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Dobrado contra singelo

"O CDS alegra-se com a votação esta tarde no parlamento que levou à reprovação da eutanásia em Portugal. Entendemos que este foi um sinal de grande maturidade democrática do parlamento", defendeu Assunção Cristas, em declarações aos jornalistas.


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Qualquer democrata aceita como um “sinal de grande maturidade democrática” o resultado da votação que chumbou a despenalização da eutanásia, embora uma parte desse grupo tenha sentido o oposto do sentimento que invadiu Assunção Cristas. É também provável que esse mesmo grupo, que se entristeceu com o adiamento do inevitável, considere o regular funcionamento da Assembleia da República como um constante sinal de maturidade democrática. Os democratas não discriminam as actividades parlamentares quanto à sua natureza e grau democrático usando estados de alma ou interesses sectários como critério. Os democratas estão apaixonados pela democracia.

Dobrado contra singelo como Assunção Cristas considera um sinal de imaturidade democrática, ou coisa bem pior, o resultado da votação que ocorreu no Parlamento no dia 10 de Novembro de 2015, às 17h16 dessa terça-feira.

A democracia não nasceu da estupidez, foi ao contrário

Quantas pessoas leram os artigos de Augusto Santos Silva, Filhos mais de Kant do que de Hegel, e João Galamba, Filhos de Kant, mas sobretudo de Hegel? E, das que leram, quantas tinham conhecimentos para perceber as referências filosóficas? E, das que conseguiam perceber minimamente as referências, quantas estariam em condições de criticar fundamentadamente as argumentações respectivas? Adorava conhecer esse número. Na sua ausência, vou ter de me contentar com o Paulo Tavares e o Porfírio Silva.

O segundo queixou-se do primeiro, Do horror ao debate ideológico., à pala das seguintes opiniões: Um congresso e uma não questão+O sermão de Costa aos delegados. Calma, vou resumir e poupar 15 minutos de leitura à malta. O Paulo expressou o seu enfado com as intelectualices de alguns socialistas, cuspindo na própria sopa que vende aos fregueses como bem apontou o Porfírio. Para o jornalista, os políticos que percam tempo a discutir o sexo dos anjos devem ser denunciados como inúteis pois o povo só liga ao materialismo quotidiano e caga d’alto nos teóricos nefelibatas. Para o político, que é também um investigador, os jornalistas que atacam com sarcasmos, caricaturas, cinismo e pessimismo a filiação da práxis política numa formação, vivência e reflexão de raiz académica e rigor intelectual estão a empobrecer a democracia. Quem é que tem razão? Ambos.

De modo análogo, Santos Silva e Galamba dividem o reino da racionalidade entre si. O primeiro, fez um texto didáctico onde fala para um leitor mediano a quem baste ter memória e interesse pela política nacional para descodificar as mensagens. O seu foco é o PS, não a filosofia. O segundo, fez um texto analítico onde fala para um leitor especialista em ciência política e que esteja motivado para validar a argumentação. O seu foco é a filosofia, não o PS. O primeiro usa Kant como ilustração, o segundo usa Hegel como ariete. Liberalismo infinito versus progresso absoluto. Sistemas abertos versus sistemas fechados (ou nem por isso, Hegel explica). Aqui a pergunta a fazer é: quem é que não tem razão? Nenhum.

O meu coração pende para o platonismo do Porfírio e para o aristotelismo do Augusto. Apesar de não saber quantos cidadãos leram interessadamente estes textos de intento ideológico (entre outros congéneres relacionados com o congresso do PS), sei que é preferível que existam. Sei que um jornal onde eles apareçam é um jornal que me faz falta. Sei que um partido com recursos humanos capazes de espingardarem em público a respeito de Kant e Hegel é não só um partido intelectualmente diverso como politicamente mais rico do que outros onde apenas se produza propaganda e chicana. É que há muito mais coisas no céu e na terra para além daquelas sonhadas pelo Horácio, pois sim, não vamos é por causa disso começar a estupidificar.

Os ogres também são vítimas

O caso de Morgan Freeman, agora acusado de assédio sexual por supostas vítimas, junta-se aos de Woody Allen, Kevin Spacey, Louis C. K. e Bill Cosby num aspecto que unifica as diferenças respectivas: todos eles desfrutavam de popularidade máxima em resultado de carreiras brilhantes, sendo marcas que despertavam afecto e admiração, quando foram alvo de suspeitas ou denúncias sobre o seu comportamento sexual. Só neste aspecto? Há mais um: todos são homens.

