disseram de mim (soube-o por um dos participantes, que fora redactor do “Açores”) o pior que se pode imaginar. Ainda escrevi um artigo contra a política gonçalvista dos saneamentos selvagens, que foi publicado, o que não aconteceu a um segundo, por medo das represálias. Por causa disso, deixei de colaborar lá e passei para o “Correio dos Açores”. Um dos artigos que neste escrevi provocou duas ameaças de bomba, a suspensão de catorze assinaturas e o pedido de sete novas.
Quando a FLA começou a ganhar cada vez mais força, organizei aqui na Maia duas manifestações contra a independência. Foi a única freguesia dos Açores a fazê-lo, o que foi um golpe incómodo para a unanimidade que a FLA fingia recolher dado o silêncio da contestação popular. Havia resistências pontuais em Ponta Delgada, por parte de comunistas e socialistas, mas nenhum movimento de massas. Foram postas bombas artesanais feitas com botijas de gás, várias pessoas foram agredidas, automóveis queimados, a sede de alguns partidos e a casa da família do Jaime Gama incendiada. (Os primeiros incendiários foram extremistas de esquerda, que pegaram fogo à sede do Movimento para a Autodeterminação do Povo dos Açores, antecedente “legal” da FLA, fundado por gente do PPD.) Quando o director do “Açores” arrefeceu o seu apoio à causa também apanhou com uma bomba em casa por represália, bem como Américo Natalino de Viveiros, secretário do governo regional, pelo mesmo motivo.
DANIEL DE SÁ
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José de Almeida
O chefe “histórico” da FLA fora até 25 de Abril de 1974 deputado por Viana do Castelo. Umas duas semanas depois da revolução, esteve num café de Ponta Delgada à conversa com a mulher do engenheiro João Miranda, da Câmara de Angra, que viria a ser meu colega como director regional (dito secretário) para as construções escolares (enquanto eu o fui para a Comunicação Social e Desporto) da Junta Regional, o governo nomeado para preparar eleições e que serviu como primeira experiência de governo autónomo. José de Almeida disse a essa amiga que estava a caminho dos EUA, que isto não lhe dizia quase nada, pois vivera grande parte da sua vida no Continente. No entanto, nos EUA foi convencido, por um grupo de emigrantes com ligações aos subterrâneos de certos poderes económicos, a vir dirigir um movimento separatista. Assim nasceu o chefe da FLA.
Frank Carlucci
Foi provavelmente também por causa dele que a FLA nunca teve apoios oficiais nos EUA. Veio uma vez aos Açores inteirar-se da situação política, e uma das suas reuniões foi na sede do PS. A certa altura perguntou que pensávamos das possibilidades de independência dos Açores. Por acaso a isso fui eu quem lhe respondeu. Disse-lhe que os Açores eram muito bons para a América, que ficava assim mais perto da Europa; e para a Europa, que ficava mais perto da América. Mas nós ficávamos mais longe de tudo, pelo que aquilo que exportávamos chegava muito mais caro ao destino e aquilo que importávamos chegava muito mais caro aqui. Ele respondeu textualmente: “Compreendi perfeitamente. Não há qualquer hipótese.”
Apoios
Passo por alto a tentativa falhada da FLA em adquirir material de guerra, por falta de apoios com que chegou a contar. Falo de outros, que decerto não virão nos livros de História.
Pouco depois de passado o pior período, com a queda de Vasco Gonçalves, houve um rapaz aqui da Maia que morreu num acidente numa mata. O marido da dona da empresa para que ele trabalhava veio à Maia tratar das questões legais com a família. Tratava-se de Raingeard de la Blétière, antigo miliciano na Argélia. Esteve à conversa com o já referido Francisco Sousa e comigo mesmo, em casa do meu colega. Havia uma organização a que ele estava ligado, composta por canadianos, americanos e franceses, que pretendia colocar nos Açores serviços completos de quartos-de-banho com pequenos defeitos de fabrico, e que por causa disso as fábricas não vendiam, por preços irrisórios, à volta de dois mil escudos cada um. O mesmo acontecia com televisores a preto e branco, que naqueles países ninguém comprava já, que seriam aqui oferecidos a 500$00, mais ou menos.
