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Jangada de fogo

Este artigo do DN – Clima do futuro pode trazer até mais 50 dias de calor extremo – contém informação relevante para compreender o fenómeno dos incêndios florestais em Portugal. No entanto, a sua mensagem é vaga e omissa nalgumas informações objectivas – nomeadamente, que a correlação entre as alterações climáticas e o aumento dos incêndios florestais na Península Ibérica está demonstrado para o período de 1981 a 2005, e que nos últimos 30 anos a média do aumento das temperaturas máximas na Europa foi de 0.95°C e na Península Ibérica de 2.5 °C, por exemplo. Ligada com as alterações climáticas em curso, igualmente se prevê a chegada de doenças tropicais transportadas por mosquitos. Conclusão: a Península Ibérica vai arder, pelo fogo e pela febre.

Ocasião para um projecto colectivo que unisse os dois Estados ibéricos na criação de um centro de investigação com recursos suficientes para ser uma referência mundial no campo das alterações climáticas e suas consequências. Para além do óbvio interesse na protecção de pessoas e bens, os resultados da investigação e respectiva inovação muito provavelmente gerariam ganhos económicos com escala global. Espanha e Portugal podem legitimamente ambicionar serem exportadores de tecnologias nascidas de um investimento científico comum, não carece de explicar porquê. Para facilitar a empreitada, caso os EUA resolvam mesmo sair do Acordo de Paris tal deixará alguns dos melhores cientistas e engenheiros americanos, ou a trabalhar nos EUA, disponíveis para mudarem de poiso. Seria algo para agradecermos penhorados ao bronco do Trump, pese a desgraça subjacente à decisão de afastar a América da vanguarda dos estudos climatológicos.

A necessidade de lidar com transformações na ecologia do Planeta traz riscos de uma complexidade que a Humanidade não enfrentou antes – embora tenha enfrentado piores – pois o erro é inerente à condição humana (tal como vemos nos outros e em nós, sempre, sempre e sempre). Porém, esta obrigação de enfrentar as mudanças que não conhecem fronteiras, nem sabemos o que poderão causar nos ciclos produtivos da alimentação e no campo da saúde, leva a introduzir na política e na sociedade uma parte essencial da cultura científica. A procura da objectividade, o respeito pelo método, a recusa da verdade e a lógica mais rigorosa como trampolim para a imaginação mais criativa, eis quatro pilares ausentes de um exercício político que tem sido marcado pelas culturas tribunícia, trazida pelos advogados, e planificadora, trazida pelos engenheiros. Se os geógrafos, biólogos, geólogos, químicos, físicos e matemáticos, entre tantos outros saberes representantes e praticantes da ciência, forem para a ágora falar da nossa sobrevivência e bem-estar, a democracia ficaria um bom bocado mais perto de chegar ao estado adulto.

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Fontes:

Areas burnt by fires will triple in the Iberian Peninsula by 2075

Accelerating rate of temperature rise in the Pyrenees

E que mais?

Os temas da habitação e da floresta irão ter presença obrigatória na próxima campanha eleitoral para as legislativas, aconteçam estas em 2019 ou antes. Consoante o desfecho da Operação Marquês, o tema da justiça também poderá entrar, embora com muito menor probabilidade dada a impotência do sistema partidário, e/ou cumplicidade, para lidar com as corporações e os criminosos no sistema judicial.

E que mais?

Tadeu enfia o Barreto

Mas a verdadeira obra de arte do primeiro-ministro é outra! Foi ter conseguido desvincular-se, ele e os seus ministros, do governo de Sócrates. Foi ter desligado este Partido Socialista salvador daquele outro Partido Socialista cangalheiro. Foi ter conseguido refazer a sua virgindade, suavemente, sem ruptura aparente, sem obrigar ninguém a desdizer-se ou a pedir desculpa, sem criar incómodos a ministros e sem dar argumentos a quem disser que o Partido tem duas caras. Foi ainda ter conseguido associar o Bloco e o PCP a este branqueamento inédito.

Os seis anos do mandato de José Sócrates constituíram uma espécie de peste negra que se abateu sobre o país. Aquele governo, apoiado nalguma banca pública e privada, ajudado por um bando de empresários sem escrúpulos e assessorado por consultoras internacionais complacentes, atingiu níveis de endividamento único na história de Portugal, assim como de corrupção, de desperdício de recursos, de destruição de empresas públicas, de favoritismo em concursos e nomeações... Foi provavelmente o mais nefasto governo de Portugal durante décadas. Sem criticar os seus feitos, sem partilhar os erros de Sócrates, sem assumir responsabilidades relativamente aos piores anos de governo de Portugal, António Costa e seus ministros conseguiram, sem nunca o ter feito explicitamente, distanciar-se daquele nefando governo e daquele execrável período. Esse, sim, é um feito histórico.

