Arquivo da Categoria: Valupi

Sim, camaradas, isto é revolucionário

“É evidente que o Governo vai puxar a brasa à sua sardinha, tendo em conta os elementos positivos que se verificaram durante este mandato”, disse Jerónimo de Sousa, à margem de uma visita à Câmara Municipal do Seixal e contacto com os seus trabalhadores para assinalar a reposição do pagamento na íntegra do 13.º mês (subsídio de Natal), em vez dos duodécimos ao longo do ano.

O líder comunista considerou que “com certeza, [António Costa] haverá de reconhecer que era um Governo minoritário e tais avanços, tal reposição e conquista de direitos, se deve em muito à nova relação de forças existente na Assembleia da República e ao papel do PCP”.


Fonte

Deixa arder, é a liberdade do vizinho

Ouvi dizer que Marcelo exigiu a cabeça de uma ministra e ameaçou um Governo por causa de incêndios num ano de extraordinária seca, num mês de incrível irresponsabilidade de quem nele fez queimadas, num dia de absoluto perigo por causa de um furação que estava onde nunca costumam estar, e numa era de alterações climáticas que favorecem o aumento do número e da devastação dos incêndios numa geografia e numa sociedade como a nossa. Os mortos de Pedrógão, e a exploração mediática e política que deles foi feita intensa e ininterruptamente nos meses que precederam os incêndios de Outubro de 2017, deram a Marcelo uma capa de isenção que recolheu aplauso exaltado da direita e aprovação cabisbaixa da esquerda. Matou uma toca de coelhos com uma única declaração de 10 minutos, dando uma injecção de adrenalina ao PSD e ao CDS, satisfazendo o desejo de sangue político do sensacionalismo industrial e brincando ao a-minha-pila-é-maior-do-que-a-tua com Costa.

Ouvi dizer que vários grupos de comunicação social, dos mais poderosos em Portugal, são relapsos na prática de crimes com origem em criminosos que exercem funções na Justiça. Esses crimes cometidos pelo tandem Justiça-Pulhice são não só celebrados como justificados por comentadores pagos ao metro pela imprensa de “referência”. Esses comentadores, mas também os seus editores, estão em campanha para que se consigam reduzir os direitos dos cidadãos quando confrontados com os recursos totalitários da máquina policial e judicial. Esses editores, muitas e muitas vezes pelo teclado desses comentadores, prosseguem uma agenda onde a Justiça é utilizada às escâncaras e à gargalhada para atacar alvos políticos.

Ouvi dizer que uma associação da GNR declarou publicamente que os suspeitos de crimes não devem estar abrangidos pela Constituição, podendo-se fazer com eles o que der na mona das autoridades que calhem ter de lidar com essa escória – por exemplo, tirar fotos giras onde apareçam como os condenados que serão e espalhá-las pelo mundo imundo, mas que a imaginação não esmoreça com este exemplo pois não faltam ideias.

Ontem, ouvi uma procuradora a achincalhar um cidadão que o Estado colocou à sua frente durante o seu horário de trabalho. Fiquei convencido de que essa procuradora teria gostado de bater ou cuspir no fulano a quem tratava como alimária a pedir focinheira e chicote. E ainda mais convencido estou de que, a tê-lo feito, Marcelo continuaria impávido e fotogénico a contemplar as labaredas que nos devoram a liberdade.

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Esta excepção confirma a regra do silêncio mediático sobre os abusos do Ministério Publico: O sketch da procuradora

Tancos, um assalto à inteligência

- Falou numa concentração deste tipo de instalações. Já está escolhido o sítio?

