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Longe da Dinamarca

Em matéria de escândalos, o maior de 2017 (até agora, mas ainda há tempo para superar a marca) na categoria imprensa é o da publicação de excertos de um suposto relatório de um suposto serviço de informação militar pelo Expresso. Tudo no episódio tresanda a golpada política, uma repetição da “Inventona de Belém” no que ao intento de ataque político e promoção de alarme público diz respeito. Primeiro, não compete a qualquer serviço de informação, militar ou civil, estar a coligir e tratar opiniões estritamente políticas e de natureza subjectiva. Segundo, mesmo que elas sejam inclusas nalgum relatório, serão sempre como apêndice de contexto e sujeitas ao sigilo institucional que justificará a sua recolha. Terceiro, a decisão de fazer chegar a jornalistas um relatório secreto que vai ser explorado sensacionalmente como arma de arremesso contra o ministro da Defesa configura um crime. Se não for crime já com moldura penal aplicável, de certeza que ficaremos a precisar de uma. Porque quem tal fez expôs material relativo à segurança nacional a quem não tinha autorização para o consultar, pode-se até esquecer o uso que depois foi feito do mesmo embora seja uma agravante.

As explicações dadas pelos responsáveis do Expresso ficam como um monumento à desonestidade intelectual, expõem impante aversão ao código deontológico da profissão. Agarraram-se à prova de terem na sua posse 63 páginas escritas por alguém, e que nelas estavam realmente as passagens que resolveram publicar e destacar. Assumiram a postura mental de uma criança de 7 anos que foi apanhada a meter as mãos no bolo de aniversário às escondidas antes da festa e que depois se desculpa repetindo que o bolo estava ali em cima da mesa, pelo que a culpa era de quem o lá tinha deixado. Mas nada quiserem assumir em resultado de todos os serviços de informação militar terem declarado oficialmente não terem produzido essa resma de folhas. Ou seja, perante a resposta estatal ao mais alto nível que colocava esse documento, no máximo, como uma peça cujo âmbito e resultados não tinham sequer entrado nas operações formais dos serviços secretos militares, e ainda menos tinha chegado aos órgãos institucionais servidos pelas secretas, os responsáveis por uma escabrosa e indigna notícia falsa optaram pela absoluta irresponsabilidade.

A coisa tem relação com outra coisa, chamada “Operação Zeus”. O que nela surge gravado na acusação, mas com provas que parecem indiscutíveis, será, por sua vez, o maior escândalo nas Forças Armadas até onde a minha memória alcança. Um escândalo em que os valores pecuniários envolvidos são a parte que menos gravidade tem. É o esquema, a sua extensão e a sua duração que mais importa legal, cívica e, acima de tudo, politicamente. Porque quando se põe como hipótese, nascida de testemunhos, que esse tipo de corrupção possa ocorrer há pelo menos 30 anos, e quando se olha para as patentes dos arguidos, então é perfeitamente legítima a suspeita de estarmos, apesar do choque, apenas a olhar para a ponta do icebergue. Isto também se liga, fundamentalmente, com a nossa imprensa (ou falta dela).

No caso do desaparecimento das armas em Tancos houve logo ao começo um aspecto que sobressaiu, tendo ficado ocultado no fluxo noticioso e opinativo seguinte – o da tensão, e mesmo conflito, entre as judiciárias militar e civil. Essa disfunção, posto que era suposto termos os dois corpos policiais a colaborarem exemplarmente, rebentou num novo escândalo, igualmente de imediato abafado, aquando da recuperação do material na Chamusca; onde a Polícia Judiciária Militar esteve no local durante um tempo indeterminado antes de ter chamado a PJ. Que se está a passar? Por mais jornalistas e jornaleiros que consultemos de nada de nada ficaremos a saber. O caudal noticioso e opinativo produzido tem sido um exercício clássico de baixa política e assassinato de carácter. Nesta autêntica campanha pela demissão de Azeredo Lopes, liderada pelo Expresso e pelo DN, a figura de Marcelo tem sido instrumental. Embora as suas declarações sobre o caso de Tancos sejam, literalmente, de um rigor institucional sem mácula – posto que se limita a dizer que se tem de investigar, e só depois apurar responsabilidades judiciais e políticas – elas são invariavelmente apresentadas como se fossem uma forma de crítica e pressão sobre o ministro da Defesa. Como se competisse ao Governo fazer o trabalho das polícias, é o que a imprensa portuguesa tem vendido desde que se tornou público o desaparecimento do armamento. Marcelo poderia pôr na ordem a comunicação social, mas também aqui está a fazer uma gestão política cuja lógica é similar à dos jornalistas: aproveitar os casos que apareçam para avançar com a sua agenda. Mas qual é a agenda dos jornalistas que fizeram uma jura para abater o Azeredo, antigo par com quem talvez tenham contas a acertar ou a quem não suportam o estilo por ser demasiado independente da pressão mediática para o que estão habituados?

