Arquivo da Categoria: Valupi

A direita é da Joana

Todos sabemos que não são assim tantas as pessoas competentes, sérias e independentes para preencher os altos lugares do Estado. E, sobretudo, todos sabemos que não falta quem queira preencher esses mesmos altos lugares com pessoas, no mínimo, pouco independentes.

O lugar de procurador-geral da República, nos tempos em que vivemos, é central na nossa vida em sociedade e, na minha opinião, Joana Marques Vidal tem sabido exercer esse lugar com competência, seriedade e independência. Não faltarão candidatos a esse lugar e seguramente que, neste momento, forças e interesses diversos, alguns certamente pouco recomendáveis, já estarão a porfiar para conseguir colocar no lugar da actual procuradora-geral uma pessoa que lhes seja útil.


Francisco Teixeira da Mota

É verdade que não se percebe bem porque é que Francisca Van Dunem se lembrou de dizer tal coisa numa altura destas — para mais, com a infelicidade acrescida de ter concedido a entrevista um dia depois de o Presidente de Angola se ter atirado de forma desbragada à justiça portuguesa. Até admito que tenha sido apenas ingenuidade e inépcia. Às vezes acontece. O que não admito é que Van Dunem não saiba de cor e salteado qual a opinião de António Costa sobre o tema. Logo, 1) as suas declarações comprometem todo o Governo, 2) o desejo de afastar a procuradora é bem real, e 3) Joana Marques Vidal precisa de ser defendida.

Dir-me-ão: não haverá outros magistrados habilitados para desempenhar o cargo com idêntica competência? A minha resposta é simples: em 44 (curioso número) anos de democracia não houve. Se fosse fácil ser independente, outros teriam sido. Não foram. Portugal precisa que Joana Marques Vidal continue até 2024. Doze anos de magistrados livres para investigar a corrupção que há décadas sufoca o país não é muito — é muito pouco.


João Miguel Tavares

Uma das principais especialidades do primeiro-ministro António Costa consiste em fazer dos cidadãos parvos. Anteontem abri o PÚBLICO online e deparei com a notícia — “Ministra da Justiça abre porta de saída à actual PGR”. Bingo! Há meses que se especulava se António Costa teria a coragem — ou o desplante — de não reconduzir a actual procuradora-geral, Joana Marques Vidal, empossada no cargo em Outubro de 2012. Van Dunem, ministra da Justiça, essa limitou-se a fazer de porta-voz da decisão de António Costa de expelir Joana Marques Vidal da PGR (o argumento invocado é risível, e lá irei mais adiante). Ou mais exactamente: coube à ministra ir preparando o terreno para a decisão talvez mais controversa e suspeita de todas quantas decisões controversas e suspeitas Costa já tomou até hoje.

Tudo aconselhava o prolongamento do mandato de Marques Vidal, desde a sua competência, lisura e coragem, até à notória inconveniência de a remover numa circunstância em que a Justiça portuguesa passa pela sua maior prova. Paradoxalmente, é precisamente por causa desta circunstância e por causa das raras qualidades da procuradora-geral que esta se torna um estorvo para António Costa.


M. Fátima Bonifácio

No mínimo, é uma questão de elegância: quando nos despedimos de alguém, não lhe batemos com a porta na cara. Despedimo-nos e dizemos: “Foi bom. Obrigado.”

No limite, podemos dizer que a dúvida não chega em boa hora: é que o MP está prestes a levar a julgamento o ex-primeiro-ministro José Sócrates, o ex-banqueiro Ricardo Salgado e o ex-vice-presidente de Angola, com uma promessa de represálias pendente.

Apesar de tudo, apesar do limbo, as reacções à polémica deixam-nos uma certeza: até Outubro, a actual líder do Ministério Público terá o apoio do sector para manter a independência e determinação que tem mostrado ter para proteger a Justiça. O que ficámos foi com esta dúvida: depois de Outubro, que tipo de PGR quer António Costa?


David Dinis

__

Quatro excertos de quatro publicistas notáveis num jornal dito de referência. E mais não tivemos no semipasquim porque rapidamente se descobriu que não ia ser possível contar com o cinismo de Marcelo para transformar o fogaréu num incêndio descontrolado, e ainda porque se foi buscar Joana Marques Vidal a dar razão a Francisca Eugénia da Silva Dias Van Dunem. Entretanto, o próprio Marcelo de 2018 vai ter alguma dificuldade em contrariar o de 1997 se estiver para aí virado. Que fica desta exaltação dos caluniadores do costume?