A finalidade desta operação seria provar aos açorianos e aos continentais que o capitalismo é que era bom, para os voltar contra o comunismo.
O 6 de Junho de 1975
Vem largamente referido por Medeiros Ferreira na História de Portugal dirigida por José Mattoso. Mas não consta lá como tudo foi engendrado. Começou numa conversa de três amigos ricos ligados à lavoura. (Foi um deles que mo contou, há poucos anos, lembrando isso quase com pavor, dadas as consequências que poderia ter tido). A ideia era concentrar o máximo possível de manifestantes em frente ao palácio do governador do distrito (na altura o Dr. António Borges Coutinho). Os lavradores (como aqui se chama aos criadores de gado) protestariam a pedir o aumento do preço do leite e diminuição do custo das rações e dos adubos; os trabalhadores do campo exigiriam alfaias mais baratas e os adubos também; e mais uma ou outra reclamação do género.
A verdadeira finalidade da manifestação não era conhecida por mais do que umas poucas dezenas de pessoas. Havia um grupo de umas vinte, talvez, que se mantiveram juntas. A multidão foi-se exaltando cada vez mais nos seus protestos frente ao palácio do governo do distrito, de modo que repetia qualquer grito que fosse dado. A certa altura, quando julgaram conveniente, os tais cerca de vinte gritaram “independência!” E a multidão repetiu o grito várias vezes. Assim se criou o mito, a pouco e pouco arrefecido pelas sucessivas confissões que têm sido feitas, de que milhares de açorianos (micaelenses) exigiram a independência naquele dia 6 de Junho.
Nota final
Quem movimentou as pessoas da Maia para se juntarem e assistirem à queima da bandeira foram sobretudo Roberto Rodrigues (meu cunhado, então com 18 anos, e hoje advogado no Seixal) e José Augusto da Silva Medeiros, que aos vinte anos tinha apenas a 4ª classe e aos 28 já era médico! Sem passagens administrativas. Chegou a ser o único a fazer exames, a seu pedido, na Universidade de Coimbra. Hoje é um reputado investigador de gastro-enterologia a nível internacional e professor na Faculdade de Medicina dessa Universidade.
Por fim, algo que acabo de descobrir na Net acerca daquela figura parda do Raingeard de la Blétière:
«Sempre fra il 1975 e il 1976 stava operando nelle Azzorre un altro uomo di fiducia di GUERIN SERAC, Jean Denis RAINGEARD DE LA BLETIERE, anch’egli ex-ufficiale dell’Esercito Francese, il quale aveva costituito il FRONTE DI LIBERAZIONE DELLE AZZORRE, in realtà non un movimento di liberazione, ma un gruppo secessionista che aveva la finalità di salvare una zona di alto interesse strategico, all’epoca, per gli Stati Uniti.
Infatti, qualora le forze comuniste e quelle ad esse alleate avessero avuto definitivamente il sopravvento in Portogallo, il Fronte costituito da Jean Denis avrebbe dovuto tentare la secessione delle Azzorre dalla madrepatria portoghese al fine di consentirvi il mantenimento delle basi americane».
DANIEL DE SÁ


Daniel: não haverá hipótese de republicares aqui os artigos da tua autoria originalmente publicados no jornal «Açores»?
