Arquivo da Categoria: Valupi

Revolution through evolution

How men and women network impacts their labor market performance
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Having a doctor who shares the same race may ease patient’s angst
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Clubs Closed? Study Finds Partygoers Turn to Virtual Raves and Happy Hours During Pandemic
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Cycling Keeps You Young
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Study: Despite Training, Vermont Police Departments Still Show Widespread Racial Bias
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When it comes to supporting candidates, ideology trumps race and gender
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When two tribes go to war – how tribalism polarized the Brexit social media debate
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O Expresso e a filthy season

«O mês de Agosto potenciou o silêncio à esquerda. Do PS não se ouviu nem leu uma palavra, nem boa nem má, sobre as declarações da ministra do Trabalho e Segurança Social e da esquerda também ainda ninguém tinha vindo a terreiro falar do tema que tem aquecido o espaço público, desde a entrevista de Ana Mendes Godinho ao Expresso. Ainda antes de os intervenientes principais nesta trama terem falado (primeiro a própria ministra e depois o primeiro-ministro), Catarina Martins criticava, mas não ia mais além do que isso. [...]»

Lares. Catarina Martins: “As afirmações foram infelizes. As tragédias não se relativizam”

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Liliana Valente é uma jornalista especializada em política nacional que começou no i, de lá passou para o Observador, daí saltou para o Público e está há uns meses no Expresso. Este trajecto não é cadastro mas o seu currículo é perfil. Esses quatro jornais são siameses na promoção de uma agenda de direita e na defesa dos seus interesses económicos e sociais. Por essa razão, os sucessivos patrões desta jornalista terão gostado exactamente do mesmo a seu respeito: o binómio “qualidade profissional” + “cumplicidade ideológica”.

No trecho citado acima, o qual abre uma notícia neste momento totalmente esquecida até dos pouquíssimos que a tenham lido, as duas qualidades podem ser apreciadas com detalhe. Logo desde a primeira frase estamos perante o pretexto do texto e seu subtexto, a intenção de chafurdar na exploração hipócrita, sensacionalista e demagógica de uma entrevista dada ao mesmo jornal onde a Liliana ganha aquilo com que se compram os melões. Na segunda frase, ficamos com a informação (com a notícia? o furo?) de que a famigerada entrevista e seus destaques, da responsabilidade deontológica de colegas da jornalista Valente, consistia no “tema que tem aquecido o espaço público“. E a terceira frase chega ao ponto de criticar Catarina Martins por não ir além da crítica, assim sugerindo que a esquerda à esquerda do PS não estava a querer aproveitar o servicinho do Expresso para brincar às guilhotinas. Isto é jornalismo? É opinião? É jornalismo de opinião? Ninguém quer saber – à excepção dos directores e editores do Grupo Impresa, que a sabem toda pois passam os dias a virar destes frangos há décadas.

O “tema que tem aquecido o espaço público” foi uma invenção do Expresso, o que se dá a ver pela forma cínica como descontextualizaram as respostas de Ana Mendes Godinho e geraram um resumo cuja intencionalidade não é a de informar os leitores ou contribuir para o esclarecimento de qualquer assunto com interesse para a comunidade – o propósito é exclusivamente o de manipular a percepção da audiência de modo a suscitar uma inevitável onda de indignação pelos profissionais da mesma, pelos fanáticos e pelos broncos. Criou-se um “facto político” a partir da deturpação de declarações banais e bondosas. Pode-se alegar que tal prática é universal, que sempre houve, e sempre haverá, queixas contra as opções editoriais da imprensa ao destacarem o que os visados consideram irrelevante ou enganador. E mais se pode dizer que um órgão de comunicação social privado tem direito a procurar receitas através do sensacionalismo, não estando obrigado a respeitar qualquer noção de “serviço público” ou mera “decência”. Sendo tal verdade, não menos verdadeira é a constatação de que o director ou directores (sei lá) do Expresso quiseram pegar fogo ao Governo e apanharam uma ministra que se pôs a jeito na sua boa-fé.

A entrevista de Costa ao Expresso surge como uma vitória para os autores do assédio, de novo colocando o jornal no centro do circo mediático. Vale a pena deturpar as declarações de um governante pois o prémio é vir o chefe a correr encher mais umas páginas do pasquim para ajudar a passar o Verão, conclui-se. Nesse sentido, ter partido do Expresso a iniciativa de gravar secretamente Costa a falar sem pudor e com emoção, e depois alguém do Expresso ter mandado o trecho para o mundo imundo, garantindo-se que tal vídeo para sempre acompanhe o futuro político de Costa, é de uma supina coerência com tudo o que foi feito antes e que obedecia à mesmíssima lógica. Não importa se foi planeado ou apenas um acidente cheio de coincidências tão oportunas. Importa é registar que no Expresso a silly season foi trocada pela filthy season.

Começa a semana com isto

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Conta-se que Platão tinha à entrada da Academia o seguinte repto: “Não entre ninguém sem saber geometria.” Aristóteles, o seu melhor aluno, até para a ética utilizou a geometria (a justiça é geométrica ou não é justa, intemporal noção). E é por causa da geometria que me parece o centro a melhor posição política no espectro ideológico tradicional. É ao centro que se é mais atacado, pois se leva porrada por igual dos sectários, dos fanáticos e dos maniqueístas da direita e da esquerda. E é ao centro que a complexidade da análise e da decisão é maior, posto que não existe nenhum radicalismo a servir de encosto moral, nem existe nenhum viés de confirmação a servir de palas à inteligência.

