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Rui Rio é estúpido?

Rui Rio quis liderar o PSD após a catástrofe económica e social da responsabilidade principal de Passos e Portas. Quis enfrentar o PS a governar num inaudito quadro de apoio parlamentar e com estrondoso sucesso económico e social, liderado eficazmente por António Costa. Não temos de conhecer as razões que o levaram a escolher este calendário, mas cresce a convicção de que a sua escolha nasceu de uma fraqueza. Arriscar o menos possível, ganhar o partido à primeira tendo este batido no fundo. E continuar sem nada querer aprender.

Na campanha eleitoral para o PSD e tempos seguintes, Rio pôde sentir na pele a colossal energia guerreira que a temática da Justiça armazena e espalha sistemicamente. Tal resulta de 15 anos de judicialização da política e de politização da Justiça que culminaram na “Operação Marquês”, uma investigação que se transformou em bandeira política reclamada oficialmente por Cavaco Silva e Passos Coelho. A mera expressão de avulsas e óbvias críticas ao Ministério Público de Marques Vidal valeu a Rio ataques ferozes da direita decadente, na qual se destacou Marques Mendes (em representação do regime) que chegou ao ponto furibundo de colar Rio a Sócrates – no que ficou como ostensiva, debochada, chantagem pública. Se Rio continuasse por esse caminho, arriscando pôr em causa o sucesso pleno da vingança em curso e a tentativa de atingir o PS com dano máximo, então iria ser destruído com base em difamações e calúnias.

A chantagem resultou. Aquele que era o maior trunfo de Rio, a manifestação de uma coragem singular numa sociedade cúmplice da violência que constitui a essência da “Operação Marquês”, foi abandonado, com isso perdendo a sua imagem de integridade e abdicando de construir um posicionamento político capaz de disputar o eleitorado mais comprometido com a decência e a segurança na cidade. Para as Europeias, escolheu um profissional da baixa política que fez uma campanha inane, sem qualquer ideia e a cuspir ódio sempre que abriu a boca. O próprio Rio assumiu a calúnia como arma eleitoral, destruindo de vez a sua credibilidade. Fez tudo exactamente ao contrário do que devia ter feito, perdeu uma ocasião histórica para deixar o seu nome na História.

Vem aí o Verão, as férias, os incêndios, e depois teremos umas semanas de berreiro partidário até às legislativas. A única coisa sobre o actual presidente do PSD que resta descobrir é esta: é estúpido ou apenas falho de inteligência política?

PANegírico

O equívoco daqueles que falam em equívoco no resultado do PAN está em pensarem que a fatia principal dos votos veio de pessoas com preocupações ecológicas. Desconhecendo qualquer estudo sociodemográfico e psicográfico sobre os 168.501 eleitores em causa, mas registando que o voto foi maioritariamente urbano, intuo que a motivação pode ser múltipla e convergente:

– Dependência afectiva e relacional de animais de estimação.
– Iliteracia e alienação política.
– Desejo de intervenção cívica.

Neste retrato imaginado não existe qualquer preocupação com a ecologia, muito menos a transformação dessa eventual problemática numa decisão eleitoral informada e analítica. A decisão de ir votar, e de votar no PAN, encontra antes a sua lógica e dinâmica como solução para a dificuldade cognitiva em assimilar as mensagens das restantes forças políticas e para a dificuldade emocional em suportar a retórica hostil, bélica, litigante que preenche obsessivamente os espaços de discussão e propaganda política.

Aposto também que o PAN terá conseguido contribuir para o aumento do número de votantes face às últimas eleições, sendo uma excelente opção para abstencionistas de longa data. A ser verdade, e independentemente da sua imprevista evolução interna e externa como partido com representação parlamentar, o seu papel no sistema partidário e no regime é altamente benéfico pois estará a formar eleitores. Eleitores que poderão mudar o sentido do seu voto numa qualquer outra ida às urnas, ou não, assim cumprindo perfeitamente o ideal democrático.

O julgamento de Nuremberga vai parecer uma brincadeira

«José Sócrates sempre foi muito próximo politicamente dos líderes socialistas da América Latina, como Lula da Silva e Hugo Chávez. Isso gerou oportunidades de negócio para as empresas portuguesas mas também gerou fortes suspeitas de corrupção internacional que têm sido detetadas nas investigações da Operação Marquês e do caso BES. O Brasil, Portugal e um futuro governo democrático na Venezuela deviam investigar essas ligações a fundo com uma equipa de cooperação judiciária especial?»

Sérgio Moro. “É uma possibilidade criar equipa para investigar as relações entre Sócrates, Lula e Chavéz”

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O talibã está feliz da vida. Um juiz que judicializou umas eleições presidenciais para alcançar poder político, o qual acumula com ser ministro da Justiça de um presidente adorador de tiranos, voltou a Portugal para continuar a exibir o seu desprezo pelo Estado de direito. É isto que enche de alegria o talibã, poder abraçar-se ao seu ídolo e usá-lo para escoucear o princípio da presunção de inocência e fazer a apologia das perseguições políticas a partir da Justiça.