António Barreto

No domingo, um dos derrotados pelos êxitos da "geringonça", António Barreto, escrevia aqui no DN que a verdadeira "obra-prima" (sic) de António Costa foi ter conseguido desassociar-se de José Sócrates e do seu governo que "apoiado nalguma banca pública e privada, ajudado por um bando de empresários sem escrúpulos e assessorado por consultoras internacionais complacentes, atingiu níveis de endividamento único na história de Portugal, assim como de corrupção, de desperdício de recursos, de destruição de empresas públicas, de favoritismo em concursos e nomeações..."

Pois é este capital político que António Costa coloca em perigo com a nomeação de figuras do antigo "arco da governação" para liderar instituições como a Caixa Geral de Depósitos ou a TAP, dando o sinal de que o "bloco de interesses", que sempre originou a corrupção no país, está, afinal, de boa saúde e operacional.

É este capital político que António Costa coloca em perigo quando nomeia um amigo para o conselho de administração da TAP ou quando uma sobrinha do líder parlamentar do PS aparece contratada por uma empresa da Câmara de Lisboa.

É este capital político que António Costa coloca em perigo quando "deixa acontecer" o acordo "por debaixo da mesa" com António Domingues na CGD ou o ridículo bilhete e viagem para um jogo de futebol ofertado pela Galp e aceite por um secretário de Estado.

Este é também capital político do PCP e do Bloco de Esquerda, que estiveram sempre fora destas negociatas que beneficiaram também, muitas e muitas vezes, o PSD e o CDS.

E se PCP e Bloco podem, por enquanto, ceder alguma coisa ao PS e à União Europeia em matérias económicas - em nome do bom senso e da melhor solução possível, no curto prazo, para os mais desfavorecidos - não podem é ceder em matérias de promiscuidade política/financeira e em matérias de corrupção, pois a sua própria sobrevivência política seria, dessa forma, posta em causa.

Por isso, pela primeira vez desde 24 de novembro de 2015, a "geringonça" corre o perigo de avariar.

Pedro Tadeu

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Barreto diz que o Governo de Sócrates era um antro de corruptos. A corrupção é crime, e gravíssimo. Não existe ninguém condenado por corrupção, sequer ainda acusado de tal, que tenha pertencido aos Governos chefiados por Sócrates. Nada disso atrapalha Barreto, o qual terá recebido alguma maquia para caluniar no DN um número indeterminado de cidadãos.

Tadeu usa Barreto para dizer o mesmo. Exactamente o mesmo. Também Tadeu recebeu dinheiro pelo exercício de caluniar no DN um número indeterminado de cidadãos; eventualmente todos os que pertenceram aos Executivos socialistas de 2005 a 2011, a que se deve acrescentar os deputados socialistas desse mesmo período como inevitáveis cúmplices.

Os Governos de Sócrates tinham um núcleo duro constituído pelo próprio, Teixeira dos Santos, Augusto Santos Silva, Pedro Silva Pereira, Vieira da Silva e Luís Amado. Costa fazia parte do núcleo, mas foi dispensado do Governo para candidatar-se à câmara de Lisboa. Para além deste núcleo duro, variegadas figuras ligadas ao PS, e também independentes, deixaram o seu nome nas actas que registaram as acções da governação de Sócrates como primeiro-ministro.

No discurso de Barreto, nascido do ódio fulanizado, e no de Tadeu, uma réplica automática nascida do sectarismo ideológico, das duas uma: Sócrates fez a tal monstruosa corrupção sozinho, imitando Deus quando criou o universo do nada, ou Sócrates fez esse lençol de crimes através daqueles que levou para o Governo, e esses bué da muitos continuam a ser protegidos por magistrados e partidos corruptos, todos eles, daí não aparecerem nas capas do esgoto a céu aberto.

Acaso o Barreto ou o Tadeu perdem uma caloria a pensar se o que escrevem faz o mínimo sentido quando confrontado com a realidade? Não perdem. É a quem lhes paga por estas cagadas que devemos perguntar se estão satisfeitos com o servicinho.

É pena, Costa

Sabemos que os direitolas estão a sofrer quando se calam. Costa foi entrevistado por José Gomes Ferreira na quarta-feira e os direitolas ficaram calados. Portanto, ficaram em sofrimento. Não gostaram de ver a facilidade com que o socialista limpou o rabinho ao palhaço pago pelo Balsemão.

