Arquivo da Categoria: Valupi

Entregues à Cofina

Os jornalistas dispõem de direitos inerentes à liberdade de expressão, liberdade de informação e liberdade de imprensa consagrados na Lei, os quais lhes outorgam poderes especiais – e de grande influência potencial – sobre indivíduos, grupos, entidades públicas e privadas. Como contraponto a querermos viver numa sociedade onde se pratica livremente o jornalismo, a Lei igualmente estipula algumas limitações de consciência a uma prática com tamanha apetência para ser usada de forma danosa. Este o contexto para convidar à leitura do Código Deontológico que é suposto reger a profissão de jornalista. Em menos de cinco minutos, ficamos com o retrato idealista da função. E sorrimos tristes face à ingenuidade do texto quando confrontado pela experiência comum de consumir peças e intervenções jornalísticas que violam 13 ou 14 dos 11 pontos do Código.

Na Cofina não se satisfazem com o absoluto desprezo despejado quotidianamente sobre as matérias da ética e deontologia jornalísticas. Vão muito mais longe pois assumem o papel de se substituírem às instituições judiciais portuguesas (pelo menos estas, mas talvez sonhem em lançar uma polícia plenipotenciária internacional para caçar “corruptos”, tudo devidamente fotografado e filmado que é para as sentenças serem despachadas nos horários escolhidos pelos anunciantes). Tendo em conta que já tentaram constituir como arguida uma cidadã e jornalista, no que deve ter sido caso único nas democracias mundiais, assistir aos editoriais da direcção do Correio da Manhã e da Sábado onde declaram guerra contra o Estado de direito, contra um certo partido e contra certos políticos (e ainda contra terceiros relacionados privadamente com os alvos) é só lógico, coerente, um novo normal sancionado pelo regime. Contam com a cumplicidade do Presidente da República, do sistema partidário e da oligarquia. No Expresso e no Observador há regulares sinergias editoriais e declarações de solidariedade para com os trabalhos sujos que a Cofina faz com proveito monetário, agenda política sectária, populismo de direita e puro deboche soberbo.

Acima vemos um exemplo da violência que se aceita por vir da Cofina, violência cívica e política que muitos com grandes responsabilidades sociais celebram: o tratamento dado a Armando Vara. O director do jornal escolheu colocar na primeira página uma mensagem que estabelece uma qualquer culpabilidade deste cidadão. O contexto é relativo à investigação parlamentar em curso à recapitalização da CGD e às declarações de Alexandre Santos, ex-director de Empresas Sul da Caixa Geral de Depósitos, na II Comissão de Inquérito. De acordo com a única leitura possível da chamada de capa, o tal Alexandre Santos proferira afirmações que comprovavam ter Vara cometido algum acto ilegal. A linguagem policial escolhida, o uso do verbo “entregar”, veiculam a imagem de uma denúncia de um crime real por parte de quem o testemunhou ou dele foi cúmplice. Para os leitores habituais do CM, há anos a ler incontáveis variações da mesma acusação no mesmo pasquim, a promessa da “notícia” nem sequer consegue suscitar surpresa. Obviamente que alguém entregou Vara porque obviamente que Vara é culpado sem carência de provas. É culpado porque na comunicação social há quem jure que é culpado e disso faça um negócio, uma profissão de fé e uma festa. Vara é tão culpado, cogita informado o leitor-tipo do esgoto a céu aberto, que tudo o que se venha a provar contra ele só peca por tardio e por escasso. Muitos outros crimes, gigantes, cometidos por Vara nunca serão descobertos pois ele continua a ter a protecção dos restantes corruptos que estão em todo o lado: Estado, partidos, empresas, outros jornalistas que não sejam caluniadores profissionais; assim vai o contacto com a realidade e a decência nestes infelizes. É para a criação de uma legião de analfabrutos que a Cofina trabalha com o sucesso que se conhece.

Entremos na peça. Constatemos que ela está construída em cima de uma informação que não corresponde a qualquer actividade ilegal, sequer irregular ou moralmente duvidosa. A exploração caluniosa é feita apenas com o recurso à estupidez e desinteresse dos eventuais leitores. O discurso reafirma a crença que a audiência já possui cristalizada, não se perde um caracter a fazer jornalismo se por jornalismo entendermos o que o Estatuto e o Código Deontológico do Jornalista estabelecem. E se calhar perdermos o nosso rico tempo a ouvir o que realmente foi dito por Alexandre Santos – Audição de Alexandre Santos, Diretor de Empresas Sul da Caixa Geral de Depósitos – então não só fica patente que o ataque a Vara não tem matéria factual como exuberante irrompe a visão de uma típica operação de encobrimento por quem produz um sistemático assassinato de carácter e perseguição política. No caso, encobre-se a licitude da conduta de Vara, a normalidade do caso do financiamento a Vale do Lobo, a normalidade dos processos de financiamento na CDG, a normalidade das consequências da crise financeira e económica começada em 2008 para quase todos os investimentos e seus créditos e a decisiva responsabilidade colegial e administrativa na CGD que por completo dilui (ou alarga) qualquer eventual intento ilegal, seja ele qual for no campo das suposições.