Como podemos ler acima, a direita decadente pode não ter votos mas tem uma utopia. Trata-se de montar uma força policial internacional onde Sócrates continue a ser linchado nos próximos 20 a 30 anos. Para já, o talibã apenas avança com a sugestão de reunir três países, mas é óbvio que está a ser modesto e que se podem juntar muitos mais. Basta ver a listagem das suas viagens ao estrangeiro como primeiro-ministro e depois incluir esses países, mais aqueles com que tenham fronteiras (porque os corruptos internacionais são uns saltitões, é uma chatice), na entidade judicial mundial que vai investigar Sócrates, Lula e Hugo Chávez (para este último bandido, a eventual sentença será aplicada por seres com asas e vestes imaculadamente brancas).

A madraça lá conseguiu mais um título para alimentar os seus borregos. Que teriam para dizer caso não fizessem da pulhice o seu modelo de negócio? Mistério que nenhuma coligação internacional, ou que fosse planetária, conseguiria desvendar.

Europeias 2019, o Pedro explica

"Ah, com certeza passaria a defender o voto no PS, no PCP e no Bloco de Esquerda. Se pudéssemos todos, sem dinheiro, devolver salários, pensões, impostos e no fim as contas batessem todas certo, isso seria fantástico."


Pedro

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Ou seja, apesar de ter aparecido na campanha do PSD para carimbar os socialistas como “ilusionistas”, arte onde o Pedro revelou ser mestre sem rival na campanha para as legislativas de 2011, às escondidas o saudoso líder andou a defender o voto no PS, no PCP e no Bloco de Esquerda. Como explica na entrevista, estamos perante um milagre e há que pôr a cruzinha respectiva para o assinalar.

Agora só resta esperar que o Pedro volte daqui a uns meses para continuar a magnífica obra que antecipou logo em 2016. A direita está patrioticamente a tentar ajudar a governação e as contas públicas. A fórmula passa por se agarrarem ao Sócrates, ao Vara, ao Berardo, à CGD, aos familiares até ao décimo quinto grau, ao Carlos Alexandre, à santa Joana, aos cómicos engajados, assim evitando terem de sequer simular que possuem uma ideia, uma que seja, que mereça a atenção do eleitorado. E resulta, as pessoas compreendem e reagem em conformidade.

Como se gritou nos comícios onde o brilhante Paulo Rangel pôs a chicana e o ódio na ventoinha, número em que é especialista: “O povo não esquece que a culpa é do PS”. É isso, a culpa é do PS. ‘Tá feito. A direita, esta direita decadente, não precisa dizer mais nada para ajudar a malta. São uns queridos.

Revolution through evolution

Unlike men, women’s cognitive performance may improve at higher room temperature
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Discrimination against older people needs attention
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Study identifies dog breeds, physical traits that pose highest risk of biting children
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‘Imagine…’ – our attitudes can change solely by the power of imagination
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Walking and strength training may decrease the risk of dying from liver disease
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People in higher social class have an exaggerated belief that they are better than others
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Initially threatened by change, people adapt to societal diversity over time
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Um servicinho público

A série Teorias da Conspiração é um fenómeno. Quem perder o seu rico tempo a ler o pouco que saiu aquando do lançamento vai descobrir que a promoção pelo autor, realizador e jornalistas amigos prometia um vendaval de reacções políticas, especialmente por parte do PS. O tema indicado era o da crise que tinha levado ao resgate de emergência em 2011, tendo-se criado a ideia de ser esta série o espelho de uma investigação, um docudrama ou docuficção, a partir do livro de Paulo Pena Jogos de Poder. Muito bem, fixe, pensou o ingénuo telespectador e pagador de impostos.

Vem o primeiro episódio. O registo é de telenovela da hora de almoço. Estranheza inicial: não há nomes reais. Temos de tentar descobrir quem é quem através dos contextos, caricaturas, insinuações e convocação lateral ou analógica de factos históricos. Apesar das incertezas, algumas figuras são inquestionavelmente reconhecíveis: José Sócrates, Joe Berardo e Jardim Gonçalves. Resumo dos 40 minutos: Sócrates, Joe Berardo, CGD, Maçonaria e aquele que se revelará um psicopata assassino uns episódios à frente, sendo que neste já se exibe como assassino involuntário, conseguem afastar Jardim Gonçalves recorrendo a uma ameaça à sua vida; Jardim Gonçalves, apesar de ter feito umas merdas no BCP que cheiram mal, é uma pessoa seriíssima e com muito valor, tendo pegado em bancos falidos e criado o maior banco privado português. E prontos, estava despachada a primeira fatia de um bolo com 18 episódios.

Lá para o 7º ou 8º episódio, depois da confusão dos nomes alternativos e dos desvarios ficcionais ir em crescendo para quem não domine todas as cifras identificativas, faz-se uma luz, uma luz negra. Ocorre quando se atribui ao primeiro-ministro, o nosso Sócrates – já devidamente retratado como irascível, prepotente e maquiavélico em versão Chelas anos 80 – o caso das casas do Cavaco. Sim, descreve-se a trafulhice cavaquista mas retrata-se na personagem socrática o seu protagonismo. O mesmo se fez com o caso dos submarinos e até dos vistos Gold. Não só Sócrates aparecia como o vilão diabólico que absorvia e espalhava todo o mal da Nação como o calendário da ficção deixava de ter relação com o calendário real onde esses casos ficaram inscritos. Passava a valer tudo, assim se concretizando numa narrativa delirante a moral da perseguição e linchamento de Sócrates realmente operada política, mediática e judicialmente logo a partir de 2004.