Para começar, a facilidade com que tratam António Costa como um primeiro-ministro corrupto ao serviço de um partido corrupto que, berram, vai tentar perverter a Procuradoria-Geral da República para alcançar objectivos corruptos. Esta mensagem desmiolada e paranóide é comum aos quatro textos, oscilando entre o registo bronco e raivoso de Fátima Bonifácio e JMT e o registo difamante e sonso de Teixeira da Mota e David Dinis. Para continuar, o exibicionismo com que assumem querer um Procurador-Geral da República politicamente orientado e especialista em José Sócrates e demais socialistas que se possam arrebanhar na larga malha de um Ministério Público que opera em parelha com a aberração Carlos Alexandre, actuando este como um super-procurador em vez de juiz dos direitos, liberdades e garantias. E para acabar, a luminosa percepção de que a actual procuradora-geral da República tem uma tribo à sua espera para vir salvar a direita decadente.

Com a poderosíssima indústria da calúnia a fazer-lhe a campanha, a santa Joana é uma espectacular promessa política. Pode lançar uma cruzada contra a “corrupção socialista”, garantir que vai limpar Portugal dos bandidos socráticos que andam para aí a esbanjar dinheiro em obras públicas e fundações, aeroportos e TGV, escolas e formação de adultos só para encher os bolsos dos amigos e jurar que conseguirá ilegalizar o partido do Rato pois aquilo não passa de uma escola de crime. Com isso, esvaziaria o CDS e talvez metesse o PSD em condições de causar problemas ao PS, pois para além da monopolização do voto à direita ainda iria buscar votos de protesto e populistas à abstenção.

Força nisso. É o que vocês merecem, é o que vocês são.

Revolution through evolution

Objectification of women results in lack of empathy
.
Women survive crises better than men
.
Linking Success in Certain Fields to Intellectual Talent Undermines Women’s Interest in Them
.
Toys and gender: Pretty in pink and boisterous in blue?
.
The complicated gender history of pink
.
Jeans Made with Child Labor? People Choose Willful Ignorance
.
Writing a “to-do” list at bedtime may aid in falling asleep
.
Continuar a lerRevolution through evolution

Bons sinais

Usando os números provisórios, a vitória de Rio deve-se a 22 611 pessoas, o equivalente a 0,2335231214329527% do universo eleitoral nas legislativas de 2015. Esta percentagem minúscula pode vir a ter uma influência gigante no regime caso os sinais de fecho de ciclo e de mudança de cultura se confirmem. O ciclo que parece fechar-se é o que foi aberto em 2008 com a presidência de Ferreira Leite em tandem com Cavaco, onde a estratégia política da direita se passou a limitar às mentiras, às golpadas, às calúnias e ao ódio. Passos foi o seu mais destrutivo executante, tendo afundado o País quando o aparelho laranja o exigiu e tendo traído o eleitorado e a comunidade ao serviço da oligarquia nacional e de fanáticos estrangeiros. A mudança de cultura está prometida na recusa da demagogia e do populismo e na obediência ao interesse nacional, precisamente o inverso do que se chama “fazer política” no PSD e CDS onde os respectivos fundadores são desprezados há décadas. Acima e antes de tudo, a mudança de cultura aconteceu, mesmo que tão-só episodicamente, quando Rio ousou expressar um juízo negativo acerca do Ministério Público; agravado pelo contexto dessa declaração que fica agora associada à sua presidência do PSD.

A direita portuguesa está decadente desde o Cavaquismo, este sendo um outro tipo de decadência nascido do controlo do Estado. A nossa actual direita não tem projectos, não tem ideias, não tem líderes nem recursos humanos de qualidade, mas tem Sócrates. Logo, não o podem largar, como não largam desde 2004. Daí as cenas desvairadas que já pudemos ler e ouvir só porque a ministra da Justiça não foi hipócrita e disse em público o que pensava tecnicamente a respeito da situação de Joana Marques Vidal. A brutalidade e basicidade com que esses infelizes exigem ter uma Procuradoria-Geral da República entregue a um comissário político que lhes garanta o máximo de dor e cárcere para Sócrates e qualquer outro socialista deixa-nos sem saber o que mais admirar: se a sua estupidez funcional, se a sua paixão fatal. Por essa exaltação furibunda se poderá medir o choque de verem Rio a mostrar-se livre e a ser frontal a respeito de uma das mais políticas das dimensões do Estado, a administração da Justiça. Foi um terramoto de magnitude 11 na escala de Richter lá na Pulhalândia.