Não faço a menor ideia se Vara cometeu algum ilícito enquanto foi administrador da CGD. Assim como não ignoro a razoabilidade da percepção comum de ser a banca um sector onde tais comportamentos encontram oportunidades variadas e muito tentadoras para ocorrerem. Apenas constato a sistemática degradação cívica nascida do constante emporcalhamento do espaço público. A quem interessa o afastamento dos cidadãos das instituições da República que os representam e servem? Esses mentores e algozes não querem que se pense pela própria cabeça a partir do acesso às fontes, aos factos. Preferem cultivar um clima social onde o ódio embrutecedor dos mais frágeis, vítimas dos efeitos mediáticos deturpadores e contagiantes, se constitui como força de pressão e desculpa para outras e sempre mais violências. Queremos mesmo ficar entregues a esta gente?

A favor da santidade de Cavaco

«"De facto, não me recordo de ter conhecimento completo - já foi há muitos anos - entre relações familiares dentro do Governo, mas, por aquilo que li, não há comparação possível em relação ao Governo a que dei posse em 2015. E, segundo li também na comunicação social, parece que não há comparação em nenhum outro país democrático desenvolvido", afirmou Cavaco, quando questionado sobre a questão das relações familiares no Governo.

"Nos últimos dias aprendi bastante sobre as relações familiares entre membros do Governo e confesso que era bastante ignorante em relação a quase tudo aquilo que foi revelado, mas entendo que não devo fazer qualquer comentário porque já foi dito tudo ou quase tudo e eu não acrescentaria nada de novo", disse.

Cavaco Silva adiantou, depois, que "por curiosidade" foi verificar a composição dos três governos em que foi primeiro-ministro e não detetou lá nenhuma ligação familiar.»


27 Março 2019

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É não só possível como altamente provável que Cavaco não se lembre do que fez, e deixou fazer, nos seus Governos. Passaram-se mais de 30 anos desde que se estreou como primeiro-ministro, amnésia natural. Acresce que a memória em todos nós é selectiva, tende a soterrar o que doeu e faz doer, o que atormenta, vexa. Mas seria faltar ao respeito ao líder histórico da direita decadente portuguesa, a figura viva que melhor representa o espírito reaccionário e sonso que sobreviveu ao 25 de Abril, se desprezássemos as suas palavras. E o que nelas encontramos é a seguinte revelação: Cavaco depende do que lê na comunicação social para construir a sua visão do que se passou consigo próprio ao longo da sua carreira política.

Lê, ouve e acredita. Acredita e repete à comunicação social o que descobriu na comunicação social. Por exemplo, ficou a saber que o actual Governo é muito diferente do então mesmíssimo Governo a que deu posse em 2015, e que essas diferenças fazem com que Portugal já não possa ser visto como um “país democrático desenvolvido”. Por já não ser democrático ou não ser desenvolvido? Tanto faz, branco ou tinto, quer é o copo cheio. Como tem o cuidado de frisar duplamente, isto são coisas que ele não inventou, que não lhe apareceram de repente na cachimónia vindas sabe-se lá de que intentos canalhas. Não, nada disso. Ele apenas leu e tão-só repete, mas foram os outros que disseram. Os outros, pá, os que escrevem as notícias fresquinhas que ele papa guloso ao pequeno-almoço.

A relação de Cavaco com os canais mediáticos tende a ser vanguardista. Como podemos recordar viajando até ao debate presidencial que teve com Manuel Alegre, em 2011:

MA – [atabalhoada, confusa, errada, inepta apresentação do caso das escutas]

JSCavaco Silva, quer responder?

CSQuero responder e mais do que isso… O sr. candidato anda muuuito distraído. Um candidato não pode andar distraído quando tem todos os seus meios à disposição. Pode ir consultar a página da Internet da Presidência da República e está lá tudo aquilo que eu devia dizer – e que é a verdade! Sabe, a verdade é muito fun-da-men-tal, principalmente para a resolução dos problemas de um país. Porque um cidadão in-for-mado, um povo informado, enfrenta melhor os problemas do País. A verdade gera confiança, enquanto a ilusão o que faz é gerar descrença.

Em diferentes ocasiões, enquanto Presidente da República, mandou jornalistas para o tal local na Internet onde estava a “verdade”, assim evitando perder tempo com declarações redundantes em certos assuntos para os quais não tinha paciência para aturar curiosos e atrevidos. Estávamos perante uma presidência digital, do mais avançado que se praticava no Mundo. Já quando Fernando Lima denunciou em público que – de facto, e como acabou por ser óbvio ainda em 2009 – tinha partido do Chefe de Estado a ordem para lançar a “Inventona de Belém”, aí Cavaco ficou caladinho. Explicação? Simples, a coisa tinha saído em livro. Ora, para quem tinha conseguido enfiar a “verdade” na Internet, deixava de fazer sentido gastar um segundo da sua atenção com esse meio tão arcaico para armazenar informação. Provavelmente, nem sequer terá reparado que Fernando Lima gastou 432 páginas só para inscrever na História que tivemos um Presidente da República conspirador e golpista, autor de uma inaudita violação do seu juramento e deveres constitucionais. Responsável por um colossal e cristalino atentado ao Estado de direito. Para Cavaco, essa gente que dá cabo das árvores só para sarapintar papéis com tinta não pode estar do lado da “verdade”. A “verdade”, pensa convicto e com toda a razão, jamais seria capaz de fazer mal ao lar dos passarinhos.