O silêncio que se abateu sobre esta série merecia uma investigação académica. Por um lado, é uma homenagem à sua qualidade paupérrima como objecto televisivo de ficção. De facto, custa chegar ao fim quando estamos a ser ofendidos na nossa inteligência. Por outro lado, o silêncio manifesta a intenção do regime em condenar Sócrates à maneira do massacre dos Távoras. Assim, a administração da RTP não terá de dar a mínima explicação sobre os critérios que levaram à aprovação deste projecto e qual a razão para ter 18 penosos episódios. Para se entender o que está em causa, pensemos se seria possível fazer algo similar sobre o BPN ou os efeitos das políticas de Passos Coelho. A resposta é uma óbvia negativa, há nomes intocáveis. Porém, acerca de acontecimentos, casos e questões que estão em aberto, que são alvo de polémicas políticas, que não tiveram da Justiça o seu devido esclarecimento, pode-se achincalhar, deturpar, inventar e alucinar sem freio porque se trata de Sócrates e do PS.

Teorias da Conspiração é uma série criada para informar o público, de modo divertido, que existiu um primeiro-ministro que teve como cúmplice do seu plano mefistofélico de poder um advogado assassino, entre outros escroques. Os autores apresentam referências directas à realidade factual para comporem e ilustrarem a sua narrativa. A televisão pública comprou este projecto, promoveu-o, e fez com que apanhasse o calendário eleitoral e chegasse ao último episódio nas vésperas da votação para as Europeias. Fica cúmplice da sua natureza caluniosa e doentia – ou seja, faz de nós todos cúmplices da decadência moral e anomia da vingança em curso.

“Abutre” – João Pedro da Costa

Tive a sorte, a honra, o kairós de ter lido esta obra quando ela mais falta me fez. Revelo: quando ela foi a melhor companheira de uma longa e última despedida. A sua narrativa fractal, o abraço impossível e cósmico de um avô a um neto, o passado como presságio esvoaçante, envolveu-me numa beleza que fez de Canidelo parte da minha biografia afectiva.

João Pedro da Costa, no tempo em que existia a blogosfera, era o mais criativo dos seus autores. Como se isso não bastasse, foi nele que David Benioff e D.B. Weiss se inspiraram para compor o visual da personagem Jon Snow:

Imitação

Original

Faço votos de que não se venda nem um exemplar. Que mais ninguém leia este livro para além dos felizardos a quem o João o ofereceu. Que fique um segredo para iniciados que viram, ou ainda querem ver, um filho nascer duas vezes.

Coisas do Carvalho

«No Portugal deslumbrado com os fundos europeus, do dinheiro fácil e da promiscuidade barata, bastava ser rico, estar de pé firme na oligarquia da capital para se merecer uma distinção. Berardo não foi o criador dessa cultura; foi sim uma das suas mais exuberantes criações. Puni-lo por se ter tão perfeitamente integrado nesse caldo venal de vícios e favores faz todo o sentido – até para que não continue a gozar com os brandos costumes e com a impunidade alimentada pela lentidão da Justiça. Mas jamais apagaremos esses dias [que] levaram o país até perto da bancarrota com gestos simbólicos.

Caímos assim na essência da Operação Marquês. No julgamento dessa nódoa da história nacional recente, nessa tentativa de uma elite plutocrata criar um sistema de poder tentacular. Se Berardo entrou nesse jogo a convite, se hoje pode dizer que não tem dívidas e se não se vislumbram meios de a Justiça o forçar à verdade é porque, no essencial, nada mudou. Pior: enquanto os tribunais se limitarem a arrastar os processos, enquanto não tiverem meios eficazes, enquanto não forem capazes de punir os “golpes de estado” de pessoas como Berardo, nada mudará. É bom que Portugal seja um Estado de Direito, mas o que o circo do empresário madeirense veio revelar é que, numa questão essencial para a defesa dos valores colectivos, esse Direito se continua a escrever por linhas tortas. Vamo-nos, por isso, contentando com a retirada das comendas.»


Editorial do Público, 18 de Maio

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O actual director do Público, em representação da Redacção e do accionista (posto que recorre ao estatuto do “editorial”, assim institucionalizando a sua opinião), considera que a “Operação Marquês” consiste no julgamento “de uma elite plutocrata” que terá tentado “criar um sistema de poder tentacular”. Onde é que já lemos e ouvimos a mesma denúncia, precisamente com o mesmo léxico? Na Cofina, no Grupo Impresa, no Observador, nos meios de comunicação social da Igreja Católica (inclusive nos mais recônditos e supostamente dados ao aprofundamento de temáticas religiosas, teológicas e espirituais). Recentemente, cobiçando ganhos eleitorais ou por desvairo canalha, Rui Rio juntou-se a esta súcia, assim acabando com as dúvidas que pudessem existir a respeito da sua honestidade intelectual, integridade cívica e qualidade de estadista.

