Arquivo da Categoria: Valupi

Isto é lindo

Vai ser mais um acontecimento inédito na história da justiça portuguesa. Desde que esta prática foi criminalizada em Portugal pelo Código Penal em 1995, nunca houve ninguém a cumprir uma sentença na cadeia por ser simplesmente um traficante de influência. Nos últimos cinco anos, de acordo com o que o Expresso conseguiu apurar junto da Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP), houve apenas um caso em que uma pessoa foi enviada para a prisão por um conjunto de crimes que incluía o tráfico de influência, mas não há um único arguido preso pela autoria exclusiva desse tipo de crime. Foi preciso esperar mais de duas décadas para isso estar prestes a acontecer, quando se esgotaram todas as hipóteses de recurso à disposição da defesa do antigo ministro Armando Vara para tentar anular a sentença de cinco anos de prisão efetiva de que foi alvo em 2014 num tribunal em Aveiro como arguido do processo ‘Face Oculta’ e quando a sua entrada na cadeia é dada como eminente.

Depois de a última porta a que podia bater, o Tribunal Constitucional, se ter recusado no verão deste ano a apreciar um pedido apresentado pelo advogado de Armando Vara, a sentença transitou em julgado e o processo vai ser devolvido a qualquer momento à primeira instância, na Comarca de Aveiro. Dez anos depois de ter sido iniciado com a abertura de uma investigação conduzida pelos procuradores João Marques Vidal — irmão da ex-procuradora-geral — e Carlos Filipe Preces e por um inspetor histórico da Polícia Judiciária, o crachá de ouro Teófilo Santiago, o caso chega definitivamente ao fim.

É esperado que assim que esse trânsito em julgado seja declarado num despacho do Tribunal Constitucional que irá acompanhar a devolução do processo a Aveiro, a primeira instância remeta para um tribunal de execução de penas um mandado de condução ao estabelecimento prisional, de forma a que a ordem seja cumprida. No entanto, o juiz-presidente da comarca, Paulo Brandão, explicou ao Expresso que, por se tratar de “um processo tão complexo”, pode demorar algum tempo até que sejam emitidos os mandados para os vários arguidos condenados a prisão. “Vão ter de ser reanalisados os cúmulos jurídicos das penas e verificados se não foram ultrapassados os prazos de prescrição dos crimes, que não pararam de contar, mesmo depois das condenações”, esclareceu aquele magistrado. Uma fonte ligada ao processo diz que, de qualquer forma, a prescrição dos crimes não se coloca no caso do ex-ministro socialista.

Armando Vara é o primeiro preso por tráfico de influência em Portugal

O Sr. Rosa alucina porque o deixam alucinar

4. Que Francisco Louçã é sectarista e intelectualmente desonesto, não é grande novidade. A questão é saber:

porque razão protege e defende Sócrates quando este foi o seu principal adversário no Parlamento?
Porque Louçã sempre soube que a Operação Marquês colocaria em xeque o PS. O ex-líder do BE sabe que um PS eleitoralmente fragilizado e marcado pela corrupção (como o PT no Brasil), pode beneficiar o Bloco mas beneficiaria muito mais o centro/direita e catapultaria o PSD e o CDS para muitos anos no Governo.


Luís Rosa

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Os seis anos dos dois governos Sócrates foram precisamente isso: uma farsa. Entre 2005 e 2011 tivemos, com raras e honrosas exceções, uma imprensa controlada, medrosa e submissa face ao Rei Sol chamado José Sócrates.

Não deixa, por isso, de ser assustador ouvir o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa falar na hipótese de uma intervenção do Estado para salvar a comunicação social da crise económica em que está mergulhada quando tivemos há poucos anos um primeiro-ministro que tentou dominá-la para se proteger do escrutínio jornalístico.


