Arquivo da Categoria: Valupi

Revolution through evolution

Men More Likely than Women to be Seen as Brilliant
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Pregnancy stereotypes can lead to workplace accidents
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Even when women outnumber men, gender bias persists among science undergrads
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Study asks who’s playing ‘hard-to-get’ and who’s attracted by the ploy
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Life-hack: Rituals spell anxiety relief
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Declining eyesight improved by looking at deep red light
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How conspiracy theories emerge – and how their storylines fall apart
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Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep11)

«“Quem mais ganha com a comissão de inquérito são os concorrentes da Caixa — esses são os maiores entusiastas, além de alguns ressabiados“, diz o presidente da Caixa, garantindo que a Caixa tirou muitas lições do que a aconteceu e que não só a Caixa mas toda a banca rege-se, hoje, por práticas muito diferentes, incluindo na área do crédito e do risco.

A Caixa está diferente hoje, ou não, do que eram aquelas práticas? Está de certeza muito diferente, porque a banca toda está diferente: a supervisão é outra, a regulação é outra, as práticas de risco são outras, as tecnologias, a governance”, diz Paulo Macedo. “As lições que temos de retirar do passado levam-nos a que hoje em dia tenhamos, por força da supervisão e da regulação, uma ação concreta e sistemática em termos de governance. Além disso, a Caixa hoje tem rácios de capital mais fortes” e aprendeu a lição de que não pode voltar a ser a “última a ajustar os seus custos à redução de negócio”, diz o presidente-executivo.»


Fonte

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O PCP era contra a realização de mais uma peixeirada à pala da CGD. Estávamos em finais de Janeiro de 2019, os comunistas pareciam querer cumprir com zelo o mote da “política patriótica e de esquerda” pois alegavam que aquela que viria a ser a terceira comissão de inquérito parlamentar dedicada às venturas e desventuras da Caixa numa única legislatura só servia os interesses da direita e da banca privada. Daí, o plano ser o de lavar as mãos abstendo-se no plenário, deixar para os outros o trabalho de montarem o circo, e aproveitar as sessões para dar uns pontapés nos inimigos do povo e dos trabalhadores.

Paulo Macedo também era contra a realização de mais um festival de bombarda à reputação da Caixa. O CEO da instituição financeira lamentou, antes de a comissão começar os seus trabalhos, que se estivesse outra vez a discutir o passado em vez de se estar a ganhar o futuro. Depois da palhaçada terminar, veio expor detalhadamente o mal que tinha feito ao seu negócio – portanto, a um negócio que dá dinheiro aos portugueses quando há lucros. As suas palavras, citadas acima, são à prova de estúpidos mas não de ressabiados. Elas resumem a questão ao que é objectivamente essencial: até à crise económica de 2008-11 as regras eram outras para toda a banca, onde a CGD tentava ser competitiva por missão pública. Vir agora julgar o passado com as regras do presente pode servir para encher a indústria da calúnia de tráfego, e a direita e a esquerda sectárias de cagança demagógica, mas não puxa a carroça do interesse do banco público.

Comunistas, a esquerda pura e sem mistura, a esquerda da revolução e da felicidade marxista, estavam de braço dado com o responsável pela sujeição da CGD à gula do imperialismo capitalista, abraçados a uma estrambólica figura que tinha sido um ás da fiscalidade do barrosismo e do ferreira-leitismo, para depois dar por si a participar no “Assalto ao BCP” colaborando com o gangster Vara, só para, logo a seguir, receber o prémio de ser um dos mais prestigiados ministros do saudoso Passos Coelho. Malhas narrativas que fanáticos e pulhas tecem, onde a racionalidade e a decência jazem mortas e arrefecem.

A comissão gerou-se no (e para o) charivari eleitoral de 2019. PSD e CDS garantiram que era desta, à terceira tentativa em 4 anos, que iam finalmente expor os podres do socratismo bancário, muito provavelmente conseguindo enfiar em Évora mais uma meia dúzia de socialistas do piorio (ou do ainda pior). Isto porque iam poder vasculhar tudo e mais alguma coisa, os gatunos não tinham por onde escapar. Pois bem, que aconteceu ao aprovarem o relatório final? Aconteceu que o PSD nem sequer lá conseguiu enfiar a expressão “indícios de gestão danosa“. Teve de se contentar com “a CGD não foi gerida de forma sã e prudente“. É o equivalente a estarmos no Ticão a sermos espancados pelo Calex e, de repente, sermos teletransportados para uma consulta com um nutricionista distraído. Para quem perder (ou ganhar) o seu rico tempo a tomar conhecimento das negociações semânticas com que os deputados despacharam 36 audições (com duração total de 136 horas e 32 minutos), depoimentos escritos de várias personalidades e entidades (como o de José Sócrates ou da Comissão de Ética do Banco de Portugal) e milhares de documentos, só há uma conclusão: a retórica com que entraram foi a retórica com que saíram. Um festival de pescada, antes de o ser já o era.

Tal circularidade esgota a segunda oportunidade dada a Paulo Sá para interrogar Vara (Ep10), em que assistimos ao seu crescendo emocional até ficar à beira de um ataque de nervos por não conseguir que o interlocutor aceite, que meramente verbalize nem que fosse para o consolar, uma avaliação subjectiva que o deputado tinha cristalizado na cachimónia e perante a qual toda a alteridade circundante tinha de se anular. Não contente, conseguiu gastar uns inacreditáveis quase três minutos do reduzido tempo disponível para colocar a segunda e última questão – inacreditavelmente sobre Vale do Lobo e com uma inacreditável estupidez inquiridora. O retrato de inutilidade que o deputado deixou é de uma transparência patética. Símile exacto da sórdida inutilidade desta comissão de inquérito.

O super juiz que cercou a República

Existe um juiz em Portugal que em 2016 deu uma entrevista. Nessa entrevista atacou um inocente à sua guarda constitucional enquanto arguido, tratando-o como criminoso e violando o dever de imparcialidade. Ao violar o dever de imparcialidade, também mentiu em público a respeito da sua vida privada. Após mentir sobre a sua vida privada, ameaçou políticos, empresários, cidadãos avulsos e, com especial ênfase, outros juízes, declarando que a sua memória a respeito dos bastidores da Justiça e dos processos judiciais que lhe tinham passado entre as mãos era tão boa que até as alcunhas dos visados estavam decoradas. O Conselho Superior da Magistratura, depois de analisar profundamente o caso, sancionou a violência.

Existe um juiz em Portugal que em 2018 deu uma entrevista. Nessa entrevista sugeriu que o sorteio da fase de instrução da Operação Marquês estava viciado, assim violando o dever de reserva. Ao violar o dever de reserva, questionou publicamente a competência e/ou honradez de Ivo Rosa e acusou o Tribunal Central de Instrução Criminal de ser cúmplice de criminosos. Após declarar que a Justiça o tinha afastado recorrendo a um falso sorteio para proteger Sócrates da santa espada de Mação, acrescentou outros sinais que indiciam poder ter perturbações psíquicas graves do foro da megalomania e da paranóia. O Conselho Superior da Magistratura, depois de analisar profundamente o caso, sancionou a violência.