A resposta, qualquer que ela seja, está ligada com esta evidência: nunca ninguém leu no Expresso, no DN, ou viu na SIC, ou ouviu na TSF, ou noutro órgão à escolha, uma reportagem, uma mísera notícia, que permitisse começar a desvendar o que se passa nas Forças Armadas; lá onde a corrupção, como se deixa indiciado pela “Operação Zeus”, criou um verdadeiro Estado militar. Em contrapartida, Azeredo Lopes tem mostrado conseguir enfrentar as pressões castrenses sem vacilar no respeito pelo interesse público e pela Lei, como se viu no caso do Colégio Militar. Quando vemos jornalistas a aceitar e publicar documentos apócrifos com ataques políticos canalhas, ou quando vemos jornalistas a perverterem declarações numa entrevista para criarem desgaste político e o abate de um governante, a única conclusão é a de que algo cheira a podre. E essa podridão está muito longe da Dinamarca.

Observando o Pedro Marques Lopes

Sou fã do Pedro, por isso segue um responso pelas palavras acima exibidas. Palavras que colocam a seguinte interrogação: como é possível, ó pá?

Como é possível carimbares de “referência” esse canal de um radicalismo ideológico serôdio que já nem na Soeiro Pereira Gomes se pratica?

Como é possível considerares de “referência” um canal de redistribuição do Correio da Manhã e de qualquer outro órgão da indústria da calúnia?

Como é possível dizeres que o “jornalismo” do Observador é “equilibrado” quando tanto nas opções editoriais como no corpo dos textos “noticiosos” o viés fanático e persecutório é ostensivo?

Não dou qualquer atenção ao assunto do financiamento do Observador, pouco me importando quem está a pagar as contas. A sua existência como órgão de comunicação é algo positivo, enchendo os bolsos de uns quantos com mais ou menos dinheiro e dando à direita decadente mais um espaço onde se pode rever e procurar alimento. Igualmente me deixa sonolento a questão da violência retórica praticada tanto nos textos de opinião como na cultura narrativa noticiosa. É lá com eles, que se fodam juntos. A quem dou valor é ao Pedro Marques Lopes, porque ele é um exemplo de como é possível usar um palco mediático para tornar mais salubre o espaço público. Este homem, em 2011 (foi ontem), votou em Cavaco, primeiro, e em Passos, pouco depois. Votou neles, fez campanha por eles, apesar de saber o que Cavaco tinha feito na “Inventona de Belém” e o que Passos fez a Portugal com o chumbo do PEC IV. O voto tem razões que a razão desconhece, é sabido. Mas depois, e rapidamente, conseguiu resgatar a sua lucidez e passou a dar nomes aos bois. Isso deixa-o como alguém que coloca a sua integridade intelectual e moral acima dos tribalismos. Virou socialista, comuna ou socrático? Só para os imbecis e os pulhas, para os restantes é uma voz que engrandeceu a sua autoridade. E é esse, exactamente, o busílis nesta opinião acerca do Observador, na qual volta a exibir a mesma cegueira afectiva que lhe manchou o currículo eleitoral em 2011.

Pedro, se fizeres uma busca por “Tecnoforma” nessa coisa onde dizes encontrar “jornalismo equilibrado e de referência”, o único resultado recente é relativo a uma declaração de Ana Gomes. Como é possível, ó pá?