Luís Rosa

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Luís Rosa é um dos mais fanáticos entre os fanáticos que fazem o Observador. Nada contra, nem contra uma coisa nem contra a outra. Há muito dinheiro a ser gasto com um tipo de fanatismo que tem uma agenda politicamente óbvia – o que começa por ser meritório – e o modelo de negócio com esta despesa, que nada tem a ver com o ideal jornalístico, encontra-se explicitado na lógica dos investimentos de risco: se atingirem os seus objectivos, terão lucros 10 ou 20 vezes maiores do que o capital investido. Como? Conseguindo levar para o Governo quem propicie aos accionistas negócios cuja escala leve a esses ganhos. Não há mistério algum nisto, é assim desde que há memória nas sociedades liberais (nas outras, acabando por ser o mesmo, é bem pior) e é daí que vem a cassete com que atacam os adversários, erigidos como espelhos cristalinos daquilo que eles fazem desde o berço ou desde a tomada de consciência da gula ilimitada calhando não terem berço. A liberdade, no plano dos princípios, fica bem servida com a actividade mediática deste grupo que não se envergonha por defender e promover a direita decadente. Mas tal não os isenta de crítica (etimologia: análise), bem pelo contrário; sendo que no caso precisamos de uma crítica radicalmente diferente daquela de que estes decadentes alegam possuir o monopólio.

Bastam estas duas citações acima para ficarmos com material para um seminário de mestrado. Na primeira, começa por ser uma delícia ver o Sr. Rosa carimbar como “sectarista e intelectualmente desonesto” Louçã. Não que ele tenha dito um disparate, pois Louçã encaixa na definição com precisão milimétrica, mas porque o que se segue na argumentação apenas consegue demonstrar que o único sectário e desonesto intelectual naquele parágrafo é o próprio autor. Partindo do infantilismo de considerar rixa pessoal os confrontos parlamentares quando Sócrates era primeiro-ministro, de imediato nega a Louçã a liberdade de pensar pela sua cabeça, de ter critérios morais e éticos diferentes dos seus, até de ter informação que ele desconheça. Então, consuma a deturpação projectando em Louçã o que ele, o fanático que persegue profissionalmente Sócrates e o PS, imagina e deseja: muitos anos de Governo para o PSD e o CDS graças à “Operação Marquês”. Na segunda, repete a mais patarata das calúnias que os direitolas agitam desde 2007, sem conseguir perceber o nível de ridículo atingido por defender duas ideias contraditórias de rajada: ou a imprensa, entre 2005 e 2011, era livre e daí Sócrates ter tentado dominá-la como tirano que o pinta para se proteger da “verdade”, ou a imprensa estava controlada – salvo raras excepções, como afirma – e então não se entende por que raio Sócrates precisava de se chatear e arriscar ser apanhado pela gente séria de Aveiro.

Nesta tese de que entre “2005 e 2011 tivemos, com raras e honrosas exceções, uma imprensa controlada, medrosa e submissa face ao Rei Sol chamado José Sócrates” não se dão exemplos. Nem um. Nem um exemplo do que o Sr. Rosa considera uma rara e honrosa excepção, nem um exemplo do que considera uma imprensa controlada, medrosa e submissa. Nem um, nunca. Este aspecto é o que quero realçar pois é a manifestação de um fenómeno muito mais vasto, e muito mais interessante, do que o fanatismo do indivíduo em causa. Podemos conceber uma experiência mental em que alguém o obriga a demonstrar a tese. Que iria dizer? Em que recanto do seu bestunto iria encontrar neurónios para sustentar que no país do império Balsemão (do Crespo, do José Gomes Ferreira, do mano Costa e seus convidados), do Público do Zé Manel carrasco a mando da Sonae, da TVI do casal Moniz e do Marcelo, da RTP da Judite e do José Rodrigues dos Santos, do Sol do taralhouco, da Renascença da Igreja, do DN do Marcelino e da brigada laranja ao tempo, da TSF do Baldaia, do i do Martim Avillez, e da Cofina da criminosa indústria da calúnia, tínhamos uma “imprensa controlada, medrosa e submissa”? Foda-se, senhores ouvintes, a alucinação por que teria de passar para essa façanha deixaria o Sr. Rosa incapaz de conduzir veículos motorizados, ou que fossem a pedais, durante umas horas valentes.