O exemplo do Freeman é espectacularmente cristalino do que está em causa. Tal como se retrata na investigação da CNN – Women accuse Morgan Freeman of inappropriate behavior, harassment -, investigação que o próprio parece validar ao assumir que os relatos são verídicos no essencial, a sua conduta nos bastidores das produções em que participava era pulsional. Ele não se controlava perante a presença laboralmente submissa e próxima de fêmeas jovens com estímulos eróticos ostensivos (bastando ser um decote ou camisola justa, qualquer coisa que lhe despertasse a reacção), começando a mandar bocas de carácter sexual e a tocar no corpo das mulheres. Na sua defesa, declara que nunca ultrapassou esse nível, garantindo não ter oferecido emprego ou promoções em troca de sexo. Ora, será que este amigo é incapaz de entender o ponto de vista das pessoas que fizeram as queixas? O mais provável é que ele o entenda tão bem ou melhor do que qualquer outro ser bípede e implume que se passeie na Terra. Só que tal, nem a ameaça de um escândalo, o fez ter controlo sobre um apetite que, também provavelmente, estará relacionado com as qualidades mesmas que lhe deram a fama.

O actual movimento de denúncias de abusos sexuais que tem apanhado estas figuras no topo da cadeia de poder na indústria do espectáculo, com obra pública consagrada pelas melhores razões, é historicamente relevante e devemos pugnar para que vá até às últimas consequências: alterar a cultura herdada do cristianismo agostiniano, a antropologia grotesca em que a mulher só podia ser santa ou puta. A condição feminina neste modelo milenar atingia um estatuto paradoxal pelo casamento, onde a mulher legitimada pela Igreja como esposa imitava simbolicamente a virgindade de Maria, aquela que concebeu sem pecado. Também as senhoras casadas se poderiam entregar à fornicação sem que tal fosse meio caminho andado para o Inferno, bastando que, tal como pedia “Santo Agostinho”, o sexo fosse praticado sem desejo. Esta doença civilizacional, típica do regime patriarcal e suas hierarquias e abusos de poder, gerou sucessivas gerações de homens obsessivamente limitados à fruição sexual como caçadores oportunistas. Esperemos que também chegue o dia em que os reconheçamos como vítimas – embora a actual urgência esteja no impedimento de que essas peculiares vítimas poderosas continuem a fazer novas vítimas entre os mais frágeis que encontram no espaço profissional e social.

Revolution through evolution

Seafood-Rich Diet May Help Couples Get Pregnant Faster
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Daily egg consumption may reduce cardiovascular disease
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Fasting boosts stem cells’ regenerative capacity
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Birds from different species recognize each other and cooperate
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Flavonoids may slow lung function decline due to aging
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Mediterranean diet may blunt air pollution’s ill health effects
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Hot Cars Can Hit Deadly Temperatures in as Little as One Hour
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Concerteza, hò David Dinis


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Fonte

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O jornalismo de referência praticado no Público vai de vento em popa. O director, ou alguém por ele (mas então com a sua tácita aprovação), até milita para a consagração do “concerteza”; um dos mais populares pontapés na gramática que se vê por aí, a par do “benvindo”. Que irá seguir-se? Iremos ler textos neste prestigiadíssimo semipasquim, baluarte do combate contra a corrupção socrática (em especial) e socialista (em geral), que igualmente promovam o “porisso”, o “quaisqueres” e o “fê-ze-as”?

O cofinismo invadiu a RTP

Ana LourençoEm 2011 o País foi à bancarrota, isto não obrigava à procura de indícios?

[Pinto Monteiro bebe água]

Ana LourençoA bancarrota era a declaração mais óbvia de que o País tinha sido gerido de uma forma, enfim, senão criminosa pelo menos dolosa, não é?...

Entrevista, 21 de Maio 2018

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Não se passou na CMTV, nem na SIC, nem no Público, nem no Observador, nem no lançamento do canal televisivo do Sol, nem numa coisa do Diabo. Aconteceu na RTP. Aconteceu numa sociedade que está obrigada à prestação do serviço público na indústria da comunicação. Será que o Contrato de Concessão do Serviço Público de Rádio e de Televisão admite que os jornalistas da RTP possam defender – no exercício das suas funções jornalísticas na RTP – posições políticas fanáticas, sectárias e difamantes?