Há algum mistério neste ecossistema em que Cavaco tem a felicidade de encontrar na comunicação social uma imagem idílica da sua magnífica e impoluta pessoa? Népias. Podemos até ir buscar um cromo direitola para nos resumir o fenómeno em poucas palavras:

«O caso [compra e venda de acções do BPN por Cavaco e filha] passou e nunca se esclareceu totalmente se o lucro de Cavaco foi de favor. O desmentido do então Presidente acabou por ser de uma enorme competência, ao criar a ilusão de que havia um esclarecimento sem nada esclarecer. E de cada vez que surgia o assunto, os jornalistas eram remetidos para esse comunicado. Não foi, aliás, a única vez que Cavaco usou este expediente. Tudo isto é “normal” nas democracias, desde que o povo aceite.»

Fonte

Eis o máximo a que chega Vítor Matos, um dos mais activos caçadores de socráticos, socialistas e esquerdalhos actualmente ao serviço do Expresso, vindo do Observador e com a escola Cofina. Mas o quase nada chega para se expor o essencial, o sistémico “nunca se esclareceu totalmente se” Cavaco isto ou aquilo. Nada se esclarece e tudo se disfarça e oculta pois os jornalistas só têm uma vida e, acima e antes de tudo, têm patrões. Que o diga Marcelo Rebelo de Sousa, um cúmplice de Cavaco na “Inventona de Belém”, tendo posto o seu enorme poder mediático ao serviço de uma operação de limpeza que em menos de nada tinha voltado a permitir ao nosso querido Aníbal passear a vista com um sorriso rasgado pela paisagem dos jornais e televisões. Uma comunicação social nas mãos da gente séria, pois claro, daí conseguir diariamente encontrar “verdades” tão interessantes e úteis sobre os bandalhos socialistas que teriam de nascer duas vezes para serem tão “honestos” como o homem que não detectou ligações familiares nos seus Governos. O tal primeiro-ministro que favoreceu a Universidade Católica contra os interesses do Estado, só por acaso a instituição onde ele e a mulher foram professores durante anos e anos. Um santo.

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How superstitions spread
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Logical reasoning: An antidote or a poison for political disagreement?
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Tempos interessantes: Lobo Xavier defende o Governo da extrema-esquerda

«Lobo Xavier defendeu que "o alerta de crise energética teve dificuldades em ser aplicado enquanto as forças de segurança não endureceram um bocadinho a sua limitação e o seu combate à violação, à intimidação, ao insulto e à agressão". Procurando especificar a que tipo de intimidação se referia, Lobo Xavier explicou que foi aquela que foi exercida sobre "centenas de trabalhadores dispostos a conduzir camiões e que não se sentiam seguros".

Perante as críticas feitas ao Governo, o advogado advertiu que "não foi o Governo" quem não se preparou, mas sim os próprios transportadores: "Não levaram a sério o aviso de greve e nunca estimaram que a greve pudesse chegar ao ponto a que chegou e ter a dimensão, efeito e produção de incómodos ao funcionamento da vida em Portugal que chegou a ter."

Quanto aos serviços mínimos decretados, e admitindo que "ficava mal" ser o próprio a explicar, os parâmetros dos mesmos foram "basicamente definidos em cima da situação pelas empresas de transporte. O Governo concordou. Depois de estarem em práticas, percebeu-se que eram muito limitados", já que o país não se resume às áreas metropolitanas de Lisboa e Porto.

Em conclusão, Lobo Xavier saudou a forma positiva como esta greve foi concluída, até porque "podia ser trágica para o país e ter efeitos políticos que não sabemos até onde poderiam ir".

"Em Portugal culpa-se o Governo por tudo, para o mal e para o bem", concluiu.»


Fonte

Elon Musk fã nº1 dos Motoristas de Matérias Perigosas

Muito boa gente deu por si a fantasiar, entre terça e quinta-feira, que nunca mais seria apanhada com o depósito em baixo à pala de camionistas. Solução? O próximo carro ser um eléctrico, ou híbrido. Para além de todas as vantagens que já se conhecem, e de cada vez menos desvantagens (porque aumenta a autonomia e baixa o preço), ganhou-se outra razão altamente motivadora: levar a que a profissão de motorista de matérias perigosas se torne uma raridade sem qualquer poder sobre a liberdade de deslocação automóvel de particulares e empresas ao longo do ano.

Parabéns, pois, aos bravos que pararam o País. É que, como recomendam os sábios, há momentos em que importa parar para pensar. E o resultado vai ser o de se acelerar o processo de obsolescência dos combustíveis fósseis aqui na terrinha.

Que saudades do Pedro

Com o Pedro a mandar nisto, espalhando magnânimo a sabedoria adquirida nos altos voos proporcionados pelos aeródromos da Região Centro, não havia cá greves de professores, enfermeiros, procuradores, juízes, camionistas. O País vivia na maior das calmas, com os desordeiros, estroinas e madraços já na estranja, ou com voo marcado para fora da zona de conforto, e o resto do povo piegas com a bola baixa e a contar os tostões (que é para o que o povo tem jeito, é da genética). A situação era tão paradisíaca que alguns ministros até despachavam resoluções bancárias inauditas e catastróficas de chapéu de palha na cabeça e os pezinhos a chapinhar na piscina. A impunidade tinha acabado, o filha da puta estava preso. O tempo podia ser tranquilamente passado a vender o que restava das jóias do Estado.