Não faço ideia de qual seja a percentagem nas intervenções mediatizadas, pois tal implicaria fazer-se um levantamento estatístico, mas empiricamente é certo e sabido que quão maior for o sectarismo de uma dada posição política maior será o uso de falácias, distorções cognitivas e puras mentiras sem qualquer fundamento objectivo. Discursos como o do Sr. Rosa, ubíquos nas campanhas eleitorais para enganar o patego e típicos do que os decadentes consideram o “fazer política”, são atentados contra a racionalidade e a boa-fé. Por que razão não só persistem como aumentam de tom e se multiplicam nestes tempos de triunfo das demagogias mais básicas e absurdas? A causa principal está no papel dos jornalistas no fenómeno. Não só eles são incapazes de expor os caudalosos erros de argumentação a que dão palco e alcance como muitos deles ambicionam usufruir do mesmo papel manipulatório dos políticos sectários e dos comentadores fanáticos. Em vez de a imprensa ser um crivo onde se distinga a honestidade da desonestidade intelectual, para que as audiências disponham da melhor informação com que construir as suas livres opiniões e a partir delas exerçam a cidadania e utilizem o voto para uma escolha fundamentada, temos os órgãos de comunicação social cheios de uma fauna que faz da sua venalidade uma carreira, que da política só quer a preguiça e a cobardia de nada ter de decidir em nome do Soberano.

Revolution through evolution

Harmful, unfounded myths about migration and health have become accepted, used to justify policies of exclusion
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Gender bias sways how we perceive competence in faces
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People Who Prefer Casual Sex Still Desire Intimacy
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As married couples age, humor replaces bickering
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Study finds bad bosses could turn you into a great boss
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How you respond to drama depends on if you are a holistic or analytical thinker
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Political Lessons from the Past

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Yale Psychiatrist Bandy Lee on Donald Trump: “His disorder is on display for the world to see” <- Oferta do nosso amigo Joe Strummer

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Os 3 Javardos

João Miguel Tavares teve um mês de Novembro glorioso, a fazer lembrar façanhas anteriores; em que usou os seus filhos menores para produzir a meias com António Costa uma operação publicitária, por exemplo, e a epifania sobre a carreira de caluniador que iria abraçar deliciado, ocorrida quando foi lançado para o estrelato graças a uma acção judicial contra si promovida por Sócrates, outro exemplo. Desta vez, e só contabilizando o que me apareceu à frente, viu-se citado ou referido por Vicente Jorge Silva, Miguel Sousa Tavares, David Dinis, Pedro Marques Lopes e Francisco Assis. E ainda recebeu uma carta aberta do Ministro do Ambiente e da Transição Energética. Correm boatos de que Pacheco Pereira e Marques Mendes igualmente vocalizaram o seu nome em sotto voce nos estúdios da SIC mas pediram sigilo mediático. João Miguel Tavares é um caluniador profissional. A questão que me ocupa no resto da prosa é a seguinte: o seu inigualável sucesso nesse exclusivíssimo clube do comentariado nacional ocorre apesar de ele ser um caluniador profissional ou por ser um caluniador profissional?

Que é um caluniador profissional não carece de discussão. É o próprio quem o passou a reclamar com alucinado orgulho. Fez da sua contumaz violação do Estado de direito o meio para vender os seus serviços, explorando e amplificando crimes cometidos por agentes da Justiça e jornalistas e abolindo o princípio da presunção de inocência e restantes direitos e garantias de certos arguidos – os quais trata como alvos legítimos para qualquer tipo de abuso que lhe pareça aproveitável com o fito de continuar a ganhar dinheiro à custa dessas vítimas. Esses serviços incluem a repetição da agenda bélica dos “ultras” no PSD ligados à violência política chefiada por Passos, a perseguição obsessiva a Sócrates e terceiros que com ele se tenham relacionado privadamente ou funcionalmente, e também o berreiro a favor de um combate político sem discussão de ideias e apenas baseado na judicialização da política e na politização da Justiça. Quem perder o seu rico tempo a ler os comentários que o seu pelourinho no Público convoca irá encontrar uma audiência que aplaude os linchamentos que o artista serve semanalmente. O perfil-tipo desses comentadores exibe alienação e fanatismo depressivo e impotente. O que conseguem entender do mundo à sua volta, do funcionamento das instituições e agentes sociais, da natureza humana, é um fragmento do que conseguem perceber da realidade apenas olhando para a janela a partir do cu-sentadismo com que teclam furiosos contra os “corruptos” e os “socialistas”. Alguns aproveitam para dar vivas a Salazar, outros mal escondem (ou mostram impunemente) o desejo de molestar ou mesmo balear os bandidos apanhados pelo autor, quase todos comungam de tortuosas limitações cognitivas onde o que escrevem poderia ser apresentado em consultas de psiquiatria como fundamento para baixas médicas compulsivas.