Este mesmo juiz acaba de atingir um nível superior de violência. No despacho de pronúncia do processo de Tancos deixa lavrado um documento institucional onde insulta em registo de provocação pessoal Azeredo Lopes (“Bizarro é fazer-se de coitadinho e de irresponsável“) e onde expõe a natureza estritamente política do processo (“Todo este lodaçal tem de ser investigado”). A intenção do juiz é persecutória e revanchista, procurando ainda atingir um primeiro-ministro e seu Governo. Isto significa que o regime, neste momento, aceita pôr um tribunal ao serviço de ódios políticos e demais interesses que os manipulam ou deles recolhem vantagens. Não só isso: actualmente, como o prova exuberante e a gargalhar Carlos Alexandre, o regime permite que a Justiça seja usada como arma de facção e de humilhação.

O juiz que age com esta impunidade tem uma vastíssima claque que solta urros e lança as cartolas ao ar assistindo aos seus números cada vez mais ousados, mais excitantes, lúbricos no despudor com que exerce a violência sobre os alvos. À volta, não vemos ninguém capaz de lhe fazer frente, capaz de denunciar que o tirano vai de beca. Os jornalistas e comentaristas decadentes deliram com o espectáculo e repetem e amplificam a porrada nas vítimas – enquanto os políticos se dividem entre aqueles que têm a caçadeira pronta a disparar caso algum mosquito incomode a sua estrela e aqueloutros que tremem de pavor e andam pela cidade de olhos no chão, já esquecidos do que é ser livre ou, tão-só, do tempo em que tinham respeito próprio.

A República está cercada pelo super juiz. E as muralhas são papéis pintados com tinta.

Serviço público

A Covid19 e o elitismo

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NOTAS

– Sendo verdade que os pobres não adoecem porque fazem muitas festas, a seguir ao desconfinamento foi visível que alguns pobres acorreram a locais onde se vende álcool e fizeram as suas festas. Foi ostensiva a recusa em usar máscara e manter distanciamento físico. O clima era de celebração. De festa. Muitas? Não faço ideia, seguramente menos do que as festas dos putos e adultos não pobres, até aos 50 anos de idade especialmente, ocorridas no mesmo período. Se isto foi visível na rua, podemos imaginar o resto nos circuitos dos relacionamentos afectivos, do consumo de droga (onde entra o álcool como a mais acessível e consumida das drogas) e da prostituição. O mesmíssimo fenómeno ocorre em diversos países.

– Dentro do desconhecimento acerca dos meios principais da propagação do vírus, é fácil aceitar a informação dada pela ministra da Saúde sobre a ausência de qualquer caso de infecção em Lisboa associado à utilização de transportes públicos. E isso é verosímil se pensarmos que os transportes públicos são ambientes similares aos das lojas tanto quanto à quantidade de utilizadores como quanto às situações de proximidade física.

– Num quadro de incerteza epistémica tão crítico como o actual, usar a epidemia para atacar governantes e autoridades a partir da estupidez e da má-fé é abjecto. Se é para criticar, que se pense a partir do bem comum e da fraternidade, como faz o Paulo numa valiosa reflexão sociológica, política e moral.

– Rui Pena Pires e Paulo Pedroso reabriram o Canhoto, mais uma fonte de inteligência na cidade.

Impunidade sem fim

«A primeira coisa que eu constato é o seguinte (com alguma graça, mas acho que muito injusta). Quando foi a investigação, quando foi a acusação e quando foi o julgamento do processo Vistos Gold, grandes notícias, grandes parangonas, grandes reportagens televisivas. Estava em causa um ex-ministro, um ex-director de uma polícia, parangonas... Esta semana, com a absolvição confirmada pelo Tribunal da Relação de Lisboa, dei-me ao cuidado de ver, não houve uma notícia na primeira página dos grandes jornais nacionais. Quer dizer, houve depois em páginas interiores, mas em páginas principais nem pensar. [...] Só digo isto, porque é assim, acho que é uma certa desproporção de tratamento, acho que devia haver um pouco mais de equilíbrio.»

Marques Mendes, minuto 19.46

Contemplar Marques Mendes a falar da Justiça transporta-nos para uma réplica do que terá sido a experiência mosaica (a do Moisés, pá) ao receber os 10 Mandamentos: o respeito pelo que se está a escutar de Deus é tanto que até o espaço entre as letras é fonte de revelações. Assim com este consiglieri de Estado, um dos mais poderosos e activos passarões da oligarquia. Ouvi-lo, especialmente ouvir o que cala, é uma travessa cheia de aprendizagens sobre o que passa lá onde não entra o Soberano.

Nesta introdução à notícia da absolvição final de Miguel Macedo, acima citada, começa por surpreender o desplante de vê-lo a chamar a atenção para a manifestação fulgurante de um dos maiores problemas da comunidade – num certo sentido cívico, o principal problema: o facto de, desde 2008, a direita partidária e presidencial ter começado a usar a Justiça como arma política preferencial. Quem aliciou procuradores e juízes para serem carrascos e aliados na perseguição a adversários políticos não pode sequer comentar o fiasco do processo Vistos Gold pois tal implica ter de desmontar a ignóbil campanha à volta de Joana Marques Vidal. Uma campanha onde Passos Coelho, Cavaco Silva e Marques Mendes, para referir só os cabecilhas, acusaram Marcelo e Costa de estarem a correr com uma santa para meterem de novo uma raposa no galinheiro. No caso deste processo, ter-se chegado a um ministro do PSD foi agitado pelos propagandistas decadentes como a prova de ser a Senhora Vidal a nossa dama de ferro, a heroína que tinha instaurado o “fim da impunidade” para acabar de vez com a raça satânica dos socráticos e com mais um ou dois corruptos que sobrassem; um deles, portanto, o nosso simpático Miguel Macedo apanhado pelo fogo amigo. O enorme Marques Mendes, exsudando confiança e estrelato, não resistiu no último domingo a reclamar ser o único a destacar o assunto na berlinda e a referir o silenciamento que o editorialismo e o comentariado despejaram para cima do episódio, pelo que nem se preocupou com a possibilidade de alguém reparar nos espaços vazios da sua converseta.

«Agora vamos ao mais importante. O mais importante é assim: acho que este processo termina e é uma grande derrota para o Ministério Público, talvez das derrotas mais pesadas que o Ministério Público teve nos últimos anos. E eu acho que deviam de ser tiradas algumas ilações. Primeiro ilação. Convinha que o Ministério Público - que é muito competente nuns casos, mas muito pouco competente noutros - pensasse no seguinte: para se vencer em tribunal não chega ter uma boa narrativa, não chega ver essa narrativa depois nos jornais e convencer a partir daí a opinião pública, tem que haver provas, não chega ter opiniões. E quando não há provas, perde-se. E quando se perde, a credibilidade do Ministério Público fica obviamente afectada.»

Marques Mendes, minuto 20.27

Parece ser mentira mas tem de ser verdade, pois vem de um conselheiro de Estado escolhido pelo próprio Presidente para dele acolher o seu conselho acerca das mais ponderosas questões nacionais e internacionais. Marques Mendes disse mesmo na TV que lá no Ministério Público não sabem que é preciso ter provas caso a ideia seja chegar a tribunal. Portanto, fazendo fé nas suas palavras, no Ministério Público não se percebe patavina de Direito e da Constituição, estão convencidos que basta ter opiniões. E quem é que não tem uma opinião sempre pronta a dar sobre tudo e mais alguma coisa, né? Pois é, Zé.

