Arquivo da Categoria: Valupi

Revolution through evolution

Sex and Aggression Controlled Separately in Female Animal Brains, but Overlap in Male Brains
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Reliance on ‘Gut Feelings’ Linked to Belief in Fake News
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Science Denial Not Limited to Political Right
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Winner takes all: Success enhances taste for luxury goods, study suggests
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Study Suggests You Can ‘Pick Up’ a Good or Bad Mood From Your Friends
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Midlife Depression May Stem From Tension with Mothers and Siblings
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Can Gardening Prevent Cancer?
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O armamento não terá sido fanado pelos ciganos?

Segundo o Público, que cita o Expresso, o qual afirma ter tido acesso ao relatório, os serviços de informação militares têm das boas para dizer do ministro da Defesa: “[acção] de ligeireza, quase imprudente”, “declarações arriscadas e de intenções duvidosas”, “atitude de arrogância cínica”.

Realmente, dá que pensar. Por exemplo, fico a pensar que a ligeireza pode ser o resultado da habilidade e da elegância, que uma acção quase imprudente continua a ser uma acção prudente, que por vezes o maior risco é nada arriscar e que as intenções são sempre duvidosas até que deixem de ser.

Quanto à “atitude de arrogância cínica”, temos aqui um prato cheio de pensamento. Ficamos a pensar que Azeredo Lopes poderia ter evitado este responso dos militares secretos caso tivesse optado por ser apenas arrogante ou apenas cínico. Mas não, tinha de fazer uma misturada desses dois ingredientes manifestamente indigestos para os delicados estômagos da soldadesca. Também dá para ficar a pensar no que teria acontecido caso o ministro invertesse os termos da equação e se tivesse antes apresentado com um cinismo arrogante em vez da arrogância cínica. Às tantas, teria feito toda a diferença. Talvez na cultura castrense não se admita que os civis se passeiem junto da tropa em poses de arrogância cínica, exclusivo da malta dos quartéis, mas já se tolere o cinismo arrogante por implicar mais respeitinho e bola baixa frente aos galões.

Parece que o relatório avança com três hipóteses para explicar o suposto furto: tráfico de armas para África, gamanço de mercenários portugueses ou assalto de jiadistas. É uma tripla. Agora, faites vos jeux. E terem sido só três as hipóteses foi uma sorte, poderiam ter apresentado 30, cada uma tão arbitrária com a anterior e a seguinte. As secretas militares, como se vê, não se dedicam à investigação. Aquilo funciona mais como clube inglês sem os ingleses. É um grupo de pessoas fardadas, todas devidamente munidas de tempo com fartura para gastar a ler as notícias correntes, que parecem especialmente vocacionadas para manter os ministros da Defesa em sentido.

O Expresso e o DN, secundados pelo CM e apoiados pelo Público, lideram uma campanha para demitir o cinicamente arrogante ministro. À luz deste relatório e dos comentários de militares aquando da polémica por causa do título da entrevista, é muito provável que Azeredo Lopes esteja a fazer alguma coisa verdadeiramente excepcional em favor da democratização das Forças Armadas.

O ministro da Defesa não especulou

Futebóis à parte, é raro, raríssimo, discordar da opinião política do Pedro Adão e Silva. Mesmo quando calha não concordar, tal não implica que esteja em desacordo. Posso, não concordando, reconhecer o mérito de uma divergência ou oposição. E devo, e mais ainda nas vezes tantas em que se trata de dados e referências que desconhecia, apreciar e agradecer a informação relevante que traga para as análises. Isto porque a forma como fundamenta os seus raciocínios exibe os traços essenciais da cultura académica, onde é obrigatório justificar com o máximo de honestidade intelectual possível os fundamentos donde se parte e as conclusões a que se chega num qualquer exercício pensante. Pensar, na tradição académica cuja origem é o legado da Filosofia Grega, não se confunde com o fluxo mental e verbal que perpassa espontânea ou intencionalmente por uma consciência humana sem necessária coerência nem necessário sentido. Pensar, sendo característica comum às ciências naturais e humanas, empíricas e teóricas, mais matemáticas ou menos, consiste em elaborar demonstrações que ambicionam um qualquer grau ou tipo de universalidade. Com esta ressalva: a universalidade não é um equivalente da “verdade”, antes um núcleo conceptual documentado que fica como património intelectual comum da humanidade se for habitado por outras consciências que lá cheguem através do mesmo caminho pensante. Esta tipologia argumentativa ainda é uma minúscula minoria no comentário político, sendo usual tropeçarmos na tradição litigante e tribunícia cultivada pelos profissionais de Direito, onde os sofismas são a munição corrente, ou na tradição propagandista ubíqua na imprensa, onde a retórica inflamatória e as distorções factuais são a convenção que preenche e extravasa as secções de opinião.

Fazer comentário político na comunicação social, porém, é algo muito diferente de fazer investigação e exposições na academia. O Pedro Adão e Silva comentador está perfeitamente adaptado aos limites e condicionalismos das intervenções que faz na TV, rádio e jornais, conseguindo comunicar com eficácia seja qual for o constrangimento do meio e situação em causa. Na terça-feira da semana passada gastou pouco mais de 1 minuto para comentar a entrevista de Azeredo Lopes e respectiva polémica. E despachou o assunto dizendo isto:

"O caso da Defesa é um episódio bastante insólito. Porque as responsabilidades de um ministro da Defesa não são iguais às responsabilidades de um ministro da Educação, da Saúde ou da Segurança Social, e foi o ministro que se colocou numa posição de ter mais responsabilidades políticas. Devo dizer que li com estupefacção a entrevista do ministro neste fim-de-semana ao Diário de Notícias e à TSF, porque acho que o ministro da Defesa tem como dever apurar as responsabilidades e proteger a instituição militar, e tem de dar garantias sobre a segurança nacional. Foram tudo coisas que ao longo destes meses o ministro não foi capaz de fazer. E o que é que fez? Dúvida metódica; quer dizer, faz da dúvida metódica o alfa e o ómega das suas intervenções sobre este tema. E isso não é o papel de um ministro, e muito menos da Defesa. O ministro da Defesa não especula, e o que o ministro da Defesa voltou a fazer foi especular. E eu devo dizer que isso é uma coisa que me surpreende bastante."