- Há vários sítios que estão a ser ponderados, é uma questão operacional. Os paióis da Marinha são interessantes porque cumprem os tais requisitos que já referi. Pode ser Santa Margarida ou Alcochete mas isso espero para ver aquilo que o exército e os outros ramos [dizem ou querem], porque é uma ocupação conjunta de paióis que podem pertencer apenas a um ramo. Este é um aspeto premente do ponto de vista de tempo para se seguir adiante quanto a este assunto. Há outro assunto não menos importante que é a identificação daqueles 3 pilares onde se verificam fragilidades de recursos humanos, não necessariamente mais recursos é sobretudo melhor formação. Acabei por saber, ainda vou acabar especialista em paióis, que para a vigilância é preciso uma formação particular, um conjunto de rotinas e aí há melhorias a fazer. Há depois a questão da instalação propriamente dita, da proteção e vigilância e depois há finalmente a questão do sistema de gestão de informação que nos permita saber o que é que está onde, quando, etc., para se evitar que depois se possa discutir se houve ou não furto. No limite, pode não ter havido furto nenhum. Como não temos prova visual nem testemunhal, nem confissão, por absurdo podemos admitir que o material já não existisse e que tivesse sido anunciado... e isto não pode acontecer.


Entrevista a Azeredo Lopes

“Aquilo que é essencial é respeitarmos as autoridades judiciárias que estão seguramente a fazer o seu melhor trabalho, para poderem esclarecer tudo até ao fim, doa a quem doer, como quer o Governo, quer o Presidente da República têm dito ao longo destes anos. O senhor Presidente da República, aliás, não se tem cansado de expressar publicamente a sua ansiedade; e o Governo, naturalmente, deve ser mais contido em expressar a sua ansiedade, mas não é menor. Acho que ninguém compreenderia em Portugal é que, relativamente a este crime, não se chegasse ao final da investigação punindo quem deve ser punido e esclarecendo tudo o que deve ser esclarecido.”


Declarações de António Costa

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O desaparecimento de armamento em Tancos, assim como o seu reaparecimento na Chamusca, transformou-se num dos mais graves episódios a envolver o Exército depois do 25 de Abril. Tal poderia ter sido uma ocasião soberana (pun intended) para se falar politicamente sobre a longa crise das Forças Armadas, instituição pilar do regime que parece viver como órgão insular no corpo da República. Em vez disso, a direita decadente aproveitou para fazer chicana e a esquerda não conseguiu sequer ser patriótica. Mas é do maremoto de imbecilidade na imprensa dita especializada em política que quero falar antes de chegar à pessoa que até agora foi a única a conseguir enfrentar o ubíquo insulto à nossa inteligência com uma atitude exemplar.

Na comunicação social, assim que se tornou público o desaparecimento do armamento, o alvo instantâneo foi o então ministro da Defesa. O móbil da fúria jornaleira era um buraco numa cerca apresentado com prova do suposto roubo. Culpa do ministro? Não tinha mandado reparar a coisa, daí o assalto ao paiol, garantiram fulanos pagos para escrever em jornais ditos de “referência”. Estávamos na crista da onda da “falência do Estado”, a exaltação retórica e eleitoralista que percorreu os títulos e os comentários lançados para o espaço público de forma a usar os mortos de Pedrógão como arma de arremesso político contra o Governo e o PS nas vésperas de eleições autárquicas. Acontece que o ministro tinha mandado reparar essa tal cerca sim senhor, em Maio de 2017, e a dita não tinha qualquer importância para o acontecido. Até podiam ter começado por fatiar e levar para um ferro-velho essa cerca até ao último arame que à mesma não seria por causa disso que ficava explicado o alegado furto – continuaria a existir mais uma cerca e não sei quantos soldados armados em constante vigilância ao perímetro e instalações. Foi isto mesmo que Azeredo Lopes descreveu com minúcia numa entrevista ao DN, após ter competentemente esperado pelas informações das diferentes autoridades militares com responsabilidade no caso. Como se pode ler na citação acima, o seu zelo em ser explícito é tal que, para efeitos de ilustração do ponto da especial complexidade que a segurança do paiol suscita, acaba por cenarizar uma hipótese que tem ainda o acrescido cuidado de carimbar como “absurda”. Azeredo não poderia antecipar que os jornalistas presentes, mais o então director do jornal, iriam criar uma falsidade como título a partir desta e de outra resposta. Se tivesse podido adivinhar o futuro, seguramente que teria preferido criar um futuro alternativo onde tamanha deturpação não tivesse oportunidade de ser lançada como “verdade”. É que a partir daí, num fenómeno de estupidez sectária ou infantilóide que atingiu as melhores inteligências na praça, o fluxo mediático e partidário sobre Tancos não mais ultrapassou o nível do tiro ao ministro até que se conseguiu a sua demissão. Conseguida, continuou-se a disparar para a linha de cima, Costa e Marcelo. A pulsão de abate dos adversários, ou o mero automatismo dos profissionais da baixa política, a sobrepor-se imparável sobre qualquer noção de responsabilidade política, defesa das Forças Armadas e módica salubridade cívica.