O Observador reúne a fina flor desta direita decadente, embora ela esteja presente na maioria dos órgãos de comunicação social. Fizeram do pasquim do Zé Manel uma plataforma de apoio a Santana Lopes. A ideia seria meter o Pedro em palco e ir gastando o tempo até que Montenegro pegasse no partido depois da derrota do PSD em 2019. Único plano conhecido desta degradante gente, aproveitar as oportunidades para continuar a espalhar ódio e a boicotar o País até que uma crise política qualquer os levasse para São Bento. É consolador testemunhar que os tais 22 611 militantes do PSD são muito mais fortes do que a tremenda força mediática dos que já só querem ver o Estado de direito democrático a arder.

A direita decadente adora um auto-de-fé logo pela manhã

Ricardo Costa a mostrar como a direita mediática e política vai mungir nos próximos meses tetas tão úberes – O que é preciso clarificar sobre a não continuação de Joana Marques Vidal na PGR: o comentário de Ricardo Costa – de forma a que nem uma gota da politização da Justiça, mas também da judicialização da política, se perca:

– Apagar a prática recente de se conceber em mandato único o cargo de Procurador-Geral da República.
– Convocar o texto da Lei onde ele for genérico, ambíguo e omisso.
– Defender que Joana Marques Vidal fez um trabalho extraordinariamente bom e que Pinto Monteiro fez um trabalho extraordinariamente mau.
– Sugerir que Joana Marques Vidal combate a corrupção e que Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento foram cúmplices da corrupção.
– Indicar que a eventual substituição de Joana Marques Vidal no final do seu mandato resultará de um interesse político do PS.
– Apelar a que se abra uma polémica política, corporativa, mediática e social sobre esta questão no sentido de pressionar o Governo a manter Joana Marques Vidal como PGR.

Uma coisa é certa, este processo de substituição ou manutenção irá definir parte essencial dos trajectos e legados políticos de Costa e Marcelo.

Os jornalistas como rede social

Outro aspeto que me parece importante referir tem que ver com a metodologia e a linguagem do combate político. Creio que os portugueses não serão recetivos à violência verbal e ao insulto próprios de forças extremistas. Têm dado constante exemplo de preferirem a moderação; a enorme popularidade do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa mostra que tipo de político tem a preferência dos portugueses. Ou seja, não convém confundir a maioria dos cidadãos com os que destilam as suas frustrações nas redes sociais e nos tabloides.


Proença de Carvalho

__

Apesar da insustentável leveza da análise, falhando propositadamente no que diz acerca de Marcelo, é fértil o rabisco acerca das redes sociais e dos tablóides. Porque, por um lado, o uso da expressão “redes sociais” por jornalistas e publicistas em órgãos de comunicação social operou uma transformação semântica em que de um substantivo genérico, vago e ambíguo se fez um estigma, um papão, uma alucinação. E, por outro, porque o tabloidismo invadiu o chamado “jornalismo de referência”, gerando esta cena patarata de vermos a protestar contra as “redes sociais e as caixas de comentários” aqueles que, sonhando-se a referência opinativa na Grei ou ignorando por completo em que consistem essas maléficas redes, vendem a sua disponibilidade para produzirem caudaloso sensacionalismo e/ou calúnias.

Do que se fala quando se fala em “redes sociais”? Nunca tal se esclarece, embora a resposta mais provável seja Facebook e Twitter. E do que se fala quando de fala do Facebook e do Twitter? Apenas das impressões subjectivas que se recolhem da observação de um número indeterminado de publicações e comentários. Não há absolutamente nenhum tratamento qualitativo, quantitativo, estatístico e projectivo acerca do que se diz estar a ser dito e a “acontecer” nas “redes sociais”. Que significa encontrar 0, 20, 100 ou 500 comentários numa notícia? Que se pode concluir sociologicamente dessas manchas de caracteres? E se numa notícia com 100 comentários 50 tiverem origem em dois utilizadores, e 30 em mais 2, e os restantes em 5? Que importância, seja para o que for, terão esses 9 maduros? Quem são eles, em que estado mental estão, qual a consequência para si e à sua volta do que deixaram numa caixa de comentários de uma notícia que irá desaparecer do mapa em poucas horas? Disto não há notícia. O resultado é vermos jornalistas, supostamente profissionais da informação, a alimentarem deformações grotescas ao serviço da exacta repetição do que chicoteiam no povoléu. Preferem investir a galope contra esses moinhos de vento, que apenas giram sobre si mesmos sem conseguirem sair do mesmo sítio, em vez de fazerem o esforço de pensarem no que dizem a partir do seu estatuto de especialistas em comunicação.