Ana Lourenço sabe que Portugal “foi à bancarrota” em 2011. Ao mesmo tempo, ela seria incapaz de provar que tal tenha acontecido. Felizmente para si, nunca ninguém a obrigará a justificar o suposto pressuposto histórico de uma inacreditável pergunta feita a um ex-procurador-geral da República. E com isso também conseguirá esconder a sua completa ignorância acerca do que é uma bancarrota, indo aqui pela hipótese mais benigna para a sua honra.

Porém, é na ligação da dimensão governativa e política com a dimensão judicial que Ana Lourenço atinge o zénite do cofinismo. Adorava ouvi-la explanar a lógica de se considerarem indícios a merecerem a investigação do Ministério Público as decisões do PSD, CDS, BE e PCP ao chumbarem o PEC IV, com isso boicotando um acordo de financiamento que o Governo socialista tinha feito com a Comissão Europeia, o BCE e a Alemanha, com isso provocando de imediato a subida abrupta dos já elevados juros da dívida, com isso impedindo o Governo de continuar em funções, com isso a obrigar a um resgate de emergência por causa da crise política aberta pela oposição adentro da maior crise económica mundial dos últimos 80 anos e no auge de um ataque sem precedentes às dívidas soberanas dos Estados da UE mais fragilizados. Quer-se dizer, inté que é fácil concordar com a senhora pois há nesta cegada um fedor a bandidagem que empesta o ar.

Depois de beber a sua água, e ainda gastar uns segundos a recuperar da pancada que a melíflua Ana Lourenço tinha dado no cocuruto do ilustre magistrado, Pinto Monteiro respondeu-lhe com excessiva tolerância e simpatia. Um cavalheiro.

Os pulhas até amarinham pelas paredes

«O líder do PSD esteve três horas reunido com a direcção da Polícia Judiciária e no final apontou a violação do segredo de justiça como um dos maiores problemas do país. "Se continuarmos nesta senda não é sustentável para o regime democrático", afirmou aos jornalistas na nova sede da PJ em Lisboa.

[...]

Rio foi ainda questionado sobre o pedido de demissão do ministro-adjunto Siza Vieira lançado pelo deputado Carlos Abreu Amorim depois de o Expresso divulgar que o governante, que foi sócio da Linklaters antes de entrar no Governo, se encontrou com os clientes da sua antiga empresa, a China Three Gorges, quando já integrava o executivo e antes do anúncio da Oferta Pública de Aquisição (OPA) desta empresa chinesa à EDP. O líder do PSD disse desconhecer a iniciativa, mas afirmou que a sua opinião sobre pedidos de demissão de governantes "é sempre a mesma", lembrando que o grupo parlamentar dirigiu um conjunto de perguntas ao ministro sobre o assunto.»


Rio diz que violação do segredo de justiça não é sustentável

Quem te viu e quem te vê, Assis

DAVID DINIS e SÃO JOSÉ ALMEIDA - A procuradora-geral da República deve ser substituída?
FRANCISCO ASSIS - Não há nenhuma obrigação de a substituir. É um tema que deve ser ponderado na altura própria com o devido rigor. Pela minha parte devo dizer que não vejo nenhum problema em que seja reconduzida no desempenho das suas funções. Hoje na sociedade portuguesa, por diversas razões, instalou-se a ideia de que esta procuradora-geral da República tem desempenhado bem as suas funções e quem tiver de decidir na altura própria terá de levar isso em consideração – até sob pena de uma qualquer mudança poder, ainda que por razões injustas, criar algum alarmismo social, a ideia de que se está a querer pôr em causa o que quer que seja em termos de investigação judicial.

Fonte

Revolution through evolution

People make different moral choices in imagined versus real-life situations
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Exercise beats genetics in determining amount of body fat
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Long-term and short-term relationships initially indistinguishable
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Scientists find clever way to help you de-clutter your home
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How our ancestors with autistic traits led a revolution in Ice Age art
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Nouns slow down our speech
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Robot teaches itself how to dress people
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Daniel, é isso mas não é isso

[destaque]

Numa Lisboa onde se sabe tudo, onde todos dizem tudo em privado, uma cidade onde não há segredos sobre as vidas dos políticos, nenhum dos envergonhados desconfiou sobre os hábitos de vida de Sócrates?