Um ano depois do exercício ad usum delphini feito no DN, António Costa estava a pronunciar-se pela enésima vez sobre Tancos quando resolveu mostrar que ele e Marcelo queriam com urgência ter o caso resolvido onde ele se pode resolver, ou começar a resolver, de vez: no Ministério Público. Para tal, saiu-lhe um argumento onde usava a palavra “ansiedade” como metáfora da gravidade institucional com que tanto Governo como Presidência lidavam com a sucessão de inacreditáveis e vexantes, inclusive assustadores, desenvolvimentos do caso. Como se pode ler na citação acima, Costa aponta para a “ansiedade” de Marcelo de forma a colocar no Chefe de Estado a origem mais elevada da pressão que é necessário exercer de modo a tentar acelerar ao máximo a chegada a resultados policiais e judiciais. A última frase da citação é à prova de estúpidos, ou assim pensaria quem mais nada soubesse do que se passou a seguir. A seguir, talvez apenas minutos depois, já o Expresso lançava na sua edição digital uma notícia (não uma opinião, atente-se) onde se dava conta de um inventado conflito entre o primeiro-ministro e o Presidente da República à conta de mais uma banal e redundante declaração acerca de Tancos. O Público fez o mesmo e ainda pior. E uma legião de políticos patéticos e patetas comentadores não mais pararam de fustigar Costa por causa do que se quis que ele tivesse dito, não do que realmente disse como quis dizer.

É muita estupidez junta, há muito tempo. E é o contexto de fundo para o momento em que alguém mostrou uma atitude não só razoável como absolutamente sana face à epidemia de imbecilidade. Essa pessoa chama-se Francisca Van Dunem, é mulher, etiópica, nasceu em Luanda e a sua reacção no Parlamento prova que a virilidade não tem género: “Sei zero!” Ministra da Justiça irrita-se com o caso de Tancos

Revolution through evolution

Prejudice against women in power is greater than we think
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Why women receive less CPR from bystanders
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Why your number of romantic partners mirrors your mother
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Pain can be a self-fulfilling prophecy
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Static activities – such as strength training – were more strongly associated with reducing heart disease risks than dynamic activities like walking and cycling
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Urban planning decisions from decades past are likely a contributing factor to the rise of right-wing populism
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An evidence-based way to help fix our broken politics
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Debaixo do tapete de Joana Marques Vidal e Cavaco

A forma como o final de mandato de Joana Marques Vidal foi politizado ofuscou, por desvio e saturação, a politização com que foi cumprido e a politização que lhe deu origem. No fim e no princípio, inclusive na sua pré-história, encontramos Cavaco. E encontrar Cavaco é olhar para o chefe da decadente direita portuguesa desde 1985 até ao presente.