Ó Daniel, reparou nos outros capítulos do site que visitou? Aquilo é uma sentença do juiz de instrução do tribunal de Milão, em 1998, relativa a um grupo de fascistas italianos cujos crimes de sangue, aliás, prescreveram ou não foram provados (lá como cá…). A Parte Sexta da sentença, capítulos 58 a 67, toda ela interessa a Portugal, pois se ocupa das actividades da célebre organização fascista Aginter Press, sediada em Lisboa (1962-1974), fundada pelo terrorista internacional Guérin-Sérac com o aval do governo de Salazar e a ajuda da Legião Portguesa. Foi esse rapaz, ligado à organização de beneficência apoiada pela CIA chamada “Gladio”, que depois supervisionou toda a operação Açores em 1974-75. Veja o capítulo 61:
http://www.strano.net/stragi/tstragi/salvini/salvin63.htm
Está lá a história da formação do “Governo Provisório Clandestino dos Açores”, que foi efectivamente constituído em 1975 “com o objectivo de separar o Arquipélago da Mãe Pátria”. Faltam os nomes dos componentes desse governo clandestino! Era engraçado descobri-los. O reconhecimento diplomático por vários países da América Latina, África do Sul, etc. já estava prometido, ao que se seguiria, num segundo andamento, para não dar muito escândalo, o dos EUA. Tinha havido contactos prévios entre militares portugueses da guarnição dos Açores e representantes da “administração americana” (CIA, certamente). Lindo, não é?
João Pedro
Não faço ideia onde isso pára, porque sou péssimo a guardar as minhas coisas.
Silveira
Quase tudo isso é verdade, mas não entrei em alguns pormenores que são do conhecimento dos historiadores. Tal como a própria presidência dos EUA, a CIA terá posto a hipótese de um apoio à secessão do arquipélago, mas não chegou a actuar. Quanto aos contactos com militares dos Açores, é bem provável. Um militar amigo do meu sogro e meu chamou-nos uma noite para uma conversa confidencial. Fomos no seu carro para um sítio isolado, e ele falou-nos, muito apreensivo, de algo de perigoso que estava a preparar-se. Não entrou em pormenores, mas deu para entender que esse perigo poderia incluir mesmo confrontos militares. Tempos de medo, pelo menos de séria inquietação.
Fascinante, por ser matéria lusa e oclusa. E banal, pois as potências internacionais (no caso, EUA) fazem sempre o mesmo: preparam vários cenários em simultâneo, mantêm díspares opções em aberto. No caso dos EUA de 74/75, cenário de Guerra Fria, perder os Açores seria inaceitável.
Na América não havia só Frank Carlucci, havia sobretudo o Secretário de Estado Kissinger, com posições muito diferentes das do senhor embaixador em relação a Portugal, um apoiante devotado de Pinochet e de generais fascistas e sanguinários onde os houvesse, número dois do presidente Nixon e um filho da p* encartado. E havia a CIA e o seu departamento de covert operations, com ligações à pior escumalha do planeta.
Daniel,
Gostei muito desse relatório regional cheio de perpécias rocambolescas, mas não dizes nada sobre a origem das castanhas piladas. E gostei do tom amistoso do teu bate-papo com o Carlucci. Espreitaste bem nas entranhas desse homem? Viste algum pingo de sangue a escorrer-lhe das unhas, com um odor a Lumumba?
Silveira,
Baseado na quantidade de informação que aqui despejas, fico indeciso quando ao tamanho do teu cérebro. Para não errar muito, decido, a priori, que deve andar aí entre o amendoim e a abóbora. Aconselho-te a dares uma curva de bicleta à volta da Ilha de S. Miguel e a leres qualquer coisa sobre a NATO relacionada com a Gladio e a Aginter e as outras 15 ou mais organizações similares que existiram ou ainda existem noutros paises. E cuidado com os motociclistas fantasmas da Legião Portuguesa salazarista.
Só te coloco esta pergunta para pensares. Mas que raio de país fascista era esse do Salazar, com fascistas e legionários a pontapé, que precisou importar um francês para fundar a Aginter, sediada em Portugal, como tu dizes?
O Daniel talvez te ajude a responder, pois parece atraído para a problemática da importação-exportação.
Sertorius, não percebi nada do que disseste, pois tanto parece uma coisa como o seu oposto, ou nem uma coisa nem outra, antes pelo contrário. Pesporrência, lá isso tens. Faz-nos a esmola de uns pingos do teu imenso saber sobre a Aginter Press ou outro assunto à tua escolha. Antecipadamente, obrigados.
