Arquivo da Categoria: Valupi

Sistema frontal

«Depois de mais de uma hora de reunião, André Ventura e o Presidente do Governo regional faziam ambos uma comunicação lado a lado. De Ventura, surgiu logo a referência à “estupefação e desconforto com as notícias que tinham vindo a lume com a nomeação de familiares no Governo regional dos Açores”. Na sua edição semanal, o Expresso deu hoje conta da existência de várias nomeações para cargos públicos com relações familiares, dentro da orgânica governativa, ou ligadas aos partidos da coligação que suportam o executivo regional.

O líder do Chega, que teve em tempos nas ruas de Lisboa um cartaz onde se lia “Chega de familiares no Governo”, sublinhou que é preciso não repetir erros do passado onde “a presença de familiares no Governo manchou a ação política e descredibilizou a ação governativa”. Ventura diz que tomou como “boa a explicação que foi dada pelo senhor presidente e os objetivos de maior controle desta situação”, voltando a falar na criação, nos próximos meses, do gabinete contra a corrupção, uma das bandeiras do partido.

Sobre o aumento do número de cargos e dos custos no novo executivo açoriano - que, em quatro anos, poderá ser quase 8 milhões de euros mais caro que o anterior - André Ventura também se diz tranquilo. “Haverá uma diminuição não só do número de lugares como de despesa do Governo portanto tomámos como boas as garantias que foram dadas, temos todos as condições para uma solução que se mantenha estável do ponto de vista governativo”, assegura o líder do Chega.

José Manuel Bolieiro também se mostra igualmente agradado com o que encontra do outro lado. “Foi um gosto pessoal e institucional receber André Ventura. Os acordos serão cumpridos na íntegra e em franca e em constante articulação porque há identidade naquelas causas, os partidos políticos não perdem a sua autonomia”, assegura o social democrata.»

Fonte

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No padrão dos crimes mafiosos e dos crimes de violência doméstica há radicais diferenças e perfeitas semelhanças. Como exemplo destas, em ambas as tipologias está em causa cometer a violência secretamente e obrigar as vítimas a uma subjugação de longo prazo. No padrão destes criminosos e no padrão dos políticos populistas da actual direita decadente igualmente encontramos radicais diferenças e perfeitas semelhanças. Os políticos populistas que utilizam uma retórica maniqueísta contra a classe política – portanto, contra a democracia e contra a liberdade – anunciam sem rebuço o seu plano para se comportarem como chefes mafiosos e como agressores domésticos. A linguagem incendiária, insultuosa, revolucionária e delirante que espalham tem um duplo efeito: confunde e imobiliza. Daí o fenómeno Trump. E daí o fenómeno Ventura.

Os criminosos de vocação aprendem, geralmente muito cedo na sua existência, que a enorme maioria da humanidade quer viver em paz e rodeada de boas pessoas. Há nesta enorme maioria uma pulsão para a convivência que nos faz acreditar no que nos dizem. Se não acreditássemos, por automatismo cognitivo, nas mensagens dos outros seria muito difícil criar grupos de humanos para além dos elos genéticos. Aliás, talvez nem a linguagem verbal se tivesse desenvolvido. Falamos porque há vantagens evolutivas em confiarmos uns nos outros, em trocarmos informações, em acumularmos conhecimento e corrigirmos aprendizagens para que melhor consigamos resolver problemas e evitar perigos. É dessa capacidade de sermos comunidade que nasceu e continua a nascer a civilização. Os criminosos sabem disto muito melhor do que nós, os ingénuos.

A vítima de violência doméstica, o mesmo para a vítima de abuso sexual por familiar ou figura de autoridade (professor, médico, religioso, …), é atingida pelo choque psicológico de se saber alvo de um comportamento imprevisto e exteriormente absurdo: aquele indivíduo que era suposto querer-lhe bem, protegê-la, é quem lhe quer mal, quem a ataca. Resulta profunda a desorientação assim causada, levando a um estado de impotência auto-infligida. O criminoso conta com isso, nalguns casos depende desse mecanismo para conservar o seu poder sobre a vítima. A mesmíssima lógica se pôde constatar na ascensão de Trump ao topo do poder político nos EUA. No início da corrida eleitoral para as eleições norte-americanas era apenas tratado como um palhaço, e mesmo durante a sua presidência foi sempre defendido pela direita americana institucional (partido, representantes) e mediática contra todas as evidências, diárias, de se ter deixado entrar na Casa Branca o rei dos mentirosos – um chefe mafioso. Numa outra vertente, a capacidade para confundir jornalistas e cientistas sociais radicava na incredulidade generalizada de que Trump viesse a ser realmente aquilo que ele já mostrava que era. Assim, o dia 6 de Janeiro de 2021 ficará como monumento, para os séculos vindouros, da possibilidade de se deixar o melhor que conseguimos construir juntos, o Estado de direito democrático, nas mãos de um ogre narcísico e sem qualquer escrúpulo. Um reles criminoso, responsável moral e político pelo caos e pelas mortes que abalaram a América e o mundo democrático.