[parágrafo completo]

Numa Lisboa onde se sabe tudo, onde todos dizem tudo em privado, uma cidade onde não há segredos sobre as vidas dos políticos, nenhum dos envergonhados desconfiou sobre os hábitos de vida de Sócrates, nem se incomodaram com os ataques à liberdade de imprensa, os atropelos ao estado de direito e à partilha de negócios com a banca. Nada disto foi capaz de criar uma única dissidência no PS, uma única voz discordante. Pelo contrário, os “envergonhados” de hoje não pararam de atacar, e com uma violência nada própria de uma democracia, todos aqueles que investigaram Sócrates e que o criticaram e desmascararam. Fizeram esse serviço ao chefe, enquanto beneficiaram do poder que ele conquistou enquanto líder do partido.


João Marques de AlmeidaNão foi só Sócrates, também foi o PS

* – *

Este Almeida saiu um porcalhão. A Lisboa que frequenta, da qual fala com embófia, é um antro de coscuvilheiros segundo as suas próprias palavras. Ele rebola-se e chafurda nessa promiscuidade com gosto e proveito. Não há, garante, “segredos sobre as vidas dos políticos” para quem participe no bacanal da tal Lisboa transparente onde a privacidade desapareceu. Logo, inevitavelmente, o Almeida porcalhão saberá tudo sobre a privacidade do Durão Barroso – e podemos concluir, dado ter sido seu assessor durante seis anos na Comissão Europeia, que o dinheiro do BES gasto com o ex-maoista não levantou qualquer suspeita do foro legal ou moral a quem tenta emporcalhar as individualidades que se podem associar relacionalmente com Sócrates. Ou será que o Almeida varreu para debaixo da sua consciência alguma desconfiança descoberta a olho nu só para fazer o servicinho ao chefe e beneficiar, indo para Bruxelas com ele, do poder que Barroso conquistou depois de ter traído o País?

Não demora muito a concluir que a táctica de apontar para as figuras e casos suspeitos do outro lado da barricada, ou do outro lado da cidade, só favorece o infractor. Espalhar um sentimento de derrota cívica, onde se aceita a calúnia como exercício normalizado do confronto político, beneficia aqueles que concebem a democracia apenas como o palco imundo e pérfido da luta sem quartel do poder pelo poder. Foi esse o erro que Daniel Oliveira cometeu no Expresso e no Eixo do Mal, aqui para a justa (embora fraterna) indignação do Pedro Marques Lopes. Posto que nada mais se consegue do que levantar e elencar dúvidas acerca disto e daquilo, deste e daquele, ir por aí adensa o nevoeiro de guerra e revela-se espectacularmente ineficaz, primeiro, e vexantemente indecente, por fim. Moralização porra nenhuma, Daniel, esse exercício é o protótipo da desmoralização comunitária, isso sim.

Porém, colhe usar o sofisma da culpa por associação para analisar a “Operação Marquês” precisamente a partir desse ponto de vista canalha em que se persegue qualquer um que tenha estado ao lado de Sócrates na governação, no partido e na esfera privada. A força desse ataque radica num automatismo cognitivo que emerge na avaliação moral, provavelmente por dinâmica inerente ao instinto de sobrevivência. Sendo a inteligência humana a capacidade de conceber e verbalizar paradigmas, faz sentido antropológico repudiarmos aqueles que estão, ou estiveram, ao lado de quem consideremos uma ameaça ou um alvo a abater. Não se trata só, neste fenómeno, de um comportamento prudente, há também nele um factor de projecção subjectiva em que se imagina ter o outro – inimigo, ou amigo de inimigos, ou apenas um estranho – os mesmos valores e sua vivência que nós temos. Donde, a fulminante e fatal conclusão: “Quem diz que não viu o que eu vi, quem diz que não vê o que eu vejo, só pode estar a mentir.”

