Arquivo da Categoria: Valupi

Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep9)

Polícias, detectives, procuradores, jurados e juízes podem estar com as melhores intenções e chegarem às piores conclusões. Quando tal acontece – e se acontecesse uma só vez já teria sido uma vez a mais do que é aceitável num Estado de direito democrático – o resultado é uma das piores injustiças que se pode sofrer. Porque ao dano imposto ao inocente, ou ao culpado merecedor de pena inferior, acresce a violência opressiva, totalitária e desesperante de ter sido a instituição Justiça e o Estado a retirarem os direitos à vítima e a violarem o princípio da presunção de inocência, direito fundamental inscrito na Constituição da República Portuguesa. Até crianças são capazes de assimilar o que está em causa ao se querer viver em sociedade sob a regência deste principio: sem ele ficamos sujeitos à lei do mais forte, aquele que passa a não precisar de provar as suas acusações, apenas precisa de garantir a força para aplicar os castigos arbitrários que servirem os seus interesses ou pulsões. A lei do mais forte é antinómica da força da Lei.

Alguém aceitaria ser paciente de um médico que não conseguisse fundamentar na medicina as suas terapias? Alguém deixaria a sua filha ser operada por um cirurgião famigerado por se enganar nos órgãos a tratar? Alguém aceitaria atravessar a ponte construída pelo engenheiro que fez cálculos aritméticos errados? E quanto ao general que aparecesse a gritar ter marcianos no quintal, seria quem gostaríamos de ver à frente do nosso exército? Estes são exemplos caricaturais que apenas pretendem realçar uma banalidade: quando nos toca a nós, fugimos de mentirosos, broncos e lunáticos e procuramos aqueles que nos parecerem mais competentes para resolver os problemas que nos afligem. No caso da Justiça, a primeira e mais alta competência é a da defesa da presunção de inocência. Falhando-se aqui, falhou-se em tudo o que venha a seguir por mais processualmente correcto que possa parecer. Na Justiça exige-se aquilo sem o qual também a ciência não passará de senso comum e superstição: evidência. Não basta ter teorias e hipóteses sofisticadas e lindas, é preciso passar pela experiência, recolher os dados e construir a evidência para que, eventualmente, se produza conhecimento científico. Na Justiça é igual quanto ao critério epistemológico e decisório, começa-se sempre pela evidência de que até um arguido, seja lá qual for o peso da acusação que carregue ao chegar a tribunal, é inocente até prova em contrário transitada em julgado. Para deixar de ser inocente, necessário é trocar de evidência, tornar evidente que é culpado. Isto significa que numa Justiça justa há um pendor para a inocência e não para a condenação – in dubio pro reo. Ser civilizado, neste mundo onde há princípios e direitos, implica perceber, entender e compreender que o maior mal não é deixar escapar o culpado sem condenação, o mal maior é deixar condenar o inocente.

Existe vasta literatura nas ciências humanas e jurídicas sobre erros judiciais, cobrindo casos famosos e com famosos e casos da arraia-miúda diluída na molhada estatística. Excluindo teorias da conspiração ou patentes transgressões dos deveres dos magistrados e corpos policiais explicáveis por intentos criminosos ou políticos óbvios, encontramos valioso material informativo e reflexivo em diferentes disciplinas e áreas multidisciplinares, interdisciplinares e transdisciplinares que investigam o fenómeno há décadas, ou séculos, ou talvez milénios, dependendo das fontes que se reconheçam válidas. Fazendo aqui uma síntese à padeiro, podemos circunscrever a origem dos erros judiciais involuntários às falhas lógicas e de raciocínio. Por razões antropológicas e evolutivas, todos sem excepção estamos sujeitos a limites cognitivos e a vieses múltiplos. Na práxis da investigação criminal, a “visão em túnel” (onde se reduz o campo interpretativo a um só critério teórico, deixando de valorizar a evidência leve ela onde levar e passando a valorizar o suspeito como meta da recolha de provas) e o “viés de confirmação” (onde se passa só a valorar a informação que confirme a hipótese inicial ou a hipótese favorita, inclusive chegando a afastar ou destruir a informação que arrisque pôr em causa a hipótese que se procura confirmar) são os dois principais mecanismos cognitivos que geram um conjunto de disfunções que se reforçam entre si para garantirem a coesão e integridade daquilo que fica como erro de probabilidade. O fulano escurinho que se vê a correr para longe da cena do crime é o mais provável suspeito do assalto à loja, o tipo com a cara do Cary Grant que foi fotografado num átrio das Nações Unidas com uma faca na mão é o mais provável assassino do Sr. Townsend, certo?