Agora, com estes socialistas corruptos a mandar nisto, qualquer macaco acha que tem direito a uma vida melhor, exigindo mais dinheirinho no bolso só para o ir gastar logo a seguir a comprar isto e aquilo. Querem imitar a gente séria que tem empresas e posição, que tem apelidos. Que falta nos faz a Troika, esses senhores do Norte da Europa que fizeram o sacrifício de vir ao cu do Mundo dar lições a quem não se deixa governar.

Volta Pedro e traz a tua vontade indomável, o teu desprezo pelas eleições. Chega de greves e de consumismo, chega de regabofe. Basta.

(já agora, sempre é verdade que preferes votar Ventura a votar Rio?)

Marcelo e o sangue

O que Marcelo está a exibir ao se querer substituir ao Parlamento e ao Governo a respeito da nomeação de familiares para a Casa Civil não é do foro ditatorial, sequer de um secreto modelo presidencialista que fintasse a Constituição. A chave hermenêutica do episódio está no intento de ir até ao sexto grau na exclusão de familiares. A proposta começa por parecer o que é, absurda e sintoma de grave destrambelhamento dadas as suas responsabilidades no Estado e no regime. Passado um bocado, faz-se luz. Marcelo está-se a marimbar se o Governo ou o Parlamento lhe fazem a vontade, se lhe seguem o exemplo. A mensagem já passou, a comunicação social espalhou pelas cidades e lugarejos que por ele era tudo corrido com o anátema do sangue. Sangue impuro, ctónico, inaceitável nos seres angélicos que o bom povo adora.

Este homem é o mesmo que, como rei do comentário político em Portugal, foi sempre cúmplice do anterior inquilino do Palácio de Belém. Cavaco podia fazer o que lhe desse na gana, de facto promovendo o irregular funcionamento das instituições e pervertendo actos eleitorais, que para o Marcelo-estrela-da-TV-ao-serviço-da-direita não só estava tudo bem como era isso mesmo que Cavaco devia ser. Em mais do que uma ocasião expôs a doutrina: um Governo, ou um partido, que ataque o Presidente da República irá inevitavelmente perder o apoio do eleitorado – o que permite à Presidência da República exercer um poder político onde vale tudo. Assim foi com Cavaco, desde a Inventona das Escutas ao boicote do PEC IV, passando pela aliança com o PSD de Ferreira Leite e o discurso da tomada de posse do 2º mandato, só para recordar momentos historicamente decisivos no País.

Quando Marcelo aproveitou um ano de seca extrema e fogos com muitas vítimas para obrigar o Governo a demitir uma ministra, e a sofrer calado uma humilhação política oportunista e gratuita, estava a repetir o mesmo abuso de poder que tinha sancionado em Cavaco. Nesse transe de omnipotência, jurou que a problemática dos fogos se tornaria o critério mais importante para a avaliação do Governo e para decidir da sua própria candidatura ao segundo mandato. Um ano e tal depois, embriagado de catolicismo juvenil para as massas e televisões, já não se lembrava do que tinha feito e dito. O critério para a recandidatura era agora a sua saúde e o seu desejo de servir de cicerone a um papa. Qual é o padrão? É o mesmo que seguiu durante toda a sua carreira de bailarino e bufão da oligarquia, divertir-se com uma República que conheceu por dentro quando ainda era da outra senhora. Uma República que renasceu de uma revolução sem sangue para que o sangue antigo continuasse a circular e a reproduzir-se.

Até aos incêndios de 2017 e ao desaparecimento do material militar em Tancos, Marcelo Rebelo de Sousa simulou na perfeição ser o estadista certo no tempo certo. O País precisava do seu papel unificador para ser resgatado do resgate para que tinha sido levado pela direita do poder pelo poder em 2011. Ao aparecer a reconhecer o óbvio, que o Governo socialista estava a seguir por um caminho de devolução de rendimentos e direitos aos mais desfavorecidos e à classe média, Marcelo contribuiu para a estabilidade social e para o crescimento económico, serviu o interesse nacional. Valorizar as políticas de um Executivo nascido numa área partidária concorrente da sua é o exacto oposto do sectarismo de que é feito o Aníbal golpista. É ser um Presidente patriota. A partir do momento em que passou a querer montar a sua recandidatura, optou por entrar no jogo partidário e, concomitantemente, ficou refém do populismo mediático que imagina conseguir canalizar em seu favor.

Vir alegar que os casos de relações de parentesco na esfera do Governo e do Estado levantados pelo PSD e explorados com sensacionalismo pelos impérios mediáticos da direita obrigam a nova legislação por causa de um suposto “juízo da opinião pública portuguesa mais exigente”, quando a dinâmica desta questão é estritamente eleitoralista, impõe uma de duas conclusões: (i) ou Marcelo é um inveterado hipócrita, cujo cinismo se deve supor ilimitado, mas controla a estratégia com mão de mestre; (ii) ou Marcelo é hipócrita e cínico por formação e destino, mas ainda mais forte é o seu pavor de não ser amado, o que o leva para um estado de extrema fragilidade emocional – e seu cortejo de erros cognitivos – onde o populismo de ocasião e gozo lhe condiciona a táctica.