É raro, raríssimo, discordar da opinião política do Pedro. Daí não querer perder esta oportunidade de discordar com toda a cagança e toda a pujança que conseguir reunir neste HTML. Começo por admitir que o factor tempo, isso de o moderador ter colocado o tema em discussão quando estavam em cima do final do programa, terá influenciado a sua mensagem. Talvez sabendo que teria à sua disposição 10 minutos de paleio ele tivesse, pelo menos, conseguido justificar as suas reacções e carimbos. Mas não foi o caso, e nada sabemos, de forma aferível, acerca do que o levou para a opinião que assumiu. Nesta, tropeçamos num discurso voluntariamente emocional, onde quem fala pretende anunciar uma grande perturbação, um choque: “episódio insólito“, “li com estupefacção“, “que me surpreende bastante“. Pelo meio, alega que o ministro está a ser irresponsável, mas não diz porquê nem em quê. Limita-se a fazer variações redundantes da ideia de falha funcional do ministro. Finalmente, e esta é a parte tangível que permite ligar a sua intervenção à fonte e dinâmica da polémica, alega que o ministro da Defesa fez especulações; portanto, que fez algo que não pode fazer sob pena de ser veementemente denunciado pelo Pedro. Por aqui, estamos na dimensão em que o título da entrevista, uma invenção perversa dos jornalistas que não corresponde ao que foi declarado pelo ministro, se constitui como a matéria-prima da polémica. Curiosidade: não tratou o ministro pelo nome.

Esta patarata mas relevante questão dos efeitos causados pelas opções editoriais do DN começa e acaba no título dado à entrevista: «“Não sei se alguém entrou em Tancos. No limite, pode não ter havido furto”». As aspas fazem crer que estamos perante uma citação integral, mas não estamos. Em parte alguma da entrevista o ministro afirma o que o título lhe atribui. Os jornalistas colaram e alteraram partes de duas respostas para criarem uma manipulação sem defesa possível (pun intended).

Para a primeira parte do título, foram buscar o começo da resposta dada a “…Esteve alguém dentro das instalações que não era suposto estar?“. A pergunta é cavilosa, ou tão-só parva, porque pressupõe que o ministro, naquela entrevista, pode dar uma resposta satisfatória; isto é, definitiva ao se basear nas conclusões dos inquéritos. Só que não pode, pois a investigação está em curso, daí a forma como inicia a fala, com uma expressão exclamatória, de impaciência. Quem se der ao trabalho de ler a resposta do Azeredo encontra uma posição imaculada em defesa da separação de poderes, adversa a qualquer tipo de especulação. Atente-se na ironia: é exactamente por não pretender fazer sequer um esboço de especulação que o ministro refere – no contexto dessa pergunta – que não sabe se alguém entrou nas instalações. Qual é a alternativa desta posição? É a contrária, pois estamos num binómio, a de o ministro enquanto ministro saber ou ter um qualquer palpite a respeito do que factualmente aconteceu e achar que o deve divulgar.

Para a segunda parte, foram buscar o final da resposta dada a “Falou numa concentração deste tipo de instalações. Já está escolhido o sítio?“. Quem se der ao trabalho de ler o texto completo constata que o ministro está a expor precisamente aquilo que está ao seu alcance mudar no imediato, e o que já começou a mudar. A lógica dessas alterações levaram-no a querer ilustrar o seu alcance dando um exemplo que nomeia o acontecimento de Tancos em investigação. Ele não está, neste passo, a fazer qualquer especulação, ao contrário. Volta a ironia: ao pretender mostrar que se podem evitar especulações como aquelas que circulam actualmente, daí as decisões que refere que visam alterar aspectos estruturais e funcionais na forma como se guarda o armamento militar, Azeredo forneceu aos jornalistas um conjunto de palavras que podia ser usado para se criar uma mentira que quebrou a patilha de segurança posta no uso da expressão “por absurdo“. Na resposta à armadilhada pergunta seguinte – “Mas está convencido de que houve furto?” – chega a invocar a sua honra para garantir que não quer fazer especulação alguma, que o seu estado é de ignorância absoluta até que as autoridades respectivas apresentem as suas conclusões.

Todas as respostas que deu, inclusive aquelas relacionadas com as declarações de Marcelo, são apropriadas, coerentes, sensatas e convencionais. Aparece a dar conta do que fez e a fazer pressão, ao lado de Marcelo, para que os agentes judiciários sejam o mais rápidos que conseguirem nas investigações dado o que está em causa: a segurança nacional e o prestígio e organização das Forças Armadas. Só que à sua frente estavam dois jornalistas que, em secções de editorial e opinião, tinham-se exibido nas semanas e meses anteriores furiosos contra o Governo por causa dos acontecimentos em Pedrógão e Tancos. As posições que nesses textos exploraram com retóricas sensacionalistas são a origem daquele título, num mecanismo psicológico de confirmação e reforço das críticas negativas que assinaram. Optaram por lançar para o espaço público um título traiçoeiro, vingativo. Uma verdadeira notícia falsa.

