Arquivo da Categoria: Valupi

“Haveremos todos de saber, um dia, o que é que cada um sabia sobre Tancos”

Sou fã e fã serei pelos séculos fora – até indecência em contrário – do Pedro Marques Lopes e do Pedro Adão e Silva. Admiro o civismo, a civilidade e a sua integridade de carácter como figuras públicas (posto que não convivo com nenhum, apesar de já ter privado com ambos, só me refiro a essa dimensão moral no papel mediático; embora seja minha convicção de que a postura pública corresponde a uma manifestação transparente da sua ética privada). Desfruto da sua capacidade de análise política onde se complementam ao centro, o lugar da arquitectónica política onde a democracia é mais democrática. E aplaudo com vivas e urros o efeito de salubridade que espalham no espaço público ao praticarem a tolerância zero (ou quase…) com pulhas e pulhices. Por esta última característica, por terem a coragem de subir às muralhas da cidade e enfrentarem os invasores, são invariavelmente atacados por fanáticos e broncos que nada rebatem, nada cogitam, apenas os insultam com inanidades ad hominem a partir do esgoto onde rebolam derrotados. Também por isso, pelo efeito que causam na direita decadente e no lumpenpopulismo, lhes estou penhoradamente agradecido.

Entretanto, todavia, e foda-se, por causa do Azeredo Lopes borraram irracionalmente a pintura. Desde o princípio do caso que alinharam com a operação generalizada na imprensa de transformar o ex-ministro da Defesa no bode expiatório – ou melhor, vítima sacrificial – das responsabilidades de gatunos, militares, primeiro-ministro e Presidente da República. Isso mesmo podemos ouvir no primeiro Bloco Central após se conhecer o desaparecimento do material de guerra, a 7 de Julho de 2017. Um dos Pedros achincalha Azeredo sem argumentos, sendo penoso o esforço que faz para tentar verbalizar algum esboço de ideia minimamente objectiva e factual. Pista: não consegue. Trata-se de um puro exercício de zurzidela a partir de um preconceito de aversão. O outro Pedro apresenta um quadro alargado das falhas políticas que detectou, as quais afirma irem dos militares ao Presidente e ao Governo mas onde afunila em Azeredo o seu desgosto com a situação. Para tal, distorce as declarações do ministro da Defesa, proferidas numa entrevista à SIC, para lhe servirem o intento persecutório a que deu largas. Essa entrevista ficava, aliás, como o casus belli que unia o bombardeamento dos dois comentadores, não as imediatas e múltiplas decisões executivas do ministro a respeito da ocorrência em Tancos que não obtiveram sequer referência nesse programa (nem em qualquer outro).

[Está aqui a famigerada entrevista – qualquer um pode comprovar, caso esteja disponível para 15 minutos de honestidade intelectual, que Azeredo não desvaloriza o assalto nem faz graçolas, o que deixa são informações contextuais desdramatizadoras numa circunstância inaudita onde a exploração política, o sensacionalismo e o trauma colectivo das recentes mortes em Pedrógão estavam a criar alarme na população]

Saltemos dois anos e tal. Vamos reencontrar os meus dois comentadores políticos favoritos a discorrer pela enésima vez sobre Tancos. No Bloco Central de 27 de Setembro de 2019, graças ao calendário subversivo do Ministério Público e à decadência da direita portuguesa, os Pedros voltam à carga contra Azeredo por imposição da actualidade. Notável e sintomaticamente, o que se ouve é uma versão ainda mais verrinosa e emocionalmente hipertrofiada do que foi gravado logo após os primeiros acontecimentos do caso. O caudal de informação tornada pública e as peripécias do caso de então para agora, que chegaram a incluir uma Comissão de Inquérito Parlamentar e culminaram numa acusação a um ex-ministro e em assustadoras teorias conspirativas lançadas pela dita “imprensa de referência” que atingem o Presidente da República e a antiga PGR, não alteraram um nanómetro a lógica alucinada de fazer de Azeredo Lopes uma figura insular no regime, subitamente retardada e sofrendo de iliteracia jurídica, a qual, apesar da sua himalaica incompetência técnica e política, ainda tinha conseguido enganar António Costa, a equipa deste, mais Marcelo Rebelo de Sousa, e a equipa deste, porque se lembrou de alinhar com um grupo de militares desvairados que montaram uma chachada inenarrável e criminosa só para aparecerem no retrato como campeões na disputa com a Judiciária civil e o Ministério Público. Há um problemazinho nesta cena: não faz ponta de um corno de sentido. Chamem o Occam.