Há tectónicas consequências em se entender a “Operação Marquês” não como um processo de investigação objectiva sobre eventuais crimes factuais da responsabilidade de indivíduos a quem se concede o direito de defesa e passar a vê-la como o combate final contra um inimigo que ameaça a liberdade, os direitos fundamentais e o futuro imediato da comunidade. Ao se recorrer à mais pulha das falácias, a petição de princípio, fica-se com carta branca para qualquer violação da lei e qualquer violência que se consiga cometer contra aqueles que, ainda antes do julgamento e mesmo antes da inquirição judicial, já eram pintados como os monstros que se garante que são anos e anos depois de ainda nada ter sido provado em tribunal contra eles. Mas as vantagens não se esgotam na auto-justificação para os imparáveis e compulsivos discursos de ódio, também desta forma se garante uma inevitável vitória política aconteça o que acontecer no desfecho do processo intencionalmente transformado em julgamento político: com condenações pesadas e exemplares mesmo que nada seja provado directamente, como se fez a Vara, o sucesso será retumbante – o PS ficará como o partido dos corruptos para as próximas décadas; com condenações de severidade mediana e adequadas aos eventuais crimes provados directamente, será possível manter o discurso da monstruosidade que ficou por punir por causa de tudo e de todos; e com absolvições para a totalidade da acusação ou quase, especialmente para as acusações de corrupção, o sucesso volta a ser retumbante pois será possível repetir o discurso da calúnia e do ódio e alargá-lo a certos elementos da Justiça, especialmente magistrados judiciais que ficarão associados aos “corruptos” como seus protectores.

Entretanto, enquanto se espera pelo trabalho insano de Ivo Rosa, e tal como vimos publicamente logo em Julho de 2014 (ainda não existiam arguidos na “Operação Marquês”), os crimes cometidos em nome do combate ao crime continuam e são aplaudidos por uma claque que domina o espaço mediático. Atribuir natureza maligna a outrem em contexto de conflito sobre recursos valiosos, como se faz na política mas não só, impele a passar-se ao ataque mesmo sem sinal de movimento ameaçador do inventado inimigo. Pensemos: como é que se poderia, na prática, julgar uma “elite plutocrata”, especialmente a respeito de algo que se define como “tentativa” de não sei quê? Se foi uma tentativa, então não chegou a realizar-se. E se está em causa quem se alega já estar no topo de um poder financeiro corrupto, então os únicos “tentáculos” que interessam são aqueles que se diz não terem chegado a existir em vez dos outros, reais, que lhes deram e permitiram manter esse suposto poder sabe-se lá desde quando? Não é só esta história que está muito mal contada, é a evidência de que se quer contar esta história fantástica para abafar as outras de uma verosimilhança já inscrita na História. Por exemplo, o que era, e como nasceu, e quanto custa, o BPN. Por exemplo, a história das relações de Ricardo Salgado/BES com o PSD e o CDS, com Cavaco, com Durão Barroso, com Carlos Moedas, para só dar exemplos ao correr do teclado e sem entrar na “sociologia da Comporta” que abraça pela cintura o actual Presidente da República. O vale tudo de agentes da Justiça e de jornalistas contra os seus alvos políticos e mediáticos caídos em desgraça – espiados, devassados e expostos para linchamento popular – ocorre com a aprovação do regime. Abafam-se as versões declaradas sob juramento, ou voluntariamente, que apresentem explicações dos protagonistas na berlinda contrárias às calúnias e faz-se debochadamente a diabolização hiperbólica onde o nome “Sócrates” é repetido em êxtase bacante.

Manuel Carvalho sabe que seria impossível julgar “elites plutocráticas”, fosse lá pelo que fosse, num Estado de direito. Esses delírios jacobinos ocorrem em sociedades que entram ou saem de guerras civis ou que estão sob o domínio de tiranos repressivos. Ele também sabe que acordou para o suposto colossal problema não pelo que andou a fazer como jornalista desde 1989 mas porque alguém resolveu prender Sócrates para ser investigado. A partir deste acto fundador, onde se desconhece se algum crime ocorreu mas se trata o suspeito como culpado do que qualquer macaco se lembre de imaginar, o paradigma da “Operação Marquês” ficou estabelecido. Era impossível voltar atrás, sequer impedir o vendaval de perfídias a caminho. A lógica passou a ser a de garantir a condenação, e para isso nada como tratar do assunto pelas próprias mãos não vá o Diabo fazer das suas no último momento. Pela sua parte, em nome de um accionista que é parte interessada na “Operação Marquês”, como director de um semipasquim onde se paga a caluniadores profissionais, este senhor faz a sua parte. Despacha editoriais do Carvalho.

Revolution through evolution

Regular crosswords and number puzzles linked to sharper brain in later life
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Early exposure to banking may influence life-long financial health
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Being Wise Is Good for Your Health – Review Looks at Emerging Science of Wisdom
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For people with strong life purpose, making healthier choices may take less effort
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Captive Chimpanzees Spontaneously Use Tools to Excavate Underground Food
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Domestic Policy Driven by Intergovernmental Bodies Not Citizens, Research Finds
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Brain activity of Spanish Popular Party voters triggered by rivals
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Daniel Oliveira e a normalização do crime

A grande ironia do Perguntar Não Ofende é a descoroçoante constatação de que o Daniel Oliveira tem medo de perguntar por ter pavor de ofender. Estarei fatalmente a ser injusto porque não ouvi todas as conversas, longe disso; sendo evidente o interesse de cada uma para diversos públicos tal como decorreram, fica o agradecimento. E estou fatalmente a ser cristalino no retrato de um formato onde o autor conseguiu pôr a elite política à sua disposição em paleios, à volta de uma hora, que se parecem esgotar num convencionalismo chocho e falho de acutilância. Exercício: que ficámos a saber dos seus convidados, ou de algum assunto, que não soubéssemos já antes da exposição no seu espaço mediático? Esta pergunta não anula a vantagem em se ter aumentado a quantidade da informação corrente, posto que há sempre potenciais ganhos qualitativos na repetição das ideias e da interpretação ou descrição dos factos, apenas tenta desvelar a sua relevância. Logo a partir da escolha de António Costa para inaugurar o projecto que ficou patente o critério que se iria repetir: falar com os mesmos sobre o mesmo da mesma forma. Única diferença: o Daniel desfrutava da oportunidade de juntar as suas opiniões às das personalidades presentes a pretexto de fazer uma “entrevista”. Alerta egocêntrico.