Mas estará o nosso valente Mendes a falar de todos os processos? Claro que não. Como teve o cuidado de detalhar, o Ministério Público “é muito competente nuns casos, mas muito pouco competente noutros“. Infelizmente, não lhe ocorreu explicar em quais e porquê, certamente por falta de tempo. Isso deixa-nos completamente à nora, banzos, com as flutuações de competência no Ministério Público. Serão sazonais, estando ligadas à temperatura e aos pólenes? Será algo na água canalizada? Será por pirraça? Ou será da tipologia dos alvos, estando o impoluto advogado-conselheiro a circunscrever a avaliação aos processos que envolvam políticos acusados de corrupção? É que se sim, então, minha nossa senhora do Caravaggio, do que o bacano está a falar é da Operação Marquês, quem diria! E se é dessa fruta, obviamente que estamos então num desses casos onde o Ministério Público se mostrou “muito competente” – senão vejamos: tratou de arranjar uma narrativa espectacular que meteu no bolso de Sócrates entre 20 a 40 milhões de euros sem que alguma conta em seu nome com esse dinheiro tenha sido encontrada nem façam ideia de como identificar e concretizar quais são os actos de corrupção respectivos para lucro tão jeitoso, tratou de encher a indústria da calúnia com essa narrativa logo na noite em que o rei do crime foi detido assim obtendo um julgamento popular de imediato transitado em linchado, e convenceu os juízes que têm sido cúmplices de todos os abusos e ilegalidades nesse processo de que as “provas” serão suficientes para se repetir a receita com que se engavetou Armando Vara. No caso de não serem, no problemo: voltará o papão da Justiça na mão de Sócrates e do PS, nada importando que seja uma teoria da conspiração para imbecis e fanáticos pois o tribalismo e os impérios mediáticos da direita se encarregarão de atiçar a turbamulta obtendo novo triunfo do ódio político. A judicialização da política e a politização da Justiça favorecem sempre, sempre e sempre o infractor.

«Segundo. Convinha também o poder político, em vez de passar a vida, muitas vezes, a tentar encontrar soluções para ver se consegue controlar politicamente o Ministério Público, o que é um desastre, pensasse em exigir resultados e eficácia ao Ministério Público - resultados e eficácia, porque não é apenas acusações, é decisões. Ou seja, eu gostava de ver o Presidente da República, o primeiro-ministro, ou a ministra da Justiça não apenas a garantir a independência ao Ministério Público, muito bem, mas também a exigir eficácia e resultados, porque senão, é a credibilidade da Justiça que sai machucada.»

Marques Mendes, minuto 21.13

Dizendo de forma elegante, como disse Aristóteles, não devemos discutir com quem não respeita a lógica e não tem princípios; ou seja, não devemos perder tempo com aqueles que são intelectualmente desonestos. Dizendo o mesmo de forma mais prosaica, a essência do aldrabão é a de esse cabrão dizer tudo e o seu contrário. Como neste naco acima citado, onde o aldrabão começa por castigar supostas intervenções políticas no Ministério Público, não identificando de quem nem quando, para no mesmo fôlego castigar três representantes políticos ao mais alto nível por não intervirem politicamente no Ministério Público. É que só politicamente será possível condicionar em nome dos “resultados e eficácia” as “decisões” (??) dos procuradores e demais pessoal auxiliar, escusado será explicar. Faz isto algum sentido? Faz quando voltamos a correr para o regaço de Joana Marques Vidal. Segundo a lógica do estupendo e decentíssimo analista Marques Mendes, a santa Joana deveria ter sido reconduzida para mais 6 anos de serviços de limpeza da escumalha corrupta socialista porque ela estava a cumprir as ordens do poder político de então, daí ter tido um mandato exemplar de “resultados e eficácia”. Enquanto que com os socialistas, que só pensam em garantir a independência do Ministério Público, é a miséria que se vê no processo dos Visto Gold. Foi ele que o disse, e o homem sabe tanto.

Ironia das ironias, ou tragédia das tragédias, com Joana Marques Vidal tivemos Passos Coelho arquivado, Paulo Portas arquivado, Dias Loureiro arquivado, Miguel Macedo absolvido, todos os casos com material probatório que daria para cobrir o Pacífico com capas de jornais assim houvesse indústria da calúnia à esquerda. Com Pinto Monteiro, acabámos por ver Armando Vara preso sem provas e sem Estado de direito que o protegesse da vingança política. A intrujice do “fim da impunidade”, de que Marques Mendes é um dos mais poderosos publicistas, é realmente de uma impunidade sem fim.

Revolution through evolution

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Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep10)

Quem se interesse por política, quem ame a liberdade, gosta muito da imprensa. Gosta tanto que até gosta quando não gosta. Esse gosto estende-se aos editorialistas, os cromos que na imprensa exercem o poder sobre os conteúdos seleccionados, destacados, desenvolvidos e explorados liberrimamente. Estas mentes brilhantes atravessam jornais, rádios e televisões exercendo funções directivas ou delegados para tal pelos directores da casa. São muito poucos, e ainda menos se os contabilizarmos pela fatia de mercado com um mínimo de relevância que ocupem e pelos seus circuitos profissionais, gerando assimetrias que reduzem a menos de dez nomes aqueles que têm audiências suficientemente largas e/ou especializadas para se convencerem que influenciam o espaço público – e que condicionam a classe política – através das suas opções editoriais e das suas opiniões. Um deles, um dos maiores, é Ricardo Costa.

Este senhor tem assinado por baixo, há longos anos, uma ideia que não se cansa de repetir sempre que a ocasião o propicia, sendo que não lhe faltam ocasiões para tal: a ideia de que Vara só chegou a administrador da CGD pela mão de Sócrates, e que depois só foi para o BCP porque montou um assalto entregando dinheiro da CGD aos cúmplices que compraram poder de voto para meter Vara no outrora trono de Jardim Gonçalves, assim oferecendo a Sócrates e ao PS o domínio da banca pública e privada; portanto, o domínio de toda a economia nacional – possivelmente para o demónio e sua legião se perpetuarem mil anos no poder, acabamos por concluir inspirados pela magnificência da teoria da conspiração esgalhada por tão prestigiado jornalista em tão prestigiados órgãos de comunicação social. Acontece que o Ricardo Costa, apesar da caudalosa repetição da cassete, nunca apresentou qualquer prova do que apregoa. O que é curioso, tendo em conta os anos que já leva de comício e a disponibilidade imediata de recursos humanos tão bem preparados e altamente motivados à espera da ordem do chefe nas equipas de jornalistas do Grupo Impresa. E não só é curioso como também cheira a esquisito, dado que uma operação desse calibre, envolvendo tanta gente e tão estouvada ambição num meio tão controlado por tantos outros e tantas autoridades, teria de ter deixado cabeludos indícios para começo de implacáveis investigações. A verdade é a de que os bravos justiceiros que montaram a Operação Marquês deixaram de fora o material que recolheram na espionagem do Face Oculta, a tal mesma cassete do Ricardo mas ali com o título “Atentado ao Estado de direito”, assim dando a entender que os famosos telefonemas entre Vara e Sócrates eram óptimos para a indústria da calúnia e para a direita decadente mas arriscavam queimar um procurador ou dois caso fossem usados num tribunal sem a garantia de se ter um juiz fã do “fim da impunidade” que lhes desse o devido tratamento à maneira. Para resolver este imbróglio, do que precisávamos era de um Ricardo Costa paralelo que fosse capaz de dizer desassombradamente, como o faz com tanta classe e deontologia o Ricardo Costa que nos revela quem é Armando Vara, o que pensa realmente sobre o assunto o poderosíssimo Ricardo Costa, irmão de um primeiro-ministro, que trabalha para o militante nº1 do PSD e põe e dispõe a bel-prazer na sua chafarica. Como não aparece esse Ricardo Costa segundo explicador do primeiro, o melhor é usarmos os poucos neurónios de que dispomos e tentarmos a nossa sorte.