A foto é minha e foi publicada pela primeira vez aqui: http://www.flickr.com/photos/67504255@N00/171567464/
O mais fascionante foi a forma ardilosa e pouco séria como os maus autonomistas usaram o separatismo para implementar um regime esdruxulo e frouxo que, apenas sobreviveu à custa de muito dinheiro derramado. “Tinta e cimento na ão de alguns autarcas é pior que droga na mão de traficantes”.
O meu amigo Nuno terá razão quanto à foto. E, a respeito dos maus autonomistas, pelo menos no essencial também. É preciso não esquecer que a FLA foi o papão que os primeiros governos autonómicos atiraram sempre à cara do governo de Lisboa, quando queriam benesses. E nunca foi desmentido que Mota Amaral tenha sido o autor do programa da FLA.
Silveira,
Vê se percebes isto.
Em 1990, Novembro, os rapazes do parlamento da Comunidade em Bruxelas saiem-se com um comunicado, cujas primeiras linhas são as que mostro abaixo.
“A. having regard to the revelation by several European governments of the existence for 40 years of a clandestine parallel
intelligence and armed operations organization in several Member States of the Community,
B. whereas for over 40 years this organization has escaped all democratic controls and has been run by the secret services
of the states concerned in collaboration with NATO”.
Coitados deles que andavam cegos ou zarolhos. Em muitos outros lados na Internet explicam com mais pormenor o que eram essas organizações:
“Coordinated by the North Atlantic Treaty Organization (NATO), {the secret armies} were run by the European military secret
services in close cooperation with the US Central Intelligence Agency (CIA) and the British foreign secret service Secret
Intelligence Service (SIS, also MI6). Trained together with US Green Berets and British Special Air Service (SAS),
these clandestine NATO soldiers, armed with underground arms-caches, prepared against a potential Soviet invasion
and occupation of Western Europe, as well as the coming to power of communist parties. The clandestine international network
covered the European NATO membership, including Belgium, Denmark, France, Germany, Greece, Italy, Luxemburg, Netherlands,
Norway, Portugal, Spain, and Turkey, as well as the neutral European countries of Austria, Finland, Ireland, Sweden and Switzerland.
The existence of these clandestine NATO armies remained a closely guarded secret throughout the Cold War until 1990, when the
first branch of the international network was discovered in Italy. It was code-named Gladio, the Latin word for a short
double-edged sword. While the press claimed the NATO secret armies were ‘the best-kept, and most damaging, political-military
secret since World War II’, the Italian government, amidst sharp public criticism, promised to close down the secret army.
Italy insisted identical clandestine armies had also existed in all other countries of Western Europe. This allegation
proved correct and subsequent research found that in Belgium, the secret NATO army was code-named SDRA8, in Denmark Absalon,
in Germany TD BJD, in Ireland TACA NA hÉIREANN, in Greece LOK, in Luxemburg Stay-Behind, in the Netherlands I&O, in Norway ROC,
in Portugal Aginter, in Switzerland P26, in Turkey Counter-Guerrilla, In Sweden AGAG (Aktions Gruppen Arla Gryning, and in
Austria OWSGV. However, the code names of the secret armies in France, Finland and Spain remain unknown”.
Quando meteste aqui o teu comentário, pelo menos eu fiquei com a impressão que só o Salazar é que era mesmo mauzão, além dos Italianos, bem entendido, por permitir que organizações dessas actuassem criminosamente a partir da nossa santa terra. Mas, afinal, estamos vendo, a Aginter não era mais nem menos “famosa” que o resto das paralelas noutros paises não “fascistas” e excelentemente democratas. Não achas?.
Outra coisa que também desperta a atenção é a fama propagandeada noutros lados na Internet, segundo a qual a Aginter teria sido a responsável pela eliminação física de gente política famosa como o General Humberto Delgado, Robert Mondlane e Amílcar Cabral. Eu acredito nisso tanto como na ida do Neil Armstrong à Lua ou que os americanos se meteram nessa do Iraque por causa do petróleo. Pelo seguinte: se o objectivo dessas organizações “fascistas” é evitar que o comunismo se instale como poder nos seus e noutros paises, porque razão as Aginters deste mundo não se entretêm a matar chefes de Partidos Comunistas em vez de andarerm a matar gente como a que citei acima e inocentes em estações de caminho de ferro e em praças públicas? E que estranha situação esta de vermos organizações deste calibre ideológico a serem treinadas por serviços secretos de nações democratas.