Não há nada de errado nisto de existir um império de comunicação, o Grupo Impresa, que serve os interesses políticos do seu dono. É a iniciativa privada, é a democracia, é a liberdade. Mas, então, que comam todos posto que não há moralidade. A gestão das linhas editoriais da SIC e do Expresso fez de Mário Crespo e do Zé Gomes, para dar exemplos notáveis na sua completa e caricatural distorção do código deontológico dos jornalistas, dois operacionais de uma estratégia reles, maníaca, de propaganda política a favor do PSD e contra o PS. Por extensão, e de acordo com a mesmíssima lógica, o papel político de Ricardo Costa e de Pedro Santos Guerreiro – o qual até pode estar a ser exercido de forma natural; isto é, genuína, porque eles serão isso e sempre o seriam mesmo que não trabalhassem para o militante nº 1 do PSD – é o de orientar a leitura noticiosa oficial para aquela perspectiva que promova os interesses de uma certa direita e que denigra ou apague os interesses de uma certa esquerda. Nenhuma novidade nisto, obviamente, apenas se lamentando que tal não seja assumido frontalmente.

A novidade que importa chama-se António Costa. Estava destinado há muito a ser primeiro-ministro, mas ninguém conseguiu antecipar, sequer imaginar, a pedrada no charco que constitui a actual solução de Governo. Fruto de várias circunstâncias felizes, desde a chegada de Marcelo à manutenção de Passos, da recuperação do poder de compra aos ganhos nas exportações, Costa vai com um ano e meio de sucessos ininterruptos e crescentes. Se conseguir levar as agências de notação financeira a retirar Portugal da categoria “lixo”, não haverá champanhe suficiente em Lisboa para acudir aos brindes no Rato. Este o contexto do seu confronto com o cão de fila da SIC, o qual decorreu sem qualquer laivo de agressividade, sem a mínima acrimónia. De um lado, o pseudo-jornalista que explora a iliteracia económica generalizada e o populismo do tempo para disparar contra o PS com fanatismo circense, do outro, o líder do partido mais importante do sistema partidário e actual chefe de um Governo que promete inaugurar uma nova era na cultura política portuguesa – caso os dirigentes do PS, PCP e BE reproduzam nas próximas décadas a inteligência ideológica que levou ao acordo de 2015. Dois mundos sem qualquer contacto entre eles, pelo que a entrevista serviu apenas para vermos como a famigerada displicência de Costa chegou e sobrou para a vacuidade e deboche do Zé que nos toma por muito parvos.

Porém, Costa merece que se diga algo mais a seu respeito. Ele tem gosto em exibir a sua capacidade para meter no bolso os profissionais da caça aos socialistas que pululam no ecossistema mediático ao serviço da direita. Com isso igualmente transmite a ideia de que não há mal nenhum neste aspecto da nossa vida social e política, de que é errado estar a protestar, a indignar-se. Pelo contrário, há que cobri-los de sorrisos, risinhos e até oferecer-se para tomar conta dos seus filhos nas instalações do Governo caso precisem de ajuda. Foi assim que terminou a entrevista com o grande especialista em acções do BES, satisfeito da vida pelo “debate” que tinha ganhado por KO. É verdade, como escreve a Isabel, que valeu a pena vermos Costa esmagar os sofismas do palhacito, mas não há nada de admirável num chefe político que sente a necessidade de recorrer à adulação para lidar com a escória da indústria da calúnia.

Revolution through evolution

Are friends better for us than family?
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Study of sisters helps explain dad’s influence on risky sexual behavior
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Children of separated parents not on speaking terms more likely to develop colds as adults
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Starving prostate cancer with what you eat: Apple peels, red grapes, turmeric
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Take a coffee or tea break to protect your liver
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Emotions expressed by the dying are unexpectedly positive
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Regular Brisk Walk May Help Reduce the Risk of Dying From Cancer: Study
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Continuar a lerRevolution through evolution

A ideologia dos troika-tintas

João Pedro Henriques, jornalista do Diário de Notícias, passa por opinador ponderado e justo. Tem os seus gostos e inclinações, como humano que o supomos ser, e, por exemplo, foi notório que não gramava um tal Sócrates que andava para aí a governar a coisa pública há uns anos. Porém, essa sua discordância, que tenha reparado, não fez dele um fanático e muito menos um pulha. Os seus textos são informados e sensatos, a higiénica cama onde depois deita o seu ponto de vista. Qual a influência dos seus artigos de opinião sobre qualquer aspecto tangível, mensurável, aferível nas dimensões políticas, sociais ou tão-só mediáticas do país que somos? Não se sabe, nunca se saberá e talvez a resposta mais aproximada à verdade seja “influência nenhuma”.