Devíamos ir todos para o Panteão

Gostava de jantar no Panteão, esse monumento completamente desprezado na cultura e sociedade do rectângulo peninsular até há dias. Ou almoçar. Lanchar. Qualquer coisa menos tomar o pequeno-almoço, por causa do horário antipático. Fascinam-me espaços com um pé-direito de arrebimbomalho. Há nesse efeito arquitectónico uma estética do sagrado, ou uma consagração da estética, que provoca uma alteração de consciência, uma expansão da sensibilidade e da intuição. Para além desta experiência meramente subjectiva, encontro várias razões objectivas para defender o uso do Panteão, entre outros monumentos, para iniciativas festivas particulares. No caso dos jantares, essa é até uma supina homenagem dada a intimidade e o estatuto de uma refeição com aparato solene. Ir comer ao Panteão é tranquilamente uma das mais poderosas e populares formas de celebrar o seu simbolismo e a sua função cívica. Comemos de preferência onde e com quem nos sentimos melhor, esta é a lei universal. Se for perto de mortos, é porque esse mortos estão a fazer parte da nossa comunidade – e não é outra a intenção de se construir e manter algo como um Panteão. Isto liga-se com outro efeito objectivo, o da promoção do monumento, do seu legado histórico e cultural, da cidade de Lisboa e, por fim, de Portugal, que a realização de eventos particulares gera espontaneamente. Pelo que o único ponto a merecer alguma e distraída discussão é o preçário. Duas posições, antagónicas, aparecem legítimas: a daqueles que gostariam que se pedisse muito mais, de forma a ir ao encontro da especial qualidade do espaço, e a daqueles (grupo de que serei eventualmente o único representante) que aceitariam que se pedisse ainda menos, de forma a democratizar o acesso e permitir a mais pessoas desfrutarem do que ficaria como uma maravilhosa recordação: estar a despachar um cherne grelhado e a virar garrafas de vinho num cenário operático com aquela grandeza. Quem diz cherne grelhado diz bacalhau com broa ou bochechas de porco, não quero ferir susceptibilidades.

O que há de interessante nesta polémica esgota-se na figura de António Costa. O primeiro-ministro dos “nervos de aço” correu em ceroulas para o meio da rua a berrar que o último aluguer do Panteão para uma comezaina era uma cena “absolutamente indigna”. Rapidamente ficámos a saber da volumosa borrada que tinha despejado sobre a própria cabeça. Não só a lei que permitia as tais maiores indignidades tinha sido cumprida com absoluto rigor no episódio em que se alvoroçou como ficava no ar a ideia de não ser assim a modos que muito digno estar a reclamar contra algo que desde finais de 2015 já poderia ter alterado centenas de vezes. E a partir daqui só piorou, tendo de vir alegar desconhecimento do programa oficial do Websummit onde foi um dos principais participantes, e alegando desconhecer um jantar do Turismo de Lisboa realizado em 2013 no mesmo sítio e numa altura em que era Costa o principal responsável pela Câmara e pelo próprio Turismo de Lisboa. Isto para não falar nas restantes nove ocasiões anteriores em que os jantares e eventos particulares no Panteão se fizeram para gáudio dos presentes e absoluta indiferença dos ausentes – governantes, políticos e comentadores que apareceram agora aos gritos.

As reacções do PCP e BE são inanes, não merecem o gasto das calorias a falar delas. As reacções do PSD e CDS são desinteressantes, pois limitam-se a serem coerentes com a decadência onde medram. Essas são as mesmas pessoas que demoliram dois monumentos feitos de tempo, os feriados onde adoramos no calendário a instauração da República e a reconquista da Independência. Fizeram-no como instrumento de violência ideológica. Fizeram-no para mostrarem aos estrangeiros do Norte da Europa que estavam dispostos a tudo para castigar os madraços e estróinas do Sul que na sua existência secular de miseráveis e pobretanas tinham vivido “acima das suas possibilidades”. Fizeram-no a salivar de fúria e gozo. Apenas na figura de António Costa é que topamos com algo interessante. Na dele e na do seu Governo e do seu partido. Que significa este destrambelhamento, esta estupidez política?