Jonathan Haidt é um psicólogo social que se tem ocupado de questões morais e políticas. Um tema que poderá resumir o cerne da sua investigação, e que está directamente ligado com as convulsões identitárias ocorridas nas universidades norte-americanas nos últimos anos, é o da polarização. Nos seus estudos, obras publicadas e intervenções, este cientista ajuda-nos a decifrar o que vemos nas arenas sociais – aplicando-se os seus ensinamentos na perfeição ao que aconteceu, e está a acontecer, em Portugal a propósito da problemática do racismo.

Nesta palestra há um bónus final, o de vermos e ouvirmos Van Jones a defender o direito ao crescimento intelectual, e do carácter, sem limitações à liberdade de dissensão.

Revolution through evolution

Research challenges popular belief that ‘unbridled ambition’ costs female candidates votes
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Half of parents report butting heads with child’s grandparent over parenting
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Mother bats use baby talk to communicate with their pups
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Broccoli and Brussels sprouts a cut above for blood vessel health
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Picture this: Employee fraud decreases when they see family photos
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Police officers face multifaceted, compounding stressors that can lead to adverse events during high-stress calls
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People Who Feel Their Lives Are Threatened Are More Likely to Experience Miracles
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A capital europeia do comentariado imbecil

A 22 de Junho, Daniel Oliveira escreveu no Expresso o seguinte:

«Não acredito que a Champions aconteça com público, que viria de todo o mundo. Era preciso que, em agosto, tudo estivesse quase resolvido. Sendo sem público, qual é a vantagem? Dizem que a publicidade, que contribuirá para a recuperação mais rápida do turismo. Mas isso é partir do princípio que as coisas estarão bem em agosto. Não fazemos ideia se assim será. Se as coisas piorarem, a publicidade só pode ser negativa. Se for desmarcada, teremos um foco na situação portuguesa que seria evitável. Se não for desmarcada, teremos televisões de todo o mundo, sem público como tema de reportagem, a apontar os seus holofotes para cada caso e cada perigo, transformando Lisboa na capital europeia do covid. Mesmo que esteja a correr pior noutras paragens. Vale o risco?»

Fonte

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O catastrofismo presente nesta citação é exemplar. Uma vedeta do jornalismo de opinião, que aparenta viver exclusivamente dos proventos adquiridos nessa actividade, optou pelo sensacionalismo ressabiado para servir ao público e aos seus patrões. Lógica? A da motivação da baixa política, a do quanto pior melhor pois não gosto daqueles gajos, à mistura com a soberba de quem compete pelo dom da infalibilidade. Apostar no cenário pessimista, e maximizar as suas potenciais consequências, é um exercício que enche de dopamina e testosterona o articulista implacável, imaginando-se a cavalo numa carga heróica contra esses políticos broncos, alarves e malvados que insistem em fazer as coisas sem primeiro pedir o sapientíssimo conselho (aprovação?) do Daniel Oliveira.

Dois meses se passaram. E há que fazer justiça ao profeta, realmente os números da situação em Portugal deram que falar na imprensa internacional. Da primeira vez, por causa dos 8-2 com que o Bayern esmagou o Barcelona. Da segunda, quando Portugal entrou na lista dos corredores aéreos do Reino Unido, permitindo uma expectativa de divisas e uma diminuição do desemprego cruciais. Chegamos ao dia da final e registam-se 145 novos casos enquanto em Espanha, França, Itália e Alemanha se está em aceleradíssimo crescimento. Mas não só, os espectaculares casos de Israel, Croácia e Nova Zelândia, países dados como referência de excelência na gestão da epidemia e sua contenção ao mínimo possível, revelam que a dinâmica da propagação do contágio ultrapassa qualquer capacidade dos governos seja em que geografia ou sociedade for. Como ilustração suprema, o que se passou na Nova Zelândia (uma ilha, para quem não sabe, e com metade da população portuguesa) é a prova de que estar na plateia a apupar os governantes porque os números são assim ou assado é uma prática que pode ser financeira e psicologicamente muito consoladora mas que no plano cívico e ético fica como uma pulhice. Ou então, às tantas, talvez tenham razão e sejam mesmo os infecciosos transportes públicos de Lisboa que estão a causar o recrudescimento dos surtos um pouco por todo o Mundo, como também afiançaram há umas semanas, quem sabe?

Daniel Oliveira não ficou sozinho. Difícil, ou muito provavelmente impossível, é alguém no comentariado ter resistido à pulsão de caricaturar e achincalhar os representantes do Soberano. Pessoas que se ofereceram para tomar diariamente, horariamente, decisões que afectam o presente e futuro de milhões de concidadãos sem poderem ter sequer um bilionésimo da certeza apodíctica que os génios jornaleiros espalham pelo teclado e pelos estúdios. Onde são tão inteligentes, tão corajosos e tão felizes.