A procura do sensacionalismo serve as agendas demagógicas e populistas de intento comercial e político. O Correio da Manhã, em papel e imagem, é o mais poderoso produtor de sensacionalismo em Portugal, tendo uma influência que talvez acabe por condicionar a classe jornalística por atacado (pun intended). Seria uma explicação, pelo menos, para o vexante espectáculo de vermos jornalistas com cargos directivos em títulos históricos a mergulharem de cabeça no expressionismo tóxico onde se esquecem da sua principal responsabilidade, condição mesma da objectividade: protegerem a racionalidade das disfunções e sua degradação.

Revolution through evolution

Female professors asked for favors more than male professors
.
Women Can (and Should) Seek Male Mentors in the Post-#Metoo Workplace
.
People Who Sleep Less Than 8 Hours a Night More Likely to Suffer From Depression, Anxiety
.
Will people eat relish made from ‘waste’ ingredients? Study finds they may even prefer it
.
Perfectionism Among Young People Significantly Increased Since 1980s, Study Finds
.
Concrete or Vague? How CEOs Talk Can Send Stocks Up or Down
.
People with high social status are perceived as insincere when they apologize for a transgression
.
Continuar a lerRevolution through evolution

Lapidar

[...]

Mais do que críticas normais em democracia que podem ser feitas às opções do legislador ou à forma como um procedimento legislativo decorreu, interessa-me estar atenta ao fenómeno da ignorância perigosa e militante sobre o que é uma democracia representativa.

É essa ignorância ativa que é explorada pelos populistas, aqui e pelo mundo fora, para capitalizar a raiva de quem precisa de culpados pela sua circunstância. Surgem então os novos atores da política, alegadamente “fora do sistema”, sistema que tratam de caluniar, para finalmente se apoderarem do mesmo.

[...]

desespera-me – o termo é mesmo esse – que se tenha assistido a um festival de falsidades sobre o conteúdo da lei e que o mundo se tenha mostrado contrário aos Partidos Políticos. Porque foi isso que aconteceu. Não aconteceu uma defesa do financiamento exclusivamente público ou, ao contrário, uma defesa do financiamento privado (a juntar ao público) devidamente titulado e fiscalizado. Pelo contrário, com a ajuda por vezes escabrosa da comunicação social, os Partidos Políticos foram reduzidos a sacos de boxe, sem direito a um cêntimo, num lodo desmemoriado da luta travada para que existisse democracia e, com ela, precisamente, os Partidos Políticos. Passou a ser impopular assumir que a democracia tem custos e que é bom que os Partidos Políticos estejam de boa saúde.

Foi triste ver o BE a pôr-se de fora do diploma antes mesmo do veto do PR.

Foi triste ouvir Assunção Cristas, que depende exclusivamente do OE, não vamos ser ingénuos, dizer que a aprovação da lei foi “escandalosa”. A líder centrista não se limitou a dizer que não concordava com duas normas – perfeitamente legítimo -, antes pôs-se de fora de um procedimento legislativo que aceitou e com o qual colaborou. Vai daí e clama por um veto político do PR, o qual evidentemente não teria acontecido se não fosse a coisa mais popular de se fazer. Alguém tem dúvidas?

Esteve bem, muito bem, Ana Catarina Mendes a explicar o conteúdo exato do diploma e a assumir a adesão do PS ao mesmo.

[...]

Isabel Moreira

Bravo

“O balanço que faço não é positivo. Não vejo, no Ministério Púbico, a eficácia que gostava de ver. Não vejo, no Ministério Público, o recato que entendo dever existir. Porque os julgamentos não são para ser feitos na praça pública. Não são para ser feitos nas primeiras páginas dos jornais. São para ser instruídos e acusados através do Ministério Público e depois são para ser feitos nos tribunais. Não concordo, à luz do que deve ser a democracia na sua vertente substantiva — que são os direitos substantivos das pessoas e a liberdade de cada um. Não simpatizo nada que os julgamentos sejam feitos assim. Não estou com isto a dizer que estou a ilibar quem quer que seja, que possa estar condenado na praça pública. Acho que o Ministério Público, em muitos casos, deixou passar muita informação cá para fora, o que não deve acontecer num Estado de Direito democrático.”