Vamos, sumariamente, aos factos essenciais para quem só dispõe de informação pública:

– Assim que o material foi dado como desaparecido, o então ministro da Defesa dá ordem para se fazerem investigações e levantamentos de informações em toda a rede dos arsenais militares. Nunca ninguém fez qualquer alusão às decisões que foram tomadas institucionalmente, pelo que é de presumir que foram exemplarmente correctas.

– A decisão de dar uma entrevista à SIC em vez de ter feito uma conferência de imprensa é da responsabilidade última do primeiro-ministro, não do ministro da Defesa. Se essa decisão foi errada, foi o Governo que errou, portanto, não um ministério da Defesa nefelibata. Mas talvez não tenha errado, posto que uma interpretação bondosa para essa opção pode ser facilmente encontrada na tentativa de conter o alarme público numa situação onde se ignorava até se o material tinha mesmo desaparecido.

– No dia 3 de Julho é decidido pela PGR que as autoridades policiais e judiciais civis se iam juntar às militares na investigação do caso, divulgando suspeitar de terrorismo internacional (leia-se, anunciando que iam entrar a matar nos quartéis, não fariam prisioneiros).

– No dia 4 de Julho há um encontro entre Marcelo Rebelo de Sousa, Azeredo Lopes e o coronel Luís Vieira, sobre o qual este veio a relatar no Parlamento ter ouvido do Presidente da República a promessa de ir falar com Joana Marques Vidal em ordem a permitir que fosse a PJM a liderar o esforço conjunto. Este episódio foi confirmado pelo próprio Marcelo e terceiros presentes na ocasião, embora as versões sejam as mais díspares. E teriam necessariamente de ser porque jamais tal promessa deveria ser feita, mesmo que estivesse em causa uma questão de honra militar e os poderes e boa-vontade, ou papel mediador, do Comandante Supremo das Forças Armadas. A verosimilhança do episódio está abundantemente espalhada por diversos testemunhos e, acima e antes de tudo, pelo próprio desfecho que constitui o caso – onde os militares policiais violaram a lei no afã de resgatarem a imagem da corporação militar caída em desgraça. Este episódio, seja lá qual for a versão em que se queira acreditar, sela a responsabilização soberana máxima da Presidência da República sobre o que se viria a passar. O Presidente da República tinha sido informado de que a direcção da PJM, provavelmente representando tacitamente um corpo significativo de altos oficiais no Exército e noutras armas, estava acossada e disposta a entrar em disputa subterrânea com os poderes civis. Ou seja, desta data em diante, pelo menos, o chefe da Casa Militar da Presidência – tenente-general João Vaz Antunes (do Exército…) – passou a seguir com prioridade máxima não só os desenvolvimentos explícitos na dupla investigação, como também, e ainda com mais cuidado se possível, os sinais e manobras implícitos.

– A 30 de Novembro de 2017, Marcelo aceitou o pedido de resignação do seu chefe da Casa Militar. Não se sabe se esta demissão decorre de alguma conduta do próprio, ou se é o próprio que se afasta por causa da conduta de terceiros na Presidência, eventualmente do próprio Presidente da República. O que não é possível é imitar a imprensa e o sistema político que apagaram toda e qualquer ligação desta saída com o caso do material desaparecido e respectivas peripécias militares e civis a nível policial e judicial. Os constantes reptos de Marcelo para que a investigação seja célere e implacável encontram neste contexto explosivo (no pun intended) a sua urgência pois os cenários de desastre potencial eram absolutamente realistas e previsíveis; como se veio a confirmar com a acusação do Ministério Público e o terramoto político que causou a duas semanas de umas eleições legislativas.

– João Gomes Cravinho, ao substituir Azeredo Lopes na pasta da Defesa, escolhe um civil para chefe de gabinete; o que acontece pela primeira vez na história do Ministério da Defesa. Obviamente, e também tendo sido apagado pelo comentariado, tal drástica decisão só se compreende como efeito do caso Tancos e revela que o cerne da questão ultrapassa à velocidade da luz a estrita ocorrência do furto e atinge em cheio a confiança institucional entre autoridades civis e militares ao mais alto nível hierárquico.