Estes indivíduos são a fonte das métricas que colocam João Miguel Tavares como a vedeta principal da opinião do Público, destacadíssimo dos seus pares. Engolem tudo sem sequer mastigar. O caluniador profissional pode atribuir a Sócrates, ou a quem lhe apetecer, qualquer tipo de responsabilidade e de culpa que o resultado é invariavelmente o mesmo, o aplauso e regozijo por encontrarem validada na “imprensa de referência” a diabolização que os justifica na sua miséria intelectual e moral. A lógica é exactamente igual à que se segue na Cofina, misturando-se os ataques políticos de políticos com as suspeitas judiciais de agentes da Justiça num composto onde esses dois ingredientes se reforçam um ao outro e multiplicam a sua força destruidora – as suspeitas dos procuradores provam as calúnias dos políticos, os quais deixam de ser caluniadores e passam a profetas graças às suposições dos procuradores inspiradas nas calúnias dos políticos que, vê-se agora, eram já a antecipação das provas que o Ministério Público reuniu num megaprocesso que equivale à tentativa de colocar um partido e seus Governos em julgamento criminal. É não só um círculo vicioso quanto viciante, tendo levado o narcisismo do caluniador profissional para um êxtase onde se cita com regularidade e onde faz da sua actividade de caluniador algo equivalente ao Desembarque na Normandia. Aposto que já tem mármore encomendado para a estátua onde ficará eternizado ao lado do Zé Manel e do Rui Ramos por cima de uma pilha de volumes da “Operação Marquês”. Quando este senhor protesta contra a demora em encarcerar um cidadão apenas porque, através de crimes, se publicaram excertos de escutas e de interrogatórios judiciais e esse mesmo senhor declara já não ser preciso esperar pela acusação e pela sua defesa em tribunal, concidadãos com a antiga 4ª Classe ficam banzos com a celebração – num órgão de comunicação social dito da imprensa que se respeita a si própria como imprensa – da mais nefasta violência que é possível conceber a seguir à da guerra: o apelo à justiça popular e ao linchamento que subjaz ao argumentário e retórica usados.

O problema, claro, não é a pessoa e figura triste do João Miguel Tavares. O seu ar de satisfação alarve dispensa intérprete. O homem está maravilhado com a facilidade com que enche os bolsos mensalmente só a carimbar como “corruptos” este mundo e o outro, intervalando apenas para deixar odes a Passos e mandar beijos para os seus colegas caluniadores profissionais. Conseguiu até difamar e ofender os accionistas da TSF, onde primeiro apareceu o Governo Sombra e lá continua a passar, numa prova de que a sua farronca se transformou em método comercial: ele calcula que há mais dinheiro para ganhar se voltar a passar por mártir dos “socráticos”, pelo que anda a pedir que o ponham a andar ou em tribunal para aumentar o seu preço na indústria da calúnia. Se tivesse continuado no Correio da Manhã, ou se for para o Observador, deixaria o mundo de estar desordenado e não se justificaria falar dessa peçonha. Ficaria no seu meio natural, junto dos seus. O problema é a Sonae, através do Público, pretender ser representada civicamente por um profissional da calúnia. E se chamar à liça o accionista poderá parecer abstracto de mais (quando o contrário é que é verdadeiro), então o actual director e o principal fundador do jornal não podem escapar à sua responsabilidade directiva, deontológica, moral, cívica e, portanto e por tanto, política.