Ventura não é Trump, diz a falange que trabalha para o seu branqueamento. Bolieiro, Rui Rio, Manuela Ferreira Leite, Maria João Avillez, Cavaco, eis algumas das mais distintas figuras da direita “tradicional”, e do regime, que anunciaram querer aproveitar o que Ventura traz para a política portuguesa e está disposto a oferecer-lhes à primeira oportunidade. Como aconteceu nos Açores, literalmente a primeira oportunidade para todos estes jogadores mostrarem as cartas. Por sua vez, Ventura assume ser o João Baptista de Passos Coelho, anunciando para breve o regresso do messias de Massamá e o triunfo do Bem sobre o Mal. Quando diz que a sua missão política está ligada a Fátima e que nunca seria o Presidente de todos os portugueses, Ventura continua a ser apenas o palhaço de quem se espera que largue qualquer aberração para animar a malta. Mas depois, como podemos ler acima, as coisas acontecem. Vão acontecendo. E o plano é o de continuarem a acontecer, de preferência numa escala cada vez maior.

O Chega era contra os “familiares no Governo”, mesmo que esse número fosse irrisório e sem qualquer significado político ou social? Pois facilmente pode deixar de ser, inclusive quando essa familiaridade é à fartazana, basta que haja algo para a troca. Essas coisas resolvem-se numa reunião à porta fechada, omertà. E pronto, está feito. A suposta aversão ao “sistema”, portanto, não passa de um outro tipo de sistema: a frontal violência moral e política que Ventura publicita ser capaz de cometer ao serviço dos chefes.

O cabrão e o Cabrita

«Questionado sobre em que ponto está a reestruturação do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), Magina da Silva recusa fazer comentários. Depois das polémicas declarações em que revelou que estava a ser estudada a fusão da PSP com o SEF que deixaram o ministro da Administração Interna zangado, Magina da Silva reconhece que cometeu o "erro" de emitir uma opinião pessoal, o que classifica como um "descuido bondoso".

Para o superintendente-chefe da PSP a relação com o ministro Eduardo Cabrita não ficou beliscada. "Pedi-lhe desculpa quando me apercebi da dimensão da extrapolação que fizeram das minhas palavras, como digo: um descuido bondoso. O senhor ministro percebeu que foi um descuido bondoso e isso não afetou o nosso relacionamento institucional".»

Declarações sobre reestruturação do SEF foram um “erro” e um “descuido bondoso”

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Eduardo Cabrita é, actualmente, o maior ódio de estimação do comentariado. Esta poderia ser razão suficiente para entender mais um Fenómeno do Entroncamento do regime e da sociedade, o silêncio encardido que a pública retractação de Magina da Silva gerou. Nenhum dos que andaram aos berros a pedir a cabeça de Cabrita em Dezembro tugiu ou mugiu. E a explicação não podia ser mais simples: com estas palavras, acima expostas, o diretor nacional da Polícia de Segurança Pública acaba de ir depositar as armas aos pés do ministro. Ministro que o comentariado decretou estar arrumado, morto. Ministro que não só exibe força política como foi granítico na defesa do sentido de Estado na gestão da crise lançada por Marcelo, o que Magina da Silva deixa estabelecido numa declaração à prova de estúpidos. Momento, então, para desopilar com o que fica como chicana hilariante do Daniel Oliveira, o mesmo artista que já tinha sido um dos heróis do desconfinamento para o Natal (luta a recordar outra de antanho, então contra a proibição de fumar em restaurantes): O preço de deixar um cadáver político como ministro + Quem não tem ministro, fica com Magina