Isto chega. E isto sobra. E fica como um excesso nunca antes testemunhado em Portugal. A gravidade complexa da situação competia com a sua complexa originalidade, e as duas facetas reforçavam-se mutuamente. A própria relação de comunicação entre a Presidência e o Governo adentro de uma crise entre autoridades militares e civis, surgida em contexto eleitoral para as autárquicas, terá sofrido pressões que a tornaram muito mais frequente, extensa e profunda. Daí o “mistério”, a opacidade inerente à especificidade da estrutura do regime e suas culturas e dinâmicas corporativas, que continua por explicar dado não ser possível elaborar a solução política, ao nível do Conselho de Estado e da Assembleia da República, sem primeiro fechar a questão judicial. Não espanta que ninguém no País saiba como se irá resolver a ferida aberta na credibilidade e segurança da República, dado que a génese do desafio radica na própria crise estrutural das Forças Armadas nas suas dimensões económica, sociológica e antropológica. O mesmo alarme e incapacidade de decisão para o escândalo e perigo de um Ministério Público politizado por aqueles que alegam querer protegê-lo de certos políticos a quem perseguem e violam direitos.

Face a isto, a bimbalhada que faz jornalismo político anda desde finais de Junho de 2017 a rir à gargalhada com furos em cercas, material de guerra guardado no barracão da avó e um Azeredo Lopes que todos amam odiar e linchar. A miséria intelectual, e antes disso meramente cognitiva, desse maralhal é de maravilha. Daí a minha dor de alma ao ver Pedro Marques Lopes e Pedro Adão e Silva a ficarem presos de preconceitos, simplismos e puras aberrações de raciocínio inaceitáveis em quem se concebe como servidor do público. Dos dois, atribuo ao PAS ainda maior responsabilidade na disfunção analítica para onde arrastaram o “Bloco Central” por ser um cientista social. A política do futuro será daqueles que cultivarem a honestidade intelectual como se a nossa liberdade dela dependesse. E a honestidade intelectual consiste em estar apaixonado pela realidade, não pela opinião – ensinaram os Gregos faz tempo.

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Livro de Recitações

“Estranho povo este, que não olha para as eleições como se de um circo se tratasse”
Luís Aguiar-Conraria, in PÚBLICO, 24/09/2019

Com esta frase irónica, o professor de economia da Universidade do Minho e colunista deste jornal terminava um artigo onde mostrava que há sinais claros de que o modo como a campanha eleitoral e os debates entre os partido são tratados pelos jornalistas, em que o pressuposto é que o povo fútil e ignaro quer é espectáculo de diversão, não corresponde à verdade e é afinal esse jornalismo que oferece o espectáculo pindérico da sua ignorância e irresponsabilidade. Uma pesquisa mais funda e alargada talvez mostrasse que este equívoco está generalizado e as elites responsáveis por um “editorialismo” que tudo faz para satisfazer o cliente afinal satisfaz menos clientes do que supõe e aliena grande parte da clientela que, à partida, estaria segura. Quando as “elites” já nem sequer estão ao nível das massas porque estão abaixo, então algo está errado nisto tudo e precisa de ser repensado.

António Guerreiro

Um pide em campanha

A 24 de Setembro, Rui Rio fez afirmações confusas no reino dos Algarves, atabalhoadas pela emoção e falta de preparo. Foi uma juliana de alusões ao Governo, a camionistas e a professores à mistura com algo não identificado que iria acontecer nos próximos dias, servindo a rábula apenas para repetir enfaticamente as expressões “golpe de teatro” e “encenação”; um léxico codificado cuja cifra ele já possuía mas que ainda não queria partilhar com a malta. Algumas notícias interpretaram as suas palavras como sendo o anúncio de vir aí a caminho o tal “golpe de teatro”, mais uma “encenação” dos diabólicos socialistas, só restando saber relativamente a quê. Agora, sete dias depois e após a direita ter afundado a campanha na chicana e chiqueiro de Tancos, é possível interpretar claramente o que o homem estava a dizer. Rio não profetizava qualquer acção do Governo, antes fazia referência obscenamente implícita à divulgação iminente da acusação do caso Tancos, antecipada pela Rádio Renascença no dia anterior – numa violação ao segredo de justiça preparada para coincidir exactamente com o início da campanha eleitoral. Neste quadro judicial e político, sem sequer haver publicação da acusação, e logo ao 2º dia de campanha, Rio fez sua a tese dos procuradores responsáveis pelo processo e declarou que o Governo foi não só conhecedor como cúmplice activo e interessado no processo de recuperação das armas roubadas em Tancos e das variadas ilegalidades e mentiras que foram descobertas pelo Ministério Público. Era esta “encenação” que estava em vias de ser declarada oficialmente “verdadeira” com o selo da Procuradoria-Geral da República, festejou um candidato a primeiro-ministro incapaz de conter a pulsão assassina.