Coisas do Carvalho

«Um a um, os profetas do populismo de extrema-direita vão mostrando a sua verdadeira face, estatelando-se em casos de corrupção que tinham prometido não só combater, mas erradicar na Europa ou nas américas. Um dos mais perigosos missionários dessa promessa de regeneração moral, Steve Bannon, foi detido ontem por alegadamente se ter apropriado de um milhão de dólares de donativos para a construção do muro na fronteira sul dos EUA. O exemplo é esclarecedor da mentira e da hipocrisia do personagem e não é o primeiro a desvendar a natureza dos que se propõem restaurar as sociedades, depurando-as de imigrantes, fazendo regressar os ressentimentos nacionalistas ou acabando com a corrupção [...]»


Manuel Carvalho

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Populismo, extrema-direita, combate à corrupção, regeneração moral, mentira, hipocrisia, restaurar as sociedades e o fim da corrupção… Onde é que já ouvimos isso? ‘Pera aí, onde é que podemos encontrar isso, tal qual, se não for diariamente pelo menos semana sim, semana sim? Olha a coincidência, é no jornal do Carvalho! Basta ir lendo os seus editoriais, mais as crónicas do caluniador profissional cujo programa consiste na purga que lhe vai enchendo os bolsos, e de novo levarmos com o caluniador profissional citado nos editoriais. O Carvalho que agora aparece a largar banalidades contra um Bannon aparentemente em queda é o mesmo Carvalho que tecla fogosos autos-de-fé contra os corruptos da sua predilecção, todos socialistas e todos pertencendo à elite espúria que tentou tomar de assalto o sistema financeiro.

Como é que o Carvalho consegue habitar na sua própria cabeça? O grau de dissonância cognitiva que ostenta, calhando pagar imposto, dava para um século de superavits.

46 anos depois, Ventura

Ter André Ventura na segunda posição das intenções de voto numa sondagem, a menos de 6 meses das eleições presidenciais, é uma esplendorosa lição a respeito do que 15 anos de uma estratégia de terra queimada, levada a cabo pela direita partidária e seus impérios comunicacionais, fizeram no País. Porque nada de nada do que Ventura usa como técnica retórica é alheio, na essência decadente, ao que se tem visto nos dirigentes políticos, deputados, editores e comentadores que se colaram ao populismo do tempo para arrastarem a competição política para a dimensão moral, e aqui chegados continuaram a reduzir a moral à perseguição e à culpabilidade, e para tal recorreram furiosos e ressabiados à calúnia e às golpadas mediáticas e judiciais. Ventura não só foi um aprendiz desta cultura logo enquanto artista do tribalismo futeboleiro como foi trazido pela mão de Passos Coelho para o palco da política como uma súbita estrela em ascensão. Foi-lhe dada a chancela do PSD e o patrocínio do seu presidente. Ventura – não apesar mas por causa do que hoje exibe com impante obscenidade – era quem Passos queria em Loures a provar que a completa falta de escrúpulos compensa.

No dia 9 de Março de 2011, num comício na Assembleia da República, Cavaco Silva declarou solenemente: “Há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos.” No dia 1 de Abril de 2011, respondendo a adolescentes, Passos jurou que não ia cortar subsídios. Noutras ocasiões dessa campanha repetiu o mesmo, tal como os seus tenentes laranjas que garantiam ter as contas todas feitas e que só gorduras seriam cortadas. Com eles no lugar dos diabólicos socráticos seria indolor e ficaríamos lindos. Poucos dias depois de vermos o Pedro ocupar S. Bento, e sem a mínima surpresa, vieram as notícias dos cortes aqui, ali e onde ele conseguisse enfiar a faca. As suas mentiras cínicas e grotescas, dada a inevitabilidade dos cortes violentos para a população e a economia após o chumbo do PEC IV e o afundanço no resgate de emergência, não tiveram qualquer sanção na sociedade e na imprensa. O comentariado direitola mal tocou no assunto, e quando falou foi só para se congratular por se ter feito o que era necessário fazer para vencer o soberbo inimigo. Cavaco atacava o Governo socialista declarando que fazia cortes a mais enquanto o PSD atacava o Governo socialista dizendo que fazia cortes a menos. Caído esse Governo, Cavaco e Passos coordenaram o tempo da campanha e do acordo com a Troika para manter o povinho na cruel ilusão de ir escapar aos fanáticos da austeridade salvífica. Em 2016, nos EUA, Trump não fez outra coisa ao perverter de modo sistemático a veracidade do seu discurso, e até hoje não tem feito coisa outra; o que levou, também em 2016, a que o termo “pós-verdade” fosse escolhido como palavra do ano pela Universidade de Oxford. Destas fórmulas boçais para audiências e eleitorados “deploráveis”, onde reina a iliteracia política e a alienação cívica, Ventura se fez em Portugal o mais desavergonhado executante por estrita lógica de sobrevivência. É que ele está a lutar pela continuação da sua marca mediática, não pelo seu futuro político que é nenhum, daí ter atravessado o Rubicão onde PSD e CDS nunca ousaram sequer molhar o pezinho.