Apesar da inerente irrelevância da sua produção intelectual enquanto jornalismo de opinião, no sentido em que ninguém invoca as suas ideias para justificar seja o que for nem há quem perca tempo a criticá-las (tirando aqui o pilas, et pour cause), há uma dimensão onde esta figura é absolutamente relevante: enquanto representante de um grupo maior, no caso o dos jornalistas com presença publicista em meios de comunicação social “de referência”. Por aqui, é significativo o modo como é tratado o tema Sócrates nos seus exercícios comentaristas, pois podemos inferir algo mais do que apenas a sua opinião individual. De algum modo, e seria facílimo ir buscar dezenas e mesmo centenas de exemplos em poucas horas de pesquisa, a forma como inscreve no discurso a sua ideia do que foi e é Sócrates igualmente abre um acesso ao modo como a elite jornalística usa a figura de Sócrates para a produção de uma ideologia. Trata-se não só de uma ideologia difusa, ecléctica, antes é uma ideologia que depende da superficialidade, da ambiguidade e da distorção para se manter eficaz. E é realmente eficaz como fenómeno produzido organicamente por um colectivo.

Veja-se o caso de Costa e o fantasma de Sócrates, de 23 de Maio. JPH resolveu criticar António Costa e não encontrou nada melhor para compor o argumento de que ir buscar Sócrates. Porquê e para quê? No campo do porquê, a resposta é: porque a origem da sua oposição é emocional, gerando uma cegueira cognitiva. Costa jamais poderia filiar os resultados do seu Governo num Executivo que nasceu do maior logro eleitoralista da democracia portuguesa e que assumiu sem qualquer pudor, até com vaidade e luxúria, o discurso do castigo e da humilhação sobre a classe média e os pobres. Os números a que o Governo de Passos chegou não passam disso mesmo, números, para mais obtidos num contexto de extraordinária perda de soberania. Ora, JHP talvez não ignore que em qualquer parte do mundo onde haja governos democráticos todos os números apresentados são alvo de interpretação, de disputa. Não se trata de haver à partida erros com os números, essa outra questão, mas a de ser inevitável precisarmos de um exercício de interpretação política para dar sentido aos números que os governantes apresentem. Como é óbvio, ter conseguido reduzir o défice público da maneira celerada e odienta como Passos, Portas e Gaspar optaram por alcançar comporta uma dupla ponderação, abstracta e concreta. JPH ataca Costa agarrado à dimensão abstracta, protestando por não ver o actual primeiro-ministro a fazer o branqueamento das opções pafiosas que afundaram o País logo a partir do chumbo do PEC IV e levaram à destruição insensata na economia e na vida dos cidadãos do que poderia ter sido salvado ou mitigado. Isto é simples, né?

Menos simples, mas ainda assim transparente, surge o intento. Para quê ir buscar Sócrates? Resposta: para o alimento, quiçá pulsional, da ideologia que este colectivo vai espalhando sem interrupção. Nessa ideologia simula-se um conhecimento exacto, uma verdade, acerca da história recente e não tão recente de Portugal. Parece, dizem estes arautos, que fomos obrigados a um resgate de emergência em 2011 só por causa de Sócrates, que era muito maluco e gastador. E parece que, continuam estes bravos “explicadores”, havia muita corrupção nos Governos passados, antes da Troika ter vindo pôr ordem nisto, mas que nos basta apanhar e enforcar Sócrates para que o problema possa ficar resolvido. Isto também é simples, e admite mil e uma variações sobre o mesmo tema. O colectivo de jornalistas e de “jornalistas” não precisa, adentro desta ideologia, de justificar como é que andaram décadas a conviver com tanto e tão magnífico corrupto e incompetente sem terem conseguido provar fosse o que fosse dessas monstruosas actividades. Basta-lhes ir buscar, citanto JPH, “o que foram os anos finais da governação de José Sócrates” para se poder enviar o texto e esperar pelo pagamento. Não há Europa, Mundo, crises internacionais como não se viam há 80 anos, Governos minoritários, baixa política, golpadas judicais-mediáticas, golpadas presidenciais, coligações negativas, BCE a só reagir a partir de 2012 à crise das dívidas soberanas, sectarismo da esquerda portuguesa. Não há mais nada, basta juntar “Sócrates” e está pronto a servir.