Vale a pena ver e ouvir os registos originais, à prova de estúpidos e pulhas: TVITSF

Faz sentido político registar como este comportamento de Rio é não só contraditório como antinómico com o que jurou ser a sua convicção mais profunda dias antes no debate com Costa, assim como noutras ocasiões logo desde a campanha para a presidência do PSD. Esta pessoa que prometeu ir fazer uma campanha sem berreiro e chungaria, antes com racionalidade e propostas melhores do que as dos restantes partidos, que garantiu ter uma vida inteira na defesa da democracia e de certas causas ligadas à Justiça, chegou ao ponto de proclamar com rugido homérico ter entrado na política aos 16 anos, antes do 25 de Abril, para combater os julgamentos na praça pública, “nas tabacarias e nos ecrãs de televisão“. O cidadão que colocou a actual Justiça de um regime democrático ao nível da do Estado Novo, contudo e já sem nada no alforge da decência, revelou-se um biltre ao ficar em êxtase por existir um SMS ambíguo captado pelas forças policiais a um político. Um SMS que ele Rio não faz ideia do que possa querer dizer posto que não é investigador do MP ou da Judiciária, posto que não foi testemunha dos factos na berlinda, mas o qual lhe iria permitir lançar acusações tóxicas, caluniosas e vexatórias das instituições da República e do bom nome e honra de terceiros.

Só que faz ainda mais sentido, agora cívico, registar como Rui Rio se expõe na sua absoluta incapacidade para assumir as responsabilidades inerentes à chefia de um Executivo. As acusações ao Ministério Público que se transformam de um dia para o outro em elogios assim que dá para aproveitar a munição colocada à sua frente por essa rapaziada mais dada à paixão da Ciência Política (escola da Católica) do que à leitura e respeito da Constituição, as acusações alucinadas às empresas de sondagens que desaparecem logo que mudam os números substituídas por inacreditáveis e primárias manifestações narcísicas, o despejo de teorias da conspiração canalhas contra o PS que são rebatidas pela TVI sem originarem do canalha em causa qualquer pedido de desculpas ou vagido de responsabilização. É este cata-vento, finalmente desmascarado como retinto e desprezível hipócrita, que queremos em São Bento a disparar atoardas e tonteiras deste calibre?

Rui Rio e Cristas querem fazer das eleições de 6 de Outubro um pelourinho onde o PS será castigado por Azeredo ter escrito numa mensagem pessoal “Eu sabia”. Saber a que é que ele se referia não interessa para o seu julgamento. O crime está provado, ele teclou “Eu sabia” no seu telemóvel e o Ministério Público já fez a hermenêutica autêntica, tornando-se irrelevante o que o próprio Azeredo tenha a dizer sobre os seus actos de fala. PSD e CDS não querem que se saiba mais nada, põem as brasas todas na acusação do caso Tancos e berram que o que ela contém já chega para irmos a votos e escolher como é que a Saúde, a Educação, o Ambiente, os Transportes, a Segurança, a Justiça, o Trabalho e a Economia, entre outras dimensões da nossa vida comunitária sem grande interesse, devem ser governadas. Podemos pois concluir que não é só a Justiça que lembra o salazarismo, também na direita há pides em campanha.

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Commit a crime? Loved ones got your back
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Context may explain why dads are happier and less stressed than moms
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Onion and garlic consumption may reduce breast cancer risk
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Common nutrient supplementation may hold the answers to combating Alzheimer’s disease
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Positive relationships boost self-esteem, and vice versa
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Cats are securely bonded to their people, too
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If children are exposed to bias against one person they develop a bias against that person’s entire group
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Estadistas ou eleitoralistas, é escolher

Rui Rio está a usar o caso de Tancos para uma exploração eleitoralista, demagógica e irresponsável que lhe retira qualquer vestígio de sentido de Estado que ainda tivesse esquecido nalgum bolso. A haver justiça cívica e patriótica a 6 de Outubro, o PSD ficaria de fora da Assembleia da República na próxima legislatura.