Em 2007, a direita entra na sua mais profunda crise após o 25 de Novembro. O PS leva dois anos de maioria absoluta com um líder carismático e um projecto de modernização da economia e da sociedade que obtém aplausos quase unânimes e resultados aquém e além fronteiras. Não existe ninguém na direita que sequer chegue aos calcanhares de Sócrates no apelo eleitoral, o que leva à queda do cavaquista Marques Mendes como presidente do PSD e à entrada em cena de Luís Filipe Menezes, uma anedota ambulante. Ao mesmo tempo, no BCP rebenta uma guerra intestina entre Jardim Gonçalves e o seu delfim, Paulo Teixeira Pinto, a qual levaria no ano seguinte à saída de ambos da instituição e a uma radical alteração accionista, entre outras consequências graves no plano judicial. O BCP não se limitava a ser o maior banco privado português, era igualmente um monumento piramidal da supremacia ideológica e financeira do conservadorismo de fachada belicamente católica. A sua desgraça, juntamente com a do BPN e do BPP em 2008 e 2009, deixou a direita oligárquica portuguesa num estado de pânico e horror. A vingança pela perda dos bastiões financeiros e simbólicos queria-se imediata e servida a ferver. Cavaco, até então um Presidente da República que tinha optado por cooperar com o Governo socialista maioritário na intenção de ir conseguindo fazer negócios para os seus, era a única réstia de esperança da estrutura do poder laranja que via crescer uma crise económica mundial inaudita sem ter ninguém nos seus quadros para sequer conseguir beliscar o PS nas eleições de 2009. Neste ambiente de desespero, antes de se conseguir dar um chuto nos cueiros do doutor choramingas e sua ciência de Gaia, até se ensaiou começar a falar num Governo presidencial, com ou sem alteração constitucional respectiva. Um bloqueio dos camionistas, em Junho de 2008, provocou alarme social cuja finalidade era o desgaste abrupto do Governo e a entrada no ano eleitoral num ambiente de ameaças à ordem pública. Foi folclórico, foi obra de uns jarretas, mas foi também a primeira resposta de Cavaco aos pedidos de socorro dos seus amigos, seguindo um manual clássico de desestabilização e guerrilha política.

Com a colocação de Manuela Ferreira Leite na presidência do PSD, em meados de 2008, Belém voltou a controlar a Lapa. Podia dar-se início a uma estratégia concertada que iria ter como bandeira o tema da “verdade” – “Falar verdade aos portugueses”, lema de Cavaco; “Política de Verdade”, lema do PSD – escolhido precisamente para apontar ao carácter e conduta de Sócrates, doravante obsessivamente atacado como “mentiroso”. Não passava da arma mais antiga e mais baixa do catálogo das pulhices políticas, mas que no caso iria introduzir em Portugal uma operação de judicialização da política sem precedentes. O “Freeport” foi recuperado nos finais de 2008 e foi explorado de todas as maneiras e feitios até às eleições legislativas de 2009 sem interrupções. Não sei quantos outros casos, da licenciatura às casas na Guarda, do Magalhães à eventual compra da TVI pela PT, foram lançados para gerar um clima de perseguição ininterrupta e impiedosa. Em Aveiro, iniciou-se uma operação ilegal de espionagem de um primeiro-ministro através de um seu amigo que é metido à força num caso pindérico de um sucateiro. Daqui, parte-se para a tentativa de perverter as eleições de 2009 com a criação de um caso judicial falso. Finalmente, e de modo análogo, lança-se a inventona de que o Governo estaria a espiar Cavaco e leva-se essa suspeita até às eleições de 2009. Nunca tal perseguição se tinha visto na Grei, a direita portuguesa estava a lutar pela sobrevivência com pavor e ódio, raiando o toque a rebate para pegarem em armas. Ao seu lado, comunistas e bloquistas enchiam as ruas e os ecrãs com homéricas declarações de ódio ao Governo e ao PS, de que as manifestações de professores foram o fenómeno sociológica e mediaticamente mais impressionante nessa legislatura. Fechando o cerco, não existia então, como não existe agora, sequer um órgão de comunicação social que defendesse editorialmente, ou que no mínimo fizesse spin a seu favor, o Governo socialista e o PS. Era exacta, precisa e completamente ao contrário.