Escolho o Daniel como exemplo da inanidade prejudicial do que é o comentariado, salvo as raras excepções, porque não estamos perante um pulha. Este amigo estuda e tem ideais decentes e meritórios, não é apenas um mercenário. Porém, à maneira dos pulhas, deixa-se embriagar pelo poder mediático ao seu dispor, e depois quem paga é a honestidade intelectual. No caso, o que o motiva é a furiosa obsessão em atacar António Costa, cegueira que o levou automaticamente a colaborar com a golpada para tentar que Cabrita e Costa se assustassem e oferecessem mais um ministro para Marcelo e a direita exibirem como troféu de caça. É por isso que ele, como o seu compagnon de route Louçã, dá tanto jeito à agenda do militante nº1 do PSD: inimigo do meu inimigo meu amigo é.

O comentariado é uma fonte tóxica de sectarismo e irracionalidade, a qual se junta à miséria editorial do jornalismo português (salvo as devidas excepções, nenhuma no espaço televisivo). Todavia, e pese a deformação e atrofio do espaço público assim causados, por aí estamos apenas no domínio da política-espectáculo. Só papa disso quem quer, o tempo continua a ser livre para se gastar noutras fontes de sentido ou diversão. O que realmente nos interroga – melhor, nos desafia – no episódio protagonizado por Magina da Silva num certo domingo de Dezembro de 2020 é outra coisa. Uma coisa de arrebimbomalho: temos um Presidente da República que exibe no currículo a função de docente e presidente do Instituto de Ciências Jurídico-Políticas da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa até à sua vitória nas eleições de 2016, e, em concomitância, temos um Chefe de Estado que descaradamente, insolentemente, obscenamente, considera ser seu direito constitucional boicotar a acção governativa através de chantagens e perversões institucionais com vista a obter a demissão de ministros. E que faz o regime, o Governo, o sistema partidário e a sociedade? Aceitam, normalizam, exploram e festejam, conforme os resultados. É como se houvesse uma segunda Constituição guardada num cofre em Belém, ou a servir de calço numa cadeira manca, circulando fotocópias da mesma entre os políticos e os jornalistas para se orientarem face à conduta do inquilino presidencial.

Não, Magina, a culpa não é tua. Percebemos logo, fica descansado. É do cabrão que te enrolou.

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Men with Failing Grades in High School Have the Same Leadership Opportunities as Women with Straight A’s
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‘Be a man’: Why some men respond aggressively to threats to manhood
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Americans like sports, but heterosexual men especially do
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Use of pronouns may show signs of an impending breakup
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Teaching pupils empathy measurably improves their creative abilities
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Curcumin Selected as Cognition Supplement of the Year: 2021
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To Touch and to Smell – a Nature Experience that Creates Happiness
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Notícias da asfixia democrática

José Gomes Ferreira, nascido em Vale de Lage e atualmente diretor-adjunto de informação da SIC, tem um programa chamado “Negócios da Semana” onde comenta assuntos de finanças, economia e política. Para a edição da quarta-feira passada, chamou Paulo Morais (presidente da Frente Cívica), João Miguel Tavares (comentador) e Luís Rosa (jornalista do Observador) em ordem a opinarem livremente sobre os “Grandes casos de corrupção em tempos de pandemia“.

Há gémeos monozigóticos que não conseguem ser tão iguais entre si como este bando dos quatro “especialistas em corrupção”. E uma das características que mais os aproxima e melhor define é esta: fechados juntos numa sala com a eternidade à disposição e esferográficas de borla, não conseguiriam preencher meia folha de papel almaço com algo objectivo, concreto e factual a respeito da corrupção em Portugal. O que conseguem é outra coisa, coisa pela qual são muitíssimo bem pagos. Chama-se “calúnia” e cumpre um papel político e sociológico relevante para quem a paga. Já que a direita pós-Barroso não consegue vencer eleições a não ser com baixa política, populismo, violações do Estado de direito, desprezo pelo bem comum e golpadas, essa direita vinga-se utilizando os seus impérios mediáticos para sessões de catarse e ódio em grupo. Algum tipo de alívio é conseguido.