Era um pouco desta estranheza, que considero natural e de esperar, que eu ficaria contente ter visto incluída no teu esclarecimento ao Daniel e aqui aos meninos, a bem da verdade - já que não te veio à mente falar do pormenor interessante que foi o envolvimento da super-chafarica P-2 com os gladiadores.
Mas mesmo que não quizesses ter-te dado a esse trabalho, ainda havia outra possibilidade que era a de mudares de conversa e começares a falar da Sida em África, aproveitando a citação do Daniel. Talvez tivesses esbarrado com algum par de luvas que o Carlucci deixou esquecidas quando por lá andou a examinar o cu dos macacos procurando uma “explicação” para as origens da “doença”. Agora vires com essa da coitadita Legião Portuguesa para animares o serão, só vens é tirar a vontade de deslindarmos os segredos das coisas extremamente complicadas. O que não é nem bonito, nem esclarecedor, nem entretem ninguém minimamente exigente.
Sertório, ficaste com impressão errada, pois eu também sabia e toda a gente sabe da rede de “stay behinds” que nos vens agora revelar com grande carinho e magnanimidade, “rede” de cujas histórias a world wide web está cheia há muitos anos. Não temos é exactamente a mesma visão sobre o assunto. Nem sobre esse nem sobre vários outros que afloras no teu comentário. Folgo saber que não acreditas na ida do Neil Armstrong à Lua. Isso explica muita coisa a respeito do que tu acreditas e não acreditas. Para rematar, as ligações da Aginter Press à Legião Portuguesa e à PIDE (não falo de outras ligações porque não vêm ao caso) estão documentadas desde Abril de 1974, quando foi apanhado o arquivo da organização no nº 13 da Rua das Praças, em Lisboa.
Se eu vier a arranjar tempo e paciência, resumirei o que escreveu o Medeiros Ferreira no livro já citado, bem como Onésimoo Almeida e Vamberto Freitas, em artigos sobre o assunto. Ainda hoje, por coincidência, falei com o Onésimo e depois com outro amigo comum (que nesse tempo foi quase inimigo do Onésimo), ambos a viver nos EUA. Este segundo é um dos muitos arrependidos da FLA, que me confirnou ter sido Mota Amaral, nos EUA, quem escreveu os princípios programáticos da FLA. Quanto ao “governo” no exílio não passou de uma fantochada, sem nomes divulgados, embora um, além do José de Almeida, seja mais ou menos tido como tal.
A FLA perdeu parte do apoio da classe rica que a apoiava quando se soube que queria comprar armas, e nunca foi da simpatia do povo, além de outras razões, por causa das bombas, coisa a que por cá ninguém estava habituado.
Num comício do Mário Soares no Coliseu Micaelense, em que estive presente, foi posta uma bomba no poste de electricidade que servia auqela casa de espectáculos, apagando-se a luz e continuando o comício por momentos mesmo sem luz. O próprio que pôs a pequena bomba confessou-me a autoria anos mais tarde.
Em entrevista há alguns anos já não me lembro em que revista ou jornal, João Gago da Câmara, que viria a ser presidente da Câmara de Ponta Delgada, disse que, se voltasse atrás, poria ou mandaria pôr bombas tal como fez então. Este é dos não convertidos, embora mais para fazer figura do que por convicção.