Quando Manuel Carvalho se insurge em editorial contra aqueles que apelam ao derrube das instituições democráticas para as substituir por “caudilhos” e “salvadores da pátria”, está a falar a sério ou na reinação? Está a falar de algo fundamental para o jornalismo tal como o pensa e pratica ou de algo irrelevante e sem ligação com a sua carteira de jornalista e posto hierárquico num órgão de imprensa? Se a sério e de algo fundamental, concebe o jornal que dirige como uma plataforma onde esses que minam a democracia e fazem terrorismo cívico podem ter voz e destaque ou, precisamente ao contrário, concebe o jornal que dirige como um instrumento da defesa da liberdade e da democracia, da salubridade do espaço público, da integridade da República e da coesão da comunidade? Quando Vicente Jorge Silva demonstra analiticamente que um certo colunista no Público andou a legitimar um fascista, tal exercício é a sério ou na reinação? Ver alguém a usar o jornal que fundou para normalizar e defender quem “se propõe mergulhar o Brasil no coração das trevas” é assunto desprezível ou crucial para o cidadão e pessoa Vicente Jorge Silva? Que terá o Vicente a dizer quando vê o projecto de jornalismo e decência que lançou e dirigiu a ser usado como meio de perseguição e assassinato de carácter contra o Domingos Farinho?

O silêncio destas autoridades directivas e morais sobre as pulhices não só escarrapachadas como muito bem pagas no seu jornal leva-me a concluir que o sucesso do João Miguel Tavares ocorre não apesar mas por causa da sua tipologia difamatória, panfletária e ofensiva da honra de terceiros, da dignidade das instituições e do respeito pelos princípios fundantes do Estado de direito democrático. Pelo que se o Público está satisfeito com o serviço do seu caluniador profissional, como se induz e deduz, recomendo a contratação de João Pereira Coutinho e José Diogo Quintela. No muito que têm em comum, mas tanto, incluo o pormenor de cada um dos seus primeiros nomes começar por J. Ocasião criativa para o Manuel Carvalho inventar uma secção que seria um sucesso instantâneo e duradouro quanto ao número de comentários dessa querida turbamulta de archote, forquilha e cordame na mão: “Os 3 Javardos

A Graça e a Gravidade

Foi então assim. Ia avançado o ano de 2018 quando uma ministra da Cultura do Governo de Portugal ficou parada, de pé, algures no México. Objectivo: responder a perguntas de jornalistas portugueses. Uma dessas perguntas remetia para uma manchete de um semanário português. Quem a interrogava queria obter declarações da ministra sobre essa notícia. A ministra não quis comentar e – por razões que remetem directamente para a singularidade que deu origem a este universo há 13,7 ou 13,8 mil milhões de anos (a diferença é alvo de acaloradas discussões entre os cientistas, se alguém tiver informações que ajudem a esclarecer a disputa é favor chegar-se à frente) – deixou que a sua boca e garganta fizessem as contracturas musculares suficientes para o ar circundante propagar sons cuja descodificação em cérebros humanos a funcionar razoavelmente corresponde a estas palavras e respectiva pontuação:

Sabe, uma coisa óptima de estar aqui em Guadalajara há quatro dias é que não vejo jornais portugueses...

Fulanos adeptos da violação do segredo de justiça onde se passe na TV não apenas os sons mas também as imagens dos interrogatórios de arguidos, acusados ou meras testemunhas, em ordem a que esses valentes se deleitem de comando na mão na descoberta dos inevitáveis sinais de corrupção da bandidagem filmada manhosamente nos estúdios do Ministério Público, estão em óptimas condições para perceberem que a declaração da ministra ocorre no meio de uma afável e descontraída conversa com a jornalista que faz a pergunta. O seu rosto está sorridente, a expressar a capacidade para representar na sua subjectividade a intenção bondosa e convencionalmente provocatória da pergunta nascida numa subjectividade alheia. O contexto dialógico remetia exclusivamente para a temática das touradas e a ministra nada mais tinha a dizer naquela ocasião sobre um assunto que se tinha transformado numa tempestade política a partir do aproveitamento de um vocábulo pesadamente polissémico dito por si em público enquanto ministra. Esse passado era a fonte da energia mental que envolvia interrogadora e interrogada. Donde, fez o possível para negociar com a jornalista uma trégua. A expressividade do seu rosto antes de responder e o pedido de desculpas que acrescentou de imediato após o desabafo sobre os jornais por (supostamente) não ter visto a tal capa do Expresso chegam para mostrar que o episódio ocorria adentro de intencionalidades absolutamente banais e locais. A declaração, portanto, não se pretendia como um juízo sobre qualquer aspecto relativo aos referentes “jornais” e “portugueses”, antes e só ao sujeito locutor. Era para ela, a pessoa no papel de ministra da Cultura apanhada numa polémica bovina sobre touradas e só para ela naquela exacta circunstância em que a voltavam a confrontar inutilmente com esse passado ingrato e escabroso, que havia alívio em poder agarrar-se a uma desculpa para fugir da lide mediática. A desculpa saiu-lhe daquela forma porque lhe saiu sincera – fruto automático da empatia que sentia pela jornalista nessa interacção.