A só ser possível ver um trecho dos interrogatórios feitos a Armando Vara na Assembleia da República, em 19 de Junho de 2019, o que recomendaria era o da segunda intervenção de Mariana Mortágua (Ep8). São 12 minutos devastadores e enternecedores. O fogo de barragem contínuo havia ultrapassado as 4 horas, o massacre com as mesmas insinuações e perguntas de merda vindas de todos os grupos partidários era imparável. Vara, aquando da primeira intervenção da deputada bloquista, não tinha escondido na linguagem corporal o seu agrado, irreprimível prazer, por estar em interacção com ela. Nesta segunda ocasião, chega a verbalizar a sua inclinação emocional, quiçá afectiva, mas em tom de pesar, mágoa. A Mariana tinha desiludido e magoado o Armando, levando este a deixar a mais eloquente e credível reclamação de inocência que me foi dado assistir até hoje a qualquer pessoa. Claro, não faço ideia se ele está inocente do que o levou a ser condenado no Face Oculta e do que o fez acusado na Operação Marquês, não o posso saber no campo da evidência, mas é essa mesma procura de evidência que me faz deduzir ter sido Vara condenado a prisão sem provas suficientes para tal e induzir que foi acusado por causa de um negócio bancário onde a sua culpabilidade por qualquer coisa ilegal, seja o que for, é a menos provável das hipóteses.

Mortágua, na sua segunda legislatura como deputada, com mestrado e doutoramento em Economia, a cinco dias de celebrar 33 anos de idade, deixou o cidadão Vara em choque ao declarar, convictamente, que o “centro da comissão de inquérito” que ali os reunia era a acusação do Ministério Público relativa a Vale do Lobo. Foi uma manifestação prodigiosa do efeito de ilusão de verdade e fica como monumento ao hipnotismo mediático e atrofio cognitivo de que dependem a direita decadente e a indústria da calúnia. A mais promissora vedeta parlamentar do actual BE, por excelentes razões, acabava de anunciar que tinha voluntariamente ingressado na quinta-coluna da Cofina e estava a servir com devoção esses senhores. De facto, as suas perguntas sobre Vale do Lobo eram funcionalmente pífias, irrelevantes, somente para encher o chouriço e nada de notável se teria passado caso não lhe tivesse fugido a boca para a “verdade”. A tal “verdade” que politicamente deu origem àquela comissão, sem qualquer dúvida, isso de se ir aproveitar os recursos parlamentares e a cobertura mediática para voltar a espalhar em vésperas de eleições legislativas a culpabilidade de Vara, Sócrates e do PS pelos crimes da corrupção à fartazana inventados, julgados e explorados no esgoto a céu aberto em várias sessões ao dia.

O mais espectacular do episódio nem é a pasmosa iliteracia da deputada acerca do que seja um Estado de direito democrático, e respectiva separação de poderes, e demais garantias legais nos processos judiciais, e inerentes direitos individuais dos visados por suspeições, acusações e condenações. O mais espectacular é o que ela não disse nem nunca ninguém lhe perguntará em público – se a Mariana Mortágua, com tudo o que investigou e perguntou a respeito do empréstimo para Vale do Lobo, está em condições de elaborar uma hipótese, uma qualquer por mais tosca ou desvairada que seja, que explique como é que Vara obrigou directores e administradores da CGD, com as mais diversas filiações políticas e altas competências técnicas e jurídicas, a votarem a aprovação desse empréstimo e depois a irem para a Assembleia da República afirmar que nada de ilícito se passou no processo. Se está, talvez ainda vá a tempo de falar com Ivo Rosa para que o bandido não escape. Se não está, talvez não lhe faça mal passar uns tempos a reflectir no papel dos deputados, no papel do Ministério Público e no papel onde está impressa a Constituição.

Coisas do Carvalho

Na versão original deste texto, o director do Público mostrou aos seus leitores como é que a memória de um sectário funciona: por apagamento e distorção. Às cinco e meia da matina do dia 16 de Junho de 2020, o prestigiado e premiado jornalista Manuel Carvalho era ainda um felizardo que flanava na realidade alternativa onde Carlos Costa tinha chegado a governador do Banco de Portugal só porque Passos Coelho viu nele um bom rapaz. Metade da sua fantasia era verdadeira, o Pedro gostou muito do Carlos, mas tal deve-se ao que o Carlos fez pelo Pedro aquando do seu 1º mandato, o tal nascido da escolha de Sócrates e onde a paga foi vermos o governador do Banco de Portugal – a partir de Fevereiro de 2011, consumada a reeleição de Cavaco – a actuar como aliado dos que queriam afundar Portugal para chegarem ao poder através da terra queimada.