Rui Rio

Exactissimamente

"Ser oposição não é mostrar ser contra aquilo que faz um governo", afirmou o social-democrata, "é mostrar que se é melhor do que o governo e que se merece ser governo, em vez do que lá está".

Pedro Santana Lopes considerou ser "deprimente" e "sufocante" ver o "espetáculo das oposições sempre a discutir com os governos em funções".

"Tenho da vida política uma perspetiva completamente diferente e penso que é muito mais bonito, estimulante e útil para a sociedade se as oposições, em vez de discordarem, mostrarem as alternativas que têm", declarou o candidato.


Fonte

Revolution through evolution

Short-term exercise equals big-time brain boost
.
Weekly fish consumption linked to better sleep, higher IQ
.
Is punishment as effective as we think?
.
Try exercise to improve memory and thinking, new guideline urges
.
Social Relations in Older Age May Help Grandma Maintain Her Memory
.
“The Post” Movie and Freedom of the Press–NYU’s “First Amendment Watch” Explains the Pentagon Papers’ Case
.
For a Healthier 2018, Find Purpose in Life

Muito obrigado, Passos Coelho

Portugal pode ser um dos Países mais abertos e uma das sociedades mais democráticas da Europa. É esse o nosso horizonte.


Passos, 2011, discurso da tomada de posse

__

Vamos entrar em 2018 com essa certeza, Portugal ser uma das democracias mais abertas, plurais e originais na Europa, quiçá no Mundo. O sectarismo da esquerda, esse bloqueio sistémico que servia os interesses da direita, foi pela primeira vez suplantado pela responsabilidade que PCP e BE tiveram ao viabilizarem um Governo minoritário do PS. Resultado? A maior crise de sempre na direita por causa do maior sucesso de sempre da esquerda em Portugal após o 25 de Abril.

E tudo isto graças a Passos. Não só já o antecipava qual vate em 2011, depois de ter afundado o País por imposição do aparelho e da oligarquia, como ao ter faltado à palavra dada e ao se oferecer entusiasmado para empobrecer os portugueses a mando dos fanáticos espalhou a inaudita violência que foi o ingrediente decisivo para a receita governativa que está a fazer História. Pode sair de cena com a satisfação de ter contribuído com o pior de si próprio para este cósmico alívio de sabermos que nunca mais teremos de voltar a suportar o seu carácter traidor.

Venha um 2018 acima das nossas possibilidades e da nossa falta de imaginação, exactamente como aconteceu em 2016 e 2017.

Na sombra dos inúteis

Antes dos incêndios de Pedrógão, os bons resultados do Governo estavam a deixar a oposição (a oficial partidária e a oficiosa jornaleira) em crescente e sofrido desespero. Como vimos noutras conjunturas, e que não será exclusivo da direita mas talvez muito mais frequente nela por razões antropológicas, nesse estado qualquer boa notícia para o País é sentida como mais um golpe na auto-estima, mais uma ameaça à identidade dos infelizes que estão reduzidos ao maniqueísmo compulsivo. A vitória da Selecção no Campeonato da Europa ficava como um azar, a vitória de Portugal na Eurovisão como propaganda, a entrada de cada vez mais turistas como uma das trombetas do Apocalipse. A bílis correu caudalosa à medida que o Diabo não aparecia, sequer nos pequenos detalhes, e em que o sucesso na Economia, no Parlamento e na Europa deixava Costa como um semideus capaz de mover montanhas e fazer milagres. Este era o tempo em que o actual primeiro-ministro tinha já encomendada a estátua de maior habilidoso na política nacional desde as cortes de Lamego.

Veio Pedrógão, impossível de prever e de evitar. Veio Tancos, que continua em investigação sem qualquer nexo causal ou relacional com o Ministério da Defesa. Veio Outubro, aqui com falhas óbvias na governação e, especialmente, com a hérnia do regime chamada Marcelo. De repente, Costa era mais bisonho do que um recém-filiado na juventude do PURP (Partido Unido dos Reformados e Pensionistas). O que passava a dizer e o que deixava calado só adensava o peso da sua incompetência. E com isso espalhou-se um sentimento de alívio, de júbilo, de frenesim na oposição partidária, na oficiosa e na de ocasião. Todo o cão rafeiro aproveitava para morder no primeiro-ministro e seu bando de ministros, gente do pior. Se fossem sérios andavam era a trabalhar, não se metiam naquilo, eis o sumário executivo que a comunicação social entretanto completamente tabloidizada (só varia no grau) acredita que chega para vender papel e cliques.