A Manela perdeu, o PSD foi para eleições internas preparar o brevíssimo ciclo político posto que o Governo minoritário de Sócrates iria cair assim que o Aníbal iniciasse o seu segundo mandato. Até lá, com a pressurosa e entusiasmada colaboração do BE e do PCP, os socialistas iriam ser assados em lume raras vezes brando. Na disputa laranja, o cavaquista Paulo Rangel, dado como favorito, revelou-se não só ingénuo como inepto no páreo com Passos – já então um especialista em “fake news avant la lettre“, como mais tarde Fernando Moreira de Sá viria a explicar numa tese de mestrado de fazer corar as paredes da Assembleia da República. O Pedro foi a escolha estética de um eleitorado social-democrata que sonhava ter o seu Sócrates, visto e sentido como o tipo de líder ideal para a direita. Havia que afastar o bafio do Cavaquistão que Ferreira Leite, Paulo Rangel e Aguiar-Branco exalavam. O Pedro dava muito melhores tempos de antena, tinha um cabelo à beto e uma voz de barítono. Ideias? Qualquer coisa empapada com cuspo servia, era indiferente. Ganhou, mesmo depois de se ter colado a Sócrates quando fazia oposição interna a Ferreira Leite. Acontece que este garboso rapaz era também um ser político sem qualquer escrúpulo, tendo feito a rodagem no complexo de empresas do laranjal e vivendo à pala do tio Ângelo Correia e de um parceiro de altos e baixíssimos voos, Miguel Relvas. Estava prontíssimo para despachar uns milhões de piegas para fora da sua zona de conforto. Cavaco, que teria preferido lidar com um dos seus pretorianos, rapidamente se concertou com Passos em relação ao essencial: afundar o País ao boicotarem o acordo com a Europa que teria evitado o resgate de emergência e ter um comissário político na Procuradoria-Geral da República capaz de, nas imortais palavras do Manuel Carvalho, acabar com os “resquícios de uma Justiça burocrática”.

Acima a pré-história do que em 2012 foi conseguido, a colocação na Procuradoria-Geral da República de alguém que permitisse abusos de poder e crimes já tentados em 2009, mas abortados pela integridade de quem defendeu a Lei. Havendo indícios judicialmente legítimos para meter Sócrates na condição de arguido, e havia, o processo poderia ter seguido dois caminhos, e apenas dois: (i) blindagem absoluta a qualquer forma de ilegalidade e aproveitamento político dada a gravidade histórica e partidária de se suspeitar que um ex-primeiro-ministro pudesse ser acusado de corrupção; (ii) aproveitamento político de uma extraordinária ocasião para atingir o PS e provocar um desequilíbrio partidário a favor do PSD e CDS que durasse algumas legislaturas ou que conseguisse mesmo destruir o Partido Socialista, doravante e para todo o sempre associado à corrupção – de caminho, e como primeira motivação, executar uma das maiores vinganças na História de Portugal. Soubemos meses antes da espectacular detenção de Sócrates para português ver qual dos caminhos iria ser o da PGR. Quando em Julho de 2014, sem ainda existir publicamente a “Operação Marquês” e sem qualquer cidadão ter ainda sido constituído arguido, foi publicado pela Cofina o núcleo central das teses acusatórias dos procuradores que viriam com base nelas a conseguir prender Sócrates – calendário que só se explica pela ocorrência de eleições no PS onde Seguro agitava a bandeira justiceira e persecutória contra os “socráticos corruptos” alegadamente representados por Costa – ficámos todos a saber que Sócrates iria ser usado como arma política pela própria Justiça em conluio criminoso com impérios da comunicação e jornalistas.