Quem gastar 54 minutos e 43 segundos da sua vida a ver o programa não vai encontrar caso algum de corrupção com que se entreter. O que é servido consiste antes no único prato que estes cozinheiros sabem fazer, que despacham há mais de 12 anos, e resume-se a repetir a cada intervenção que o PS é horrível e horrivelmente criminoso. Logo, bué avant-Ventura, o sistema é o PS, o sistema tem de cair, a bem ou a mal. E de preferência a mal, como se fez em Março de 2011, pois é mais rápido, mais certinho, e dá um gozo do caraças.

A pose é exactamente análoga à de quem estivesse no meio da rua a assistir à pilhagem de lojas e se limitasse a ficar parado e a lançar para o ar “Anda tudo a roubar, que ladroagem!”, e depois passasse a repetir diariamente o exercício por obrigação profissional, por ser absolutamente maravilhoso encher o bolso apenas tendo de insultar e ofender os filhas da puta do PS – ao ponto de ficarmos com a vertiginosa suspeita de que eles temem que a tal pilhagem pare. Afinal, todos temos de ganhar a vidinha, né?

Talvez o mais notável na sua actividade laboral, onde estes artistas são a nossa elite neste tipo de espectáculo, seja o ar de satisfação e divertimento que as sessões lhes proporcionam. Quem chegar ao minuto 44 e 56 segundos, ou começando aí, pode assistir a 5 ou 6 minutos de boa diversão para toda a família. Começa com galhofa macaense, passa para um alguidar de casos que o Zé Gomes queria despachar para o caluniador profissional, continua com este a recusar a oferta porque não se queria ir embora sem falar de Sócrates e de Ivo Rosa, e conclui-se com Paulo Morais, o qual abre assim a sua declaração final: “Eu volto a dizer o que disse no princípio do programa: Portugal está, de facto, a saque.

E está. Temos de concordar. Eis um gráfico que o prova:

Duarte Marques, The Brain

«Outro dado curioso que ainda poucos salientaram é a estranha relação entre o investimento público e a percentagem de eleitores que votaram “Chega” nas presidenciais. Se olharmos para o Plano Nacional de Investimentos 2030, os concelhos onde André Ventura não ficou em segundo lugar, ou seja, onde ficou atrás de Ana Gomes, concentram 73% do investimento público esperado até 2030. Será que é criminoso dizer que a constante centralização do investimento público, e sobretudo dos fundos europeus, nas grandes Áreas Metropolitanas teve um contributo importante para a desilusão das pessoas?»

Gajo que utiliza a sua ofuscante inteligência para equiparar Ventura ao PS

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Aplicação da lógica seguida pelo brilhante deputado, e inevitável futuro presidente do PSD, noutras problemáticas de evidente interesse público:

PSD reduzido a três simples

«Em nome da verdade

Realizou a Aximage uma sondagem política entre os dias 9 e 15 de janeiro que foi publicada no Jornal de Notícias, no Diário de Notícias e na TSF.

Nessa sondagem era perguntada a intenção de voto nas eleições presidenciais e, se houvesse eleições legislativas, em que partidos os entrevistados votariam.

A intenção de voto nas presidenciais foi publicada no dia 22 de Janeiro e nela eram apresentados os seguintes resultados (entre parêntesis os resultados efetivamente obtidos nas urnas de voto):

Marcelo Rebelo de Sousa: 59,7% (60,7%)

Ana Gomes: 15,4% (13%)

André Ventura: 9,7% (11,9%)

João Ferreira: 5% (4,3%)

Marisa Matias: 4,3% (3,9%)

Tiago Mayan Gonçalves: 3,3% (3,2%)

Vitorino Silva: 1,5% (2,9%)

Como se pode ver, a sondagem acertou na ordenação dos candidatos e a diferença entre a projeção e o resultado final do candidato vencedor foi de apenas um ponto percentual.

No dia 26 de janeiro, foram publicados pelo JN, DN e TSF, os resultados da sondagem sobre a intenção de voto em eleições legislativas. Recordamos que a sondagem foi realizada entre os dias 9 e 15 de janeiro.

Por se achar interessante o exercício, cruzou-se a intenção de voto nas presidenciais com a intenção de voto nas legislativas. Como é evidente, tratou-se de uma operação efetuada exclusivamente com os dados da sondagem.

A determinação da intenção de voto resulta de uma operação independente de qualquer resultado (real ou estimado) das presidenciais, pois para além de ser descabido, não tem qualquer suporte metodológico.