Pois bem, aceitemos essa animalesca axiologia. Os mais próximos de Sócrates são responsáveis por não terem denunciado qualquer aspecto negativo que se venha a descobrir por causa da investigação judicial à sua diabólica pessoa. Pergunta seguinte: quem são os mais próximos de Sócrates? Para o pulha, próximos serão apenas aqueles que ele considerar activos e potenciais alvos das suas calúnias e perseguições. Aqueles que mantinham relações profissionais, de camaradagem política, de amizade e de laço familiar com Sócrates. Para o cidadão, do ponto de vista da República e do regime, os mais próximos de Sócrates são as instituições soberanas: Assembleia da República, Presidência da República, Justiça. O pulha não tem apenas pressa em castigar os alvos, ele participa activamente na sua condenação criando e/ou espalhando assassinatos de carácter irracionalizantes e tóxicos – não aceitando que as suas vítimas tenham direito a qualquer tipo de defesa. O cidadão sabe que uma Justiça que tem poder para investigar um primeiro-ministro em funções, que tem poder para o escutar ilegalmente, e que tem poder para fazer do espaço público um aliado de certos promotores e juízes através de crimes, é concomitantemente uma Justiça que provavelmente sabe muito mais acerca de José Sócrates do que a quase totalidade daqueles com quem ele convive. O cidadão sabe que quando a Justiça vaza para o espaço público as versões acusatórias sobre Sócrates que promovem as teses do Ministério Público, quiçá igualmente do juiz de instrução, então muito mais facilmente as faz chegar a actores políticos institucionais e partidários, se calhar muito antes de as fazer chegar à comunicação social, e se calhar com muito mais informações e detalhes a respeito da privacidade do objecto da devassa. Finalmente, o cidadão é obrigado a concluir, se pretender continuar a respeitar a sua inteligência, que a recusa do PSD, CDS e Cavaco Silva, de 2005 a 2011, em denunciarem institucionalmente os homéricos crimes que os pulhas repetem em 2018 terem então ocorrido por mando ou desmando de Sócrates faz com que Cavaco, CDS e PSD tenham de ser considerados cúmplices do Sr. Engenheiro.

Aliás, se Sócrates queria acabar com a liberdade de imprensa em Portugal e foi apanhado ao telefone a planear isso e coisas piores, e se foi Pinto Monteiro quem o protegeu na altura do que seria cana pela certa, então vermos Cavaco, em 2013, a condecorar um ex-procurador-geral da República socrático e criminoso “pela sua entrega à causa pública e ao serviço de Portugal, quantas vezes com prejuízo da sua vida pessoal, com grande dedicação e reconhecido mérito” diz tudo acerca do perfil corrupto desse ex-Presidente da República e chefe máximo da direita decadente nos últimos 30 anos. A autêntica moralização começa pela avaliação do que fizeram aqueles mais próximos dos maiores poderes concedidos pela Constituição.

Vamos lá a saber

Perante o que já se conhece da responsabilidade de Bruno de Carvalho e da Juve Leo nos vários ataques à integridade física e moral dos jogadores, técnicos e funcionários do Sporting, quais devem ser as consequências para o clube? E se, por cima disto, a corrupção vier a ser provada?

Tanta droga, ou falta delas

«É certo que temos de distinguir jornais e TVs. Os jornais mostraram-se espaços muito mais livres. Houve aqueles que, como o SOL e o i, se declararam abertamente contra Sócrates; e houve outros, como o DN e o JN, que abertamente eram a favor. Ou seja, Sócrates era assunto e estes jornais tomavam posição clara e inequívoca em relação à personagem.

Mas as televisões adotaram uma posição completamente diferente. Com exceção da TVI no tempo de Moura Guedes, fizeram de Sócrates um tabu. Administrações e diretores de informação preferiram a política do silêncio. Depois da detenção de Sócrates, em novembro de 2015, a língua oficial das TVs passou a ser a repetição exaustiva do linguajar de pau «à política o que é da política, à justiça o que é da justiça».

Os diretores de informação, que são os responsáveis pelos convites a quem vai falar à TV - e sobretudo aos apetecidos programas de comentário politico -, começaram a ter o cuidado censório de escolher só pessoas que repetissem com ar crédulo o referido chavão.

Ter posição pública e assumida contra Sócrates passou a ser critério para não ser convidado a ir falar às TVs. A pessoa podia pensar bem e falar melhor, mas se lhe fossem conhecidas posições ostensivamente contra o senhor engenheiro nenhum diretor de informação corria o risco de desfazer o tabu.»