Terra queimada, alagada e destruída pelo cataclismo económico e social chamado resgate de emergência e “austeridade salvífica”. Hoje sabemos inequivocamente que o PEC IV teria sido a melhor solução para a conjuntura de então. Sabemos que o FMI dos falcões estava errado, os próprios o admitiram. Sabemos que o Banco Central Europeu estava errado, a partir de 2012 corrigiram o erro e de imediato acabou a crise das dívidas soberanas na Europa. E sabemos que a direita decadente portuguesa estava errada, mas tal nunca será por ela assumido. Assim, a luta continua para os responsáveis pelos incontáveis sofrimentos e desgraças que teriam sido evitados caso a defesa do bem comum e o interesse nacional tivessem prevalecido. A narrativa sobre os idos de Março de 2011 petrifica-se como arma de arremesso para quem nos quer fazer mal e oculta-se como vergonha calada para quem mal nos fez. No caso do BE e do PCP, podemos aceitar que se redimiram do que fizeram aos seus concidadãos em 2011 quando, parecendo milagre, aceitaram viabilizar um Governo minoritário do PS em 2015 que tinha a urgência de afastar os ogres e acabar com o fanatismo rapace. No PSD e no CDS, nem remorso, nem vergonha, nem vestígios de decência.

É fácil de entender o processo psicológico que o levou a apagar parte tão conspícua da história recente. Tratando-se de um jornalista com as responsabilidades editoriais deste passarão, o que está em jogo é a sua coerência interna. E esta é sui generis, bastando recordar que o Sr. Carvalho, com a rutilância editorialista e sonaica que lhe desenha o perfil de pulha, chamou bandido a Vítor Constâncio apenas porque lhe apeteceu reduzir a práxis jornalística à sua imaginação alaranjada – e continuou a ser director do pasquim depois desse mergulho na desonra. Logo, apagar o currículo de Carlos Costa, e soterrar a sua influência clandestina e ostensiva para que Portugal não aceitasse o plano que teria evitado a Troika assim permitindo ao Pedrinho voltar a chamar o Carlinhos, é para o actual director do Público uma missão que os seus neurónios têm cumprido com zelo.

Sim, nessa tal realidade alternativa onde Carlos Costa é “um homem com um passado profissional longo e credível e um distanciamento da política notório” até no Público se pratica jornalismo de referência.

Coxos e zarolhos

A 10 de Junho de 2019, com os mais importantes representantes do Estado e dos cidadãos soberanos hieraticamente perfilados ao redor da estrela convidada para comemorar Portugal, Camões e as comunidades portuguesas, ouvimos um discurso cuja palavra inicial, depois dos cumprimentos da praxe, foi “Eu”. Este pronome pessoal aparece 11 vezes no texto. Os pronomes possessivos “meu”, “meus” e “minha” aparecem mais 18 vezes. Trata-se do cimento lexical necessário para erguer e desenvolver uma narrativa heróica acerca de um certo portalegrense com uma história de vida impressionante. Tendo vivido e crescido ao cimo da Avenida Frei Amador Arrais, teve de sair da sua cidade para realizar o sonho de obter uma licenciatura. Um sonho nascido num jovem que foi obrigado pelo destino madrasto a ter de passar pelo desafio de ser filho de dois funcionários públicos, e de fazer o ensino básico e secundário numa escola pública, acabando fatalmente por se licenciar numa universidade pública. Apesar dessas adversidades, apesar das quatro horas de autocarro de Portalegre a Lisboa (duração igual para o regresso; ou seja, penalização a dobrar), e de a essa distância física corresponder uma ainda maior distância cultural pois os livros eram poucos e vendiam-se nas papelarias (incrível, não é?), apesar de o cinema só funcionar ao fim-de-semana (horror indescritível) e de as bandas que este jovem e amigos de rua e escola queriam ouvir não passarem por Portalegre (indescritível horror), ele foi subindo aos poucos na vida e chegou ali. Ali, ao palco de onde agora falava ao Povo. Ora, tal tem uma explicação, que o próprio magnanimamente se encarregou de nos oferecer. É que, no meio dos obstáculos todos que teve de vencer até chegar lá, ao ali, deu-se a felicidade de ter tido pais que investiram parte do salário a comprar livros e enciclopédias que chegavam pelo correio, a prestações. Quantos livros, quais? Quantas enciclopédias, e ficaram completas ou ainda há uns volumes a faltar nas estantes? Interrogações inevitáveis, imediatas, e mesmo lancinantes, que ficaram sem resposta na ocasião solene. Porém, desiluda-se quem pense que a audiência saiu de mãos a abanar quanto ao segredo do sucesso do orador. O próprio revelou que os seus pais tinham um plano para ele, o tal filho que estava ali no paleio de costas para um Presidente da República e outros tipos. Esse plano parental correspondia ao algoritmo “objectivo claro” + “um caminho para trilhar na sociedade portuguesa“, desdobrando-se nas seguintes etapas: lutar pela liberdade em 1974, lutar pela democracia em 1975, lutar pela integração na Comunidade Europeia nos anos 80 e lutar pela entrada na moeda única durante a década de 90. Se vitoriosos de tantas lutas, o seu amado filho não teria de se limitar a 15 dias de férias em Albufeira, era a ambição que motivava os progenitores planificadores e lhes dava ânimo inesgotável. Pelo que o próprio João Miguel Tavares tem publicitado a respeito das suas férias recentes, podemos já com confiança declarar que os seus pais triunfaram plenamente.