O PSD decidiu pegar numa parte dos dados publicados pela Aximage, concretamente o cruzamento das intenções de voto presidencial para intenção de voto legislativo, e aplicar sobre eles operações aritméticas simples, no caso uma regra de três simples. A utilização desta regra não é válida e provocou uma distorção dos resultados. Por outro lado, fê-lo partindo dos resultados da eleição presidencial, e não dos resultados obtidos pela Aximage referentes à intenção de voto presidencial. Ao alterar a base, alterou também os resultados.

Percebe-se que os resultados tenham causado tanta crispação. Se a intenção de voto nas presidenciais se mostrou acurada, é expectável que os dados de intenção de voto nas legislativas também o estejam. Foram os mesmos entrevistados, a mesma metodologia e o mesmo tratamento de dados.

Não culpem o mensageiro e não deitem mão a operações intelectualmente desonestas. Tentar negar a tendência, que várias empresas de sondagens têm vindo a apurar, não passa de um ato falhado.

João Fonseca Ferreira e Hugo Mouro, Aximage»


in PSD contesta sondagem mas faz mal as contas

Rádio Televisão do Pulha

«Dispara o pivô: “Temos informações de familiares que nos dizem que foram informados por médicos do Santa Maria de que o seu familiar, que está doente, por ter 70 anos, se houvesse algum problema não iria para os cuidados intensivos” (sic).

Responde o diretor clínico do Centro Hospitalar Lisboa Norte: “Isso é totalmente falso. Não há nenhum critério etário para admissão em cuidados intensivos ou em qualquer outra unidade de internamento.” Enfatizou o “totalmente” e o “nenhum”.

Como reage o pivô? Insiste? Aprofunda? Diz quando e com quem? Nada disso: muda de assunto. Nem tenta contrapor. Na mesma entrevista, momentos antes, tinha atacado: “Como se explica tanta desorganização no Santa Maria?”. Responde o médico que a desorganização não fora no hospital, mas a montante. Uma vez mais, o jornalista não tem como justificar a acusação ao Santa Maria. Aliás, também o confronta com o facto de doentes e bombeiros, retidos nas ambulâncias em fila de espera, estarem “horas sem comer nem beber”, como se a distribuição de alimentos fosse tarefa do diretor clínico.

Aconteceu na passada sexta-feira, no Telejornal, na RTP1, no serviço público de televisão e com José Rodrigues dos Santos, principal rosto da informação da estação. No canal onde mais se espera e exige sobriedade e rigor, dão-se como certas informações e juízos que, afinal, não resistem ao menor contraditório.

Numa emissão em direto, usar informações não confirmadas sobre um iminente abandono à sua sorte dos maiores de 70 não é aceitável, nem sob a forma de pergunta. A gravidade é tal que o jornalista, se acreditava no valor da sua informação, não poderia ter pura e simplesmente desistido do confronto. Deveria, aliás, ter providenciado para que a redação investigasse – a fundo – a veracidade de tão relevante dica.

Mesmo num serviço noticioso em que já abunda a adjetivação e é cada vez mais editorializado (por alguns dos apresentadores), deixar no ar a suspeita de estarmos a caminho de deixar morrer doentes, é passar para lá do expectável. O confronto, o “espremer” dos convidados, não é o fim último das entrevistas.

Mandam as regras do jornalismo que se façam todas as perguntas, cómodas ou incómodas, para se obter informação. Para obter informação. Não para ganhar ao entrevistado. Não para ser sensacionalista.»


[…]

Um vírus na Informação

Começa a semana com isto

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Para além de se falar numa das obras mais originais da literatura e cultura portuguesas, ou até da cultura europeia, o Leal Conselheiro, e de se poder ouvir Pacheco Pereira a dizer banalidades a respeito, esta peça videográfica oferece uma jóia de rara beleza aos 3 ou 4 malucos que vão seguir o meu conselho: dar toda a atenção a Fernando Paulo do Carmo Baptista, o qual entra em cena aos 40 minutos (mais segundo menos segundo).