Isto é simples. O que se seguiu também. O Guerreiro-poeta apontou os canhões da sua escrita gongórica e disparou até à última munição no arsenal para um exercício ad feminamCultura de Graça. O pretexto era a defesa da tal manchete bravíssima e da excelência do jornalismo do semanário do militante nº 1 do PSD. Mas isso era pouco para o director de tão prestigiada instituição que até tem funcionários especializados em publicar notícias falsas sobre o Presidente da República e o primeiro-ministro, que inventa relatórios tão secretos que ninguém com responsabilidade os fez, que alimenta a politização da Justiça e a judicialização da política e não pede sequer desculpa pela conspiração, que funciona como um grupo de pressão do/no PSD. Havia que sacrificar Graça Fonseca no altar da sua prosa soberba e tão bem remunerada. Tinha sido a vítima a dirigir-se voluntariamente para a matança, ia descobrir o que acontece aos membros do Governo socialista que se atrevam a usar as palavras “jornais” e “portugueses” de forma ambígua. E o que acontece é serem reduzidos a um saco de porrada verbal cuja virulência atingiu a mais pura pulsão homicida. Pedro Santos Guerreiro consegue fazer da actual ministra da Cultura o bode expiatório da crise financeira e sociológica da imprensa em papel, uma notável cúmplice do plano do “poder” para acabar com a liberdade de imprensa recorrendo a respostas de 4 segundos em Guadalajara, e ainda um ser destituído de honra pessoal e módico tino que aceitou o cargo de ministra apenas para locupletar-se através de um cartão de crédito. O senhor escreveu e assinou isto, o senhor é director do Expresso.

Podemos esquecer todos os outros, e foram quase todos no comentariado nacional, que alinharam com esta violência. Que a validaram por actos e omissões. Que a celebraram consolados. Só não podemos esquecer que um suave chiste dito a nove mil quilómetros de distância acabou por nos revelar que a crise do jornalismo em Portugal não está tanto no desaparecimento de títulos e leitores. Ao contrário, parte principal dessa crise consiste na persistência de um tipo de suposto jornalismo como o que o Expresso pratica. A capacidade de usar os valores mais altos para os ataques mais baixos perverte fatalmente o sentido do jornalismo como baluarte da liberdade, da democracia e da salubridade do espaço público. A gravidade do texto odiento e canalha do director do Expresso não tem Graça nenhuma.

Revolution through evolution

Even if Doing a Good Job, Women CEOs More Likely to be Fired
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An understudied form of child abuse and ‘intimate terrorism’: Parental alienation
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Emotional suppression has negative outcomes on children
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Sexist Men Underestimate Their Power in Romantic Relationships
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Do you have a healthy personality? Researchers think they can tell you
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Why patients lie to their doctors
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Women Sleep Better with Dogs
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O homem que não pode ter primos, amigos e um tecto para dormir

Posto que nunca privei com ele, o que mais aprecio no Sócrates público, a seguir à sua paixão pela política, é a sua amoralidade. Este conceito não é de imediata nem fácil apreensão, requerendo algum trato prévio com os conceitos de moralidade e imoralidade para ser usado com eficácia pensante e comunicativa. A não ser para especialistas ou curiosos, o mais comum é confundir-se a amoralidade com a imoralidade. Essa confusão começa pela generalizada iliteracia acerca do que seja a própria moralidade. Pelo que o melhor é chamar personalidades retintamente morais na política portuguesa para ajudar à nitidez do retrato.