O “Estado Islâmico” como hipertrofia consumista

O “Estado Islâmico” está à beira de perder Mosul e Raqqa. Quando isso acontecer, e vai acontecer nas próximas semanas, ficarão a dominar apenas uma faixa ao longo do Eufrates e algumas bolsas de terreno dispersas no Iraque e na Síria. O completo aniquilamento do controlo do EI nas cidades e povoações exigirá mais uns meses, mas o seu desfecho é inevitável. Que vai ficar? Uma marca, no sentido capitalista do termo. Uma marca que pode ser utilizada de acordo com o modelo da franquia (franchising), tal como começámos por ver em África, depois no Afeganistão, Paquistão e agora nas Filipinas, fora os casos sem organização militar que somados cobrem 29 países, podendo aparecer em qualquer lugar onde exista mercado para tal.

O marketing, mais do que a religião, é o que melhor permite interpretar a dinâmica do EI enquanto objecto de criação de afectos e simbolismo. O apelo homicida que desperta e alimenta pretende ser de consumo instantâneo, não carecendo de qualquer mediação verbal, temporal ou litúrgica. Um desorientado mental que se arrasta numa vida de marginalidade e pequenos crimes numa qualquer urbe ocidental, o qual nunca entrou numa mesquita nem leu uma linha do Corão, pode saltar directamente para uma fantasia onde se embriaga de um heroísmo alucinado e, por isso mesmo, doador de identidade. Esta nova identidade traz um preço colado à facilidade com que pode ser consumida: um tipo de suicídio através do terrorismo ou de combates militares impossíveis de evitar a mais impiedosa derrota.

Daí o investimento do grupo na sofisticação das suas peças de comunicação, desde as coreografias grotescas das carnificinas cuja principal finalidade é a popularidade mediática até aos códigos estéticos reproduzindo com eficácia profissional as convenções publicitárias de Hollywood e da indústria dos jogos digitais. O efeito é similar ao do consumo da pornografia, gerando uma crescente abstracção que acaba por cortar todos os laços que ainda restassem na capacidade empática e cognitiva das vítimas. Quando os que encontram no EI a fase seguinte da sua alienação existencial partem para os actos de terrorismo, ou de combate, estão invariavelmente encharcados em drogas e reduzidos à espessura mental de um vídeo. Este um retrato típico dos arregimentados ocidentais fora das geografias do Iraque e da Síria, pois aqui os laços tribais e familiares são os que, embrulhados na fratricida religião, explicam o suicídio colectivo. Quanto aos que vêm das comunidades muçulmanas do Leste europeu e do Médio Oriente, os processos de fanatismo terão variegada origem e tipologia, também em muitos casos como consequência de contextos de conflitos anteriores que causam estados psicóticos promotores da adesão à proposta suicidária, psicadélica, do EI.

Donde, o bordão que lemos e ouvimos invariavelmente a cada ataque terrorista nas democracias ocidentais, o de que estes criminosos querem mudar o nosso “modo de vida”, não encontra fundamentação no que conhecemos dos indivíduos envolvidos. Por exemplo, os operacionais que desviaram os aviões no 11 de Setembro estavam perfeitamente adaptados ao nosso “modo de vida” e aproveitaram-no, literalmente, até ao último dia. Num plano lateral, o que sabemos das classes dirigentes árabes ou da classe média iraniana, para dar dois exemplos complementares e anedóticos, revela exactamente o mesmo: o nosso “modo de vida” é aquele que mais os atrai e serve de referência aspiracional. Outra parece ser a lógica, a de que os infelizes que escolhem morrer matando indiscriminadamente quem puderem apanhar na sua violência estão, no fundo, a provar a sua absoluta fidelização ao nosso “modo de vida”, um modo de vida onde celebramos quem faz alguma coisa, seja lá o que for, capaz de dominar as notícias. Capaz de encher os ecrãs.

Exactissimamente

Corrupções
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Alberto Gonçalves, mal, muito mal,

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Há uma deliciosa ironia nesta sugestão dupla de leitura, a qual pede que sejamos fãs do Plúvio (como é o meu caso) para ser devidamente desfrutada. É que ele adora o Alberto Gonçalves e passou, nos últimos dois ou três anos (para a minha percepção e memória), a embirrar com o Pedro Marques Lopes. No entanto, o Alberto Gonçalves é um pulha, como o Plúvio finalmente reconhece, e o Pedro Marques Lopes é um chafariz de decência, patriotismo e cívica bonomia. Melhor, e para irritar o Plúvio: o Pedro espalha salubridade na comunidade, o Alberto espalha veneno na comunidade.