Assunção Cristas faz ainda pior, mergulhando na chungaria mais torpe e desmiolada a que a direita decadente está reduzida desde 2008.

Entretanto, quão mais se sabe do caso mais saliente é a gravidade do mesmo mas não por causa de Azeredo Lopes, o alvo político de todos os oportunismos e culpabilidades; um ministro da Defesa – tutelando uma área ministerial sui generis, a qual responde directamente ao Comandante Supremo das Forças Armadas – apanhado naquela que é, sem dúvida, a crise mais complexa e obscena do putrefacto Exército português depois do 25 de Novembro.

Uma crise onde o Ministério Público decidiu punir e humilhar institucionalmente o pilar militar do regime como resposta à ameaça que a PJM representa pela intenção e ilegalidade das suas acções. Uma crise que vai pedir, fatalmente, um Conselho de Estado e nova legislação.

“As Tascas” por Chico Mota

É compreensível que Rui Rio se revolte com as sistemáticas violações do segredo de justiça e a lentidão nos casos mediáticos e associe esse fenómeno ao Ministério Público. É também sabido que o Ministério Público e a Judiciária alimentam regularmente alguns órgãos de comunicação com informações sob segredo de justiça, mas a forma de acabar com isso não é punir mais os jornalistas mas sim, dentro das corporações, criar uma mentalidade e uma prática mais rigorosas e respeitadoras da lei e menos permeáveis a "amiguismos" ou "clubismos". Não é fácil, diga-se. O que não é possível, em democracia, é impedir a imprensa de dar notícias sobre processos judiciais. Alguém admite que sobre a Operação Marquês só tivéssemos tomado conhecimento dos factos a que a mesma se reporta quando foi divulgada a acusação, quase três anos após a prisão do ex-primeiro-ministro José Sócrates? Alguém admite que não soubéssemos que o ex-banqueiro Ricardo Salgado está em liberdade por ter prestado uma avultada caução?


“As Tabacarias” por Rui Rio

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Neste singelo parágrafo, o ladino Chico Mota consegue subsumir tudo o que está em causa na questão de Estado, e de soberania, chamada “violação do segredo de justiça”. Eis o que nos diz, do alto de ser advogado e jornalista, o especialista do Público para as temáticas ligadas à Justiça:

– Que Rui Rio está autorizado a falar na Justiça sem passar acto contínuo por corrupto nas bocas dos donos da opinião pública pois não é socialista; sendo só de lamentar que Rui Rio, na sua ingenuidade e estultícia, esteja a querer ajudar os corruptos do PS.

– Que o Ministério Público e a Judiciária cometem crimes sistematicamente, impunemente, publicamente, e que tal tem de ser protegido, a começar pela protecção dos cúmplices nos órgãos de comunicação social que concretizam as intenções dos criminosos no MP e PJ, e lhes aumentam o alcance e a gravidade quando não mudam a tipologia do dano.

– Que o paleio de se ir resolver o problema criando «uma mentalidade e uma prática mais rigorosas e respeitadoras da lei e menos permeáveis a “amiguismos” ou clubismos”» só serve para um gajo se mijar a rir; e é precisamente por isso que essa cassete tem de tocar sem parar até abafar toda e qualquer tentativa de combate ao deboche que enche bolsos e agendas secretas.

– Que a “imprensa”, desde que controlada pela “gente séria”, pode despejar as informações que lhe apetecer no espaço público sem qualquer controlo pelo Estado nem pela sociedade, servindo essa violação do código deontológico do jornalismo e da Lei portuguesa para ilimitados objectivos imorais e ilícitos a coberto de serem alegadas “notícias”.

– Que a Operação Marquês é o exemplo perfeito, paradigmático, inexcedível na sua pulhice pelas décadas ou séculos afora, do quanto se pode ganhar em dinheiro e em influência sobre o jogo político, ao mesmo tempo alimentando o voyeurismo e sordidez quotidiana, ao se dispor do incomensurável poder das polícias, procuradores e juízes para diabolizar politicamente e assassinar moralmente alvos selectos.