Quem é académico tem essa acrescida responsabilidade de cultivar uma independência intelectual que não se deixe atrofiar pelos laços afectivos e afinidades de grupo. Quem é investigador nas áreas das ciências sociais e políticas não pode alegar incapacidade cognitiva para entender o processo que leva à criação daquele título e de como ele induz em erro a sua audiência e promove uma deturpação no espaço mediático ao serviço de agendas políticas e pessoais. Neste tempo em que o fenómeno Trump corresponde – nas origens sociológicas, no calendário e nos efeitos – à maior ameaça que alguma vez a imprensa livre de todo o mundo enfrentou, ver Pedro Adão e Silva a não ter o discernimento crítico para interpretar, na esfera das técnicas de comunicação e dos modelos psicossociais, o que Paulo Tavares e Anselmo Crespo fizeram configura “um episódio insólito”. Mas ver o Pedro a violentar caricaturalmente o discurso de Azeredo Lopes, de uma forma que até ofende a inteligência do público a quem se dirige, é algo que “me surpreende bastante” e que registo com “estupefacção”.

Habilidadezonas

Em 2015, as eleições legislativas foram a 4 de Outubro. A 26 de Setembro, o PSD CM lançava esta capa:

O PSD Expresso também esteve impecável na fase pré-eleitoral, tendo lançado em Julho esta genuína simulação: Simule a devolução da sobretaxa de IRS

Depois das eleições, o desGoverno de Passos veio dizer que não haveria qualquer devolução. Nada.

A gente séria não brinca em serviço. Vale tudo para enganar o patego.

Helena Matos, um caso interessante

Sócrates é uma pessoa, uma figura, um nome, uma questão que desperta o interesse da Helena Matos. Esta senhora é jornalista e historiadora, para além de opinadora multimeios. Quer dizer que o seu interesse é não só informado como formado por duas escolas, da investigação e do jornalismo, onde se cultiva a objectividade e o rigor, o método e o serviço público. Depois, pega nessas características e molda uma opinião que distribui em diversos meios para proveito dos felizardos que consumam o seu labor intelectual. Certo? Certíssimo. Quão importante é Sócrates para a Helena Matos? Se alguém se desse ao trabalho de contar as vezes em que falou dele em público poderíamos ter uma ideia exacta na comparação com os restantes tópicos tratados pela sua inteligência. Faltando essa estatística, vai a olho: a Helena importa-se bué com Sócrates. Mas não só com Sócrates, honra lhe seja, também com o PS e com os socialistas; especialmente, socialistas que se possam relacionar com Sócrates seja lá pelo que for. Por exemplo, pelo facto de terem trabalhado com ele. Ou por com ele terem privado.

Ontem, partilhou connosco mais um pedacinho do seu profundo e apurado saber socrático:

O homem que jantava sozinho. Fazia férias sozinho. Governava sozinho… Falo de Sócrates, claro. A cada nova revelação o silêncio adensa-se. E de cada vez que Sócrates fala o silêncio cresce ainda mais. A falta de solidariedade daqueles que tanto o bajularam não me espanta (presumo que Sócrates não os deixará esquecerem-se de si com tanta facilidade). O que continua a ser surpreendente é que essas pessoas que estiveram com Sócrates no Governo, que com ele privavam, que com ele trabalhavam tentem convencer os demais que o dia a dia do chefe do executivo nada dava a entender. Que as decisões que tomava lhes pareciam racionais e independentes.

A jornalista, historiadora e opinadora multimeios diz-nos que “a cada nova revelação o silencio adensa-se“, pelo que devemos perguntar: de que revelações está a falar? Acaso o Ministério Público anda a fazer revelações sobre uma investigação em curso? Será que a Helena convive com Sócrates ou anda a espiá-lo? Ou estará a falar do que lê em certos jornais, vê em certos canais televisivos? Se a última hipótese for a correcta para explicar qual é a fonte das revelações que assume estarem na sua posse, as quais não identifica talvez por falta de tempo, então um retrato mais nítido da historiadora, jornalista e opinadora multimeios começa a poder ser feito. Enquanto historiadora, está particularmente interessada na privacidade de Sócrates. Enquanto jornalista, está entusiasticamente interessada no que certas pessoas alegam que Sócrates fez, e muito pouco ou nada em saber o que Sócrates realmente terá feito. Isto porque no lugar donde fala, o de opinadora multimeios, já não há dúvidas. Melhor, nunca houve. E daí o seu espanto, uma mágoa que não dói antes lhe faz ferver as entranhas e a enche de ânimo, de confiança: se ela sempre soube que Sócrates era o maior criminoso da História de Portugal, aqueles que se relacionaram com Sócrates de perto, nos gabinetes, nos restaurantes, nos corredores, num avião, numa praia, não podiam ignorar o que estava à vista de todos, de toda a gente séria, da Helena Matos, historiadora, jornalista e opinadora multimeios.

Pelo que, eis o que se tem, está e vai continuar a passar. A cada nova revelação, as tais que adensam o tal silêncio, a Helena puxa de um caderninho de capa vermelha e abre na página onde parou de escrever da última vez que saiu uma revelação interessante. Pega na sua esferográfica preferida e acrescenta a nova revelação com a devoção de quem sabe estar a deixar obra para as gerações seguintes. Este conversou com Sócrates no dia tal. Aquele comeu um cherne grelhado com Sócrates ali pelo Natal. O outro partilhou um táxi com Sócrates na dia tantos, às tantas da matina. Aquela parece que coiso com Sócrates ali e acolá. Por causa do não sei quê, Sócrates disse uma caralhada em conversa com amigos. Acerca de Costa, Sócrates parece que disse alguma coisa que as gravações não captaram em condições, mas não devia ser coisa boa, dado o tom da sua voz. Depois fecha o caderninho de capa vermelha. E vai colocá-lo na estante ao lado dos restantes 57 caderninhos de capa vermelha onde tem registado exaustivamente as revelações que encontra nas fontes do seu interesse.