Sofia Vala Rocha

Nunca votarei neste homem

«A ocorrência dos factos e a sua prova é algo que decorre do próprio processo judicial; fazer um juízo político, antecipando como verdadeiro aquilo que carece ainda de prova era, em si mesmo, estar a antecipar-me a um julgamento, o que acho que não posso nem devo fazê-lo. É evidente que, entretanto, todos tivemos acesso - por vias ilegais - a partes do interrogatório do Eng. Sócrates, portanto não podemos ignorar coisas que ouvimos [...]»

Primeiro-ministro e Secretário-geral do Partido Socialista

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Que terá ouvido António Costa nas partes dos interrogatórios que consumiu? Ouviu Sócrates a confessar ter sido o instigador do assassinato de Sidónio Pais, ou a confessar ter posto a bomba num certo Cessna num certo 4 de Dezembro de 1980, ou a confessar ter virado com as suas manápulas o Tollan só por pirraça? Seria fascinante ter acesso às suas experiências auditiva e cognitiva na ocasião porque ele não o irá revelar em público. Em público, como se pode também ouvir, e ver, e ler, temos um primeiro-ministro e secretário-geral do PS a validar ilegalidades e assassinatos de caráter. Ao não assumir quais são as informações que destaca insidiosamente, isso que passamos pela sua autoridade política e moral a não poder “ignorar”, então vale tudo. Tudo o que ali aparece dito, seja por quem for, é um alvo da sua censura e/ou da sua concordância. Cada um que escolha a sua parte favorita que a mesma levará a assinatura “António Costa” por baixo.

E mais. Que venham novas ilegalidades tão corriqueiras, tão úteis, tão dignas de louvor como estas. É o chefe do Governo e do partido na berlinda que o declara. O critério deixa de ser a Lei, passa a ser a orelha. Se as ilegalidades contribuírem para a nossa decisão de lhes darmos proveito, então bute. Tal como estabelece Costa, o valor cívico transfere-se para o “acesso”. Acesso a interrogatórios fragmentados, por maioria de razão a interrogatórios completos e, corolário, a qualquer registo de devassa da privacidade, da intimidade e da consciência serão não apenas o novo normal como a nova moral. Eis o que resulta de uma declaração que não acredito ter sido espontânea, tal como o embrulho cinicamente dúplice em que aparece lançada no espaço público me leva a crer.

Imaginemos o pior cenário para o PS e para a comunidade: o tribunal prova – sem margem para dúvidas – que Sócrates foi corrompido. Nesse cenário, caso a ideia não seja ilegalizar o Partido Socialista, todo o sistema partidário terá de apresentar uma solução que prometa evitar a repetição de um crime tão grave para a República. Como queremos viver em liberdade, essa solução teria sempre de ser uma melhoria do Estado de direito de acordo com a tipologia da corrupção descoberta. Imaginemos o segundo pior cenário, que igualmente se pode considerar o primeiro dos piores cenários: o tribunal absolve Sócrates das acusações de corrupção. Neste cenário, e caso a ideia não seja permitir que a Justiça volte a ser politizada e usada para golpadas políticas, o sistema partidário teria de apresentar uma solução que prometesse evitar a repetição de uma disfunção repleta de crimes no seio da Justiça. Como queremos viver num Estado de direito, essa solução teria sempre de preservar a soberania dos magistrados judiciais e a autonomia dos magistrados do Ministério Público em nome da separação de poderes e da liberdade. O que não caberá jamais em qualquer um destes dois únicos desfechos legítimos da “Operação Marquês” é a ambiguidade de aceitarmos ilegalidades como instrumentos de cura ou orientação colectiva.

Acontece que este traço da personalidade política de Costa não é uma novidade. Apesar de ser o homem certo no lugar certo na actual conjuntura, apesar de ter uma reputação à prova da Cofina e da Manuela Moura Guedes, apesar de ficar como um dos mais importantes e benéficos políticos na história do regime, aquilo que penso dele não se alterou um nanómetro desde as vésperas do lançamento da “Operação Marquês” como arma contra o PS e contra a democracia (i) e desde a sua entronização como secretário-geral socialista (ii):

i) Declaração de voto23 de Julho de 2014

ii) Incentivos para a lucidez6 de Janeiro de 2015