– Que depois de tanto abuso da Justiça e da indústria da calúnia, depois de tanta “investigação” ao longo de tantos anos por tantos profissionais da investigação estatal e privada, não há ninguém em Portugal que possua um único facto relativo ao que supostamente estava na origem do processo e das draconianas medidas tomadas: um acto de corrupção, passiva ou activa, do cidadão José Sócrates. Daí ter de se ir buscar o Salgado sempre que Sócrates vier à baila para que o auto-de-fé não tenha falta de lenha junto do bom povo que grita por “justiça”.

– Que o Chico Mota defende crimes de agentes das polícias e da Justiça recorrendo ao argumento de que esses crimes lhe oferecem algo que curte bué desfrutar enquanto se ri à gargalhada do Estado de direito.

Estamos perante alguém que se anula como autoridade do que reclama como estatuto de superioridade e especialização. Alguém que se entrega às paixões onde chafurda agarrado a quem lhe permite despejar o seu ódio contra aqueles que detesta por razões que não explica por não terem explicação. Um taberneiro ilustrado.

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Kindness is a top priority in a long-term partner
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Females tend to take risk more seriously, but their voices often go unheard
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Married CEOs are more committed to social issues than non-married peers
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How happy couples argue: Focus on solvable issues first
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Advice for introverts: Fake it, and you’ll be happier
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Inequality: What we’ve learned from the ‘Robots of the late Neolithic’
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The Amazon and You
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CostaxRio: que ganhámos nós?

O jornalismo político tornou-se num antro de bimbalhada, fenómeno que acompanha simetricamente a decadência da direita portuguesa (a qual domina a comunicação social a toda a extensão). Os comentários ao debate entre Costa e Rio soam penosos de tão inanes – exemplo – e a obsessão com o resultado desportivo, dizer quem ganhou e quem perdeu e quem empatou, anuncia estarmos em presença de um adepto a espalhar a sua disfunção cognitiva preponderante e a aproveitar para falar de si próprio.

Entretanto, o espectáculo teve os seus momentos de interesse:

Rio - E se nós olharmos, por exemplo, àquela velha... velha, não, recente máxima das "contas certas"... o PS, conseguiu, finalmente!, na sua vida, uma vez, fazer as "contas certas"... Nós temos de ver o que é que são as "contas certas"...

Foi logo ao princípio. Um lapso freudiano. A máxima das contas certas é velha, sim senhor. É uma cassete que a direita tocou desde Cavaco, que Ferreira Leite agitou como bandeira, que Passos usou grotescamente para embrulhar um projecto de reengenharia social baseado no empobrecimento generalizado da população em Portugal. Só que “contas certas” era o que havia, juntamente com uma visão modernizadora e ambiciosa, no Governo de Sócrates até à Grande Recessão. Contas certas foi o que voltámos a ter com um Governo minoritário que estreou o apoio do PCP e do BE a políticas de centro-esquerda que efectivamente melhoraram a vida de milhões de portugueses. Contas certas não é um balanço de merceeiro pois a economia de um Estado é um bocadinho diferente do deve e haver de um negócio ou das despesas caseiras. Contas certas é o que acontece quando a maioria concorda com as opções dos Governos, mais nada.

Rui Rio disse umas banalidades irrelevantes sobre as contas do actual Governo, porque é um automatismo da mediocridade política dizer que algo falha nas contas dos Estados que não tenham ainda garantido a felicidade plena, sem ter de trabalhar nem pagar impostos, a todos os cidadãos. No seu subtexto, sem disso ter consciência, estava a apagar a cassete laranja.

Costa - Há uma coisa que é consensual, é que os números que há 9 anos se dizia que eram megalómanos, quanto ao crescimento do tráfego aéreo, foram todos ultrapassados... Portanto, sabemos que não são megalómanos..

Rio - Sim, sim, sim... [continuando a acenar afirmativamente ao longo da exposição do argumento de Costa]

Costa - Felizmente para o País, a procura aumentou muito mais. Agora, o que significa que, neste momento, nós estamos já a correr atrás do prejuízo. Todos os nossos aeroportos, designadamente aqui o de Lisboa, está neste momento com a sua capacidade para além do limite. E mesmo com todas as medidas de optimização do aeroporto, a realização do Montijo já vai chegar atrasada. Se tivermos de voltar tudo atrás, e agora a reconsiderar Alcochete, bom, não só teremos de dar uma indemnização muito significativa à ANA, como atrasaremos muito significativamente o desenvolvimento do País. E, de facto, não podemos comprometer mais o desenvolvimento do País.