Trata-se de muita gente que não irá escapar à sua memória encadernada. O interesse da Helena Matos por Sócrates tem consequências na sua vida íntima e saúde moral, e essa malandragem que anda a ser apanhada nas revelações não se vai ficar a rir. Terão de pagar o preço de tanto interesse. O preço pelo que a sua liberdade e o seu direito à privacidade causaram a esta historiadora, jornalista e opinadora multimeios.

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Sá Carneiro está a dar saltos no túmulo

Passos ao lado de André Ventura: “Não podemos ter medo dos demagogos e dos populistas que permitem que situações injustas perdurem”

Fonte

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Igual a Trump quando carimba a imprensa livre como geradora de “notícias falsas”, ele que será provavelmente o político no Mundo que mais mente, Passos passou a incluir no seu reportório de líder da oposição a retórica do ataque aos “populistas” e “demagogos” quando se dirige à maioria legítima no Parlamento, ele que seria o principal protagonista de uma qualquer história do populismo e da demagogia em Portugal nos últimos 10 anos. Em 2010, andou a pedir prisão para políticos que se tinham limitado a cumprir o seu programa e ideário. Em 2011, jurava de manhã em Lisboa que não haveria cortes em salários e pensões nem despedimentos, para no mesmo dia à tarde em Berlim jurar que faria tudo o que fosse preciso fazer aos portugueses se ficasse a governar sujeito a um resgate de emergência draconiano – o tal que tornou num desastre inevitável com a aliança negativa do PCP e BE. Após tomar o poder, continuou a mentir. Negociava ainda mais empobrecimento com a Troika, garantindo-lhes que seriam medidas estruturantes, e depois vinha dizer publicamente que eram medidas provisórias, que tinha de ser por causa do “buraco colossal”, que no próximo ano é que era, vinha aí a retoma e a glória. À sua volta, no período em que afundaram Portugal e foram para eleições, a demagogia foi desvairada e ubíqua. Relvas garantia que o PSD tinha estudado todos os dossiers, feito todas as contas, e que não seria preciso subir impostos. Moedas anunciava que as agências de notação financeira subiriam o “rating” em seis meses assim que lhes chegasse a notícia de Passos estar a mandar nisto. O “corte nas gorduras do Estado” era uma promessa esfuziante de riqueza para todos ao virar da esquina, bastando desmantelar o Estado que só servia para encher o bolso dos socialistas corruptos e para dar dinheiro aos madraços que se rebolavam na sua zona de conforto sem quererem pegar na enxada ou darem o salto para a estranja. Cavaco apelava ao derrube do Governo socialista pela rua e declarava que não queria mais “sacrifícios”, ao mesmo tempo que tudo fazia para que o País fosse obrigado a seguir um plano do FMI criado por fanáticos do castigo moral sobre a população da estirpe de António Borges. O resultado foi uma devastação económica e social que apenas serviu para colocar uma direita traidora e decadente no poder. Há quem relacione a abertura do PCP para finalmente viabilizar uma governação do PS ao sentimento de culpa dos comunistas pelo que permitiram acontecer a milhões de pessoas por causa do chumbo do PEC 4; tese que merecia investigação ou que ficará como abandonada sugestão romântica para os apaixonados pela política e pela extraordinária complexidade sociológica da democracia.

Nesta citação, retirada de uma entrevista de Passos na CMTV, lemos a cifra da estratégia secreta seguida pelo Ventura: “Não podemos ter medo”. Também em Loures há cartazes onde o Ventura aparece com uma legenda onde declara não ter medo. Já em entrevistas, diz que tem medo. Das duas formas, e elas completam-se sem contradição, o terreno que explora é o do medo por ser aquele que está na origem das patologias do racismo, da xenofobia e de qualquer forma de estigmatização que se queira promover. Estamos face a mecanismos psicológicos, mesmo antropológicos, universais. É difícil, para qualquer um de nós, resistir aos apelos do medo pois o nosso instinto de sobrevivência fica estimulado num ambiente onde haja informações alarmantes a circular. O processo comunicacional é simples de explicar: ao declarar que não tem medo, a sua mensagem igualmente estabelece que há razões para ter medo – assim despertando uma reacção de validação do próprio medo que cada um calhe sentir, ou despertando a dúvida naqueles que até então não se tivessem definido em relação a qualquer experiência subjectiva de medo. Medo do quê? Tanto faz, é escolher. Ciganos, pretos, muçulmanos, paquistaneses, paneleiros, romenos, pobres, desempregados, bêbados, gajos com turbantes, velhos, novos, pessoas esquisitas, estranhos, os outros. Quão mais isolados, mais fechados, mais fragilizados, mais estupidificados, mais medo teremos. Trump apostou tudo nessa dinâmica, o tendem Ventura-Passos limita-se a repetir a fórmula, agora com o líder partidário que pela primeira vez na História de Portugal utilizou pseudo-suicídios como matéria para ataques políticos de braço dado com o candidato autárquico que promete um exército na rua e o regresso ao cordame para tratar da malandragem nas árvores do concelho.