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Ganda moca, RAP

No país minúsculo que somos, há famosos mas quase nenhuma estrela. À escala internacional, temos uma celebridade (Guterres) e duas estrelas (Cristiano e Mourinho). Por cá, só existem três estrelas: Marcelo Rebelo de Sousa, Cristina Ferreira e Ricardo Araújo Pereira.

O Ricardo já foi de esquerda. Actualmente, é um alegado e displicente votante na CDU que dedica o seu talento artístico a atacar o PS. No Governo Sombra e no Gente Que Não Sabe Estar está rodeado de caluniadores profissionais em cuja companhia faz desses programas contínuos tempos de antena de uma campanha negra. Um levantamento quantitativo e qualitativo do que o Sr. Araújo tem dito enquanto profissional do espectáculo desde que lhe foram ao bolso no BES mostraria que Sócrates e o PS se tornaram para ele os temas obsessivos para imparáveis variações da cantilena “os socialistas é só ladroagem”. Ora, um fanático não tem graça nenhuma. O atrofio da inteligência e a pulhice não têm, não podem ter, graça alguma.

Depois de ter achincalhado pessoas que foram condenados a penas de prisão, depois de ter envolvido crianças no simulacro da violação anal de um juiz, depois de andar a parasitar e deturpar gravações de cidadãos que prestaram declarações juramentadas sem poderem defender-se do uso humilhante a que ficaria sujeita a sua imagem e palavras, chegou a vez de Cavaco. Nunca saberemos quão longe se poderia ir na gozação desta sinistra figura pela simples razão de não haver quem goze com ele. O que se viu no passado domingo na TVI confirma e consolida essa blindagem. Em vez de apontar ao responsável político, à intencionalidade da sua intervenção no espaço público, o Pereira das piadolas resolveu satirizar os sinais de senectude. O Cavaco-múmia foi usado para arrancar risos boçais da plateia, com isso conseguindo-se esconder o que pretende, e o tanto e tão grave que fez, o Cavaco-chefe-mor da direita decadente. Mas talvez o mais degradante tenha sido ver a nossa estrela a usar o território da velhice, e seu rol de desgraças corporais e mentais, como alvo de humor persecutório e estigmatizante.

A postura do RAP está fundamentalmente marcada pela pulsão da violência. O humor que actualmente cria não passa de um sistemático exercício de agressão, sem qualquer ligação com o estilo inicial dos “Gato Fedorento” – onde se celebrava um património comunitário e se acarinhavam as caricaturas e sua humanidade. Agora, cada rábula, cada boca, procura ofender, procura ferir. Há um inimigo e tem de ser desumanizado. Ofereceu porrada ao Neto de Moura e, simetricamente, teme reacções violentas ao que vai apresentando. Pelo meio, sabe-se protegido pelo seu estatuto mediático e pelo próprio regime. Sente que vale tudo, que se pode vingar, que a audiência papa a gargalhar qualquer cocó que ele faça em palco. Deixou de ser comediante, transformou-se numa moca de Rio Maior com pernas.

O Alvar

Ricardo Paes Mamede voltou a um tema onde tem deixado serviço público, o diagnóstico do que obrigou Portugal a pedir o resgate de emergência em 2011: O “compadrio” não explica a “bancarrota”. A motivação nasceu-lhe das declarações de Álvaro Santos Pereira na semana passada, por sua vez repetindo o que tem dito desde 2018, pelo menos. Como motivação extra, o contexto em que a direita talibã explorou o ridículo fantasma de ter existido censura de Centeno no recente relatório económico sobre Portugal elaborado pela OCDE e dirigido pelo ex-ministro de Passos Coelho. Nesta edição de O Outro Lado, Pedro Adão e Silva explica o que está em causa quando o tema da corrupção é tratado com isenção, objectividade e rigor; de caminho expondo a lógica que o leva a ser invariavelmente usado como arma de arremesso político, campanha suja e assassinato de carácter.

Dizer em 2019 que não foi a “corrupção”, nem as políticas “despesistas” dos Governos socialistas, nem as “gorduras” do Estado, nem muito menos o vivermos “acima das nossas possibilidades”, o que levou o País para a violência da “austeridade salvífica” da Troika&Passos não tem o mesmo valor de tê-lo dito em cima do acontecimento – e houve quem o dissesse, não tendo esses de alterar um milímetro a sua posição de então. Ora, a pedagogia de Paes Mamede é factual e salutar, mas igualmente superficial, ou contida, por questões ideológicas. Como académico, evita tomar partido na vexata quaestio da aliança negativa que afundou Portugal ao chumbar o PEC IV, suspeitando eu que a sua opinião na matéria não se recomende. Para o que mais importa, a sua voz confronta aqueles que usam a economia e a sociologia para mentir e enganar. Transformar a Grande Recessão num acontecimento doméstico reduzido às alarvidades do TGV e aeroporto não construídos e às pulhices da indústria e cultura da calúnia é da maior relevância quando quem nos está a tentar tourear se propõe governar ou influenciar a governação. Como é aqui o caso do Santos Pereira, alguém que se aproveitou do estatuto e poleiro da OCDE para se inscrever na lista dos justiceiros que apenas precisam de repetir o vocábulo “corrupção” para se imaginarem Torquemadas instantâneos que nos vão limpar a alma.