Se recordarmos o que se dizia do novo aeroporto em 2009 e 2010, assim como do investimento do TGV, arrisca-se a considerar a democracia o instrumento favorito de uma conspiração dos estúpidos. Na sua fúria de conquistar o poder pelo poder, e de acordo com o instinto assassino que nos habita, a direita decadente preferiu a política da terra queimada ao interesse nacional. Também por aqui, Rui Rio passou ao lado de uma oportunidade histórica para refundar a direita.

Costa - No conceito "carga fiscal" estão os impostos mas estão também as contribuições para a Segurança Social...

Rio - Sim...

Costa - Portanto, nos números que tem para a carga fiscal estão também essas contribuições para a Segurança Social... Estão ou não estão?...

Rio - Estão...

Costa - Pronto, muito bem.

Cristas e Rio, e seus tenentes e arraia-miúda, andaram meses e meses a martelar no bordão do “maior aumento da carga fiscal de sempre”. A opção tinha algo de inacreditável pois o actual Governo baixou os impostos e, antes e acima de tudo, ficava com uma plataforma para destacar os seus triunfos: a carga fiscal é a receita fiscal + esta aumenta porque a economia melhora, porque há mais portugueses com mais dinheiro.

É encantador ver como a honestidade intelectual de Rio acaba por se sobrepor à hipocrisia e bronca demagogia dessa converseta.

Rio - Comecei na política, ainda antes do 25 de Abril, a lutar pela democracia. Tenho agora um país em que os julgamentos em vez de se fazerem no tribunal, muitos eles, fazem-se nas tabacarias e nos ecrãs de televisão. Isto é absolutamente inadmissível. [...] As pessoas não podem ser penduradas na praça pública da forma como têm sido. [...] Quase que volto a ter 17 anos ou 16 anos, quando entrei na política, justamente para combater isto.

A Justiça, por todas as razões e mais alguma, teria sido o território perfeito para Rio salvar a direita da decadência e realmente superar Costa em autoridade política. Lembre-se que a marca Rio, antes de se ter lançado à conquista da presidência do PSD, o posicionava como um “alemão”, alguém que viria salvar os portugueses de si próprios graças a uma vontade inflexível que nos daria ordem e disciplina como nunca se tinha visto nesta terra de madraços e estróinas. Rapidamente se viu que essa máscara parecia carnavalesca perante o crescimento da importância política de Centeno. Restava a Justiça para Rio exibir um fulgor visionário disruptivo e fundador. Infelizmente, não passava de uma exibição narcísica.

O homem que ontem deixou estas admiráveis e corajosas palavras acima citadas, que atingem em cheio a putrefacção moral e perversão do código deontológico do jornalista características da legião dos pulhas, é o mesmo que se entrega à mais básica calúnia mediático-judicial no tribalismo selvagem da disputa eleitoral, assim vaporizando a sua credibilidade e integridade:

Um jornalismo político que perante o debate entre dois candidatos a primeiro-ministro continua a bater punhetas a grilos num berreiro de vacuidades merece desaparecer. Venha aquele que se concentre em responder a esta pergunta: que ganhámos nós?

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Patients are significantly less likely to receive life-saving treatments if they are not currently married
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What multilingual nuns can tell us about dementia
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Drinking tea improves brain health, study suggests
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Heterogeneity in the workplace: ‘Diversity is very important to us – but not in my team’
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“Does Science Advance one Funeral at a Time?”
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How the Justice System Can Affect Physical, Mental Health
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Because we are better than you. We pay our taxes.
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O transe e o cisma: aquém e além de Sócrates

O Público, um jornal que assumiu o estatuto de pasquim como destino e a pulhice como modelo de negócio, voltou a fazer uma manchete com uma notícia falsa:

A notícia é falsa quanto à matéria de facto, o processo em causa não é da “Operação Marquês”, e é falsíssima no seu sensacionalismo, pois Rangel não tem permissão superior para ajuizar em matérias ligadas à “Operação Marquês”; o que faz do sorteio que lhe deu um processo lateral isso mesmo, uma aleatoriedade a ser eventualmente corrigida pela repetição e sem qualquer consequência prática no campo do “risco” e do “escândalo”. A indústria da calúnia, porém, agarrou-se ao osso com raiva, e aí temos os cães de fila do costume felizes da vida por terem mais uma oportunidade para mostrarem as favolas e despacharem serviço. Como escreveu o mais célebre dos caluniadores profissionais, é de muito mau gosto encher os bolsos à conta do Salazar, coitado do dedicado e bondoso senhor que merece descansar em paz – já ter uma carreira milionária e receber honras de Estado graças à perseguição maníaca a Sócrates e ao achincalhamento do Estado de direito é a prova provada da esperteza que o assiste.