O facto é este e ainda não encontrei qualquer análise ou reflexão a respeito no comentariado ou na academia: há uma indústria da calúnia à direita, mas não a encontramos à esquerda. Tal fenómeno não pode ser separado de certos condicionalismos antropológicos e cognitivos, talvez genéticos, que promovem na direita a fulanização, a paranóia e o recurso ao ódio palaciano como modo de assimilação e reacção ao devir político. Porém, igualmente tal indústria implica um poderio fáctico na comunicação social e na cultura dos actuais PSD e CDS. Por actuais, refiro-me ao PSD que começa com Cavaco e ao CDS que acaba com a saída de Freitas do Amaral em 1991. O mesmo poderemos dizer do poder da direita na cultura empresarial, nos maiores escritórios de advogados e no fundo católico que alimenta pulsões e proto-ideologias. Finalmente, as oligarquias são sempre de direita, no sentido em que se tornam conservadoras e temem perder o que conquistaram e sonham conquistar, pelo que influenciam estruturalmente a qualidade da vida social e política. Essa influência explica o poder de fogo que exibem.

A indústria da calúnia é uma arma política, não apenas um negócio. Mas, pelos vistos, a esquerda portuguesa está perfeitamente adaptada a esse status quo.

A tragédia de um oligarca ridículo

Esta entrevista de Jardim Gonçalves – “Governo de José Sócrates precisava de dominar o BCP” – dava um filme. No mínimo, merece um documentário, uma reportagem, uma coisa qualquer que dê a ver algo mais do que apenas o nevoeiro da guerra. E até podemos despachar com um bocejo a escolha que a jornalista (suponho que tenha vindo dela, mas também poderá ter vindo do David Dinis ou sei lá de quem) fez para o título, onde Sócrates volta a servir de gancho por razões que já nada devem ao jornalismo tal como ele se ensina na academia ou se inscreve na História. A tese de que Sócrates, de mão dada a Teixeira dos Santos, organizou um plano que passava primeiro por colocar Vara no topo da CGD, o tal mesmíssimo Vara que qualquer sucateiro corrompia com trocos de acordo com a Justiça portuguesa, para depois o conseguir meter no BCP e, assim, passar a ter mais um banco dominado porque “precisavam de ter um controlo mais fino do sistema financeiro para fazerem a colocação da dívida pública” é gira. E mais nada. Nem sequer mais nada no âmbito estrito desta entrevista, supostamente com alguém que poderia contar uma história válida a respeito desse tempo e desses acontecimentos se o quisesse fazer. Infelizmente, prefere lançar teorias da conspiração que ficam bem na ralé dedicada à baixa política mas que se tornam inaceitáveis para quem não abdica de pensar por si próprio.

A entrevista é fascinante por mostrar cruelmente uma figura que foi das mais importantes na oligarquia portuguesa, desconhecendo nós o poder que ainda conserva. Que vemos? A tragédia de um oligarca ridículo. Tragédia, porque se diz atraiçoado por tudo e por todos, desde logo pelo seu delfim, Paulo Teixeira Pinto, passando pelos accionistas do BCP e do BPI que lhe fizeram maldades, e chegando ao ponto de envolver o PSD e Cavaco na grande conspiração para lhe tirar o banco das mãos. Exactissimamente: de acordo com este pio ex-banqueiro, Cavaco também queria Vara no BCP para o manipular de acordo com os interesses de Sócrates. E isto merece um filme, não por causa do tal Sócrates, mas por causa deste ridículo Gonçalves capaz de estupidificar o ambiente nesta escala.

Do que veio a público, e de acordo com o que o próprio declara, a decisão de abandonar o BCP e deixar Teixeira Pinto como sucessor foi tomada “com toda a independência”. Estávamos em 2004, governava Santana e António Mexia era seu ministro. Seguiu-se um período em que o BCP tentou, por várias vezes, adquirir o BPI, tendo fracassado de modo tão clamoroso que arrastou o antigo império financeiro da direita portuguesa para o caos, no mesmo passo expondo um conjunto de gravíssimas ilegalidades já devidamente investigadas e julgadas. Que, agora, Jardim Gonçalves prefira encontrar bodes expiatórios e manter a ilusão de impecabilidade é algo sem especial interesse. O que tem profundo interesse é o estudo do apogeu e queda dos oligarcas portugueses, pois uma parte fundamental do nosso destino comum está entrelaçada nas suas vidas.

Maravilhas do laranjal

«Agora é tempo de desconstruir o país real: mostrar que há uma discrepância entre o que o Governo diz e o que se constata na rua, nas escolas e nos hospitais. Mostrar que o Governo tem “duas caras”, como disse o líder parlamentar, Luís Montenegro, e mostrar que a “retórica não cola com a realidade”, como disse o presidente do partido, Pedro Passos Coelho. Essa é a estratégia do PSD e é assim, com calma e paciência, que o partido tenciona chegar a 2019 a lutar pela “maioria absoluta”


Num blogue da cor (negritos de acordo com o original)

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Singelo e distraído comentário:

Lá a desconstruir é que eles são bons, craques. Força nisso, rapaziada. Desconstrução total até não ficar pedra sobre pedra. Quase que o conseguiram há tão pouco tempo com a vossa guarda troikana, pelo que devem aproveitar a experiência acumulada para regressarem ainda mais desconstrutivos. E, por favor, não se livrem do Passos nos próximos 20 anos ou, em alternativa, metam lá o Montenegro. Por favor, a radical desconstrução do “país real” assim o exige.