O Twitter de Ventura merece visita diária. Nele está o cardápio do que tem para vender, uma juliana de apelos folclóricos aos instintos irracionalizantes que atravessam os mais frágeis na comunidade: frágeis economicamente, frágeis socialmente, frágeis psicologicamente, frágeis escolarmente, frágeis eticamente. Uma turbamulta que se cola a um palhaço como Ventura não por ver nele a resposta para as suas necessidades enquanto cidadãos mas, precisamente ao contrário, por nem sequer entenderem em que consiste a cidadania; daí estarem disponíveis para fazer coro a qualquer barbaridade que saia da boca e do teclado de alguém que está em transe fáustico. Grande parte nem sequer vota, e parte desta parte nem nunca irá votar, mas entretanto há circo na aldeia. Por isso Ventura mergulha de cabeça nos tabus que a módica decência tinha até agora impedido PSD, CDS e sua legião na imprensa de usar como bandeiras no vale tudo em que transformaram a arena política desde 2007: a cartada racista, a cartada xenófoba, a cartada salazarista, a cartada Fátima/evangélicos, a cartada do Estado policial. Depois de lançadas – e agora que estão normalizadas pelo próprio Rui Rio, num acontecimento que o próprio ainda não foi capaz de perceber nas suas consequências para o regime – Ventura pode simplesmente voltar ao papão da “corrupção e impunidade” para que se inscreva nesse mantra do passismo miliciano e da indústria da calúnia os ovos da serpente que já espalhou e vai continuar a espalhar.

Quem também quer muito, muito e muito acabar com a corrupção e a impunidade é o João Miguel Tavares. No seu texto ontem publicado num jornal de referência conseguiu apanhar mais um corrupto socialista (passe a tautologia). Eis o que se pode ler assinado com o seu nome:

«Vítor Escária é um lobista, um facilitador e angariador de negócios que António Costa acaba de colocar no coração do seu gabinete. O facto de o primeiro-ministro assumir de forma tão aberta essa relação de confiança pessoal é demonstrativo de uma continuidade preocupante com os tenebrosos anos 2005-2011. O facto de esta notícia passar com um encolher de ombros é demonstrativo de que não aprendemos nada com a Operação Marquês, e que o regime continua podre, pervertido e perigoso.»

João Miguel Tavares considera que os deputados fazem leis com a intenção de proteger políticos que cometam crimes de corrupção. Este mesmo senhor também acha que os magistrados que cometem crimes de violação do segredo de Justiça estão a fazer justiça pois é a única forma que encontram para furar as leis corruptas dos políticos. E aqui nesta citação podemos lê-lo a dizer que um processo judicial onde ainda não há qualquer sentença, e que está cheio de abusos e violência do Estado e dos poderes fácticos sobre os arguidos, serve como prova transitada em julgado para uma condenação política. Nessa condenação considera que António Costa, actual primeiro-ministro, é um governante podre, pervertido e perigoso. Visto que João Miguel Tavares, única e exclusivamente por ser um caluniador profissional, foi escolhido como um dos portugueses mais meritórios na História pátria pelo actual Presidente da República, fica evidente como o fenómeno que Ventura está a protagonizar se trata de uma evolução na continuidade. Ventura é a estátua viva da abjecção a que a direita portuguesa chegou 46 anos depois do 25 de Abril.

Volta, Menezes, estás perdoado

18 dias. Rui Rio passou mais de duas semanas a ver em silêncio o tumulto que a sua inconsciente (porque lhe saiu no momento, sem pensamento prévio nem prudência na ocasião) legitimação do Chega como potencial aliado do PSD causou em quem tenha uma costela liberal ou um mero pingo de social-democracia a correr nas veias. 18 dias. Até que, finalmente, tomou uma posição de comando na crise em curso, mostrou quem manda na barraca. E foi para o Twitter. Onde colocou em exposição o que factualmente tinha dito há 18 dias. 18 dias sem qualquer justificação, explicação ou interpretação só para acabar a provar ao mais matarruano dos cépticos que o actual presidente do PSD é bem capaz de ser o pior líder desde a fundação do partido.

Todos os vitupérios que desabem sobre esta vergonhosa imitação de estadista não serão de mais, bem pelo contrário. A avaliar pelo que entretanto se soube do apoio de dirigentes avulsos do PSD a uma parceria com Ventura, a situação revela-se extremamente grave para a salubridade do regime. Daí merecer escândalo e coragem o actual momento de um partido que tem sido pilar da democracia e do desenvolvimento do País (vamos fazer o favor de esquecer o Cavaquistão, a traição de Barroso, Santana e Passos). No entanto, porém, todavia, a última entrevista de Rui Rio à RTP tem outros momentos que superam em ilustração de incompetência a cena desonrosa sobre o Chega. Momentos que jamais alguém irá comentar dado que em Portugal não existe imprensa. Um deles começa no minuto 12 mais 16 segundos. Vítor Gonçalves lança o tema: “Na sua opinião, como é que o Governo tem estado na resposta à epidemia e às consequências da pandemia?