Quem é a figura? Pois é um filólogo com vasto currículo no campo do ensino e da investigação. Porém, aposto os 10 euros que tenho no bolso em como ninguém neste pardieiro alguma vez tropeçou no seu nome. Ocasião raríssima para desfrutar de um dos últimos cultores da oratória sermonária neste planeta digitalizado, uma civilizadora arte teatral ao serviço dos textos ideológicos e retóricos como já nem nas missas da Igreja Católica se encontra. Também a não perder é o momento esdrúxulo em que se refere a Trump e a Biden&Kamala, passagem a anteceder a revelação de que Cristóvão Colombo é nosso e que a sua chegada às Américas se deve a certa senhora de Viseu.

Uma maravilha de exaltação do Portugal mítico e poético (mas só para apreciadores).

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Competition among human females likely contributed to concealed ovulation
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Women influenced coevolution of dogs and humans
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Afternoon napping linked to better mental agility
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Vitamin D: An Important Factor for Overall Health
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Chimpanzee friends fight together to battle rivals
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On nights before a full moon, people go to bed later and sleep less, study shows
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How White Supremacy Is Like a Drug
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Chega aqui

«O Chega foi criado em abril de 2019, teve 67 mil votos nas legislativas desse ano e o seu líder alcança quase meio milhão de votos nas presidenciais de 2021.»

Pedro Santos Guerreiro

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O Chega, então um movimento com esse nome, foi criado em Setembro de 2018, ainda Ventura se exibia como fervoroso militante do PSD. A intenção era a de ir tentar derrubar Rio Rio em congresso extraordinário, ou fingir tal. Mas o Chega, enquanto plano de explorar o racismo, a xenofobia e o medo de forma inaudita na política portuguesa, como armas assumidamente tóxicas e violadoras dos códigos de conduta do sistema partidário com representação parlamentar desde os alvores do regime democrático, foi criado em 2017 – por Passos Coelho.

No Observador é possível encontrar mais de cinco mil artigos a explicar como o Chega é uma invenção do PS, do Bloco, da esquerda. Continuando a procurar por lá, tropeçamos em vinte cinco mil artigos a explicar que o Chega não quer o mal de ninguém, está é a dar voz à imensa maioria que se sente perseguida e esmagada pelas minorias étnicas que fazem casamentos de três dias ao ar livre e pelos gandulos que arribam às praias dos Algarves vindos de Marrocos com uma das mãos num remo e a outra num telemóvel de último modelo. Este é um argumentário que já tinha sido utilizado para explorar a Troika como trunfo político. A Troika era excelente porque vinha cortar gorduras do Estado e obrigar os madraços e estroinas a saírem da zona de conforto e do País, mas a Troika era péssima porque tinha sido pedida pelo PS. O que não prestava na Troika era culpa dos socráticos, o que era bom na Troika era mérito de Passos e Portas. Com Ventura a lógica repete-se: ele diz coisas grotescas por culpa dos perigosos esquerdalhos e do seu marxismo cultural politicamente correcto, mas ele diz coisas verdadeiras que mais ninguém diz. Logo, é simples: cui bono?

Pedro Santos Guerreiro não gasta a carteira de jornalista no Observador. É uma das vedetas do império do militante nº1 do PSD e justifica o confortável salário com exercícios como o que acima está pendurado. Para além de escrever como mais ninguém (felizmente), este amigo também sabe como branquear o laranjal. Apagar Passos da fotografia com Ventura, in illo tempore, é obrigatório na grande estratégia da direita decadente. Aquela que em 2016 passou longas horas colada ao televisor a ver e ouvir Trump. A gargalhar com Trump. A admirar Trump. A aprender com Trump. E que depois pegou no telefone, ligou ao Ventura, e lhe disse “Chega aqui.”