A conversa com Ricardo Costa, porque prometia uma discussão sobre a transmissão das imagens dos interrogatórios de Sócrates e outros, mostrou os limites da sua crítica. Perante uma criminosa violação de obrigações e direitos vários cometida pela SIC, a qual foi justificada pelo mano Costa recorrendo ao argumento da alegada “excepção” (leia-se: a suspensão do Estado de direito para destruir moralmente Sócrates antes de qualquer eventual condenação), o Daniel tratou o assunto num plano superficial e simplisticamente teorizante. Ainda pior, não estava preparado para desmontar ética e juridicamente a falácia que lhe deram a engolir nem mostrou ser capaz de representar a cidade na defesa de quem tinha sido abusado por dois poderes despóticos em conluio, Ministério Público da santa Joana e comunicação social da direita. Não o posso provar mas, com 200% de probabilidade, infiro que o Daniel autocensurou as perguntas que se impunham, implacáveis, para não ofender o patrão.

A conversa com o João Miguel Tavares é da mesma cepa vexante, e ainda mais grave na cumplicidade com um notável agente iliberal e mercenário. Do princípio ao fim, reina uma atitude congratulatória num registo de comadres. O caluniador profissional apareceu a transbordar serenidade e empáfia, o que se compreende sem a menor dificuldade. É para o Daniel que ficamos a olhar em pasmo perante a sua capitulação intelectual, cívica e política ao ouvir o seguinte:

«Eu tenho um discurso muito duro contra a corrupção. Porque acho que vivemos num país onde isso é um problema grave. Aquilo que eu acho é que vivemos num sistema jurídico que é arquitectado para tornar essa prova efectivamente difícil. Porque os políticos nunca foram espectaculares a legislar em causa própria. Isto não é sequer uma opinião, é olhar e ver quantas pessoas estão condenadas, ok? A questão do segredo de justiça em Portugal ser tratado a pontapé e andar pelas ruas da amargura é uma consequência da dificuldade em provar a corrupção. O Ministério Público diz "Eu não vou arranjar maneira de meter este gajo atrás das grades, aqui vai disto. Publiquem agora nos jornais."» <- A partir do minuto 50

Podemos esquecer que o Tavares não apresenta nada de nada de nadinha de nada que seja mensurado ou mensurável, qualificado ou qualificável, a respeito da corrupção em Portugal quando tecla ou abre a boca a respeito, fugindo de dialogar com quem o faz: Corrupção, quando os números não dizem o que queremos ouvir. Podemos esquecer que o Tavares é ofuscantemente inepto para debater o tema da corrupção do ponto de vista jurisprudencial, limitando-se a papaguear a cartilha populista que apanha de ouvido na indústria da calúnia e na direita decadente. Podemos até esquecer a assumida e publicitada perseguição a Sócrates e terceiros a quem fareje uma qualquer relação, um comportamento onde a mais pura ganância oportunista se mistura com uma crescente patologia obsessiva. Basta que encontremos uma resposta para o que o seu discurso espalha denotativamente no espaço público. Discurso onde se pintam todos os parlamentares, Presidentes da República e juízes nesta Terceira República como bandidos que montaram e aplicam uma arquitectura legislativa ao serviço de práticas criminosas que geram enriquecimento pessoal dos “políticos”. Discurso onde se defende e aplaude a prática de crimes num Ministério Público instituído como substituto dos tribunais e poder supremo de um Estado que se quer policial e acima da Lei.

O que o Tavares esteve a promover, em cima de um palco e na cara do Daniel Oliveira, é a visão de uma sociedade onde os fins justificam os meios, primeiro, e onde quem decide quais são esses fins opressivos são aqueles que podem violar a privacidade e prender os restantes, consumação totalitária. Precisamente aquilo contra o qual, ao longo de séculos, da Filosofia Grega ao Iluminismo, passando pelo Direito Romano e pelo Renascimento, concretizando-se política e socialmente na Revolução Americana e na Revolução Francesa, alimentou o combate do liberalismo contra a violência dos monarcas e nobres, papas e bispos, tiranos e tiranetes. É preciso desprezar os direitos individuais, a essência mesma do liberalismo filosófico e político, para pedir condenações e encarceramentos por atacado. Afastar essa parte inútil inventada pelos malditos políticos, em que os suspeitos têm direito à sua defesa e onde se é inocente até prova em contrário num processo justo, e deixar o Ministério Público acusar, julgar e conduzir uns fulanos “corruptos” a Évora em 48 horas ou menos, eis o sonho húmido do caluniador profissional. Querem acabar com a violação do segredo de justiça? Cá está a solução final do Tavares, dar aos procuradores poder absoluto para caçarem quem eles quiserem, como quiserem, quando quiserem.