Saltemos para o minuto 16 mais 34 segundos. É a altura em que o mesmo Vítor Gonçalves muda de assunto. Ficámos, contas exactas, com 4 minutos e 18 segundos gastos a transmitir ao público a avaliação do líder da oposição ao Governo adentro da actual crise de saúde, a qual é também uma crise económica e social sem precedentes e de consequências imprevisíveis. Ingénuos e distraídos que não tenham visto o segmento acreditarão em duas balelas: (i) que 4 minutos e tal de televisão (10% do tempo útil da entrevista) dá para dizer das quentes e boas; (ii) que um candidato a primeiro-ministro, a atravessar um período que ficará na História mundial e que a vai alterar, terá algo de muito importante para dizer, seja contra ou a favor, seja por isto ou por aquilo, seja lá o que for. O que nos saiu na rifa foi do reino do burlesco, os 4 minutos consistem num inacreditável festival de inanidades em que Rio conseguiu trocar os olhinhos a um jornalista que, não sendo a mais luminosa cabeça na profissão, esforçou-se realmente na procura de algo parecido com uma resposta, nem que fosse uma migalha qualquer mas concreta saída da boca do entrevistado a respeito da sua avaliação do Governo. O que mais se aproximou dessa meta está aqui, precisamente as suas últimas palavras acerca da ponderosa questão:

Uma coisa é o início… e outra coisa é depois a consolidação… são coisas diferentes…

Eruditos e clientes de táxis de imediato reconhecerão estarmos perante um naco de sapiência popular, o famoso axioma “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa” que já permitiu a conclusão pacífica de milhentas discussões. Pelo que vou aproveitar o balanço e fazer uma pequena adaptação ao poderoso argumento – uma coisa é um líder à altura da responsabilidade de ser candidato a primeiro-ministro, outra coisa é o Rui Rio.

A ministra é uma bruxa, quer o mal dos velhinhos, noticiou um jornal de referência

Para que serve o pseudo-jornalismo? Sabemos para que serve o jornalismo: para cumprir este ideal. Quando tal acontece, quando a imprensa assume princípios éticos, a democracia fica reforçada porque aumenta o conhecimento sobre a comunidade, melhora a inteligência colectiva, cresce a liberdade de cada um. Quando não acontece, os órgãos de comunicação social dedicam-se à procura do lucro através do sensacionalismo e/ou pelo serviço às agendas políticas e sociais dos accionistas ou tutela. O modelo de negócio continua a depender da deontologia mas agora para a perverter e explorar. A ética passa a ser usada como capa manipuladora e covil inexpugnável. A liberdade da imprensa transforma-se na carta branca para violentar o contrato de confiança entre quem ostenta a carteira de jornalista e quem consome os produtos do jornalismo. Há ganhos para alguns nesta deturpação que expulsa a isenção, só que passam a ser proveitos sectários numa lógica de terra queimada. Quanto pior o dano à comunidade, melhor para o pseudo-jornalismo.

Imaginemos a seguinte experiência mental. Um instituto universitário, ou um milionário patusco, mandava uma equipa para as ruas de Portugal a propor um desafio aos incautos que apanhassem pela frente: se conseguissem responder espontaneamente – fundamentando a resposta – à pergunta “Quem é o melhor jornalista em Portugal, na actualidade?” habilitavam-se a ganhar 1 milhão de euros após avaliação das respostas por um júri de autoridades na matéria. Mesmo que esta experiência nunca venha a ser feita, e não vai, é fácil calcular o grau de dificuldade, primeiro, e o nível de ignorância, depois, nas respostas recolhidas. Pura e simplesmente, ninguém perde uma caloria com essa questão, não saberíamos sequer que critérios usar para começo da avaliação. Ora, tal indiferença é não só significativa como está prenhe de consequências. Significa que a crise do jornalismo é económica, pela redução drástica das receitas, por um lado, e diminuição das audiências pela fragmentação mediática, pelo outro, mas que é igualmente uma crise política. O papel de “quarto poder”, pese toda a fragilidade conceptual desta fórmula, não passa agora de um ópio para os egos hipertrofiados dos que ainda continuam a flanar no topo da pirâmide editorial com os bolsos cheios. Quanto às consequências, é um caso onde elas são tantas quantas aquelas que a vista alcançar. Pelo que os interessados no assunto devem começar por abrir a pestana.

A problemática adquire a sua desvairada ambiguidade logo a partir do nº 1 do código deontológico do jornalista, onde se escreve “O jornalista deve relatar os factos com rigor e exatidão e interpretá-los com honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público.“. Os sublinhados são meus, precisamente para se focar a atenção no que é fonte inesgotável de polémica. Quem afere da “honestidade” do trabalho jornalístico? Ou de acordo com que metodologia? Como distinguir entre o que é “notícia” e o que é “opinião” se até o mais objectivo retrato por palavras, ou em captação mecânica da luz, corresponde sempre a um inevitável e incontornável ponto de vista, um entre ilimitados? Por exemplo, numa entrevista só se fazem as perguntas que se querem fazer, e como se querem fazer – acaso tais opções estão imunes à “opinião” do jornalista? O mesmo para qualquer decisão editorial que dê destaque a certas notícias levando outras a não o ter ou ter menos – acaso tais opções estão imunes à “opinião” do editor? Idem para a construção dos títulos e chamadas, para o perfil político dos profissionais na redacção e para a tipologia política dos colaboradores na secção de opinião, para tudo e mais alguma coisa que crie a paisagem ideológica e programática do meio de comunicação social em causa. Pelo que o mais avisado será recorrer à sabedoria de Potter Stewart, o tal juiz americano que em 1964 definiu assim a pornografia: “I know it when I see it

É exactamente o que se passa nesta coisa – Expresso repudia a acusação de “descontextualização”. Oiça aqui o áudio da entrevista à ministra Ana Mendes Godinho – onde a desonestidade intelectual deste “jornal de referência” (ahahaha, minha nossa senhora do Caravaggio) é tanta que nos permite abdicar do esforço para chegar a uma sua definição. Basta começar a ler e de imediato damos por nós num tugúrio do mais antigo militante do PSD a assistir a uma rábula de pornojornalismo que, reconheço e agradeço, tem o involuntário mérito de chegar a ser hilariante tamanha a confiança que exibem de só estarem a lidar com cidadãos acéfalos.