Passos não se cola ao Ventura por acaso. O único acaso nesta original situação, contemplando o que tem sido a axiologia do nosso sistema partidário, diz respeito ao PSD. O acaso de estarem entregues a uma desgraça ambulante que não se importa de conspurcar a memória e missão do partido.

A crise da imprensa também é isto

Paulo Baldaia veio defender a entrevista de Paulo Tavares e Anselmo Crespo – os quais fizeram um mau trabalho jornalístico para conseguirem um eficaz trabalho mediático, no sentido em que gerou barulheira e reacções do corporativismo militar e das lideranças políticas (à excepção do PS, até ao momento em que escrevo e no meu conhecimento). Importa começar pelo princípio para apurar o que aconteceu neste episódio: não foi o ministro da Defesa que sentiu uma urgente necessidade de vir repetir, muito menos defender, a tal hipótese legítima de que se fala logo desde a tomada de conhecimento da suposta falta de um conjunto de armamento; foram os entrevistadores que tomaram a decisão de inventarem, entre o tudo e apesar do tudo que Azeredo explanou em diferentes respostas, um título que é intelectualmente desonesto, deontologicamente duvidoso e politicamente incendiário. Baldaia quer afundar-se com eles no mau serviço aos históricos pergaminhos do DN e da TSF, numa atitude endémica ao tribalismo e aos laços pessoais. Seja.

Analisemos, parágrafo a parágrafo, os disparates que não se importou de assinar:

«A entrevista de Azeredo Lopes ao DN e à TSF não se resume ao título que os jornalistas escolheram, mas ele reflete exatamente o que disse o ministro da Defesa. O ministro não faz a mínima ideia do que aconteceu em Tancos. Ora, acontece que o comandante supremo das Forças Amadas está cansado de pedir conclusões o mais rapidamente possível para que se definam responsabilidades e se punam os responsáveis.»

Acaso o Baldaia faz alguma ideia do que aconteceu em Tancos? Se faz, é favor colaborar com as autoridades e ir a correr dar uma ajuda à rapaziada. Se não faz, tem alguma ideia sobre quem é que terá alguma ideia do que aconteceu em Tancos? Achará que só o ministro da Defesa é que deve ter ideias para divulgar ao público mesmo que mais ninguém de que o Baldaia se lembre as tenha? Mas se o ministro da Defesa só puder fazer alguma ideia depois de se concluírem as investigações em curso (vamos admitir que o Baldaia concede nesta evidência), qual o sentido de colocar no mesmo parágrafo o pintado cansaço do comandante supremo das Forças Armadas? O único nexo possível, diz-nos a lógica e a gramática, é este: o Baldaia achar que ainda não chegámos a conclusões porque, de alguma forma misteriosa, Azeredo Lopes está a atrasar a investigação.

«Foi por causa do assalto aos paóis de Tancos (que só teoricamente pode não ter acontecido) que o Presidente da República nos disse que tinha ido até ao limite dos seus poderes. Não esquecer que o comandante supremo, levando o ministro atrás, foi a Tancos para se inteirar das investigações que de imediato se começaram a fazer. O poder político foi conhecer o local do crime num momento em que a Polícia Judiciária (militar e civil) iniciava a investigação que continua a ser feita com total autonomia. Leva o seu tempo.»

O assalto aos paióis de Tancos só teoricamente pode não ter acontecido, diz. Teoricamente. De certeza que era esta a palavra que querias usar, Baldaia? Ou não passará de um psitacismo de caserna? Seja como for, a versão do ministro parece muito mais radical, e muito mais clara, só admitindo que o assalto não tenha acontecido por “absurdo”. O que se passa é que, na prática, as investigações levam o seu tempo, como o director do DN nos ajuda a compreender. E este torna-se o ponto mais interessante do seu raciocínio, o de que não devemos ficar atrapalhados com o tempo que isto leva. Toca a aproveitar a espera para enforcarmos uns quantos.

«A questão é que não é preciso esperar pela investigação criminal e pela prisão dos culpados, que pode aliás nunca acontecer, para apurar responsabilidades políticas e operacionais. Já passaram quase três meses, é tempo mais do que suficiente para se saber onde se falhou e quem falhou. A leveza com que o ministro da Defesa fala sobre este caso grave contrasta muito com a assertividade com que o Presidente da República o faz. Para o Chefe do Estado, não há como não considerar grave aquele assalto, para ele não faz sentido jogar com o tempo à espera de que a vergonha se perca com o tempo. Por tudo o que tem dito e feito a propósito do assalto a Tancos, Marcelo Rebelo de Sousa deve estar a perder a paciência com o ministro.»

Este parágrafo é uma mixórdia de boçalidades. Pelos vistos, 3 meses chegam e sobram para “saber onde se falhou e quem falhou” porque… porque o Baldaia assim o determina. Lembrou-se dos 3 meses, podia ter-lhe dado para 2, 1, uma semana e meia ou 48 horas. Tanto faz. E tanto faz porque ele mandou a lógica para o galheiro e agora quer que o ministro vá meter-se em Tancos de lupa na mão à procura de impressões digitais e a interrogar sargentos e praças. Ou então, e ainda mais estouvado, está a pedir que o ministro comece a disparar medidas e declarações de “responsabilidade” mesmo sem perceber patavina do que terá ou não terá realmente acontecido dado as investigações ainda estarem a decorrer. Quanto ao que diz acerca de Marcelo, ficamos com a certeza de que o director do DN não conhece o trabalho de um dos jornalistas da casa, Manuel Carlos Freire, o qual no dia 5 do corrente descreveu com exactidão o que fez e disse Marcelo a respeito desta questão – Tempo da investigação a Tancos preocupa Marcelo. O que lá se pode ler deixa o Baldaia como alguém a precisar de ajuda nesta história:

Não só é importante apurar factos e eventuais responsabilidades como apurar num tempo que seja o mais curto possível, por um lado para o prestígio da instituição militar e por outro lado também para a própria atuação interna da instituição militar”, declarou o comandante supremo das Forças Armadas, citado pela Lusa.