Joana Marques Vidal nunca apareceu em público com uma camisola onde se lesse “Sócrates, é desta que vais dentro” ou “Fodi-te bem, Pinóquio”, pelo que o seu método poderá ter passado despercebido a crianças de 9 anos (mas não todas). Ele é, no entanto, estupidamente simples: usar o incomensurável poder do Ministério Público para devassar e coagir cidadãos. Esse poder não precisa de ser usado de forma ilegal para ser uma violação do Estado de direito e das mais básicas noções constitucionais a respeito da democracia e dos direitos individuais. Aliás, nada justifica que se faça uso indevido dessa capacidade para exercer violência em nome do Estado em casos onde não haja nenhum prémio político (ou de outro tipo) que o justifique. Quem fosse por esse caminho acabaria rapidamente, ou fatalmente, denunciado e castigado, expulso pelo sistema. Porém, contudo, todavia, havendo um prémio político colossal em jogo, oportunidade historicamente imperdível e com clientes facticamente poderosíssimos dispostos a apoiar a execução do plano, então algo como a “Operação Marquês” pode avançar sem que os mandantes e executantes se sintam ameaçados seja por quem for.

Joana Marques Vidal notabilizou-se por aparecer em público a desvalorizar, abafar e mesmo ridicularizar as violações do segredo de justiça que foram parte material da estratégia de assassinato de carácter, ataque político e condicionamento judicial. Nunca teve de justificar por que razão foi conivente com a detenção e prisão de Sócrates sem provas para tal, nunca teve de justificar por que razão se fez da “Operação Marquês” um megaprocesso, nunca parou de usar a sua palavra, e especialmente o seu silêncio, para apoiar e exponenciar a fétida e alucinada campanha para a renovação do seu mandato. A sua maior perversidade consistiu em dominar a duplicidade discursiva que lhe permitia manter uma pose institucionalmente imaculada ao mesmo tempo que alimentava as explorações mediáticas dos que usaram o seu nome com hipocrisia e deboche para perseguirem adversários políticos. Assistiu calada e deleitada, de braço dado com Carlos Alexandre, ao lançamento no espaço público de mensagens que apelam ao regresso a um Estado policial como forma de disputa política onde se consegue prender os adversários. A lógica imanente a este contexto foi levada às ultimas consequências e gerou a inacreditável experiência de termos visto um ex-primeiro-ministro e um ex-Presidente da República a acusarem os actuais primeiro-ministro e Presidente da República de serem criminosos por estarem a substituir quem tinha servido tão bem as agendas políticas de um sector do País.

Cavaco e Joana Marques Vidal. Joana Marques Vidal e Cavaco. Pelo que representam, pelo poder que lhes foi dado em nome do Estado, e pelo que fizeram nessas funções onde ficam associados à utilização dos cargos para perverter a democracia, são a manifestação e consubstanciação de outras forças. Eles são a prova de que o regime concede à direita o uso do Estado para exercer violência política, abusos esses nunca sindicados sequer pela imprensa posto que esta, no máximo e excepcionalmente, só consegue ser neutral e pela rama quando se trata de expor a agenda da oligarquia. Não por acaso, o cavaquismo, essa mistela de propalada santidade à moda de Boliqueime com cinismo rapace e prepotente, foi o herdeiro directo do salazarismo antropológico que o 25 de Abril não varreu – apenas conseguiu meter debaixo do tapete.

Histórias da nossa Justiça para a História

Armando Vara foi condenado em Setembro de 2014 pelo Tribunal de Aveiro a cinco anos de prisão efectiva por três crimes de tráfico de influência. O colectivo de juízes deu como provado que o antigo ministro e ex-vice-presidente do BCP recebeu 25 mil euros do sucateiro Manuel Godinho.


Fonte

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O antigo ministro da Saúde, Arlindo de Carvalho, foi condenado a seis anos de prisão, no processo ligado ao caso BPN. O ex-governante foi considerado culpado por crimes de fraude e burla qualificada.

O Ministério Público tinha pedido a condenação a prisão efetiva para todos os arguidos, sustentando que Arlindo de Carvalho e José Neto terão recebido indevidamente cerca de 80 milhões de euros do BPN e do Banco Insular de Cabo Verde, na qualidade de homens de confiança em negócios dirigidos à distância por Oliveira Costa - e outros dirigentes do BPN/Sociedade Lusa de Negócios (SLN).