Dois políticos com experiência política a mais

Rui Rio apareceu a comentar os resultados das presidenciais igual a si próprio – inapto para a função, cúmplice da decadência da direita portuguesa. Começou com o enigmático critério de achar que existia alguém interessado em conhecer a sua opinião sobre o PS no rescaldo de umas eleições presidenciais onde esse partido apoiou (oficiosamente) os candidatos que ficaram em 1º e 2º lugar. E rapidamente passou para o papel de relações públicas de Ventura, manifestando o seu entusiasmo, admiração e indisfarçável alívio com o triunfo do coiso no Alentejo e em Setúbal sobre o candidato comunista. Alívio porque lhe permitiu sacar do seguinte insulto à nossa inteligência: com esta votação fantástica num tachista armado em facho provava-se que aquilo dos Açores, em que um certo presidente do PSD tinha legitimado e promovido um partido abjecto, não tinha passado de uma inevitabilidade sem importância nenhuma e sem possibilidade de ter sido evitada pois até os comunistas se tinham deixado hipnotizar pelo porcalhão. Foi o momento Chamberlain de quem lançou a sua candidatura a presidente do PSD jurando que “na política, como na vida, a palavra dada deve ser honrada” e que chega a 2021 com a sua palavra hipotecada num acordo com quem se declara apostado em destruir a direita que construiu e desenvolveu a democracia portuguesa. Um líder da oposição que persegue as empresas de sondagens e que entra em diálogo institucional com comentadores. Uma desgraça política ambulante.

Ana Gomes apareceu a comentar os resultados das presidenciais igual a si própria – inapta para a função, cúmplice da imbecilidade da esquerda portuguesa. Rapidamente, a partir dos 4 minutos, começou a acertar contas com o PS. No vórtice que se seguiu, chegou ao ponto de invocar o seu estatuto de recém-viúva como arma de arremesso político. Esta incapacidade para distinguir entre a sua esfera pessoal e a cidade explica o fracasso de uma candidatura prejudicial desde o seu começo. Ana Gomes quis ocupar o terreno eleitoral do PS sem ter condições intelectuais e morais para tal. Ter uma carreira partidária e mediática a surfar o populismo do tempo e os rancores electivos não puxa carroça numas eleições presidenciais. Daí ter ficado toda a gente surpreendida e literalmente incrédula ao ver a postura de estadista que conseguiu manter nos debates com Marisa Matias e João Ferreira. Não passava de uma lição estudada com muito custo, fingir que conseguia apoiar o actual PS e o actual Governo. Ainda antes de ter perdido a vergonha com Marcelo, vimos Ana Gomes associar Costa a Viktor Orbán a propósito de uma campanha de chicana lançada pelo PSD. Esse episódio, em que a senhora diplomata opta insanamente por ofender um primeiro-ministro, um secretário-geral do PS, um camarada e um cidadão, chegava e sobrava para lhe tirarmos a pinta. Quem nem sequer tem controlo sobre o que diz nunca merecerá confiança sobre o que pensa.

Rui Rio, 63 anos, e Ana Gomes, 66 anos, não têm falta de experiência política. É ao contrário, têm experiência política a mais. O que lhes falta é talento e humildade. Para nosso tão grande azar.

Revolution through evolution

Childhood neglect leaves generational imprint
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Money matters to happiness – perhaps more than previously thought
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Exercising muscle combats chronic inflammation on its own
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Tuning out the external world and allowing thoughts to move freely promotes relaxation and exploration, findings suggest
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Researchers develop a mathematical model to explain the complex architecture of termite mounds
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Having plants at home improved psychological well-being during lockdown
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Positive interactions with family one day can make managers better leaders the next
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Esquerda imbecil, mais um capítulo

Mais uma vez, numas presidenciais, a esquerda imbecil revela-se no seu fulgor. Ana Gomes a um ponto percentual de André Ventura, tal apenas se devendo às demografias do Porto e Lisboa, não é derrotar a extrema-direita, o racismo, a xenofobia e demais patologias políticas e cívicas alimentadas a outrance no Chega. João Ferreira e Marisa Matias somados ficarem substantivamente atrás de um cultor do salazarismo e dos nacionalismos populistas de direita é uma derrota com estrondo para o ideal do 25 de Abril.

Por que razão nem BE, nem PCP, nem figuras deslumbradas e egocêntricas como Ana Gomes serviram de antídoto contra um farsante que utiliza o medo e o ódio como íman? Porque as dinâmicas pulsionais e identitárias que agregam os deploráveis anónimos na idolatria a Ventura só se reforçam ao serem atacadas pelas vedetas deploráveis que vertem dinâmicas identitárias e pulsionais a partir dos órgãos de comunicação social onde são pagas pela alta burguesia.

A hipocrisia e o fanatismo esboroam-se quando enfrentam a coragem idealista e a lucidez implacável dos que ousam defender o bem comum. Sempre na história da civilização. Não há, aliás, outra explicação para a existência dela – a civilização dos direitos humanos e da liberdade onde queremos viver.