“Estou atento, acompanho o que se passa e preocupa-me o tempo”, acrescentou Marcelo Rebelo de Sousa, durante a visita à associação Acreditar (de apoio a crianças e jovens com cancro). “O que considero hoje que há que dizer é que o tempo do apuramento, respeitando naturalmente a iniciativa das entidades de investigação criminal, é um tempo importante. É isso o que eu tenho a dizer neste momento, passados dois meses e uma semana”, reforçou, escusando-se a falar “sobre dados concretos” deste caso.

Neste caso, o título da notícia é jornalismo do bom, porque faz a síntese objectiva sobre o que está em causa. Marcelo não está a pedir qualquer medida, posição, declaração ao ministro da Defesa. Não o está a pedir porque, para repetir um termo feliz nesta chachada de polémica, isso seria absurdo. Ele está é a pedir celeridade na investigação. Na investigação. Na investigação. Por causa do “prestígio da instituição militar”. Para a “própria actuação interna da instituição militar”. Porque este é “o tempo do apuramento”. Um tempo onde seria errado, absurdo, vir falar, ou pedir a alguém no Governo que falasse, “sobre dados concretos.” Nestas declarações consegue o Baldaia topar com a perda de paciência do Presidente para com o ministro? Se não aqui, terá tropeçado nela a sonhar ou receberá mensagens telepáticas com origem no Palácio de Belém? Há uma palavra para descrever a pavoneada pretensão a interprete autêntico do marcelismo presidencial, “absurdo”. E também outra, “mentira”.

«Na verdade, Azeredo Lopes não precisa do apoio político de Marcelo para continuar no governo mas, quando António Costa fizer uma remodelação, e haverá de fazê-la, o ministro da Defesa estará na linha da frente. É até possível que o próprio já esteja cansado da pasta que lhe calhou. Se não está, disfarça muito bem, porque na entrevista que concedeu ao DN e à TSF há muito pouca coisa que ele assuma como responsabilidade direta sua.»

Ena, os Governos fazem remodelações! Incrível! Que ciência, presciência e sapiência neste profeta jornaleiro que até sabe quais são os alvos a abater nessa varridela e tem diagnósticos psicológicos sobre os mesmos para apresentar. Vivam as remodelações, é disso que o povo gosta. E, calhando nem ligar, pelo menos as redacções dos jornais “de referência” pelam-se por essas festividades catárticas. É que dá muito jeito ter caras novas, renovar o ambiente, voltar a fazer entrevistas e despachar muita opinião. Isto das remodelações, do ponto de vista do interesse da comunicação social com secções de política e da oposição que não consiga subir acima da chicana, devia ser uma obrigação a cada 6 meses. É que mal não fazia, bastando garantir a permanência dos secretários de Estado e seus assessores, e para os jornais e partidos do arco da desgovernação era uma festa. Dois ou três ministros mandados ao ar a cada semestre, e podendo mesmo ser por sorteio televisionado. Maravilha, pá.

Quanto ao que serão as responsabilidades do ministro da Defesa, o tópico que se transformou no combustível da hipocrisia generalizada nas reacções ao título da entrevista, Baldaia nada nos diz de objectivo. Não sabemos qual é a sua interpretação do texto constitucional e como ele se pode aplicar no contexto de declarações avulsas para uma entrevista. Há nisto – na intencional confusão entre os actos governativos do ministro e a forma e o conteúdo de uma peça jornalística onde o seu discurso é manipulado – um vendaval de irracionalidade que tomou conta de algumas das melhores inteligências do comentário político. É que ter adversários políticos a tentarem explorar qualquer ocasião, qualquer aparente brecha, para desgastar o Governo é uma coisa. E coisa triste, porque miserável. Mas ter personalidades públicas, com o dever da independência funcional, a comportarem-se como fogareiros na taberna é outra coisa. Desoladora e abjecta.

A crise da imprensa também passa por aqui, por este pacóvio reino da estupidez.

Passos, qual é a leitura política que fazes destes números?


«Em 2016, registaram-se em Portugal 829 suicídios, de acordo com dados do Instituto Nacional de Medicina Legal (INML), a que o Jornal de Notícias teve acesso. O valor é o mais baixo dos últimos 15 anos e é a primeira vez, desde 2006, que fica abaixo dos mil.»


Fonte

Aumenta a pressão mundial para demitir o ministro do terror

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O ministro da Defesa já estava à beira do abismo. Como diz a anedota, decidiu dar um passo em frente. Mais de dois meses depois, Azeredo ainda não sabe se houve um furto em Tancos. Mas ninguém informa o pobre ministro, para evitar que ele continue a envergonhar o governo? Se já estava na pole-position para a remodelação, transformou-se, desta forma, num cadáver político ambulante. Uma vez arrumadas as autárquicas do dia 1 de outubro, António Costa terá de fechar pendentes. Como indiciam as sondagens, a luta política pode aquecer. O chefe da geringonça não pode dar-se ao luxo de levar pesos mortos para as legislativas.