Por exemplo, Cavaco Silva, Marcelo Rebelo de Sousa, Paulo Portas e Passos Coelho são personalidades públicas que usam a dimensão moral como bandeira política e para efeitos de propaganda. Neles a moralidade aparece definida como declaração de integridade excepcional, como referência a entidades divinas com as quais reclamam ter uma relação especial, como ataque a adversários políticos usando categorias morais e ainda como exibição de sinais que mediática e popularmente podem ser explorados como manifestação de características morais. Há racionalidade pragmática nesta tipologia dada a sociologia eleitoral que lhes deu o poder e poderá continuar a dar nalguns casos. Compare-se com Sócrates, ignorando para efeitos da avaliação as campanhas negras e escândalos judiciais em que está envolvido. O que fica é um político que nunca difamou qualquer outro adversário, que nunca sequer lançou suspeitas de natureza moral como arma política, que nunca se arrogou uma superioridade moral que quisesse usar como bandeira política, que jamais deixou de viver a sua privacidade como lhe deu na real gana para simular ser “íntegro”, “honesto”, “humilde”, “poupadinho”, “predestinado” nas capas e ecrãs da comunicação social. Foi precisa e exactamente ao contrário, chegando ao ponto de cometer aparentes absurdos de relações públicas e de eleitoralismo na defesa da sua privacidade e bom nome, assim como da sua família e relações privadas. Como caricatura folclórica desta atitude, ele conseguia arranjar tempo para pegar no telefone e falar com jornalistas que ficavam espantados com a estultícia de quem assim se oferecia para ataques futuros contra os quais não teria defesa. Aqui entre nós que ninguém nos lê, é preciso estar-se tomado por uma ingenuidade patológica para achar que vale a pena estar horas ao telefone com o Henrique Monteiro por causa de uma edição do Expresso qualquer.

Políticos que usam a moralidade como capa hipócrita e recurso retórico estão constantemente prontos para disparar acusações de “imoralidade” em relação a adversários. A forma mais poderosa desta acusação é o carimbo “corrupto”, o qual funciona como sinónimo de “criminoso”, sendo o crime o grau mais alto da imoralidade. Sócrates ficará como o político que na história da democracia mais atacado foi do ponto de vista moral, sem qualquer exemplo comparável que possamos nomear. A paixão com que continua a ser perseguido e violentado é um monumento ao seu poder político, algo a que os seus adversários fazem diária e horariamente homenagem na forma da expressão do seu ódio – isto é, do seu medo. Ora, é nesse contexto, enquanto já está a ser julgado por suspeita de crimes gravíssimos, que Sócrates decide ir para casa de um primo, igualmente suspeito de ser seu cúmplice. Casa oferecida por um angolano (logo, inevitavelmente um corrupto). Qualquer caloiro de um curso de Relações Públicas, ou Política, ou Veterinária conseguiria explicar a Sócrates os efeitos incendiários desta sua opção junto de quem nem quando o vir carbonizado no Terreiro do Paço ficará descansado, ainda irá a correr buscar uma saca de sal. É precisamente por ele saber disso, e apesar do óbvio dano à sua imagem pública ter assumido fruir desse imóvel, que a sua atitude é brilhantemente amoral. Está para além do que os outros lhe querem impor como suposta correcção ou dever social. É uma escolha de quem sabe que a liberdade não tem de pedir licença à moral para ser essencial e existencialmente boa.

És tão bronco, Monteiro

«Um dos mais extraordinários fenómenos presentes é o mimetismo da linguagem da Comunicação Social em relação à de forças políticas e institucionais. Foi assim que uma votação coincidente de CDS, PSD, PCP e Bloco a favor do diálogo com os professores foi anunciada como coligação negativa. Curiosamente, um Governo do PS, apoiado pelo PCP e BE contra os vencedores das últimas eleições, não se considera uma aliança negativa. A conclusão, subliminar, é que o positivo apenas existe quando o PS participa.»


Henrique Monteiro

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Eis um pândego que não se limita a confundir a estrada da Beira com a beira da estrada, é contumaz na bronquite crónica de achar que PSD e CDS poderiam ter cumprido esta legislatura no Governo com menos deputados do que PS, PCP e BE. Como teria sido, como é que os gloriosos “vencedores” iriam impor o triunfo da sua vontade? Nem ele sabe nem os deuses, mas teria sido lindo pois os direitolas ficariam obrigados a cumprir os projectos de lei da esquerdalha durante 4 anos. Ou talvez não seja tão bronco assim, talvez se limite a ser bronco assado. O facto de o Parlamento ter encontrado – no mais puro e inaudito respeito pela Constituição e pelo espírito de Abril – uma solução de Governo que permitiu chegar ao fim da legislatura com um dos mais eficazes e populares exercícios executivos de que há memória em democracia é o que deixa o bronco com um agudo ataque de azia.