Fonte

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Consta que Vara recebeu 25 mil euros de Manuel Godinho. Consta, mas ninguém sabe em boa verdade, porque tal nunca foi provado directamente. E para que eram, como alegam? Para Vara permitir que o sucateiro conseguisse falar com não sei quem, dizem os que se rebolam de gozo com a oportunidade de usar o processo como munição política. Qual era o trabalho de Vara na altura? Exactamente esse, estabelecer relações entre actuais e potenciais clientes do BCP com vista a obter lucro para o seu empregador, andar a almoçar com estes e aqueles, participar em inúmeras peripécias moral e legalmente ambíguas ou arriscadas como é inerente à função da banca em qualquer parte do mundo. Os tribunais têm usado o seu caso como exemplo do castigo que a Justiça tem de dar ao políticos, tal como o povo reclama através da indústria da calúnia (é a tese que os pulhas agitam). E quem melhor do que Vara para bode expiatório, ele que já estava moralmente condenado, é socialista, é amigo de Sócrates e não tem ninguém que se preocupe com os abusos de que for alvo?

Consta que Arlindo Carvalho se abarbatou com milhões e milhões, porque consta das provas valoradas. Acontece que este senhor pertence à gente séria, foi ministro de Cavaco e tudo. Dele nunca ouvimos dizer mal. E podemos ter a certeza de que não era íntimo de Sócrates, nem sequer pelo telefone comunicavam. Logo, não poderia ser apanhado em escutas a falar com o Diabo, nem temos nada a ver com o destino que terá dado aos milhões e milhões provadamente sacados. Por mim, fico a imaginar que os distribuiu pelos pobrezinhos mas não quer que se saiba. Tenho a certeza de que o Aníbal comunga desta minha visão alaranjada.

Ora, a Justiça portuguesa condenou-os a pena praticamente igual – fazendo notar que ambas ainda não estão transitadas em julgado. Quanto ao seu peso simbólico para a República, ambos se equivalem, posto que foram ministros. Como explicar, então, o nivelamento da pena tendo em conta a assimetria dos valores em causa e a tipologia dos supostos crimes? Como é óbvio, e o actual Presidente da República poderia explicar no tempo que demora a tirar uma foto com o povão, o que se estranha na jurisprudência respectiva não são os 6 anos dados ao impoluto e excelente militante do PSD. O que não tem respaldo na lógica e prática da Justiça nacional são os 5 anos de prisão efectiva para o que está em causa no processo de Vara. Com este, muita gente se esforçou para o entalar sem possibilidade de escapar à humilhação de ser condenado e encarcerado.

Talvez um dia estas histórias da fascinante variabilidade da nossa Justiça sejam contadas por alguém realmente interessado na História.

Revolution through evolution

Mothers prefer daughters and fathers prefer sons
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Social media use increases depression and loneliness, study finds
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Eye contact reduces lying
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Could machines using artificial intelligence make doctors obsolete?
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Eat your vegetables (and fish): Another reason why they may promote heart health
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Drinking coffee may reduce your chances of developing Alzheimer’s, Parkinson’s
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Navigating our thoughts: Fundamental principles of thinking

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Chico Mota no Dia Internacional contra o Fascismo

«É certo que a excessiva mediatização dos investigadores e das investigações sobre corrupção envolvendo figuras públicas – muitas vezes com violação do segredo de justiça – parece pôr em causa a seriedade e acerto das investigações, mas também é certo que, se não houvesse mediatização, muitas investigações morreriam asfixiadas em gabinetes e corredores. E não só pelos interesses políticos que são postos em causa com tais investigações, mas sobretudo pelos milhões e milhões de euros que se movem de offshore em offshore até aos beneficiários finais não declarados.

A falta de pudor de Sérgio Moro não apaga, seguramente, a gigantesca teia de corrupção em boa hora desvendada pela Operação Lava-Jato.»