Carlos Rodrigues – Director-adjunto do CM

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Como sou fã do Pedro Marques Lopes, e partilho com ele a reacção de asco que o esgoto a céu aberto suscita, coloco-o ao lado de alguém que representa ao mais alto nível o pasquim. Não para o apoucar, muito menos insultar, mas para fazer a demonstração de que pode haver uma sintonia de pensamento em duas pessoas com valores muito diferentes, alguns antagónicos. Neste caso, ambos estão publicamente a pedir a demissão do ministro da Defesa sem o incómodo de explicar porquê, no caso do Pedro, e deturpando as declarações e funções de Azeredo Lopes, no caso do profissional do esgoto.

Que se passou? Passou-se que Anselmo Crespo e Paulo Tavares optaram pelo sensacionalismo ao criarem um título que não faz justiça às declarações recolhidas na entrevista. Tal como Estrela Serrano já explicou – Alguém ajude o deputado a interpretar figuras de estilo da língua portuguesa – a escolha do título equivale a uma enganadora descontextualização. Só que é ainda mais grave, pois aquela suposta declaração que faz o título não se encontra na entrevista. É uma invenção dos jornalistas, colando e alterando partes do discurso registado. Partes díspares na economia dialógica que lhes deu origem. Partes nascidas do esforço do ministro para ser analítico, rigoroso e exaustivo nas explicações que deu. E a desfiguração ocorrida acaba por ser vexante, promove a postura contrária nos governantes. É como se o Tavares e o Crespo estivessem a esforçar-se por educar os políticos a só terem discursos redondos, superficiais, hipócritas, blindados contra títulos sacanas.

Creio que o principal responsável pelo episódio é o Paulo. Este bem-intencionado jornalista meteu na cabeça que os ministros da Defesa devem ficar apavorados de cada vez que tenham de aprovar os custos de um remendo numa cerca de um paiol. E, portanto, que não podem descansar enquanto não reunirem generais em número suficiente para se garantir que o buraco na cerca não compromete a independência nacional. É uma burrice, que ele transportou para a montra sem explicar quais os fundamentos do seu alvoroço. Na entrevista, a burrice volta a atacar, para perplexidade do Azeredo que até pede para se descodificar o que raio lhe estão a perguntar. As suas respostas frisam o óbvio: o Ministério da Defesa não é a entidade a quem está entregue a organização militar da segurança nos paióis do Exército. Ficamos sem saber se o ministro racional conseguiu convencer o jornalista emocional.

Muito mais importante, mas desprezado pelos entrevistadores, foram os acenos dados pelo ministro a respeito da morosidade e complexidade dos procedimentos da investigação num caso onde é legítima a suspeita de corrupção ou de descontrolo na gestão do armamento. Entretanto, que se espera de um ministro da Defesa que não se pode substituir às entidades que estão a investigar policial e militarmente o caso? Que sentido é que faz estar-lhe a exigir respostas que não pode ter porque não lhe foram dadas por quem tem essa responsabilidade? Aliás, estas declarações de Azeredo Lopes estão intimamente relacionadas com as do Presidente da República ao pedir rapidez na investigação. As declarações de Marcelo foram dirigidas exclusivamente aos militares, não ao Governo. E isto é à prova de estúpidos.

PSD e CDS aproveitaram o título para mandar uns foguetes. Parece que pretendem passar mais umas horas a ouvir Azeredo Lopes a explicar o b-a-bá da separação de poderes e da distinção de responsabilidades no que concerne ao Governo e às Forças Armadas. Seria um bom castigo para o Paulo, o Anselmo e o Pedro serem obrigados a assistir a essa aula.

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Aqui ficam duas alusivas e belíssimas peças que a nossa direita tabloidizada conseguiu criar neste Verão do seu contentamento:

Revolution through evolution

The sniff test of self-recognition confirmed: Dogs have self-awareness
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An officer and a gentlewoman from the Viking army in Birka
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‘Vampires’ may have been real people with this blood disorder
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Why Hasn’t U.S. Tax Policy Responded to Rising Inequality? Surprisingly, It’s Our Beliefs in “Equal Treatment,” Researchers Find
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Consciousness Depends on Tubulin Vibrations Inside Neurons, Anesthesia Study Suggests
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Why Many Russians Have Gladly Agreed to Online Censorship
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White Children More Likely to Get Unnecessary Antibiotics in Pediatric Emergency Departments
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Continuar a lerRevolution through evolution

Infinitamente pior

Tirando a sua pessoa e a dos seus advogados, Sócrates não tem ninguém na praça pública que reclame a sua inocência perante as suspeitas em investigação no Ministério Público. O máximo a que se tem chegado é a manifestações de solidariedade nas visitas à prisão, em almoços, em palestras e no lançamento de livros. Essa solidariedade, por parte de alguns companheiros de partido, alguns ex-colegas de governação e de alguns populares, é algo muito diferente de uma assunção da sua defesa face aos indícios de crime. Porque para tal teriam de falar dos mesmos e conseguir relacioná-los com a pretensão de inocência, coisa que ainda nem o próprio Sócrates nem os seus advogados fizeram – seja por estratégia perante um Ministério Público criminoso e de má-fé, por estratégia tendo em vista a alta probabilidade de se ir para tribunal, ou por impossibilidade de fornecer uma explicação que seja verosímil e capaz de anular as suspeitas. Este isolamento é razoável, dado o tremendo e inaudito problema que está em causa e a gravidade do que já foi publicamente admitido pelo próprio Sócrates e pelos seus advogados. Os poucos que aparecem a denunciar os abusos no processo e as violações do Estado de direito não o fazem necessariamente, nem aparentemente, por qualquer deferência ou estima para com o arguido, antes pelos estritos valores que moldam a sua consciência e animam a sua coragem.