Os empréstimos da CGD usados para comprar acções do BCP foram aprovados colegialmente depois de percorridos todos os trâmites normais do banco para casos similares, não resultaram de um acto isolado de Vara ou dele em conluio secreto com Santos Ferreira. Os empréstimos da CGD usados para comprar acções do BCP só foram aprovados depois da intervenção do departamento jurídico do banco, na altura chefiado por Celeste Cardona, militante do CDS vinda de ser ministra da Justiça por escolha de Paulo Portas no Governo de Durão Barroso. Os empréstimos da CGD usados para comprar acções do BCP não chegavam, nem de perto nem de muito longe, para alterar o sentido de voto da assembleia que elegeu a lista onde estavam Santos Ferreira e Armando Vara. Paulo Macedo, que viria a ser ministro da Saúde de Passos Coelho depois de ter sido uma estrela de Manuela Ferreira Leite, fazia parte da lista de Santos Ferreira para o BCP e tinha nela a mesma posição hierárquica dada a Vara. Figuras principais do movimento “Compromisso Portugal”, iniciativa de empresários apoiantes do PSD e do CDS, foram decisivas para a eleição de Santos Ferreira como presidente do BCP. Jardim Gonçalves, quando apresenta a sua versão de como perdeu o papado no BCP, atribui a uma coligação PSD-PS a culpa pelos acontecimentos que colocaram Vara a passear-se nos corredores que foram seus. Tudo o que teclei neste parágrafo até à frase anterior, inclusive, são factos. Factos que não atrapalham aqueles que fazem de Vara um sobrenatural bandido que teria escapado à bófia depois de cometer o crime do século estando fechado e amarrado à parede num calaboiço de uma prisão de alta segurança. É dessa magnitude de pensamento mágico que estamos a falar, a fantasia demente e sórdida de ter ficado suspenso o Estado de direito entre 2005 e 2011 – e que Cavaco Silva estaria a observar de uma janela do Palácio de Belém o filme do “Assalto ao BCP”, vendo o mesmo que Ricardo Costa também viu, e mais não conseguiria fazer do que roer as unhas paralisado de medo, enquanto Vara, ajudado pelo Vítor Constâncio disfarçado de ninja, distribuía centenas de milhões de um banco público pelos comparsas e andava possuído pelo Diabo a emporcalhar o solo sagrado da finança privada e católica.

Como se pode ver na segunda intervenção de Cecília Meireles (Ep9), a deputada do CDS gastou a totalidade do seu tempo num exercício de chicana. O intento, exclusivo, foi o de colocar o “Assalto ao BCP” na mesa para ser pasto de jornalistas e, de caminho, tratar Vara como um pau-mandado de Sócrates e um abominável corrupto. Atente-se como as perguntas não têm qualquer função investigativa, não remetem para nenhuma parte do relatório da Ernst & Young na origem da comissão, e quase todas já tinham sido feitas e respondidas várias vezes ao longo da audição. O ânimo fogoso desta jurista, gravado para a posteridade numa sala da Assembleia da República, alimenta-se da oportunidade para tentar humilhar o cidadão Armando Vara, uma pessoa que se encontra destituída da liberdade e do seu bom nome a ter de enfrentar representantes do Estado com autoridade política e judicial. Cecília Meireles usou o poder que lhe foi outorgado pelo Soberano para torturar emocionalmente Vara.

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Se no final aumentares o som do vídeo para o máximo consegue-se ouvir em fundo, quase imperceptivelmente, um bater de palmas frenético e o grito “Dá-lhe, Cici!“. Sim, é o Ricardo Costa.

Estado de guerra, 4 meses depois

“The coronavirus pandemic pits all of humanity against the virus. The damage to health, wealth, and well-being has already been enormous. This is like a world war, except in this case we’re all on the same side.”


Bill Gates

A chegar aos 4 meses após o aparecimento dos primeiros casos de infecção pelo coronavírus em Portugal, que aprendemos entretanto?

Por exemplo:

– que a ciência não tem balas de prata contra o papão, antes parece ter pés de chumbo (mas sendo esse peso a dar equilíbrio e segurança ao conhecimento produzido)

– que os políticos têm de cometer erros, caso contrário não nos estariam a ajudar (limitar-se a apontar supostos erros aos governantes adentro de uma calamidade inaudita é a glória dos inúteis)

– que os números registados em cada país, região ou cidade para as infecções pelo vírus não são retratos da realidade, são tão-só esboços para um capítulo de um livro com imprevisível número de capítulos (o qual só começará a ser escrito depois da pandemia passar)

– que tudo somado e subtraído, o único aspecto decisivo no fluxo dos números é relativo à capacidade hospitalar em Portugal para dar a cada doente todas as condições para o seu melhor tratamento (podendo até se ver como boa notícia o aumento das infecções pela simples razão de corresponder a um processo imparável que, se não matar, nos torna mais fortes)

– que a natureza humana é a natureza humana é a natureza humana, pelo que a necessidade de proximidade física em contextos de dinâmica social ou psicológica é indomável (o que implica aceitar que os contágios irão sempre ocorrer até chegarmos à imunidade de grupo, sejam lá quais forem as medidas tomadas pelas autoridades)

– que as potências mundiais talvez venham a ter de criar uma nova ordem económica nascida directamente do impacto económico e social da actual crise (o que, a acontecer, não seria a primeira vez, tudo concorrendo para que se reconheça termos de avançar para uma nova fase do capitalismo onde a segurança na saúde e na ecologia sejam prioridades vitais à escala internacional)

– que a alergia ideológica à metáfora da guerra, vendo nela apenas o militarismo da sociedade e um ataque aos direitos individuais, ignora noções básicas do que seja a segurança nacional e a protecção da população em cenários de crise extrema (como se vê nos EUA e Brasil, o problema não é o do uso dessa metáfora, o problema é o da negação da sua adequação à situação global e local)

– que o tópico “Final Eight da Champions” se tornou um pântano de parolismo e catastrofismo onde até os mais sensatos e avisados comentadores se enterram de cabeça (o Mundo em guerra caga d’alto nesse evento, e ainda mais no que calharem ser os números diários das infecções em Lisboa nesse período, tudo a desaparecer instantaneamente na voragem da actualidade que, aposto os 10 euros no bolso, vai ter bem mais e melhor onde gastar a sua atenção do que com pontapés na bola num jardim à beira-mar desconfinado)

É bom ser racista, mas não ser é melhor

Excluindo deste argumento fenómenos à escala nacional e estatal como o da Alemanha nazi ou da África do Sul em apartheid, onde os contextos político-sociais e históricos originam respostas únicas no tempo e no espaço, a problemática da actual luta contra o racismo precisa de menos emoção e mais inteligência em ordem a finalmente chegarmos ao sentimento da sua repulsa à escala universal. Presentemente, são as emoções que dominam a cognição nos três grupos inorgânicos em inter-relação: o dos assumidamente racistas, o dos manifestamente anti-racistas e o dos nem-nem (nem pensam que são racistas nem actuam contra o racismo ideológico, estrutural ou ocasional).