Daniel de Sá,
Fui um dos comentaristas que veio aqui defendê-lo dos enxovalhos, mais do que injuriosos, de que foi vítima no Aspirina B. Foi a maior vergonha infligida a um colaborador efectivo de um blog. Por isso, fiquei desagradavelmente surpreendido ao lê-lo aqui a comentar – ainda os torpes comentários que o atingiam continuavam. Mas o que mais me espantou, foi vê-lo agora em posts! Acho, sinceramente, que perdi o meu tempo. Não devia tê-lo defendido. Você não o mereceu. Pelo contrário; acaba por fazer a triste figura de uma pessoa que julguei que não fosse: a de alguém que se vende a preço de saldo, sem dignidade, sem orgulho, sem vergonha. Não vou perder mais tempo consigo.
Releia os comentários a seu favor relativos ao triste episódio do “epitáfio”. Eu estou a seu lado. Defendi o poema e a pessoa. Enganei-me. Fica a vergonha que os Açorianos devem sentir por quem não teve a sensatez de se lembrar que foi defendido por alguns deles.
Não é com posts sobre factos políticos e acções “heróicas” e temerárias, com encontros ao mais alto nível e secretos ou interacções que foram fundamentais que limpa a sua imagem de “retornado”. Não espere daí elogios. O (giro-flé-giro-) FLA, não vai ajudá-lo em nada. A não ser que você precisa de um palco para exibir a sua vaidade, não o seu talento. Não voltarei a ler os seus escritos. Foi pena que os comentários que o enxovalharam fossem, afinal, tão poucos.
“Um militar amigo de meu sogro e meu chamou-nos uma noite para uma conversa confidencial. Fomos no seu carro para um sítio isolado, e ele falou-nos, muito apreensivo, de algo perigoso…”, escreve Daniel de Sá. Qualquer dia, por este relato minucioso, vamos ter no Aspirina novo “epitáfio”…
Meu Caro F. C.
Espero que ao menos leia este comentário. Eu estava decidido mesmo a não voltar a escrever aqui. Mas aconteceu que o Fernando Venâncio se humilhou, se sujeitou a tudo até ao escárnio de alguns companheiros do blog, pedindo-me que voltasse. E, entre o desprezo (que chegou mesmo a ser raiva, contra os que me agrediram) e a amizade, pensei que não era correcto desprezar a amizade. Confesso que o meu entusiasmo não é o que foi no início, e foi o facto de alguém me ter desafiado a falar da FLA (dando a impressão de que essa pessoa pensava que tudo não passava da patranhas), aliado ao facto de eu julgar que a amizade deve ser superior até aos ódios de estimação, que escrevi estas memórias, de que nunca falara em público.
E nem imagina quanto lhe estou grato, como a outros, pela defesa que fez de mim.
Um abraço reconhecido.
Daniel
Mental note: ir aos Açores logo que possível. Ou ainda antes.
Depois da porrada que levou e a que, pelos vistos, não estava habituado na net, acho revelador de bom carácter e valentia voltar aqui, expor-se e conversar despretenciosamente e sem rancor, como está a fazer. Não espere nunca leitores acríticos, muito menos aqui.
F.C. quer falar em nome dos Açorianos e dizer-lhes o que eles devem sentir, mas ele é apenas um mau carácter, alguém que lhe dá apoio num momento, para depois jogar com a retirada dele no momento seguinte. Com defensores desses, o Daniel não precisa de inimigos.
O anterior comentário era dirigido ao Daniel.
o fernando «humilhou-se, sujeitou-se ao escárnio de alguns companheiros de blog»?! não me parece legítimo, daniel, dizer tal coisa. como se algum companheiro de blog alguma vez se lembrasse de escarnecer do fernando! não, que ele não se põe a jeito.
Susana,
Pôr-me a jeito de levar? Porem-se vocês a jeito de levar? Mas nós não fazemos aqui outra coisa.
Daniel,
Não te preocupe qualquer «F.C.» que por aqui passa. Menos ainda vás desistir por… isso.
Nunca cedas à desprezível chantagem de quem não der a cara. Que digo eu, nunca cedas a chantagem nenhuma.
fernando, sim. todos nos pomos a jeito de levar. mas não era isso, pois não? era o escárnio, a humilhação. para mim dificilmente compatíveis com o respeito. achas que é verdade que algum parceiro de blog escarneceu de ti? não acredito.