Revolution through evolution

Misogyny expert: Male entitlement hurts women, girls
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Research suggests bias against natural hair limits job opportunities for black women
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Study Pinpoints Five Most Likely Causes of Post-Traumatic Stress in Police Officers
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Low Leadership Quality Predicts High Risk of Long-Term Sickness Absence
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Fighting like cats and dogs?
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New model shows how voting behavior can drive political parties apart
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When you’re smiling, the whole world really does smile with you
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Flower power

A escolha de Joe Biden para concorrer contra Trump pareceu nova partida de um destino cruel. Depois da insanidade em que a América está mergulhada desde o Verão de 2015 – altura em que aparece Trump em cena, então para todos apenas o palhaço-mor do circo presidencial, e ainda James Comey, então para todos impossível de prever quão decisivo viria a ser na derrota de Hillary Clinton a uma semana das eleições – esperava-se que os democratas fossem buscar um candidato à altura da crise histórica para as suas instituições que os EUA atravessam. Ter um Presidente que já fez mais de vinte mil afirmações factualmente falsas ou enganosas desde que entrou na Casa Branca dá conta da gravidade da anomia no topo do poder da maior democracia mundial. Ora, Biden não tem características que consigamos relacionar positivamente com a urgência de afastar Trump da mala nuclear e de castigar o seu legado moralmente aviltante e degradante. Parece um pachola, terá o seu mérito ao serviço do bem comum e dos seus concidadãos, mas também aparenta fragilidade física e não é o representante da sede de justiça que anima a oposição a Trump.

Pois bem, renasceu a esperança à volta da sua candidatura com a nomeação de Kamala Harris como candidata à vice-presidência. Estamos perante uma vencedora numa área da maior importância para a defesa do Estado de direito democrático e um símbolo vivo do melhor que a América representa como convivência e miscigenação de fenótipos e tradições. Se tudo correr pelo melhor, estaremos também perante a 1ª mulher a ser eleita Presidente dos EUA – a partir de Novembro de 2024, numa democracia (inspiradoramente) perto de si.

O teste do pato

Marina Costa Lobo, no texto onde em duas pinceladas explica que o livro “A Nova Direita Anti-Sistema – O Caso do Chega” pode ser tudo menos um trabalho académico, recorre ao cliché do “se parece um pato, nada como um pato e grasna como um pato, provavelmente é um pato” para encerrar um responso. Riccardo Marchi não tinha atingido os mínimos metodológicos para inscrever a obra no campo da investigação em história ou ciência política, segundo os critérios da autora, daí resultando uma ocultação da verdadeira natureza do Chega e de André Ventura. A coisa não passa de um “panfleto partidário“, rematou.

Para além da utilidade jornalística do exercício, uma curiosidade bem mais importante desperta: onde estão os trabalhos académicos – onde se cumpram critérios mínimos de distanciamento do objecto de estudo, seja do ponto de vista da ciência política e/ou da história, e com enquadramento analítico, teórico, e ainda apresentando comparações históricas ou da actualidade portuguesa ou europeia – a respeito do populismo como táctica do PSD e do CDS desde 2004, em força ostensiva desde 2008, e como assumida cultura política desde 2010? E onde estão os estudos dos cientistas sociais sobre o uso do ódio político pela direita portuguesa numa estratégia nascida com a perda do seu império bancário e desaparecimento da vida intelectual e da mera decência nas suas sedes partidárias, ódio que tem sido alimentado por crimes sucessivos cometidos por magistrados e jornalistas ao fazerem da judicialização da política e da politização da Justiça um fogo de barragem imparável que até dá para tentar condicionar procuradores e juízes à descarada? E cadê as monografias, ou que fosse apenas uma nota de rodapé, onde se analisasse com instrumentos conceptuais robustos o fenómeno do Entroncamento de vermos um Presidente da República a dar raríssimas honras de Estado a um fulano cuja carreira profissional consiste tão-só em despejar banalidades, lançar calúnias, perseguir difamatoriamente cidadãos por associação com uma tara que lhe deu a fama e o proveito e, last but not fucking least, bolçar que o regime é intrinsecamente corrupto logo a começar pela Assembleia da República e seus actos de soberania?

André Ventura não terá organizado a “parada Ku Klux Klan” junto à sede da SOS Racismo em Lisboa nem terá carregado no botão “enviar” que fez chegar ameaças dementes a diversos “dirigentes antifascistas e anti-racistas” mas aqui aplica-se a sensata máxima correlation may imply causation. A manifestação do dia 2 de Agosto, em que Ventura não só ocupou a rua como também o silêncio vexante de Rio (portanto, do PSD) que dias antes lhe tinha entregado a chave da cidade, foi poderosamente simbólica na dimensão em que não existiu qualquer força ou representante político a dialogar com o evento. E por causa disso ele ficou sem enquadramento democrático e sem contraditório axiológico, deixando-se que a prosápia insurrecta e megalómana do Ventura espalhasse confiança e ousadia junto daqueles apoiantes fanáticos que realmente não conseguem medir as consequências das suas acções – como se espera que a Judiciária e o Ministério Público no mais curto espaço de tempo possível ilustrem em nome da Lei e da liberdade que ela defende e consagra.