Contudo, Sócrates está constantemente, obsessivamente, sistematicamente a ser usado em parangonas, notícias, opiniões, bocas despejadas na comunicação profissional desde 2004 até hoje, e assim continuará enquanto estiver nas mãos da Justiça. A unir esta mole, este caudal orgíaco, encontra-se uma pulsão rejubilosa pelo estado de desgraça em que se encontra um adversário político formidável à mistura com a satisfação pelos extensos e corrosivos danos que atingem o PS e a sua actual elite directiva de cada vez que se lança mais uma “notícia” ou “opinião” a pintar Sócrates como criminoso. Mesmo que não apareçam mais nomes socialistas envoltos em suspeitas de corrupção ou de qualquer ilícito, a contaminação pela proximidade passada com um Sócrates que eventualmente seja condenado em tribunal poderá acabar com várias carreiras políticas e abalar de forma imprevisível o partido. Por isso, o que se passa com o Sócrates-arguido tem dimensão histórica para além da novidade de termos um ex-primeiro-ministro nesta escabrosa situação, acabando por revelar o estertor de uma direita decadente que não tem outro projecto para além da calúnia, da baixa política e das golpadas. Não o largam porque nada mais têm a que se agarrar, como se vê na inépcia total para lidar com Costa e com uma esquerda que está a aprender a abandonar – com sorte, a abominar – o sectarismo.

Entretanto, os materiais que o Ministério Público captou relativos à privacidade dos suspeitos e de terceiros das suas relações, apanhados em escutas ou noutras formas de obter essas informações, têm sido utilizados na luta política e no sensacionalismo comercial. Nunca tal aconteceu com políticos de direita, mas está a acontecer à descarada desde 2009 com políticos do PS, num crescendo de violência que expõe uma falência absoluta do Estado de direito e da decência sem a qual não faz sentido dizer que vivemos em comunidade. As suspeitas acerca dos ilícitos de Sócrates são gravíssimas e, a serem provadas, têm consequências no regime e no sistema partidário neste momento inimagináveis. Mas que não haja a mínima hesitação, seres livres do meu país: este deboche imparável e inimputável em que os poderes policiais e judiciais do Estado são utilizados para assassinatos de carácter e para ataques políticos é infinitamente pior do que os supostos crimes em investigação na Operação Marquês.

O Hemiciclo no círculo vicioso do marasmo português

David Crisóstomo e Luís Vargas, nossos conhecidos de outras andanças, lançaram uma calhauzada no charco do marasmo cívico que nos define e atrofia ao criarem o Hemiciclo – Democracia em tempo real

Tal como escrevem no Sobre, a ambição é heróica: “esta ferramenta pretende melhorar a perceção que muitos possam ter da Assembleia da República e dos deputados dos diferentes grupos parlamentares que a todos nós representam.” À cautela, não explicam como é que lá vão chegar, e compreende-se porquê. É que o discurso contra os políticos, seja de origem populista, ditatorial ou anárquica, não se modifica por estar exposto a nova informação. Os mecanismos cognitivos e sociais que dão força a essa verborreia estão blindados pela recusa da complexidade, da argumentação e da mera aceitação dos factos. Logo, jamais esses indivíduos irão perder uma caloria a visitar o hemiciclo.pt com módica curiosidade para descobrirem algo acerca do que se passa na Assembleia da República. É que se a tivessem, essa abertura da curiosidade por mais ínfima que fosse, nunca teriam começado por mergulhar na alucinação dos simplismos, das distorções e do ódio asinino.

A palavra “ferramenta” descreve bem a função do que foi lançado. Não há dimensões narrativas nem editoriais, apenas blocos temáticos com dados brutos. As interpretações, ilações e reflexões ficam para quem as quiser – e puder – fazer. Só que a enormíssima maioria da população não está em condições de usar a muito bem esgalhada ferramenta porque ela é demasiado técnica para as suas capacidades intelectuais, não dispondo das literacias variadas necessárias ao aproveitamento do caudal informativo. Serão os jornalistas, os investigadores, os políticos e uma franja de cidadãos motivados para a intervenção cívica e política a utilizar em pleno o que ali se organiza com eficácia e bom gosto.

Independentemente da viabilidade do sonho lindo de ajudar os cidadãos a conhecerem melhor a sua democracia, este projecto é também especialmente relevante por causa da comparação com o que acontece em parlamento.pt, o canal digital oficial da Assembleia da República. Com um desenho gráfico e concepção tecnológica que há 10 anos já estavam anacrónicos, o estado de abandono quanto às funções e linguagens de comunicação que ali poderiam ser aplicadas é um problema político por excelência. Revela que o marasmo cívico que nos define e atrofia é um espelho do marasmo político em que os partidos existem como organizações sem criatividade, sem imaginação, sem lideranças autênticas. Acaso não teria sido possível a uma qualquer juventude partidária fazer o mesmo que o David e o Vargas acabaram de fazer? E acaso não teria sido possível uma qualquer juventude partidária propor às congéneres a criação de uma equipa para lançarem em conjunto um projecto de pura cidadania, no caso o do renovo e expansão do canal digital do Parlamento? E, foda-se, não poderia algum adulto, num qualquer partido com representação parlamentar ou sem ela, ter-se lembrado do mesmo e ter levado a ideia aos miúdos que nasceram já a falar digitalês?

Também por este último ponto, ou que fosse só por este, parabéns à dupla criativa e cidadã.

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Psssst

Por favor, não grafem “site” como se essa aberração fosse uma palavra portuguesa para ler em português. Por favor, respeitem a constituição da Língua com uma devoção, se não maior, pelo menos parecida com aquela que sabemos terem pela Constituição e pelo constitucionalismo.