Significa que Costa pode ser o que de melhor havia para acontecer na política nacional, como o acordo com a esquerda do PS e os resultados económicos e sociais comprovam, mas que, concomitantemente, ele é um líder com inconsistências estruturais. O espanto, talvez fingido, de alguns comentadores por a sua propalada experiência e habilidade política não o proteger de casos tão facilmente evitáveis, e outros onde se deixou cair sem qualquer laivo de inteligência ou sequer esforço para os evitar, só é possível para quem não quis ver o processo de conquista do PS a Seguro em 2014. Está lá tudo, e esse tudo é a imagem de alguém que daria sempre o melhor dos tenentes, mas que tropeça sob o peso da patente de general.

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Boys could benefit from greater numbers of girls in schools
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Love actually: Americans agree on what makes people ‘feel the love’
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Archaeologists unearth ‘masterpiece’ sealstone in Greek tomb
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Why do we believe in gods? Religious belief ‘not linked to intuition or rational thinking’
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Are Politicians Smarter Than CEOs?
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How to Be Cool
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O que querem os homens?

Num ano sem eleições presidenciais na fabulosa e hollywoodesca América, a October surprise foi protagonizada pelas mulheres que denunciaram a conduta sexual de Harvey Weinstein. O próprio reconheceu a veracidade dos relatos, iniciando-se com a queda desse gigante da indústria cinematográfica uma avalanche de casos similares envolvendo outras figuras dos meandros do espectáculo. Corrente que não se sabe quando nem onde irá parar. Aliás, a dimensão do fenómeno é tal que a perspectiva de se descobrirem “oficialmente” os “podres” da maioria das estrelas consagradas seja qual for a sua área de actividade profissional, obrigando ao seu ostracismo e ao apagamento da sua memória, já não surge como um cenário de desvairada ficção à luz do que se está a fazer com Weinstein e Kevin Spacey.

Estamos a assistir a um momento de mudança de paradigma? Foda-se, claro que sim. Basta analisar o caso inicial, o qual era do conhecimento generalizado do meio durante décadas e que só foi denunciado no final de 2017 – apesar de tantas mulheres, e tão poderosas no seu estatuto e recursos financeiros, terem sido vítimas ou saberem dos abusos. Apenas uma coerção social tácita, nascida de um calculismo dominante, explica o prolongamento e extensão dos actos de alguém tão exposto pela sua notoriedade e descontrolo. Portanto, independentemente do imprevisível desfecho judicial e das voláteis convulsões morais, a dimensão social parece suficientemente alterada para levar a uma mudança cultural.

Seguir-se-á uma nova era, sendo que por agora a sexualidade masculina é o novíssimo continente desconhecido. Como se pode constatar neste artigo – Why men use masturbation to harass women – os especialistas consultados não fazem sequer a mínima ideia do que poderá estar a gerar comportamentos como os atribuídos ao hilariante Louis C. K. Porém, a resposta encontra-se à vista dos curiosos, basta assistir aos seus números em palco para tropeçar em conteúdos retintamente pessoais. E pode-se logo agarrar numa primeira questão: será possível separar a qualidade do seu humor, a eficácia dos seus quadros teatrais, do drama em gente onde o material criativo é arrancado da sua privacidade? Teremos de inverter a vexata questio freudiana, “O que querem as mulheres?”, e darmos atenção a estoutra, potencialmente ainda mais enigmática, “O que querem, afinal, os homens famosos e poderosos que batem pívias à frente do mulherio?”