Entretanto, o nosso amigo Eremita voltou a disparar (e disparatar) nesta direcção por causa de Sócrates, são assim as paixões, e vou aproveitar a deixa para recomendar a leitura do seu O transe e o cisma: aquém e além de sanitas e urinóis. Trata-se de um ensaio que terá muito poucos leitores, dada a sua extensão e complexidade da temática. Porém, o seu campeonato não é o da quantidade, antes o da qualidade. Quem mergulhar no exercício vai sair de lá com a consciência de ter aumentado a sua inteligência sobre variados assuntos ligados às polémicas do género e da construção da identidade sexual, mesmo que não concorde com tudo ou com quase nada.

Realço um aspecto que me fascina antropologicamente, o das diferenças biológicas nos cérebros das mulheres e dos homens. O meu fascínio não está na constatação científica de que elas existem, está na sua negação por parte de quem considera que tal reconhecimento é contrário à defesa dos direitos da mulher ou de qualquer outra causa que se considere feminista. Até agora, apenas registei mulheres a insurgirem-se contra essas diferenças no plano biológico, e para mim está aí o fascínio. É que consigo perceber, entender e compreender como é que uma mulher se sente ameaçada por esse discurso biológico que aparenta legitimar os preconceitos e as discriminações. Afinal, as mulheres são exactamente iguais aos homens no plano mental: são seres egocêntricos. Logo, imaginam que os homens pensam como as mulheres, que desejam como as mulheres, que amam como as mulheres, apenas não foram dotados de personalidades agradáveis, interessantes e sensatas como as delas. Não ironizo, acho que o egocentrismo é uma característica inerente a todos os sistemas de consciência, animais incluídos (é evidente) e futuras consciências criadas artificialmente (daí o seu potencial perigo que muitos antecipam). Talvez haja uma cósmica e quântica analogia entre a consciência e a força da gravidade.

É o egocentrismo, e sua Torre de Babel de disfunções e vieses cognitivos, que explica a hipocrisia, o fanatismo, a canalhice. Veja-se como os hipócritas, os fanáticos e os canalhas rejubilam com um juiz que foi para a televisão declarar que um cidadão à sua guarda judicial era criminoso quando ainda nem sequer tinha sido acusado. São esses hipócritas, fanáticos e canalhas que nos vão salvar do perigosíssimo Rangel e resgatar o Estado de direito? Eis aqui, pois então, o meu egocentrismo a colar num non sequitur à pressão a tonteira e a sapiência do nosso amigo Eremita.

Debates que pagaria para ver

Jerónimo de Sousa-Zita Seabra

Por razões óbvias, por tantas histórias que teriam para contar do tanto que sabem a respeito um do outro, ficaria como um debate histórico.

Assunção Cristas-André Ventura

A verdadeira líder da oposição contra um dos verdadeiros líderes da verdadeira direita. Histórico para o futuro da nossa vera direita decadente.

Rui Rio-Passos Coelho

Um debate teológico entre dois colossos da estratégia política – “O Diabo, afinal, sempre chega no dia 6 de Outubro pelas oito da noite, como anunciam as sondagens?”. Histórico para presentes e futuros cientistas políticos.

Catarina Martins-Pedro Nuno Santos

A esquerda da social-democracia e a social-democracia da esquerda. Histórico para se consolidar Portugal como o bastião da social-democracia europeia.

André Silva-António Marinho e Pinto

Dois animais políticos à solta. Histórico para quem gosta da natureza da democracia.

Rui Tavares-Santana Lopes

Uma estrela cadente há anos e anos versus uma estrela decadente há anos e anos. Oportunidade histórica para relançarem as suas carreiras.

Mendo Castro Henriques-José Pinto Coelho

Tendo sido aluno do primeiro, sei bem que ele – e sem se esforçar – poderia reduzir o segundo a um britado de ódio cujo único destino seria um aterro sanitário. Que pena não podermos vir a contar essa história.