Os que se dizem racistas ou são broncos e psicóticos isolados ou correspondem a grupelhos onde o racismo não é o resultado de uma opção intelectual pois não existe sequer actividade intelectual nesses meios, antes nasce como elemento identitário e folclórico. As violências que estes indivíduos cometem, algumas chegando aos crimes de homicídio e de assassinato, decorrem não de uma teoria assimilada criticamente sobre o que seja conceptualmente uma raça, e da importância de estabelecer uma qualquer hierarquia de “raças”, mas tão-só da afirmação interna dos seus membros adentro de uma dinâmica tribal tão frágil que depende do constante apelo à pulsão de sobrevivência. Eles atacam os seus alvos porque sem “inimigos” tudo o resto – os rituais, a simbólica, a retórica e o culto do medo – deixa-se ver como absurdo e doentio.

Os que participam activamente na luta contra o racismo nas suas múltiplas formas – seja indo para a rua, usando a comunicação social ou partilhando conteúdos com mensagens desse teor – canalizam as energias para a procura de uma alteração imediata ou conforme à motivação que os guie nas suas atitudes e comportamento. Na sua enormíssima parte, são incapazes de usar instrumentos intelectuais, ao dispor nas ciências sociais e humanidades, para analisar os casos avulsos que convocam a sua atenção. Mesmo nos que os possuam ou que a eles pudessem aceder, como é o caso dos líderes políticos e dos jornalistas, a retórica usual é de intento emocional e aceita ficar-se por um protesto superficial que dê para ocupar fugazmente a agenda mediática. Obviamente, há excepções a este “poucochinho” e, felizmente, também temos figuras públicas que fazem do combate ao racismo uma postura contínua em trajectos de muitos anos ou décadas. Dá é para serem contados apenas com uma mão, e talvez não seja preciso percorrer os cinco dedos.

Os que sabem que não são racistas enquanto não sabem que são cúmplices do racismo constituem o grupo maior, colossal e estupidamente maior. Compreender esta duplicidade aparenta ser o factor crucial na luta contra o racismo, diria armado em politólogo de praia e antropólogo de esplanada. Ela origina-se na dupla confluência em cada um de nós das forças biológicas e das forças civilizacionais. Na dimensão biológica somos racistas geneticamente, impulsivamente, inevitavelmente. Na dimensão civilizacional somos anti-racistas educadamente, socialmente, psicologicamente. Isto quer dizer que as pessoas neste grupo responderão convictamente “Não” à pergunta se são racistas ou se aprovam o racismo, e minutos depois poderão dar por si incomodadas, ou até assustadas, porque alguém com um fenótipo distinto do seu – com muito maior probabilidade se tiver sinais associados a um estatuto social inferior ou ao comportamento marginal – está na sua proximidade física. Que se passa, então?

O que primeiro há a dizer é que se passa algo absolutamente natural. Ninguém se lembra de ter pedido para nascer por uma excelente razão, não aconteceu assim. Quando damos por nós na nossa subjectividade, algures aos três ou quatro anos, não sabemos onde estamos, nem porquê, nem para quê. Seguramente, se nos tivessem pedido a opinião, o processo da gestação e do desenvolvimento até à plena posse das competências psicossociais poderia ter sido bem diferente. Tal como as coisas se passam desde que há Homo sapiens a calcorrear o Planeta, no entanto, todos sem excepção somos especialistas em discriminação ainda antes de tomarmos consciência da nossa individualidade. Os bebés e as crianças, e ainda os jovens e os adultos de todas as idades, dependem da sua capacidade para discriminar outros seres humanos caso queiram viver melhor, mais tempo, e, em diversas ocasiões, salvar a sua vida ou a dos seus. Preferimos os nossos e tememos, no mínimo desconfiamos, dos estranhos. Sentimo-nos em segurança junto daqueles que se parecem connosco corporal, cultural e economicamente. Preferimos quem nos pode beneficiar e excluímos quem nos pretende prejudicar ou não pode ou não quer beneficiar. Cultivamos o romantismo da “alma gémea”. Aceitamos a sentença aristotélica de que “os iguais procuram os iguais”. Isto constata-se em termos evolutivos pois é logo ao nível celular o que acontece na organização e explosão biológica, vindo daí a capacidade de discriminação em múltiplos níveis e funções para cada organismo a aumentar de complexidade em formas e ritmos imparáveis no reino animal. A gazela que se lembrou de ir brincar com os leões para mostrar que não era racista não teve tempo para nos deixar a sua história como exemplo edificador das futuras gerações de gazelas.

Assim, preferimos a família, o clã, a tribo, o reino, a nação, o país, o clube e o parceiro amoroso que calhe considerarmos os nossos. Seria possível escapar a este preconceito discriminatório dos parceiros amorosos, clubes, países, nações, reinos, tribos, clãs e famílias que não são os nossos? Sim – mas só no caso improvável, miraculoso à escala cósmica dentro dos actuais conhecimentos, de criarmos a civilização. Há várias civilizações, tomadas na sua dimensão etnográfica e histórica, mas só há uma civilização se entendermos o conceito na sua ambição universalista filha do Iluminismo e das Revoluções Americana e Francesa, neta do cristianismo e do mundo árabe, e bisneta da cultura greco-romana. Por aqui, consagramos o princípio da igualdade entre todos os seres humanos logo a partir do seu nascimento como a inspiração suprema de todas as subsequentes alterações legais, sociais e culturais que se vieram a estabelecer ao longo dos últimos dois ou três séculos na maior parte dos países do Mundo, um piscar de olhos nos trezentos mil anos da nossa espécie. Acreditar que somos todos iguais no plano dos direitos, dignidade e oportunidades é um lindo ideal que funda e molda a nossa moralidade. Daí, porque acreditamos na sua bondade e nos identificamos com os restantes que também o defendem e promovem, é-nos muito difícil dar conta da dissonância cognitiva inerente à diferença entre o ideal e o real. Na realidade, continuamos a viver aceitando discriminações de tipologia “racista” sem que isso nos tire o sono. Será que somos fatal e desesperadamente hipócritas?

Compreender que a discriminação é um mecanismo evolutivo estruturante e sistémico, sem o qual não haveria qualquer forma de vida, deve levar a luta contra o racismo para a inscrição do óbvio: há “racismo” contra mulheres, homossexuais, velhos, pobres, feios, doentes, baixos, gordos, carecas. Há “racismo” na perseguição inter-religiosa, na violência doméstica, nas empresas através do assédio moral, nas zaragatas entre adeptos de futebol, no tratamento a adversários políticos. As circunstâncias que podem gerar um comportamento discriminatório são ilimitadas, pelo que estar a tratar essa específica discriminação relativa ao tom de pele, traços faciais e tipologia capilar que se pode detectar transversalmente na sociedade portuguesa, e em todas em todos os continentes, como manifestação de racismo provinda de racistas encartados é ineficaz pois gera respostas defensivas nesse grupo maior que não consegue desconstruir o seu preconceito enterrado nos seus automatismos inconscientes.