Aperta com eles, Macron

O episódio do aperto de mão entre Macron e Trump, para ser desfrutado no seu significado político, precisa de ficar devidamente enquadrado nos anteriores episódios de Trump com Mike Pence e Neil Gorsuch, entre outros que entraram para o anedotário do trumpismo. Macron já veio reclamar plena e prévia intencionalidade na ocorrência, pouco importando se está a ser sincero ou a aproveitar a fama obtida. O facto permanece: Macron deixou Trump a sofrer, mano a mano. É o que vemos nas imagens da mão e do rosto de Trump. Qual a importância política do que parece não ter absolutamente importância nenhuma?

Eis o que não significa: que Macron tenha saído como mais “viril”, mais “macho”, do que Trump; que Macron tenha querido passar por “homem forte”, “másculo”, à maneira caricatural de Putin; que Macron tenha dado algum sinal de que passará a usar os códigos de uma masculinidade estereotipada na expressão da força física para efeitos de imagem e retórica políticas. Nada de nada de nadinha disso.

Eis o que pode significar: que Trump se sentiu humilhado ao perder num jogo primário onde julgava não ter competição à altura; que os apoiantes de Trump definidos com precisão atómica por Hillary como “deplorables” igualmente se sentirão perdedores ao tropeçarem no falhanço do seu ídolo televisivo; que parte das audiências europeias, e parte das norte-americanas, reencontraram uma dimensão da política onde a expressão “o mundo é um palco” remete neste caso não para a estética da hipocrisia mas para o espectáculo da realização – Macron tornou real a ideia que o próprio Trump trazia como potencialidade, a de por um simples aperto de mão se simbolizar uma hierarquia de poder.

Pouco tempo depois, Merkel igualmente apertou os gasganetes a Trump, atingindo-o com força e pontaria. Para quem se queixava de andarmos a passar por uma longa crise de lideranças na Europa, podemos estar a assistir ao começo de uma belíssima amizade entre todos aqueles que não se importam de suportar estes 4 anos de profunda decadência norte-americana à conta de um fulano politicamente desvairado sem perderem o pé ou lhe darem a mão.

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O Pedro Tadeu é estúpido?

Pedro Tadeu aproveitou a polémica causada pela publicação de um vídeo no Correio da Manhã para fazer um exercício insuportavelmente ambíguo a respeito dos jornais de referência portugueses e do próprio CM – O Correio da Manhã é estúpido? Ambíguo porque não se sabe, no final da leitura, do que esteve a falar. Insuportável porque, quando se trata do CM, não saber exactamente o que dizer é estar a ser cúmplice desse projecto político. Ou melhor: ficámos a saber que o Tadeu dá o CM como o exemplo a seguir pela própria “imprensa de referência”.

Seria de rir alarvemente, mas será mais de chorar, tropeçarmos num jornalista com o traquejo do Tadeu – que, ainda por cima, se assume comunista – e constatarmos que ele consegue reduzir o CM à categoria purificada de “tablóide”. Ora, tablóides houve e há muitos pelo mundo fora e ao longo dos tempos, mas este tem uma característica essencial que o diferencia dentro do género para o que aqui nos importa: para além do sensacionalismo, para além da industrialização da calúnia, o grupo editorial onde se insere pratica uma defesa dos interesses da direita partidária e faz uma perseguição política ao PS. É a partir deste objectivo estratégico, o qual remonta logo à fundação do CM em 1979, que a utilização do arsenal tablóide envolto em populismo de direita atingiu – como reacção adversativa a Sócrates e exploração da sua privacidade – um extremo de violência nunca antes registado na comunicação social portuguesa. Esta violência nasce da parceria com agentes de Justiça que cometem crimes sucessivos no âmbito das investigações a políticos do PS a troco de promoção pessoal, blindagem política para decisões legal e moralmente questionáveis e, quiçá, proveitos monetários ou outros.