Quando escrevi sobre o Álvaro, há dias, estava a comentar as suas declarações na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, LIberdades e Garantias. E só por elas, para mais atendendo à responsabilidade inerente a se estar na Assembleia da República, já dava para ver o grau de desonestidade cívica e encardida trafulhice que o senhor exala de cada vez que abre a boca para falar de política. Mas depois li uma entrevista e fiquei banzo por voltar a ser capaz de me surpreender com a inanidade da figura. Devo ao trabalho de Elizabete Miranda e Sónia M. Lourenço a experiência, pois elas foram exemplares no questionamento. Foi uma atitude profissional tão puramente jornalística que justifica o dinheiro gasto com o Expresso nesse número, mesmo que tudo o resto à volta fosse o merdelim sectário do costume (e não é só, também lá escrevem cidadãos cuja opinião e intervenção na sociedade são preciosas para o nosso futuro comum). Caso se imitasse essa tolerância zero à vigarice intelectual com todos os outros que se servem da temática da corrupção apenas para prosseguirem agendas privadas, políticos e comentadores, algo revolucionário aconteceria no ecossistema mediático: a decência abriria espaços por onde, finalmente, conseguiria nascer alguma inteligência sobre a problemática.

A vacuidade deste peralta merece ser conhecida. Infelizmente, é a esta (e tão pior) qualidade humana que a direita portuguesa tem ficado restringida por falta de talento e amor à cidade.

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Ainda esta semana dizia no Twitter que, “se o silêncio sobre a corrupção e o compadrio interessa a alguns, a verdade é que este silêncio é um autêntico cancro para a democracia”. Que silêncio é este e quem o promove?

Acho que mais do que estarmos a falar sobre quem o promove, nós todos, jornalistas, políticos, pessoas que trabalham nas organizações internacionais ou se dedicam à causa pública, têm o dever de promover o combate à corrupção. Contra a falta de transparência, de integridade, que existe na vida pública. É preciso lembrar que Portugal foi à bancarrota em grande parte por práticas de corrupção e compadrio entre o Estado e os privados; os problemas que temos nos bancos muito têm a ver com essas políticas. A próprias regras da energia não só existem — e alguns esforçam-se por negá-las — como claramente têm a ver com questões de compadrio e eventualmente corrupção também. Estamos a falar de temas muito importantes para a economia nacional. É preciso não ter medo de falar do combate anticorrupção. Gostaria de perguntar quem é que tem medo de falar sobre corrupção.

Alguém tem medo em Portugal?

Eu acho que há pessoas que têm medo de falar sobre corrupção.

Quem?

Há pessoas que acham que o tema é incómodo.

Situa aí o Governo, membros do Governo?

Terá de perguntar ao Governo.

Cruzou-se com muitos casos de corrupção quando foi governante?

Eu não me cruzei pessoalmente com casos de corrupção, agora claramente... repare, se há um tema de que me orgulho foi de lutar contra as rendas na energia, contra as rendas nas parcerias público-privadas. Foi, quando era preciso, denunciar às autoridades competentes. Foi noticiado que chegámos ao cúmulo de ter leis para o privado escritas pelo próprio privado. Como é possível os deputados da nação calarem-se com um escândalo destes? Como é possível não termos a Justiça e os políticos a insurgirem-se contra esta questão? Isto é gravíssimo. Outro caso: passaram quase oito anos sobre a crise financeira que nos levou ao resgate; passaram quase cinco anos sobre a maior fraude financeira que este país viu. Onde estão as pessoas julgadas? Continua a haver uma prática de impunidade quando devia haver uma cultura de integridade.

A quem atribui a responsabilidade no BES?

Em parte tem a ver, sem dúvida alguma, com os meios que se dão à Justiça. E isso está no relatório da OCDE: é inaceitável que continuemos a ter de retirar recursos de um megaprocesso para o outro, porque não há pessoas suficientes. Isso para mim é inadmissível. Por outro lado, acho um escândalo que em Portugal se permita que as pessoas vão de recurso em recurso até mais não poderem, até morrerem de velhos, sem serem julgados. O sistema político e judicial tem de trabalhar com muito afinco para acabar com esta pouca-vergonha e com esta impunidade. Basta de impunidade neste país.

Na auscultação que fez aos agentes da Justiça para produzir o relatório da OCDE, passaram-lhe essa ideia de impunidade e silenciamento?

Passaram-me a ideia, certamente, de que muitas vezes não tinham recursos suficientes. Principalmente estão muito preocupados com os próximos anos, porque muitos procuradores vão-se reformar. Mais do que isso, existem muito poucos meios para treinos especializados para os procuradores dos crimes económico-financeiros. A ministra da Justiça ainda esta semana lançou alguns propósitos importantes, para reforçar os meios da Justiça, mas não basta. É preciso lembrar que a prática jurídica portuguesa não é satisfatória. Para julgarmos alguém num megaprocesso vamos ter de provar que a pessoa tem crimes de branqueamento de capitais, de evasão fiscal, de corrupção ativa e passiva, julga-se o processo inteiramente. O que se faz noutros países é dividir por áreas e a pessoa acaba por ser julgada muito mais cedo. O próximo Governo tem de avançar com medidas claríssimas no combate à corrupção. Avançar com um plano nacional contra a corrupção com linhas diretoras sobre exatamente o que fazer nos próximos cinco anos. E com a criação de uma agência nacional contra a corrupção.