Desistir de lutar contra o racismo? Nada disso, pá, exactamente ao contrário. O argumento que aqui deixo tão pauperrimamente amanhado apenas pretende chamar a atenção para um naco de sabedoria popular: não se apanham moscas com vinagre. Do que precisamos, logo a seguir à tolerância zero para o fenómeno no plano legal e cívico, é de trazer à tona a vítima de discriminação que todos fomos, somos ou viremos a ser se tivermos a sorte de lá chegar. Afinal, o que acaba definitivamente com o racismo é o sentimento de partilha de um bem comum.

Direita portuguesa: a fina flor do entulho

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Teatro Marcelino

Peça:

“Auto do Conselho de Estado”

Protagonistas:

Rui Rio – Presidente do PSD e Conselheiro de Estado
Luís Marques Mendes – Ex-presidente do PSD e Conselheiro de Estado
Marcelo Rebelo de Sousa – Ex-presidente do PSD e Presidente da República
Francisco Pinto Balsemão – Ex-presidente do PSD, Conselheiro de Estado e empresário da comunicação social

Enredo:

Francisco paga ao Luís para dizer mal do Rui num canal de TV em sinal aberto, o Rui vai para o Twitter dizer mal do Luís, e depois vão os três para um palácio emprestado ao Marcelo continuar a dizer mal deste e daquele e do outro. Os jornalistas e comentadeiros engajados abafam o escarcéu, e fingem que a direita portuguesa ainda guarda algum vestígio de decência e sentido de Estado. No final, há um número musical onde aparecem todos abraçados e a cantar que são muito felizes aqui na Parvónia a “fazer política” e “jornalismo de referência”.

Revolution through evolution

Women and men still choose partners like they used to
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Study shows how caring responsibilities affect health and restrict ability to work
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Sedentary behavior independently predicts cancer mortality
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What it means when animals have beliefs
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Blaming People for Getting Sick Has a Long History
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Leveraging Uncertainty During The Pandemic: Lessons From Expert Entrepreneurs
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As many as six billion Earth-like planets in our galaxy, according to new estimates
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Continuar a lerRevolution through evolution

Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep9)

Polícias, detectives, procuradores, jurados e juízes podem estar com as melhores intenções e chegarem às piores conclusões. Quando tal acontece – e se acontecesse uma só vez já teria sido uma vez a mais do que é aceitável num Estado de direito democrático – o resultado é uma das piores injustiças que se pode sofrer. Porque ao dano imposto ao inocente, ou ao culpado merecedor de pena inferior, acresce a violência opressiva, totalitária e desesperante de ter sido a instituição Justiça e o Estado a retirarem os direitos à vítima e a violarem o princípio da presunção de inocência, direito fundamental inscrito na Constituição da República Portuguesa. Até crianças são capazes de assimilar o que está em causa ao se querer viver em sociedade sob a regência deste principio: sem ele ficamos sujeitos à lei do mais forte, aquele que passa a não precisar de provar as suas acusações, apenas precisa de garantir a força para aplicar os castigos arbitrários que servirem os seus interesses ou pulsões. A lei do mais forte é antinómica da força da Lei.

Alguém aceitaria ser paciente de um médico que não conseguisse fundamentar na medicina as suas terapias? Alguém deixaria a sua filha ser operada por um cirurgião famigerado por se enganar nos órgãos a tratar? Alguém aceitaria atravessar a ponte construída pelo engenheiro que fez cálculos aritméticos errados? E quanto ao general que aparecesse a gritar ter marcianos no quintal, seria quem gostaríamos de ver à frente do nosso exército? Estes são exemplos caricaturais que apenas pretendem realçar uma banalidade: quando nos toca a nós, fugimos de mentirosos, broncos e lunáticos e procuramos aqueles que nos parecerem mais competentes para resolver os problemas que nos afligem. No caso da Justiça, a primeira e mais alta competência é a da defesa da presunção de inocência. Falhando-se aqui, falhou-se em tudo o que venha a seguir por mais processualmente correcto que possa parecer. Na Justiça exige-se aquilo sem o qual também a ciência não passará de senso comum e superstição: evidência. Não basta ter teorias e hipóteses sofisticadas e lindas, é preciso passar pela experiência, recolher os dados e construir a evidência para que, eventualmente, se produza conhecimento científico. Na Justiça é igual quanto ao critério epistemológico e decisório, começa-se sempre pela evidência de que até um arguido, seja lá qual for o peso da acusação que carregue ao chegar a tribunal, é inocente até prova em contrário transitada em julgado. Para deixar de ser inocente, necessário é trocar de evidência, tornar evidente que é culpado. Isto significa que numa Justiça justa há um pendor para a inocência e não para a condenação – in dubio pro reo. Ser civilizado, neste mundo onde há princípios e direitos, implica perceber, entender e compreender que o maior mal não é deixar escapar o culpado sem condenação, o mal maior é deixar condenar o inocente.

Existe vasta literatura nas ciências humanas e jurídicas sobre erros judiciais, cobrindo casos famosos e com famosos e casos da arraia-miúda diluída na molhada estatística. Excluindo teorias da conspiração ou patentes transgressões dos deveres dos magistrados e corpos policiais explicáveis por intentos criminosos ou políticos óbvios, encontramos valioso material informativo e reflexivo em diferentes disciplinas e áreas multidisciplinares, interdisciplinares e transdisciplinares que investigam o fenómeno há décadas, ou séculos, ou talvez milénios, dependendo das fontes que se reconheçam válidas. Fazendo aqui uma síntese à padeiro, podemos circunscrever a origem dos erros judiciais involuntários às falhas lógicas e de raciocínio. Por razões antropológicas e evolutivas, todos sem excepção estamos sujeitos a limites cognitivos e a vieses múltiplos. Na práxis da investigação criminal, a “visão em túnel” (onde se reduz o campo interpretativo a um só critério teórico, deixando de valorizar a evidência leve ela onde levar e passando a valorizar o suspeito como meta da recolha de provas) e o “viés de confirmação” (onde se passa só a valorar a informação que confirme a hipótese inicial ou a hipótese favorita, inclusive chegando a afastar ou destruir a informação que arrisque pôr em causa a hipótese que se procura confirmar) são os dois principais mecanismos cognitivos que geram um conjunto de disfunções que se reforçam entre si para garantirem a coesão e integridade daquilo que fica como erro de probabilidade. O fulano escurinho que se vê a correr para longe da cena do crime é o mais provável suspeito do assalto à loja, o tipo com a cara do Cary Grant que foi fotografado num átrio das Nações Unidas com uma faca na mão é o mais provável assassino do Sr. Townsend, certo?

A só ser possível ver um trecho dos interrogatórios feitos a Armando Vara na Assembleia da República, em 19 de Junho de 2019, o que recomendaria era o da segunda intervenção de Mariana Mortágua (Ep8). São 12 minutos devastadores e enternecedores. O fogo de barragem contínuo havia ultrapassado as 4 horas, o massacre com as mesmas insinuações e perguntas de merda vindas de todos os grupos partidários era imparável. Vara, aquando da primeira intervenção da deputada bloquista, não tinha escondido na linguagem corporal o seu agrado, irreprimível prazer, por estar em interacção com ela. Nesta segunda ocasião, chega a verbalizar a sua inclinação emocional, quiçá afectiva, mas em tom de pesar, mágoa. A Mariana tinha desiludido e magoado o Armando, levando este a deixar a mais eloquente e credível reclamação de inocência que me foi dado assistir até hoje a qualquer pessoa. Claro, não faço ideia se ele está inocente do que o levou a ser condenado no Face Oculta e do que o fez acusado na Operação Marquês, não o posso saber no campo da evidência, mas é essa mesma procura de evidência que me faz deduzir ter sido Vara condenado a prisão sem provas suficientes para tal e induzir que foi acusado por causa de um negócio bancário onde a sua culpabilidade por qualquer coisa ilegal, seja o que for, é a menos provável das hipóteses.