E Costa, no meio disto? Sou insuspeito, pois não lhe aprecio o estilo e certas decisões, certas companhias. Mas é cristalina a sua alta qualidade de estadista e de servidor público. Ao se oferecer para o cargo de primeiro-ministro, para lá da motivação subjectiva que poderá nunca vir a ser conhecida publicamente ou só daqui a muito tempo, o que mais impressiona é a radical diferença entre a complexidade e esforço da sua função e a displicência e irresponsabilidade dos directores de imprensa, jornalistas-comentadores e demais publicistas com poleiro em órgãos profissionais e ditos de “referência”. São pessoas que, muito provavelmente, nunca aceitariam passar por experiência similar, ou que lá chegadas não aguentariam nem a milionésima parte do que o currículo de Costa prova que aguenta. Todavia, cagam sentenças a metro e ao peso, saturando a mancha da opinião publicada na imprensa escrita e audiovisual. Aliás, são os mesmos aqui e ali, ubíquos e repetitivos. A sua produção verbal é uma logomaquia narcísica – inevitáveis e salubres excepções à parte. Sem saberem, sem olharem para o chão que os suporta, na sombra dessa montanha diária de sectarismos e inanidades refulge imperceptível a heróica vocação daqueles que aceitam sujar as mãos e a esperança nas muralhas da cidade.

À série


2017_Pedro Bidarra_1ª temporada

A série A Criação dá que falar. Dá para dizer que não gerou conversas públicas. Que se tornou um alvo do Correio da Manhã, continuando um ataque anterior ao autor que também pretende atingir a actual direcção da estação pública e a sua reputação. Que mostra um mundo de difícil descodificação para quem não for do meio publicitário ou do marketing. Que apresenta alguns episódios iniciais com muito boa qualidade de produção. Que tem uma realização brilhante quando tem espaço para isso. Que está mal escrita, pois é raro ter graça ou pertinência, e porque não tem interesse dramático. E que fica como um notável insucesso que, apesar disso, permite aplaudir a política de investimento na ficção televisiva nacional que a RTP tem promovido.

É fácil dizer bem do conceito e mal da intenção. Retratar os tipos das agências e dos “clientes”, com os seus traços característicos, maneirismos e anedotas associadas, pode dar uma série televisiva com popularidade. Optar pela farsa e pela sátira, usando a caricatura animal como abstracção e subtexto, continua a ser viável mas obriga então a uma profundidade narrativa de elevada complexidade se a ideia ainda for a de servir públicos eclécticos. Mas apenas ter como alimento no enredo um incurável ressentimento contra a classe onde se foi rei não é suficiente para puxar a carroça. Esta série é intencionalmente ordinária e ressabiada, primária e infantilóide, uma catarse que se esgota na tortuosa persona profissional do Pedro. O seu maior pecado, porém, consiste na pobreza criativa que exibe enquanto história.

A classe dos publicitários portugueses é conservadora, discreta e está praticamente destruída pela crise económica e pelas alterações tecnológicas. Acontece nesta indústria o mesmo que vemos nos jornais, o fim de um paradigma por causa das alterações sistémicas no consumo da informação e nos modelos e processos das trocas sociais. O Pedro saiu de cena quando as regras do jogo mudaram, o dinheiro já não corria nos canos por onde passara durante décadas de boa vida para esses artesãos das micro e nanonarrativas. Enquanto pôde impor a sua visão, ele destacou-se por combater furiosamente a ignorância e a banalidade a que produtores, gestores e decisores dos reclames se agarram inevitavelmente por medo do que é novo, forte, arriscado. Se voltar a ser autor de ficção televisiva, ou cinematográfica, ou teatral, tem no seu passado a bússola que faltou neste projecto. Ou seja, já tem em si o essencial. O resto é só a criação.

__

Os 10 episódios prontos a servir aqui

RESSALVA

Trabalhei com o Bidarra durante quase dois anos numa agência de publicidade, embora em departamentos diferentes. A relação entre essa experiência e as opiniões acima vertidas não é mera coincidência.