Os editoriais do CM, quando versam sobre qualquer aspecto que tenha relação com Sócrates e suas circunstâncias, juntam ao registo putanheiro e de taberna uma interpretação histórica em tudo igual à que PSD e CDS fizeram e fazem do período 2005-2011. Nela, o Estado foi tomado por um grupo de bandidos capitaneado por Sócrates, e tanto roubaram que o País foi levado à bancarrota. O CM também explica o fenómeno de tanta roubalheira, durante tanto tempo, não ter levado ninguém para o chilindró até agora: é que esses bandidos tinham a Justiça na mão, conseguindo corromper quase toda a gente e assustando os restantes. Foi preciso decapitar os mandantes na PGR e no Supremo Tribunal de Justiça para, finalmente, se começarem a investigar esses crimes. Daí o heroísmo de Carlos Alexandre, Rosário Teixeira e Joana Marques Vidal, e ainda de Paula Teixeira da Cruz e Passos Coelho. Sem eles, os socialistas criminosos continuariam à solta, têm repetido ao longo dos anos Octávio Ribeiro e Eduardo Dâmaso institucionalmente. Ora, no PSD e CDS a exploração deste discurso calunioso tem sido feita abertamente desde 2009, e até figuras que agora parecem tão decentes e razoáveis, como Ferreira Leite e Pacheco Pereira, mergulharam nele de cabeça quando estavam à frente do PSD e sua estratégia eleitoral. De igual modo, uma análise aos discursos e declarações públicas de Cavaco desde 2008 até às legislativas de 2011 exibe a mesma intenção de espalhar no espaço público a percepção de que o PS se apropriou do Estado para destruir a oligarquia da direita e substituí-la por uma outra máquina totalitária, com bancos e grupos de comunicação ao serviço do Rato para a sua perpetuação no poder, não esquecendo os espiões do Estado usados para descobrir o que andavam a pensar e a fazer os adversários políticos. Obviamente, o bom do Cavaco não podia ficar quieto e calado perante essa ameaça, pelo que defendeu os seus amigos, aqueles que dominavam a banca e a comunicação social há décadas, o melhor que pôde. Problemazinho com este modus operandi: ele requer, para se manter eficaz social e eleitoralmente, uma constante e alargada repetição no ecossistema mediático. Sem isso, reduz-se à irracionalidade donde nasceu. Em Portugal, juntando os órgãos de comunicação social alinhados à direita, e suas legiões de “comentadores”, há massa crítica para gerar na enorme maioria da população a distorção paranóide de ser possível cometer esses alegados super-crimes sem deixar quaisquer provas.

Não faltam estudos, documentação, memórias, inclusive obras de arte, acerca das formas como se manipula a opinião pública apelando ao medo, ao ódio e perseguindo bodes expiatórios. Invariavelmente, tal passa por criar um antagonismo moral que seja forte o suficiente para mobilizar a turbamulta. Não podendo real e fisicamente assassinar ou linchar Sócrates, no CM et alia tem-se feito um festim com a sempiterna acusação de que é um criminoso, um corrupto. Se com Péricles fizeram o mesmo, porque não a Sócrates, né? É tudo lixo da mesma cidade, por assim dizer. Todavia, este modo de conspurcar a democracia e intoxicar a comunidade não é uma fatalidade, antes uma escolha. Alguém, muita gente, considera ser esta a melhor forma de lutar pelo poder, e não há prurido ético nem cívico que os impeça de usarem todos os estratagemas que puderem, durante o tempo em que o conseguirem, para cometerem crimes e vilanias em nome do combate aos “maus”. Também nestes fenómenos os processos psicológicos que arrastam figuras moralistas como Cavaco para a obscenidade das golpadas escabrosas e atentatórias do Estado de direito não oferecem segredo algum. Quem se convence de que o estão a atacar, ou a preparar-se para atacar, encontra em si, no seu instinto de sobrevivência e no seu orgulho, a justificação moral para responder ou atacar primeiro com o triplo da força e da crueldade imaginada no inimigo. É o Tucídides, estúpido!

O comunista Tadeu não só meteu Marx na gaveta como lançou fogo ao quarto antes de se pirar em direcção aos “interesses do cidadão comum” que jura ver bem cuidados no CM. Será por isso que não consegue detectar a relação material e dialéctica entre um simulacro de jornalismo cujo móbil é o justicialismo mediático dirigido a certos alvos de uma exclusiva área política e a sua influência na degradação dos valores democráticos e no afastamento dos cidadãos da vida política e da cidadania. Tadeu, coitado, tendo chegado ontem à profissão, não encontra pretexto algum para recorrer aos marxistas conceitos de alienação e fetichismo ao ver um jornal que vende voyeurismo, objectificação da mulher, populismo antipolíticos, violação da privacidade e conluio com criminosos. Ou, então, consegue. E consegue tão cristalinamente que resolveu alinhar. Afinal, qual é o comuna que não curte ver um socialista a arder?

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