Face a esta apologia dos reais, caudalosos, sistémicos crimes cometidos por agentes da Justiça e por operacionais na comunicação social, o nosso estimado Daniel nem pestanejou. Estava tranquilo, agradado, a converseta permitia-lhe dizer coisas da sua lavra para a plateia. Aquela não lhe parecia uma ocasião para estar a disparar perguntas incómodas ao seu convidado que tinha tido a especial simpatia de aceitar o convite. Rapidamente estava a explicar que a sintonia entre os dois era ainda mais funda, é que ele também já sabe que Sócrates é corrupto sem ter de esperar pelo desfecho do processo judicial. Ora, isso confirma a vantagem em deixar nas mãos do Ministério Público e dos seus cúmplices mediáticos e partidários a instauração de um novo regime, uma subterrânea Quarta República sob o comando da Joana Marques Vidal, do Carlos Alexandre, do Eduardo Dâmaso e do Octávio Ribeiro.

É escusado procurar por reacções no espaço público a este episódio produzido e difundido pelo impoluto, e propalado representante de um “campo social”, Daniel Oliveira. Ninguém estremece, ninguém se importa. Ver evangelistas dos crimes na Justiça e dos linchamentos a serem legitimados por vedetas da esquerda que se concebe vanguardista faz agora parte do nosso quotidiano, está de acordo com a nossa natureza, é o que pede o nosso bom povo. É normal.

João Vieira Pereira, o populista que faltava

João Vieira Pereira é um especialista em socialistas. Ao longo dos anos, semanalmente no Expresso e amiúde na SIC, tem vindo a explicar ao povo sofredor que os males da Grei resultam deste azar: temos um Partido Socialista a ganhar eleições. Desse infortúnio nascem os problemas que este excelente jornalista consegue expor com isenção e objectividade. Mas foi também desse mal que acabou por nascer o bem que elevou o senhor para o cargo de director do Expresso. Aproveitando uma cena gaga da responsabilidade do poeta-Guerreiro que deixou vaga a cadeira, o militante número 1 do PSD decidiu subir ainda mais o fanatismo da linha editorial. Nesta terça-feira ficámos com um lamiré do que aí vem.

Lendo esta peça – Joe, o bobo que nos expõe ao ridículo – confirmamos que a direita portuguesa ficou louca de felicidade por Berardo ter ido a uma comissão de inquérito mostrar-se igual a si próprio. Isso permitiu transformar a campanha do PSD e do CDS para as Europeias em mais um festival de adoração socrática e chungaria direitola. Até aqui, nenhuma surpresa. Talvez por isso, JVP resolveu acrescentar uma novidade. Pela primeira vez, que saiba, um director do Expresso assume-se como populista e, entusiasmado com a refrescante libertinagem, apela ao espancamento ou morte de um cidadão. Delírio meu? Não, delírio deles, uma dupla de valentes pronta a fazer justiça pelas próprias mãos:

«Enquanto cidadão que perdeu muita coisa para os bancos durante a crise, sinto-me enxovalhado com a petulância de Joe Berardo. É um daqueles raros momentos em que me apetece saltar das palavras aos atos. Enquanto contribuinte massacrado pelo estado que ajudou os bancos que agora não cobram as dívidas de Berardo como cobraram as dívidas de milhares de portugueses, sinto-me humilhado e com uma genuína vontade de implodir o regime que permitiu e ainda permite esta total impunidade.

Na verdade, na verdade vos digo que são figuras como Mr. Joe Berardo que põem em causa a minha crença no perdão universal da hora do juízo final.»

Henrique Raposo

Raposo faz suas as palavras bíblicas para desafiar Deus, o caso não é para menos. Por causa da fome, das guerras, das doenças, da miséria, do terrorismo, da estupidez à solta no Mundo? Não, pá, por causa do comendador Joe. Se Berardo continuar sem castigo depois de ter dito umas coisas a uns deputados com aquela cara insuportável, então dois mil anos de sacramentos, teologia, santos e milagres vão para o galheiro. E isso é algo que o Raposo não vai permitir, logo ele. Daí anunciar que está disposto a “implodir o regime” e que está à beira de “saltar das palavras aos atos”. Ora, não creio que se esteja a referir aos Actos dos Apóstolos, apesar da afinidade exegética, e adivinho que lhe será custoso, em tempo e dinheiro, começar a implodir o regime sozinho. Pelo que nos basta uma inteligência mediana para adivinhar qual o teor pragmático do repto ao Divino Criador: ou dás cabo do regime ou dou cabo do Joe. Está em causa o “perdão universal da hora do juízo final”, foda-se caralho.

É para esta crise de fé musculada e pronta a salvar as incontáveis almas dos pecadores que o senhor Pereira nos envia com a sua assinatura e recomendação. A “imprensa de referência” acaba de ganhar um director que faltava no baralho do populismo nacional.

Paulo Rangel leitor de Hobbes

"Nós não queremos mais 'Berardos' em Portugal", defendeu Paulo Rangel, num comício em Santa Maria da Feira (Aveiro), em que defendeu a importância da reforma da união bancária e da união económica e monetária na União Europeia.

Na sua intervenção, Paulo Rangel afirmou que personalidades como o comendador Joe Berardo existiram em Portugal "para que a Caixa Geral de Depósitos assaltasse o BCP, e a Caixa e o BCP ficassem nas mãos de gente próxima do governo socialista de José Sócrates".

"É que Berardo não caiu do céu, Joe Berardo não é uma invenção de si próprio. É uma invenção de uma conjuntura político-económica em que havia um governo que queria controlar a banca e o usou a ele", acusou.