Esta direita identificada pelo discurso do ressentimento é a direita da impotência intelectual e comunitária, a direita da decadência. Durante décadas, usufruíram de um desequilíbrio no sistema partidário que impedia a formação de meros acordos à esquerda, quanto mais coligações eleitorais ou parlamentares (excepção para a política autárquica). Comunistas, primeiro, e bloquistas, até 2015, tudo fizeram para prejudicar o PS e ajudar a direita. Com isso, essa esquerda preferiu o fanatismo e sectarismo ao interesse nacional e ao genuíno e óbvio interesse dos eleitores que representavam. Como se viu no chumbo do PEC IV – e a cada dia que passa nesta legislatura é mais cristalina essa realidade até para os ceguetas que não quiseram ver – teria sido sempre possível chegar a acordo com os socialistas com o resultado prático de se puxar o PS para a esquerda sem que tal o levasse a sair do centro onde tem de ficar. Por que é que não se tentou antes o que em 2015 foi concretizado com as consequências que nacional e internacionalmente se reconhecem e valorizam? Porque a cultura tribalista do PCP não concebia outra alternativa à sua clandestinidade antropológica que não fosse a capitulação do imperialismo e do grande capital; ou seja, comuna bom era aquele que abdicava da democracia em nome dos amanhãs que apenas cantam, da revolução científica de que se consideravam proprietários monopolistas. O mesmo desfecho para o BE comandado pelo general Louçã, o qual numa madrugada em Setembro de 2009 apareceu embriagado de felicidade extasiante a anunciar a nova era da “esquerda grande” em que iria conseguir decapitar o PS e levar a sua cabeça podre à Soeiro Pereira Gomes numa bandeja. Menos de dois anos depois, o mesmo genial estratega estava a levantar-se ao lado dos deputados do PSD e do CDS para afundar Portugal e deixar entrar os carrascos da austeridade salvífica.

Henrique Monteiro acha que o acto soberano de legitimar na Assembleia da República um Governo está ao mesmo nível de votações parlamentares avulsas, tacticamente volúveis e oportunistas. Para ele, e foi a sua única motivação para encher o chouriço no Expresso, a mensagem a passar é a de que o actual Governo é “negativo” dado ter corrido com o “positivo” Passos Coelho – o qual, depois de 4 anos a castigar os madraços, os estroinas e os piegas que viviam numa zona de conforto bem acima das suas possibilidades, foi nas últimas legislativas o grande conquistador da minoria absoluta.

A direita com raiva a morder na direita raivosa, o retrato acabado da decadência

«Mas sobra-lhe, a essa direita, uma data no calendário: a do julgamento de José Sócrates. Qualquer que seja o resultado, dará margem para um discurso que já foi testado à distância com esta eleição brasileira: ou é o PS que é corrupto (se Sócrates for dado como culpado); ou é o sistema que está corrompido (por não ter culpado Sócrates). O argumento pode repetir-se para Ricardo Salgado, porque para esta direita um e outro são (apenas) a face e contra face da mesma moeda.

Sim, esta nova direita quer correr a pista justiceira, antecipando na política um julgamento que ainda não se concluiu na justiça. Porque é o que lhe resta – e o que lhe resta cola bem com o seu ressentimento: o combate à corrupção, o discurso da elite cartelizada, do país amarrado. Dirá que é preciso menos Estado porque o Estado é corrupto. No Brasil foi Lula e a Petrobras, por cá foram Sócrates e o BES (como se a direita não tivesse tido os seus tristes pecados).

Isto pode não ser um programa eleitoral, mas é bandeira para uma campanha. Como se viu no Brasil, elas fazem-se cada vez menos com programas ideológicos, cada vez mais de discursos identitários, aqueles que unem muita gente diferente, afastando todos os outros. São políticos que promovem a divisão, que detestam o politicamente correto.»


David Dinis