Todos os homens são sexualmente predadores. Se não o forem, algo de errado se estará a passar. Não há moral nesta realidade, apenas biologia. Uma mulher não poderá jamais saber em que consiste esse estado – ou seja, a mulher não sabe o que é ter “tesão” – tal como um homem não poderá jamais saber o que seja ter o período ou estar grávido. Assim, as mulheres não compreendem o desejo masculino, embora se adaptem com maior ou menor facilidade a ele. Igualmente, os homens não entendem o desejo feminino, e, acima e antes de tudo, não concebem que a mulher possa ter uma radicalmente diferente motivação e dinâmica sexual. Era aqui que o tio Freud patinava, projectando na fêmea o seu masculino e, portanto, redutor e erróneo entendimento do que seja a experiência feminina. Este estado predatório nos homens não é uma escolha, antes uma condição que a biologia e a cultura têm ambas reforçado. O falocentrismo que origina nasce tanto da exterioridade anatómica do pénis como da procura das recompensas químicas geradas nos cérebros masculinos com a fácil ejaculação e, por fim, cristaliza-se numa celebração simbólica inserida numa “luta de géneros” muito parecida com uma luta de classes.

Há uma história imensa por contar. É a história do homem como sexo fraco. E ridículo. Por isso, violento. Por isso, violentador por exigência mecânica. E tão periclitante e efémero na sua erecção sempre triunfal. Que seria deste mundo se as mulheres contassem tudo o que sabem desses seres a quem suportam a fragilidade logo na família, tantas vezes, e ao longo de toda a vida, invariavelmente? Elas ainda não estão capazes de contar o que testemunham directa e indirectamente. Na família, nos amigos, nas festas, no emprego, nas férias, nos consultórios, nas saídas, nas conversas, nos quartos. Mas tinha de se começar por algum lado. Começou-se por um celebérrimo ogre. Só que esse, paradoxalmente, era um alvo fácil. Venham os mais difíceis, os ogres que as mulheres amam. Os ogres que as mulheres perdoam. Os ogres que as mulheres protegem.

Há jornalistas mas não temos imprensa em Portugal

Depois da leitura deste texto – Sócrates: quem ficou refém de quem – do episodicamente interessante João Pedro Henriques, gostava que o autor arranjasse uns minutos para responder às seguintes perguntas:

– Qual é o problema de se ter acrescentado no contrato a norma relativa aos 149 milhões de euros? Essa inclusão foi ilegal? Tem a certeza de que o consórcio ELOS não gastou dinheiro, nesse valor ou aproximado ou superior, em preparação da obra numa fase prévia ao do visto do Tribunal de Contas?

– Admitindo que JPH é um jornalista conhecedor dos processos relativos a essa adjudicação, estará em condições de explicar qual a relação de algum membro do Governo de então, e para essa decisão específica, com esse júri na berlinda? Se está, porque não incluiu no seu texto essa causalidade? Se não está, como se atreve a estabelecer um nexo difamatório e calunioso?

– Supondo que JPH é um jornalista na posse de todas as suas faculdades mentais e direitos inerentes à sua carteira profissional, que explicação dá para não se ter constituído arguido no “Processo Marquês” qualquer outro elemento do Executivo de Sócrates nem qualquer outro elemento do júri a quem atribui a entrega de 149 milhões de euros a entidades que os meteram ao bolso “sem construir um centímetro de linha”? Não tendo, não achará necessário ir à procura dessa explicação recorrendo à sua autoridade profissional e demais recursos da empresa onde trabalha? Ou também partilha da convicção de que Sócrates, talvez por telepatia ou artes mágicas, levou o júri a dar essa montanha de dinheiro aos bandidos?

– Crendo que JPH é não só um jornalista maturo e reputado (escreve num órgão da chamada “imprensa de referência”) como também um cidadão decente e preocupado com a qualidade da Justiça, donde lhe vem a baixeza de estar a falar em modo justiceiro de taberna sobre factos colados com cuspo e que não fazem qualquer sentido assim que se dissipa a fumarada da pulsão linchadora? Ou, então, que sentido achará que faz opinar sobre suspeitas de corrupção que atingem tantas empresas e indivíduos sem ter prova de coisa alguma mas feliz da vida por ter ocasião de teclar a sua impotência e paranóia?

Estes textos de “opinião”, de jornalistas com décadas de profissão e ocupando lugares de grande destaque mediático, onde se repete o discurso taxista do “andam todos a roubar”, não se limitam a espelhar o mundo subjectivo dos seus autores. São igualmente, por inerência sociológica, o retrato de uma classe mediaticamente inútil e civicamente tóxica – salvo honrosas excepções.