"Agora dizem que é um produto tóxico, mas quando foi instrumental para tomar conta do BCP, o produto não era tóxico. Estava muito bem e nessa altura estavam ministros que ainda hoje estão no Governo de António Costa", acrescentou.


Fonte

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Paulo Rangel é um importantíssimo quadro do PSD. Foi escolhido por Rui Rio para ser o cabeça de lista às eleições Europeias. Portanto, o conteúdo e o estilo da campanha de Rangel tem a aprovação de Rio. Ora, o conteúdo são calúnias e o estilo é a diabolização. Logo, não há qualquer diferença no PSD quando comparamos as lideranças de Rio, Passos, Ferreira Leite e Santana. Todos utilizaram a baixa política, a chicana, como matéria e técnica de propaganda. Há muitas e fortíssimas razões para ser assim.

Este senhor declara que um número indeterminado de administradores e gestores bancários conspirou, em conluio com um número indeterminado de governantes, para que se fizesse um “assalto” a um certo banco, entre outras malfeitorias, e tem a certeza de que o discurso será reproduzido e amplificado na comunicação social durante horas e dias. Provas? Nenhuma de nenhuma, obviamente. Nos impérios mediáticos da direita as declarações são alvo de uma prioridade e destaque editorial que lhes conferem alcance máximo dentro dos meios respectivos. As mensagens não são criticadas nem enquadradas pelas redacções que as exploram, antes ficam publicadas como se fossem factual, legal e moralmente legítimas. Institui-se que “fazer política” é caluniar.

Desde que nasceu a democracia na Grécia clássica que ela fez nascer os caluniadores. A pulsão para destruir a credibilidade e honra de um adversário político através de suspeições e mentiras é antropologicamente inevitável, psicologicamente provável e historicamente universal. Está longe de ser um exclusivo da direita, mas é à direita que a vocação para a pulhice encontra características axiológicas e cognitivas mais propícias à caudalosa prática dos assassinatos de carácter e das campanhas negras. Os estudos mostram como os direitolas são mais individualistas e por isso mais cagarolas, o que os leva para uma leitura fulanizada das disputas políticas. Adoram ditadores, daí projectarem nos adversários o reverso do que lhes dá segurança.

Ingenuamente, durante anos, estranhei que o PCP e o BE não agarrassem no tema da corrupção e dele fizessem bandeiras estratégicas para os seus posicionamentos tácticos e disputas eleitorais. Parecia-me que na Soeiro Pereira Gomes, dada a organização e recursos humanos do partido, haveria excelentes condições para instituir grupos de investigação permanentes para denunciar – com fundamento na realidade – os supostos inúmeros casos de corrupção gerados pelo imperialismo capitalista. Foi a custo que percebi o meu erro. Para comunistas e bloquistas não faria sentido prestar esse serviço à cidade pois tal implicaria aceitar que o modelo do Estado de direito democrático (portanto, a democracia liberal), assim como a evolução do texto constitucional, estava ideologicamente de acordo com a ambição totalitária que anima a identidade da esquerda à esquerda do PS. Nada mais ao contrário, afinal, pois o liberalismo constitucional causa alergia aos sectários. Pelo que a retórica comunista prefere os tropos conservadores (nacionalismo embrulhado em “patriotismo” e metido no caixote do “povo”) e a retórica bloquista prefere os tropos dos costumes (uma moralização maniqueísta a partir das desigualdades económicas e sociais). Ambos recolhem de Marx a visão estrutural da sociedade, tendo aí o repositório hermenêutico donde sacam os conceitos e o léxico para intervir politicamente. Olham para a corrupção com desinteresse, mesmo bonomia, não gastando uma caloria com o assunto pois não querem lutar pela defesa do actual estádio de desenvolvimento do capitalismo ou contribuir para o aparecimento de um modelo de capitalismo mais justo ou simpático. Isto de irem a votos num regime estruturalmente corrupto antes da revolução é apenas para fazer tempo, suportarem a estadia no Egipto enquanto fazem as malas para atravessar o Mar Vermelho.

Acontece haver valor informativo nas calúnias de Paulo Rangel e dessa mole de políticos e jornalistas para quem a política só se concebe como interminável guerra civil. Eles deturpam a realidade e omitem dados que contradizem tudo o que bolçam. No caso da atoarda sobre a tentativa de controlo do BCP pelo Governo de Sócrates a partir da CGD, Rangel nada diz acerca desta maravilhosa evidência: o PSD controlava administrativamente a Caixa ao tempo (leia-se: em todos os tempos, foi sempre assim com maioria de administradores de direita sobre os do PS). Donde, a fazer fé nas suas palavras, a falange laranja e do CDS na CGD queria dar a Sócrates o controlo do BCP. Faz isto algum sentido? Não tem de fazer e, acima e antes de tudo, não deve fazer. É preciso que não faça sentido para fazer efeito dado que a audiência em causa para este linchamento é não só acrítica como acéfala. O mesmo para a ideia de que o Governo de Sócrates conseguiria “controlar” o BCP, e daí retirar qualquer vantagem política. Como? Para quê? Com que consequências? Nada se explica, se justifica, sequer se esboça porque estamos num processo de diabolização. O Diabo é poderoso precisamente porque fica como mistério insondável ele ter autorização de Deus para fazer o mal. Este o quadro de irracionalidade usado à doida na política por canalhas para atiçar a turbamulta a partir do medo e do ódio. Noutros tempos, essa mesmíssima dinâmica levou ao assassinato de mulheres às mãos da multidão, ao assassinato de vizinhos nas fogueiras, ao assassinato de judeus em câmaras de gás. A lógica assassina, em todos os tempos e lugares onde a civilização ainda não nasceu ou onde desapareceu, foi sempre a diabolização que serve as pulsões de poder absoluto dos algozes e tiranos – ou a loucura violenta dos animalescos cérebros humanos.