Com que funções?

Que possa auxiliar e ajudar o Ministério Público, as entidades que lutam contra o crime económico-financeiro, para fazer a ligação ao poder político e também para poder avançar com a luta anticorrupção. Depois, é preciso avançar com temas que dizem que são inconstitucionais e eu não percebo como. Como é que é possível darmos a desculpa da inconstitucionalidade para não termos procedimentos claros contra o enriquecimento ilícito? Ou quando sabemos que tribunais especializados podem ajudar na resolução dos problemas de corrupção e compadrio? Se é inconstitucional, mude-se a Constituição. A cultura de impunidade neste país tem de acabar.

Dá a ideia de que Portugal é um país de corrupção generalizada.

Não. E aliás houve algumas pessoas que diziam que a OCDE comparava Portugal a países de Terceiro Mundo. Ninguém está a dizer isso. Agora, há cada vez menos dúvidas de que Portugal foi à falência em 2011 por problemas de corrupção e compadrio.

E também na Grécia, e também na Irlanda...

...não quer dizer que tenha sido motivo único, mas houve práticas erradas fomentadas por práticas de corrupção e de compadrio que devem ser punidas.

Refere-se à Operação Marquês ou a políticas públicas concretas?

Houve várias práticas irresponsáveis.

Irresponsáveis, logo corruptas?

Claramente ligadas a práticas de corrupção e compadrio.

Então, em sua opinião, alguns dos membros do Governo Sócrates já deviam estar presos?

Não é isso que estou a dizer. Estou a dizer é que, primeiro, a Justiça devia ter meios próprios para avançar, que estas práticas de corrupção e compadrio devem ser julgadas o mais rapidamente possível, e que temos de avançar com mecanismos de prevenção futura.

Este braço de ferro com Portugal deixou-o desiludido com algumas pessoas, ou já tinha perdido a virgindade quando passou pelo Governo?

Não tenho nada que estar desiludido ou deixar de estar. Recebo pressões de governos a toda a hora. O que me desilude é que os partidos políticos não estão a fazer o serviço que deviam estar a fazer à nação.


Fonte

No Observador contam-se as espingardas, literalmente




Observador&Cofina

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Funciona assim: a Cofina faz o trabalho sujo, e o Observador, o Expresso e o Público expandem o seu alcance e legitimam o seu intento. A simbiose perfeita ocorre no Observador, tendo estado no topo da página durante 18 horas o conteúdo que deu origem aos comentários acima extraídos. O que não passa da exploração da miséria material e psicológica de um indivíduo, cuja manipulação não acrescenta qualquer informação válida seja para o que for com digno interesse público, esteve um dia inteiro como “notícia” mais importante no blogue dos talibãs oligárquicos que combatem a oligarquia; berram eles sem se rirem, feito heróico dada a profundeza do deboche onde estão mergulhados.

Que diriam José Manuel Fernandes, Rui Ramos, Helena Matos e Alberto Gonçalves se existisse um qualquer órgão de comunicação social onde nas suas caixas de comentários fosse permitido apelar ao assassinato de políticos do PSD ou do CDS, e ainda de militantes e simpatizantes? Que escreveriam semanalmente se existisse em Portugal alguma coisa levemente parecida com a Cofina mas dedicada à perseguição sistemática, canalha e criminosa da direita portuguesa?

Acontece ser fácil de imaginar o agrado com que os responsáveis, ideólogos e operacionais da Cofina e do Observador olham para a vox populi que os procura e se embriaga com os apelos à guerra civil lançados pelos escribas assanhadíssimos e impiedosos. Uma pulsão linchadora, alimentada pelo filão inesgotável chamado Sócrates, que é inerente à natureza humanamente selvagem dos brutos, dos alienados e dos facínoras sempre a precisar de carne para os seus canhões. Mas será que o Alberto Gonçalves, a Helena Matos, o Rui Ramos e o José Manuel Fernandes pretendem ver as alimárias que atiçam contra quem odeiam a tomar o poder? Jamais, bastou-lhes uma Bastilha. Sem a menor hesitação, declaram adorar o Estado de direito democrático, a liberdade, a civilização, a paz. Mas com uma ressalva: não já, só quando a Grei estiver nas mãos da gente séria.

Esta direita decadente anda há anos a chafurdar nos crimes que comete e explora com o conluio de agentes da Justiça. Falta-lhes um crime de sangue para se sentirem não só vingados como reconfortados. É a guerra, concluem com um sorriso ao contemplarem a bufeira demente dos voluntários para a matança.

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Carrega, Benfica!

«Tenho a certeza que Ronaldo, o Mourinho e outros, nunca mais vão cair nas mãos dos conselheiros que os fizeram entrar nestes esquemas criminosos.»

Ana Gomes

«Sabemos que o dirigente máximo do clube [Luís Filipe Vieira] está referenciado em várias listas de grandes devedores do país por vários empréstimos não pagos. Há todo um passado de delinquência ligado a essa pessoa.»