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It’s mathematically impossible to beat aging, scientists say
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Do animals think rationally?
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Horses can read our body language even when they don’t know us
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Oscar da hipocrisia para a Netflix

Será que a Netflix não vê as próprias séries que encomenda? Acaso Kevin Spacey não andou desde o primeiro episódio de House of Cards a exibir em frente às câmaras o monstro de perfídia que é, onde se inclui a oculta paneleiragem e um extenso rol de crimes ao longo de 6 temporadas? Porquê só agora a reacção?

A moca de pregos do Chico Mota

Francisco Teixeira da Mota teve recentemente ocasião de publicar o seu entusiasmo pela existência de uma acusação contra Sócrates, a qual antecipa ir gerar condenações porque os “circuitos do dinheiro” chegam e sobram para engaiolar a bandidagem, é limpinho. Logo de seguida, expôs o seu êxtase resultante do excelente trabalho que o Correio da Manhã fez na recolha dos sinais exteriores da corrupção socrática, o qual carimba como jornalismo exemplar. Hoje, junta-se ao coro dos que pretendem que os juízes portugueses se dêem ao respeito e ponham na ordem Neto de Moura, um juiz cujos fundamentos para atenuar uma pena por violência sobre uma mulher causaram justo escândalo – a decisão e os fundamentos.

Que têm estes três artigos em comum? A temática das decisões judiciais e dos direitos dos arguidos e das vítimas de crime, para começar. E o Chico Mota e o jornal Público, para acabar ou recomeçar. Ficamos a saber que há juízes que não podem mijar fora do penico calhando a matéria envolver mulheres como vítimas de homens. Algo que não oferece dificuldade de maior para perceber e aceitar. Todavia, se um juiz apanhar certos arguidos envolvidos em suspeitas de corrupção, então não só pode fazer o que lhe der na gana como até deverá facilitar práticas criminosas que facilitem a condenação na opinião pública do arguido, haja ou não haja condenação em tribunal. O Chico não identifica qual seja a origem na sua pessoa da vigência do duplo critério, mas desconfio que não valha o gasto de calorias para dela tomar conhecimento.

O seu caso é apenas um de uma enorme maioria na imprensa dita de referência. Em colunas e espaços de opinião, de forma festiva, e nas linhas editoriais, de forma tácita, celebra-se o triunfo da imediata condenação de Sócrates num auto-de-fé jubilatório. Os abusos e crimes da Justiça, de que Sócrates é factual vítima, são silenciados, ou justificados ou aplaudidos. E até o espectáculo de vermos um juiz de instrução a dar uma entrevista onde goza com um arguido, sobre o qual tinha já tomado decisões judicias e outras mais teria de tomar, foi desfrutado com prazer infinito pela turba do linchamento. Carlos Alexandre, na entrevista à SIC, esforçou-se – ao ponto de repetir as alusões – em publicitar a sua convicção da culpabilidade de um cidadão na altura sem sequer ter acusação formada. Pelos vistos, e tal como os seus pares e demais decisores deliberaram, tal não chegou para pôr em causa as suas condições para ser “imparcial”, para “fazer justiça”. Uma justiça, portanto, feita pelas próprias mãos. Umas mãos isentas, limpas, probas, nascidas para apanhar a malandragem dos políticos e ricalhaços corruptos, como teve demorados minutos a explicar com detalhe biográfico ao povo.

A violência do Chico Mota ao usar o seu palco na comunicação social, e o seu estatuto de jurista, para se substituir à Justiça não é menor do que aquela que marido e amante exerceram com uma moca de pregos sobre uma mulher a partir da entusiasmada e extasiante convicção de culpabilidade desses dois valentes.

Imposto Passos Coelho

Desde o início de 2013 que os jogos sociais são taxados com um imposto de selo de 20% quando os montantes a distribuir forem iguais ou superiores a 5000 euros. Na altura, esta medida foi justificada com o estado de extrema carência em que as finanças públicas se encontravam. Era preciso ir ao bolso de todos, inclusive daqueles que já contribuíam para o Estado e, principalmente, para a Misericórdia ao comprarem o jogo na esperança de receberem as migalhas redistribuídas. Este saque pode não ter qualquer importância política, no sentido de nenhum partido se ter lembrado ainda de prometer acabar com ele, nem social, podendo não gerar sequer conversas de protesto. Todavia, a sua criação e a sua manutenção revelam algo acerca dos abusos do Estado, da incúria dos políticos e da passividade dos cidadãos.