Anda Moro na costa…

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O Chico Mota cola-se aos violadores do Estado de direito em nome do combate à “corrupção”. Ele prefere factuais criminosos que cometem crimes a partir da Justiça e vão para o poder pela mão de assumidos fascistas a eventuais criminosos cujos crimes nem sequer precisam de ser provados. Fica radiante com a perspectiva de se poder pôr em causa “interesses políticos” através de investigações que usam a comunicação social como terreno de combate e arma de assassinato de carácter e de perseguição política. E se tivesse de nomear as tais investigações que “morreriam asfixiadas em gabinetes e corredores” sem a actividade criminosa de certos agentes da Justiça e de certos jornalistas, de imediato se calaria como o cobarde cívico que é. Ou será que se está a referir a investigações que morreram em gabinetes e corredores por terem como alvo passarões do PSD e do CDS, e agora o Chico Mota não pretende cometer a deselegância de estar a macular o bom nome dessa gente séria?

É por isso que o Chico Mota está felicíssimo com o prémio dado a Sérgio Moro por ter conseguido prender Lula através de um suposto crime para o qual não existem provas nem relevância – de caminho abatendo o candidato mais forte às eleições presidenciais. Tal como felicíssimo está por se ter feito algo análogo em Portugal a Sócrates, alguém que não precisa de ser julgado em tribunal, que não precisa de exercer o direito à sua defesa, para que o Chico Mota consiga identificar a quem pertencem certos bens no nome de outro sujeito.

É este franco-atirador que passa por especialista em Direito e se pavoneia como defensor das liberdades. Um traste que espelha a cultura da casa.

Quem alega não entender este parágrafo estupidamente óbvio, merece ser punido judicialmente

“O jornalismo tem a obrigação de manter-se como contrapoder”, argumenta Ricardo Costa. Opinião com que ambos os advogados presentes concordam. No entanto, salienta José António Barreiros, “não podemos esquecer que qualquer peça jornalística cria uma ideia na opinião pública, mas também nos intervenientes judiciais que leem jornais e veem televisão como qualquer outro cidadão”. Paulo Saragoça da Matta reforça: “Na televisão, a reconstrução do passado mediatizado pela leitura que o jornalista faz de alguns meios de prova nunca representa a totalidade de um processo.” E, defende: “O povo só é soberano se vir tudo.”

Fonte

Coisas do Carvalho

Texto actualizado às 10h50: Trocou-se a frase “Como faz pouco sentido o apelo de António Costa para que Marcelo seja ‘mais contido em expressar a sua ansiedade’” por “Como faz pouco sentido o apelo de António Costa para que o Governo seja ‘mais contido em expressar a sua ansiedade’”. O primeiro-ministro de facto mencionou a “ansiedade” do Presidente, mas não lhe dirigiu um apelo para que a “contenha”.

O vírus da suspeição tomou Tancos de assalto

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Tradução:

Um homem do Norte não se atrapalha com os factos, ainda menos com a verdade dos factos. Apesar de estar a teclar sobre declarações já quase com 48 horas, para mim o que contava era a trafulhice que mandei publicar na minha bodega, tal como outro semipasquim tinha igualmente publicado, quiçá até primeiro. E depois deu-se o azar de me terem vindo dizer que não dava, que desta vez tinha de ser mais contido a expressar o sectarismo e a pura indecência hermenêutica. Assim, aqui fica a correcção. Uma correcção que enxovalha a minha imagem como director deste pardieiro e como jornalista que finge ser isento, posto que altera radicalmente o sentido de todo o texto. No entanto, estou-me a cagar para os leitores e para esta merda de jornal, e vou imaginar que só há estúpidos à minha volta. Basta alterar uma frasezinha e está feito. Siga, que amanhã há mais. Mais arrogância asinina para a Sonae ver, já que são eles que pagam as contas. Por mim, estou pronto a despachar diariamente, horariamente, exercícios deste calibre. Falando em calibre, e aquilo do Costa ter dito ao Marcelo para ser mais contido na ansiedade? Eles já não se podem ver, a nossa República está entregue a gente do piorio. Felizmente, restam os jornalistas-directores como eu para ir entretendo a populaça que vai tendo pão e precisa de circo.