É neste nexo de causalidades paralelas que nos falta uma Marina Costa Lobo a reflectir, com o rigor do seu percurso na investigação, sobre a história de um certo Pedro que foi buscar um tal André para que este fizesse ao seu serviço exactamente o que anda agora a fazer para escândalo serôdio de tanto hipócrita. Uma Marina Costa Lobo capaz de explicitar o que leva o director de um “jornal de referência” a citar encomiasticamente vezes sem conta um cronista que podia ser ideólogo do Chega, tanto por partilharem o mesmo posicionamento de “nova direita anti-sistema” que vai acabar com os corruptos e esquerdalhos como por comungarem da mesma esperança messiânica no regresso de Passos Coelho, o herói que meteu na masmorra o dragão socrático. Uma Marina Costa Lobo com tempo para ajudar a comunidade a dar sentido, fosse no âmbito da história ou da ciência política, à tragédia de vermos o partido fundado por Sá Carneiro a pedinchar o apoio de Ventura e seus amigos.

Sim, o teste do pato à decadência da direita portuguesa nos últimos 17 anos está por fazer. E aposto os 5 euros que tenho no bolso como assim continuará até que o Fabril do Barreiro ganhe a Champions. Três vezes.

Em defesa do racismo

«Ao trazer para a altercação a ideia de associar à cor da pele do seu antagonista uma hipotética deformação de carácter, como se fosse uma característica inata a todos os que têm o mesmo tom de pele, o homicida de Bruno Candé Marques, factualmente, acrescentou ao ódio pelo individuo, com quem discutia não sei o quê sobre uma cadela, um preconceito racial contra os negros em geral - e isso é, como é óbvio, racismo.

O assassino talvez não tenha disparado quatro balas no corpo de Bruno Candé Marques por ele ser negro, mas usou a negritude do ator para o ferir psicologicamente durante a subida da tensão nervosa que o levou a cometer homicídio e, por isso, o quadro completo do crime não pode ser desenhado sem lhe acrescentar essa tinta estigmatizadora do racismo, que envenena a paz das nossas sociedades.

[...]

Seguindo esta lógica, se eu estiver de cabeça perdida e lançar um insulto a um negro por ele ser negro, não deixo de ser um racista.»


Pedro Tadeu – Porque há racismo no homicídio de Bruno Candé?

«Quem procura esconder o racismo que existe no nosso país dirá que tudo começou naquele momento, que uma coisa leva à outra e depois tudo se descontrolou. Ficará convencido disso quem disso se quiser convencer, pois a realidade mostra tudo de forma bem diferente.

O crime foi premeditado, o assassino regressou dias depois do desentendimento com o único objetivo: matar Bruno Candé. Para isso usou uma arma ilegal, cujo percurso ainda está por explicar. Os insultos racistas dão conta de um ódio que já era antigo, que vinha de trás, e do qual Bruno Candé não podia fugir: a cor da sua pele. Isso incomodava o assassino muito antes da cadela se ter atravessado ao caminho e é o que torna tudo diferente.»


Pedro Filipe Soares – Sim, é racismo

Servem estes dois exemplos para ilustrarmos o caso. O caso em que a problemática do racismo é tratada na comunicação social de uma forma que fornece armas e munição aos manipuladores de ignorantes, alienados e veros racistas. Tentar explicar isto ao Pedro Tadeu e ao Pedro Filipe Soares é que será missão impossível, pois eles não estão em condições de aprender. Pelo que continuarão a ser cúmplices involuntários de um fenómeno de irracionalização muito perigoso mas passível – e com urgência – de ser analisado racionalmente.

Na primeira citação, Tadeu constrói o argumento para a existência de racismo a partir do registo discursivo do assassino no momento que antecede o disparo. Ele próprio se encarrega de dar ênfase à tese: insultar alguém com referências a aspectos corporais é “racismo”. E ponto final na conversa. As palavra ditas chegam e sobram para a conclusão, não carecendo o seu texto de conhecer seja o que for a respeito de quem as proferiu para se encerrar o inquérito. Na segunda citação, Soares assume o estatuto de narrador omnisciente e revela o que se passou na subjectividade do criminoso a partir de um passado indeterminado; altura em que terá começado a premeditar a morte de Bruno Candé, garante. Não só o autor nos dá um calendário integral do processo psicológico de alguém com quem nunca sequer falou como nos serve uma versão policial sem direito à menor dúvida: a cor da pele foi o móbil do crime. Quem vier tentar pôr em causa o seu diagnóstico ficará vergonhosamente carimbado como traste que anda a “esconder o racismo”.