Paulo Rangel quer assassinar alguém? Aposto os 10 euros que tenho no bolso, mais os 5 que guardo debaixo do colchão, como nem sequer será capaz de afastar uma mosca do mel. Ele é um magnífico cidadão cumpridor dos seus deveres e um exemplo a merecer condecorações pela sua entrega à vida pública. Não, claro que não, que estupidez. Ele não quer matar ninguém e está cheio de amigos, quiçá familiares, no PS. Ele apenas pretende acordar o assassino que, como leitor de Hobbes, sabe existir dentro de cada um. E cravar-lhe um voto.

Há uma indústria para este serviço

«No caso de Joe Berardo a CGD (tal como o BCP e BES) ou foi incompetente ou foi cúmplice, ou ambas as coisas. E a história começa com cumplicidades na guerra pelo controlo do BCP em 2006 e continua até hoje numa mistura de cumplicidades e incompetências.»


Helena Garrido

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Esta senhora, sabendo tanta coisa, não sabe nada. Não sabe quem fez o quê e porquê. Isso não a impede de escrever um texto que aparenta ser um contributo informado, porque de uma especialista na matéria que acumula com ser profissional da comunicação social, texto que acaba por não passar de uma lamúria difamante e sensacionalista. Fica a ideia de não ter lido sequer uma linha sobre o assunto nos últimos 10 anos, a suspeita de nem sequer ter prestado atenção às comissões de inquérito e suas montanhas de dados recolhidos, publicados e interpretados. Apenas lhe interessa meter no bolso o dinheiro que lhe pagam para ladrar ao Estado de direito democrático. O que a motiva é a decadência de fazer parte do coro que despreza a comunidade, que vive de espalhar a suspeita, o medo e o ódio.

99% do jornalismo de opinião à direita é isto e pior. Sendo que o pior é isto vezes isto.

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Lapidar

«Os números resultantes da acusação do Processo Marquês são de pura demência: 4000 páginas de despacho acusatório, 53.000 de investigação, 77.000 de documentação anexa, 8000 de transcrições de escutas telefónicas, 103 horas de vídeos de interrogatórios e 322 de depoimentos áudio de testemunhas. Tudo isto desaguou nos braços de um só juiz de instrução, que terá a seu único cargo decidir arguido por arguido, acusação por acusação, prova a prova, quais e o quê manda para julgamento. Como é óbvio, o Processo Marquês vai consistir numa tarefa desumana para os seus intervenientes, a começar por Ivo Rosa e magistrados do julgamento, mas também extensível a todos os outros intervenientes, como os jornalistas e todos aqueles que ainda não fizeram o seu julgamento prévio e queiram mesmo saber o que se passou e seguir de perto o trabalho da Justiça.

Num texto sobre o assunto, o juiz Manuel Soares, presidente da respectiva Associação Sindical, insurge-se contra a falta de meios de ajuda ao juiz de instrução, nomeadamente a falta dos assessores previstos na lei. Tem razão, mas não vai ao fundo da questão. O fundo da questão é constatar como a hierarquia do Ministério Público, contra todas as suas proclamações, permitiu que a equipa de magistrados do MP do Processo Marquês, liderada por Rosário Teixeira, pudesse livremente dar à luz um monstro como este, que só para deduzir a acusação precisou de uma dúzia de magistrados a escrevê-la a várias mãos. Porque não havia necessidade nenhuma de assim ser, se Rosário Teixeira, com o apoio de Carlos Alexandre, não tivesse cedido à tentação de fazer o “julgamento do regime”, à conta da acusação contra José Sócrates. Isso tornou-se-me evidente quando, com base na simples opinião de Paulo Azevedo sobre a OPA falhada da Sonae à PT, resolveu envolver também Sócrates no caso e, para fechar logicamente o círculo e socorrendo-se da “delação premiada” oferecida à muito pouco recomendável testemunha Hélder Bataglia, envolvê-lo também com o BES. Isso acrescentou uns milhares de páginas e dezenas de testemunhas ao processo desnecessariamente — pois, se achou que tinha elementos suficientes para tal, o podia ter remetido para um outro processo, a cargo de outro magistrado. Assim, além de mais, salvo melhor opinião, só veio enfraquecer a acusação quanto ao restante, deixando a impressão de que, se juntou a PT e o BES ao processo já no final da investigação, foi porque achou que o que tinha até aí contra José Sócrates era fraco ou de êxito duvidoso. O facto é que o monstro foi crescendo para todos os lados à vista dos superiores hierárquicos do procurador, que nada fizeram para o impedir e que assim deixaram ser entregue em tribunal um processo que, pela sua dimensão absurda, é virtualmente impossível de ser decidido sem levantar tantas ou mais dúvidas do que certezas. Justamente o contrário do que se pedia e se dizia pretender.»


Dez milhões de idiotas