Apesar de termos visto a Troika a bazar envolta em perfume de santidade, e de termos um novo Governo que prometeu e cumpriu inverter a lógica predadora da austeridade, esta aberração tem ficado. Provavelmente (mas corrijam-me se estiver enganado), o próximo Orçamento não irá dar-lhe o chuto que merece. Se for o caso, e se a ideia for a de manter o estúpido e mesquinho abuso para sempre, proponho que se passe a identificá-la como o “Imposto Passos Coelho”.

Seria uma bonita homenagem ao seu principal responsável e um justo monumento de evocação a esse tempo onde valeu tudo para castigar os piegas.

Marcelo imitador de Cavaco

Marcelo, nos sermões dominicais e ao longo de anos, foi repetindo com exuberante gozo que Sócrates nada podia contra Cavaco porque um primeiro-ministro está condenado a perder quando ataca o Presidente da República. E assim foi, tendo Cavaco sido reeleito apesar de ter lançado, explorado e defendido uma golpada mediática a partir da Casa Civil para tentar influenciar as eleições legislativas de 2009. Não há registo de que Marcelo tenha criticado Cavaco nesse episódio, nem aí nem nas restantes ocasiões em que desse vergonhoso Presidente da República veio um concertado esforço para fragilizar o Governo e o PS, favorecendo às escâncaras o PSD de Ferreira Leite, primeiro, e o de Passos, por fim, num processo que afundou Portugal no resgate em 2011 e em 4 anos de uma violenta e eleitoralmente ilegítima tentativa de reengenharia social a coberto da Troika. A visão de Marcelo sobre Cavaco foi tecnicamente maquiavélica, vendo na sua acção aquilo que devia ser feito precisamente porque a sua posição na hierarquia do Estado lhe dava impunidade para tal. A Constituição, a moral republicana e o respeito institucional? Balelas para agitar em frente ao Zé Povinho, ensinava Marcelo com o seu riso sardónico. O príncipe que tente ser bonzinho, e jogue ao poder respeitando as regras a que os ingénuos dão valor, será cuspido pela janela do palácio enquanto o Diabo esfrega a pestana.

O que Cavaco fez a Sócrates foi não só muito diferente como de outra ordem por comparação com o que Soares fez a Cavaco. Soares Presidente fez oposição a Cavaco primeiro-ministro também às claras, só que mantendo a dignidade do cargo, sendo decente na luta política e não tendo violado a Constituição. Por aí, a arquitectura do regime funcionou perfeitamente num sistema que permite ao Chefe de Estado reequilibrar a representatividade política calhando o Chefe de Governo estar a ultrapassar certos limites sociológicos. A “Presidência Aberta” de Soares consistiu na utilização do seu capital divulgador para introduzir no espaço público e na arena política uma realidade social que estava escondida pela maioria parlamentar e pelo Executivo laranja. Nesse sentido, foi um confronto leal e de acordo com o interesse da comunidade. Já Cavaco Presidente optou pela via conspiracionista e golpista para liderar a oposição a Sócrates. A estratégia do “Falar verdade ao portugueses” e da “Política de Verdade”, um tandem entre Belém e o PSD de Ferreira Leite, alimentava-se e promovia as campanhas negras que tentavam assassinar o carácter de Sócrates e de qualquer outro dos seus próximos, fossem políticos ou familiares. Falhando esse plano, e apesar do golpismo judicial-mediático do processo “Face Oculta” e da “Inventona de Belém”, Cavaco ofereceu o poder a Passos logo depois de garantida a sua reeleição. Fê-lo escavacando o interesse nacional que o PEC IV salvaguardava e partindo para um mandato onde foi cúmplice activo dos abusos constitucionais e da fúria castigadora de Passos e Portas. Cavaco é recordista dos índices mais baixos de popularidade para um Presidente da República em democracia. Abandonou as funções consumido pelo rancor e mergulhado numa hipocrisia sem fundo conhecido.