Ana Gomes

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É fácil admirar Ana Gomes. Tem uma vida de apaixonada entrega ao serviço público, não se duvidando da sua vocação para representar os cidadãos que votam, que pagam impostos, que têm direitos. Está também associada directa e presencialmente a um momento de orgulho pátrio, quando o País se uniu para acabar com os crimes cometidos pela Indonésia sobre os timorenses. A sua coragem nesse processo, que mais não fosse, chegaria para lhe dar um lugar na História de Portugal.

Depois de abandonar a diplomacia, tem-se notabilizado pela carreira no Parlamento Europeu, eleita pelo PS, e ainda pelas suas denúncias de casos de corrupção. Aqui, não se coíbe de disparar para dentro do partido, sendo uma das vozes socialistas que, sem precisar de estar à espera dos demoradíssimos e chatíssimos trânsitos em julgado de eventuais condenações, publicamente considera Sócrates e sus muchachos (bué deles, certamente) como um bando de corruptos. Vê-la em televisiva sintonia com Carlos Abreu Amorim nessa matéria foi para mim um espectáculo de que ainda não recuperei.

Ora, aqui está ela de novo a perseguir criminosos. O que esta pessoa não faria à frente de uma esquadra da PSP, ou mesmo da Judiciária por inteiro, podemos imaginar a inaudita limpeza na gatunagem que de imediato aconteceria. Como se lê acima, a nova perseguição ocorre no mundo do pontapé na bola e apresenta esta curiosidade: acerca do Ronaldo e do Mourinho, Ana Gomes sabe que esses dois meninos estão inocentes, tiveram foi o azar de “cair nas mãos dos conselheiros” e depois não tiverem outro remédio senão “entrar nesses esquemas criminosos” sob pressão dos esmagadores apêndices braçais; já quanto ao presidente do Benfica, que não consta tenha sido alguma vez condenado por nada de nada, Ana Gomes informa o povo de estarmos perante um mânfio que começou cedo no gamanço disto e daquilo. Através de que investigações descobriu estas coisas todas? Não explicou. Talvez por falta de tempo.

Apesar de andar há tantos anos a denunciar corruptos, usufruindo de poderes especiais para aceder a documentos e dados especiais, não me lembro de qualquer caso em que devamos a Ana Gomes o mínimo contributo para levar um suspeito de crime à Justiça. Vou repetir: sequer no plano em que se torne legítimo lançar a suspeita sobre alguém, para posterior e adequadamente ser investigada pelas autoridades competentes, não consigo nomear um singelo nome. E mesmo que esteja enganado, não me enganarei ao declarar que gostava de ver Ana Gomes condenada por difamação e calúnia devido aos danos causados ao Benfica e ao seu presidente. Talvez só assim a senhora conseguisse admitir que não precisamos de justiceiros, precisamos é de cidadãos que não abdiquem da sua soberania sobre a Justiça – leia-se, cidadãos que preferem um criminoso à solta do que um inocente preso ou sem direito ao bom nome.

Em vez de criminalizar o enriquecimento ilícito não seria melhor ilegalizar o enriquecimento criminoso?

«O antigo ministro frisou: "este país foi à falência não só por políticas erradas, mas também por práticas de compadrio e corrupção entre Estado e privados". E elencou um conjunto de propostas para combater a corrupção e aumentar a transparência. Nomeadamente, as ideias de se avançar com um plano nacional contra a corrupção, criar uma agência nacional contra a corrupção, lançar um tribunal especializado e avançar com leis contra o enriquecimento ilícito, ou acabar com os recursos ilimitados dos acusados de corrupção, aguardando o resultado dos recursos em liberdade "até morrerem de velhos ou os processos prescreverem".

Outras das propostas avançadas por Álvaro Santos Pereira passam por reforçar a Procuradoria-Geral da República, nomeadamente em termos de recursos humanos, e lançar uma política de zero euros de prendas, não só para membros do Governo, mas também na Administração Pública.»

Fonte
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Que saudades de um político com o nível intelectual, o carisma político e a estatura moral do Álvaro Santos Pereira. Um dos tais raríssimos políticos que não mente, não teme e, acima e antes de tudo, não corrompe nem se deixa corromper por prendas de valor superior a zero euros. É alguém desta estirpe que devemos colocar à frente do combate à bandidagem socialista e blococentralista, escória que domina as polícias e os tribunais, já para não falar na comunicação social que amordaçaram (como se pode ler e ouvir na “imprensa de referência” onde estão sempre a falar no assunto com justíssima indignação).

As soluções do Álvaro são as que se impõem, vai sem discussão. Trata-se, no fundo, de multiplicar o número dos actuais magistrados no Ministério Público pelo número de militantes do PS (uma fórmula que o senhor inventou no Canadá e tem agora a generosidade de partilhar connosco) de modo a acabar com essa desgraça que vem dos tempos do Condado Portucalense, isso de os corruptos aguardarem em liberdade “até morrerem de velhos ou os processos prescreverem“. Com o Álvaro a mandar nisto, provavelmente esses tais corruptos não chegariam a morrer de velhos e jamais se aceitaria a prescrição de processos que dão tanto trabalho e despesa a montar.

Um Estado de direito democrático pode ficar com a consistência de um pastel de nata? Para o bravíssimo Álvaro, não só pode como deve.