Ora, estes dois senhores com banca na imprensa não faziam parte das relações pessoais entre os envolvidos, não assistiram ao episódio, não pertencem às polícias e às magistraturas que estão a recolher a informação e a estabelecer a mais rigorosa versão possível. O acto de escreverem sobre o assunto, portanto, não pode estar a nascer de processos relativos ao conhecimento factual, científico, policial e judicial. Donde virá a sua opinião, se não vem da inteligência empírica por via pessoal nem das autoridades envolvidas? Vem das impressões, do senso comum, da ideologia e, especialmente, da desumanização. Parece paradoxal, posto que a retórica utilizada é justamente para lamentar e denunciar um supremo acto de desumanização que acabou com uma vida humana, mas acontece que para o fazerem estas duas figuras, representando milhares ou milhões de outras, acham-se no direito de desumanizar o assassino. Ao tratá-lo sem demora nem critério como “racista”, ao reduzirem o seu comportamento ao longo de décadas à atitude da agressão fatal num certo dia, a inerente complexidade psicológica, cívica e antropológica dessa pessoa desaparece e é substituída por uma abstracção, pela caricatura que serve os oportunistas cheios de boas intenções e satisfeitos com o espantalho disponível para despachar jornalismo de opinião.

Do outro lado estava Ventura, o oportunista só com más intenções que agradeceu a benesse e montou aquela que fica como a mais pujante manifestação política de apoio ao Chega depois dos resultados eleitorais de 2019 que o meteram no Parlamento. Vir para a rua gritar que não há racismo em Portugal comunica directa e identitariamente com a enorme maioria silenciosa cujos processos cognitivos afirmam exactamente o mesmo. E esta consciência radica nas evidências: não há racismo em nenhuma esfera da estrutura do Estado e da sua produção legislativa. Precisamente ao contrário, como comunidade escolhemos punir o racismo através do Código Penal e das instituições públicas, para além de estarmos constantemente na sociedade em campanha contra o racismo e em vigilância para detectar e castigar manifestações de tal por mais ténues que pareçam. Há uma aversão sociológica ao racismo que torna residual, e fonte de dano na reputação, a mera expressão de humor a respeito de diferenças etnográficas e antropológicas. Pelo que foi oferecido a um palhaço do calibre tóxico do Ventura um bastião invencível: Portugal não é racista, obviamente – e quão mais se atacar esta posição mais forte ela ficará.

Todavia, o racismo existe, né? É possível identificar várias, muitas, inúmeras situações que, por isto ou aquilo, entram nessa categoria, certo? Claro que sim, só que aqui também os nossos paladinos anti-racistas estão a borrar a pintura. Os conceitos de “racismo estrutural” e/ou “racismo institucional” fazem todo o sentido como instrumentos intelectuais e políticos em certos contextos onde as audiências tenham literacia e motivação suficicentes para eles serem operativos e consequentes. Não sendo o caso, perdem por completo a eficácia original e transformam-se em brechas na muralha contra o próprio fenómeno discriminatório que intentam combater. Insistir neles para comunicar com os públicos-alvo do Ventura e quejandos já nada terá a ver com a procura de soluções seja para o que for, fica apenas como uma radicalização que suscita radicalização simétrica. Porque ninguém, a começar por quem envia para o espaço público esse alarme e essa indignação, sabe como é que o racismo estrutural vai acabar sem com isso acabar a própria estrutura onde ele acontece. E ninguém sabe porque sabemos todos bem demais que o “racismo” é apenas um dos nomes que se dá à universal pulsão para o tribalismo. O tribalismo ocorre a propósito das diferenças corporais, vai sem discussão, mas igualmente ocorre a propósito de milhentas outras características humanas como a nacionalidade, a religião, a força política, o género, a idade, o estatuto social, a corporação, o clube, a geografia, as melífluas afinidades electivas – todo e qualquer elemento simbólico, todo e qualquer nexo afectivo, que se torne vector do instinto de sobrevivência.

Não é fácil encontrar um racista. Porque não é racista quem quer. Ou quem finge ser, como o Ventura. O nível de aberração intelectual a que se tem de chegar para criar uma identidade racista numa democracia da União Europeia ou implica atrofio cognitivo ou psicopatia grave. E nesta constatação há uma noção incontornável para os cultores da liberdade: o racismo não pode nunca limitar-se à esfera do discurso calhando este apontar para diferenças, sejam elas quais forem, entre grupos de humanos; o racismo tem sempre, sempre e sempre de ser visto como uma prática de perseguição a certos grupos ou indivíduos ofendendo os seus direitos humanos e o Estado de direito democrático. Isto significa que as expressões “preto de merda”, ou “cigano do caralho”, ou “porco judeu”, ou “branco filho da puta”, não provam por si só o racismo seja de quem for que as utilize. O mais provável, bem acima dos 99%, é apenas servirem para provar a imaturidade, estupidez ou miséria moral de quem assim se mostrou na sua fragilidade, na sua humanidade.

Começa a semana com isto

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Joe Rogan não é o melhor entrevistador do mundo mas tem o mérito de deixar falar os convidados. No caso, só se perde o que Daryl Davis não se lembrou de dizer.

Estamos perante um excêntrico que fez – continua a fazer – milagres? Sim. Olhar a besta nos olhos e ver no seu interior a humanidade aprisionada no medo e no ódio é miraculoso. A mistura de empatia e coragem fica como o supremo desafio ontológico ao absurdo cósmico onde somos consciências efémeras. E coragem e empatia é o que Daryl Davis tem em tal abundância que o mais provável é não conseguirmos dar outro exemplo igual atendendo ao seu tempo histórico e contexto social.

Comparações à parte, prefiro definir a sua pessoa de outra maneira, talvez ainda mais lírica: eis um americano puro, de raça.