Marcelo teve no seu primeiro ano e meio de mandato a supina oportunidade para se demarcar do legado do seu antecessor. Se bem o pensou, melhor o fez. O seu longo treino na televisão, onde ascendeu rapidamente ao estatuto de super-estrela pelos seus dotes comunicacionais e relevância do seu pensamento, aliado à sua personalidade extrovertida e calorosa, foram um contraste chocante face à imagem de ressabiamento e fixação anal espalhada por Cavaco. Para além das diferenças de estilo, as diferenças de sentido de Estado e visão política foram igual ou ainda mais chocantes, revelando-se intransigente na defesa do interesse nacional ao lado do Governo; para crescente desespero da actual direita decadente que apenas pretendia ter um líder sectário na Presidência. Choques positivos, construtivos, fontes de confiança nas instituições e de reconciliação com a classe política – e parte inerente do sucesso registado até agora na economia nacional e na mudança de paradigma no trato dos portugueses e dos serviços públicos que os servem. Símbolo trivial desta nova cultura política nascida da mudança de actores no topo do Estado, há 10 meses Marcelo elegeu o termo “descrispação” como palavra do ano. E daqui saltamos para o seu número de 17 de Outubro.

Hoje sabemos que Marcelo traiu o Governo e foi oportunista, cínico e manipulador como nunca antes tínhamos visto na política nacional dada a sofisticação e eficácia da sua performance tendo duas devastadoras tragédias a comporem o cenário. Transformou sem a menor hesitação os mortos em arma de arremesso político, exactamente como se fez no PSD, CDS e comunicação social desde Pedrógão. Todos os que o aplaudiram, vendo nas suas palavras o exercício da função presidencial elevada ao mais brilhante sentido de missão unificadora, têm agora de questionar o seu próprio discernimento. Porque aquele ataque ao Governo, ao primeiro-ministro e à pessoa de Constança Urbano de Sousa não teve qualquer outra finalidade que não fosse a de encenar uma liturgia onde podia fazer as pazes com a direita e agregar a comoção nacional no culto da sua pessoa. Não era necessário para nada de útil que tivesse relação com os fogos e sua devastação, foi um ataque escolhido para maximizar as circunstâncias de fragilidade – ou tipologia – comunicacional de Costa. Situação agravada pela crispação que Marcelo se encarregou de alimentar pessoalmente ao começar a responder às notícias da demorada reacção defensiva do Governo e do PS, e dando carta branca para que a sua Casa Civil igualmente lançasse mais gasolina no fogaréu da crispação com declarações provocatórias e soberbas. E isto leva-nos de volta a Cavaco.

Marcelo continua convencido de que poderá desequilibrar o regime a sua favor, tanto pela configuração do mesmo como pela sua habilidade popular, mas igualmente poderá estar desatento em relação ao seguinte fenómeno: com Cavaco, a figura de Presidente da República ficou conspurcada e perdeu o prestígio que tivera antes do Aníbal ter ido para Belém perverter o combate político. A profundidade desta perda de autoridade, a qual não carecia de actores e seus espectáculos para existir (Eanes e Sampaio foram a antítese da política-espectáculo, e Soares era um animal político sem carência de artifícios), poderá reservar a Marcelo uma das maiores surpresas da sua vida política caso Costa e o PS tenham a coragem, e a inteligência, de levarem a luta política contra a direita para o mais inesperado dos terrenos. Esse mesmo onde Marcelo se imagina num castelo inexpugnável com o povo em romaria à espera do beijinho, do abracinho e da palavrinha.

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Stress, Reward & a Few Surprises Found in Poll of Those Who Take Care of Loved Ones with Dementia
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Perguntas simples

Quanta e quão fria racionalidade é necessário ter para conseguir explorar politicamente mortos, feridos e bens perdidos tragicamente – num dos mais sofisticados exercícios de manipulação emocional e afectiva que alguma vez vimos um Presidente da República a fazer?