Mortágua, na sua segunda legislatura como deputada, com mestrado e doutoramento em Economia, a cinco dias de celebrar 33 anos de idade, deixou o cidadão Vara em choque ao declarar, convictamente, que o “centro da comissão de inquérito” que ali os reunia era a acusação do Ministério Público relativa a Vale do Lobo. Foi uma manifestação prodigiosa do efeito de ilusão de verdade e fica como monumento ao hipnotismo mediático e atrofio cognitivo de que dependem a direita decadente e a indústria da calúnia. A mais promissora vedeta parlamentar do actual BE, por excelentes razões, acabava de anunciar que tinha voluntariamente ingressado na quinta-coluna da Cofina e estava a servir com devoção esses senhores. De facto, as suas perguntas sobre Vale do Lobo eram funcionalmente pífias, irrelevantes, somente para encher o chouriço e nada de notável se teria passado caso não lhe tivesse fugido a boca para a “verdade”. A tal “verdade” que politicamente deu origem àquela comissão, sem qualquer dúvida, isso de se ir aproveitar os recursos parlamentares e a cobertura mediática para voltar a espalhar em vésperas de eleições legislativas a culpabilidade de Vara, Sócrates e do PS pelos crimes da corrupção à fartazana inventados, julgados e explorados no esgoto a céu aberto em várias sessões ao dia.

O mais espectacular do episódio nem é a pasmosa iliteracia da deputada acerca do que seja um Estado de direito democrático, e respectiva separação de poderes, e demais garantias legais nos processos judiciais, e inerentes direitos individuais dos visados por suspeições, acusações e condenações. O mais espectacular é o que ela não disse nem nunca ninguém lhe perguntará em público – se a Mariana Mortágua, com tudo o que investigou e perguntou a respeito do empréstimo para Vale do Lobo, está em condições de elaborar uma hipótese, uma qualquer por mais tosca ou desvairada que seja, que explique como é que Vara obrigou directores e administradores da CGD, com as mais diversas filiações políticas e altas competências técnicas e jurídicas, a votarem a aprovação desse empréstimo e depois a irem para a Assembleia da República afirmar que nada de ilícito se passou no processo. Se está, talvez ainda vá a tempo de falar com Ivo Rosa para que o bandido não escape. Se não está, talvez não lhe faça mal passar uns tempos a reflectir no papel dos deputados, no papel do Ministério Público e no papel onde está impressa a Constituição.

Coisas do Carvalho

Na versão original deste texto, o director do Público mostrou aos seus leitores como é que a memória de um sectário funciona: por apagamento e distorção. Às cinco e meia da matina do dia 16 de Junho de 2020, o prestigiado e premiado jornalista Manuel Carvalho era ainda um felizardo que flanava na realidade alternativa onde Carlos Costa tinha chegado a governador do Banco de Portugal só porque Passos Coelho viu nele um bom rapaz. Metade da sua fantasia era verdadeira, o Pedro gostou muito do Carlos, mas tal deve-se ao que o Carlos fez pelo Pedro aquando do seu 1º mandato, o tal nascido da escolha de Sócrates e onde a paga foi vermos o governador do Banco de Portugal – a partir de Fevereiro de 2011, consumada a reeleição de Cavaco – a actuar como aliado dos que queriam afundar Portugal para chegarem ao poder através da terra queimada.

Terra queimada, alagada e destruída pelo cataclismo económico e social chamado resgate de emergência e “austeridade salvífica”. Hoje sabemos inequivocamente que o PEC IV teria sido a melhor solução para a conjuntura de então. Sabemos que o FMI dos falcões estava errado, os próprios o admitiram. Sabemos que o Banco Central Europeu estava errado, a partir de 2012 corrigiram o erro e de imediato acabou a crise das dívidas soberanas na Europa. E sabemos que a direita decadente portuguesa estava errada, mas tal nunca será por ela assumido. Assim, a luta continua para os responsáveis pelos incontáveis sofrimentos e desgraças que teriam sido evitados caso a defesa do bem comum e o interesse nacional tivessem prevalecido. A narrativa sobre os idos de Março de 2011 petrifica-se como arma de arremesso para quem nos quer fazer mal e oculta-se como vergonha calada para quem mal nos fez. No caso do BE e do PCP, podemos aceitar que se redimiram do que fizeram aos seus concidadãos em 2011 quando, parecendo milagre, aceitaram viabilizar um Governo minoritário do PS em 2015 que tinha a urgência de afastar os ogres e acabar com o fanatismo rapace. No PSD e no CDS, nem remorso, nem vergonha, nem vestígios de decência.

É fácil de entender o processo psicológico que o levou a apagar parte tão conspícua da história recente. Tratando-se de um jornalista com as responsabilidades editoriais deste passarão, o que está em jogo é a sua coerência interna. E esta é sui generis, bastando recordar que o Sr. Carvalho, com a rutilância editorialista e sonaica que lhe desenha o perfil de pulha, chamou bandido a Vítor Constâncio apenas porque lhe apeteceu reduzir a práxis jornalística à sua imaginação alaranjada – e continuou a ser director do pasquim depois desse mergulho na desonra. Logo, apagar o currículo de Carlos Costa, e soterrar a sua influência clandestina e ostensiva para que Portugal não aceitasse o plano que teria evitado a Troika assim permitindo ao Pedrinho voltar a chamar o Carlinhos, é para o actual director do Público uma missão que os seus neurónios têm cumprido com zelo.

Sim, nessa tal realidade alternativa onde Carlos Costa é “um homem com um passado profissional longo e credível e um distanciamento da política notório” até no Público se pratica jornalismo de referência.

Coxos e zarolhos

A 10 de Junho de 2019, com os mais importantes representantes do Estado e dos cidadãos soberanos hieraticamente perfilados ao redor da estrela convidada para comemorar Portugal, Camões e as comunidades portuguesas, ouvimos um discurso cuja palavra inicial, depois dos cumprimentos da praxe, foi “Eu”. Este pronome pessoal aparece 11 vezes no texto. Os pronomes possessivos “meu”, “meus” e “minha” aparecem mais 18 vezes. Trata-se do cimento lexical necessário para erguer e desenvolver uma narrativa heróica acerca de um certo portalegrense com uma história de vida impressionante. Tendo vivido e crescido ao cimo da Avenida Frei Amador Arrais, teve de sair da sua cidade para realizar o sonho de obter uma licenciatura. Um sonho nascido num jovem que foi obrigado pelo destino madrasto a ter de passar pelo desafio de ser filho de dois funcionários públicos, e de fazer o ensino básico e secundário numa escola pública, acabando fatalmente por se licenciar numa universidade pública. Apesar dessas adversidades, apesar das quatro horas de autocarro de Portalegre a Lisboa (duração igual para o regresso; ou seja, penalização a dobrar), e de a essa distância física corresponder uma ainda maior distância cultural pois os livros eram poucos e vendiam-se nas papelarias (incrível, não é?), apesar de o cinema só funcionar ao fim-de-semana (horror indescritível) e de as bandas que este jovem e amigos de rua e escola queriam ouvir não passarem por Portalegre (indescritível horror), ele foi subindo aos poucos na vida e chegou ali. Ali, ao palco de onde agora falava ao Povo. Ora, tal tem uma explicação, que o próprio magnanimamente se encarregou de nos oferecer. É que, no meio dos obstáculos todos que teve de vencer até chegar lá, ao ali, deu-se a felicidade de ter tido pais que investiram parte do salário a comprar livros e enciclopédias que chegavam pelo correio, a prestações. Quantos livros, quais? Quantas enciclopédias, e ficaram completas ou ainda há uns volumes a faltar nas estantes? Interrogações inevitáveis, imediatas, e mesmo lancinantes, que ficaram sem resposta na ocasião solene. Porém, desiluda-se quem pense que a audiência saiu de mãos a abanar quanto ao segredo do sucesso do orador. O próprio revelou que os seus pais tinham um plano para ele, o tal filho que estava ali no paleio de costas para um Presidente da República e outros tipos. Esse plano parental correspondia ao algoritmo “objectivo claro” + “um caminho para trilhar na sociedade portuguesa“, desdobrando-se nas seguintes etapas: lutar pela liberdade em 1974, lutar pela democracia em 1975, lutar pela integração na Comunidade Europeia nos anos 80 e lutar pela entrada na moeda única durante a década de 90. Se vitoriosos de tantas lutas, o seu amado filho não teria de se limitar a 15 dias de férias em Albufeira, era a ambição que motivava os progenitores planificadores e lhes dava ânimo inesgotável. Pelo que o próprio João Miguel Tavares tem publicitado a respeito das suas férias recentes, podemos já com confiança declarar que os seus pais triunfaram plenamente.

Em 10 de Junho de 2020, abraçado pelos Jerónimos, vibrou no ar um discurso cuja palavra inicial, depois dos cumprimentos da praxe, foi “Agradeço”. Ainda no seu primeiro parágrafo, a primeira citação – «como pesa na água (…) a raiz de uma ilha», de Herberto Helder. Seguiu-se uma reflexão onde se cruzou o legado camoniano – literal e simbolicamente, a mátria lusitana – com o desvelamento da actualidade para atender ao que mais importa numa comunidade, a cidade de pessoas para pessoas. No último parágrafo, a última citação – «rasto do fulgor», de Maria Gabriela Llansol. A meio do texto, uma suposta citação de Margaret Mead, a anedota do fémur quebrado e cicatrizado. Anedota no sentido de historieta, mas anedota também para aqueles que se tenham sorrido, ou mesmo rido, com a profundidade interpretativa dessa micronarrativa. Súbito, dezenas de milhares de anos de criação e construção civilizacional ficam inscritos nas marcas de um fémur humano que teve tempo para sarar. Não é na biologia e fisiologia desse acontecimento que a nossa inteligência encontra a surpresa, o sentido e o encantamento. É no factor estritamente humano que com compaixão, generosidade e invenção introduziu na Natureza a novidade de ajudar e proteger quem está próximo e em grave carência. Este momento antropológico do discurso mostra, quanto à eficácia pedagógica, que estamos a testemunhar uma lição. E mais prova que a etimologia de lectio como apanha, colheita, tem em Tolentino de Mendonça um exímio artista. Deixou-nos em desenho uma linha que vem das raízes na água, passa pelas pernas no chão, e acaba com o olhar apontado ao fulgor do mistério de tudo e de todos. A linha de uma ave a levantar voo nesse preciso momento impossível em que está entre a terra e o céu.

O 10 de Junho de 2019 serviu para que se promovesse um apelo à sedição de fantochada a partir de um palanque do regime. Para tal, a retórica e economia textual usadas tiveram de montar um circo demagógico e populista onde se apagou tudo o que foi e é positivo na comparação entre o regime democrático e o regime anterior. O que restou depois de se excluir o que nos liga na República é um mundo cão onde apenas o individualismo glutão conta, apenas se aponta ao que corre mal aqui ou ali, apenas se valoriza o que não se tem. Donde, cantarolou o profeta do regresso de Passos Coelho, a causa da minha situação infeliz, a culpa para a minha insatisfação insaciável, assim corre o mecanismo propagandístico, está nos que se distinguem por uma qualquer aparente superioridade ou percebida vantagem face a mim. Se eles têm sucesso, ou que seja só notoriedade, então tal só é possível porque eu não tenho sucesso, porque não há holofotes da fama apontados ao meu canto. As elites, os corruptos, os políticos (passe a tautologia) estão a roubar-nos, e tu, se quiseres ser como eu e chegar onde eu cheguei (olha para isto, pá, olha como “eles” me vêm comer à mão), tens de continuar a garantir que eu saco o meu ao fim do mês; ou seja, tens de continuar a papar o que te sirvo na manjedoura da indústria da calúnia, esse hino à impotência colectiva para proveito e gozo dos que enchem a boca com “verdades” ao gosto popular acabadinhas de grelhar. Aqui está a mensagem suprema da partida que Marcelo pregou aos portugueses – com a finalidade de interferir no ciclo eleitoral e de alimentar o linchamento de Sócrates e respectiva coacção da Justiça a seu respeito – quando enfiou João Miguel Tavares na lista dos que tiveram oportunidade para honrar a data e o que ela representa; algo comparável em imaginação exótica à partida dos “árabes” no Tavares Rico em 1971, só que no ano passado foi a sério, foi real, teve o selo do regime, mesmo que continue a parecer uma alucinação distópica.

O 10 de Junho de 2020 serviu para outras coisas bem diversas, deslocámos a atenção para o essencial da vida em comunidade, sentimos a passagem de um espírito são; mas numa coisa foi análogo ao ano anterior: permitiu que ficássemos a saber ter Ana Gomes gostado muitíssimo mais do penúltimo 10 de Junho. Essa normalização e defesa da pulhice, de que o seu apoio a um discurso soez e indigno de Abril é uma manifestação exuberante, acaba por produzir a mais harmoniosa das afinidades. De facto, no ano passado, a única personalidade a que o presidente das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas fez referência para além de si próprio e da sua família mais chegada (grupo onde se incluem os sogros e três mulheres que criaram a sua mulher, não esquecer) foi precisamente Camões. A única abébia que deu à elite, talvez por imposição exterior, consistiu em identificar uma das figuras que era dever protocolar comemorar no seu discurso. E só concedeu em nomeá-lo, sem o citar, porque tinha um conselho para deixar a professores e doutores: que se leia menos os Lusíadas pois já farta de tanta “exaltação patriótica”, se é para perder tempo com o zarolho que tragam os seus poemas giros com escravas boazudas. É disto que o povo gosta, vai sem discussão, pelo que estamos em condições de antecipar o futuro. Quando Ana Gomes for a presidenta, depois de pulverizar os corruptos com o seu fácies de imaculada furibunda, já sabemos a quem irá entregar o 10 de Junho para um encore. Não, padreco armado em poeta, tu vai lá para a tua Vitalina Varela da tanga e deixa-te de ilusões beatas. A regra da civilização não é a do fémur cicatrizado, essa foi a excepção. A regra é a da selva, onde os mais fortes comem os mais fracos, e onde os menos burros enganam os muito burros. Aprende com a gente séria, Tolentino, e tem cuidadinho com as más companhias.