Em 10 de Junho de 2020, abraçado pelos Jerónimos, vibrou no ar um discurso cuja palavra inicial, depois dos cumprimentos da praxe, foi “Agradeço”. Ainda no seu primeiro parágrafo, a primeira citação – «como pesa na água (…) a raiz de uma ilha», de Herberto Helder. Seguiu-se uma reflexão onde se cruzou o legado camoniano – literal e simbolicamente, a mátria lusitana – com o desvelamento da actualidade para atender ao que mais importa numa comunidade, a cidade de pessoas para pessoas. No último parágrafo, a última citação – «rasto do fulgor», de Maria Gabriela Llansol. A meio do texto, uma suposta citação de Margaret Mead, a anedota do fémur quebrado e cicatrizado. Anedota no sentido de historieta, mas anedota também para aqueles que se tenham sorrido, ou mesmo rido, com a profundidade interpretativa dessa micronarrativa. Súbito, dezenas de milhares de anos de criação e construção civilizacional ficam inscritos nas marcas de um fémur humano que teve tempo para sarar. Não é na biologia e fisiologia desse acontecimento que a nossa inteligência encontra a surpresa, o sentido e o encantamento. É no factor estritamente humano que com compaixão, generosidade e invenção introduziu na Natureza a novidade de ajudar e proteger quem está próximo e em grave carência. Este momento antropológico do discurso mostra, quanto à eficácia pedagógica, que estamos a testemunhar uma lição. E mais prova que a etimologia de lectio como apanha, colheita, tem em Tolentino de Mendonça um exímio artista. Deixou-nos em desenho uma linha que vem das raízes na água, passa pelas pernas no chão, e acaba com o olhar apontado ao fulgor do mistério de tudo e de todos. A linha de uma ave a levantar voo nesse preciso momento impossível em que está entre a terra e o céu.

O 10 de Junho de 2019 serviu para que se promovesse um apelo à sedição de fantochada a partir de um palanque do regime. Para tal, a retórica e economia textual usadas tiveram de montar um circo demagógico e populista onde se apagou tudo o que foi e é positivo na comparação entre o regime democrático e o regime anterior. O que restou depois de se excluir o que nos liga na República é um mundo cão onde apenas o individualismo glutão conta, apenas se aponta ao que corre mal aqui ou ali, apenas se valoriza o que não se tem. Donde, cantarolou o profeta do regresso de Passos Coelho, a causa da minha situação infeliz, a culpa para a minha insatisfação insaciável, assim corre o mecanismo propagandístico, está nos que se distinguem por uma qualquer aparente superioridade ou percebida vantagem face a mim. Se eles têm sucesso, ou que seja só notoriedade, então tal só é possível porque eu não tenho sucesso, porque não há holofotes da fama apontados ao meu canto. As elites, os corruptos, os políticos (passe a tautologia) estão a roubar-nos, e tu, se quiseres ser como eu e chegar onde eu cheguei (olha para isto, pá, olha como “eles” me vêm comer à mão), tens de continuar a garantir que eu saco o meu ao fim do mês; ou seja, tens de continuar a papar o que te sirvo na manjedoura da indústria da calúnia, esse hino à impotência colectiva para proveito e gozo dos que enchem a boca com “verdades” ao gosto popular acabadinhas de grelhar. Aqui está a mensagem suprema da partida que Marcelo pregou aos portugueses – com a finalidade de interferir no ciclo eleitoral e de alimentar o linchamento de Sócrates e respectiva coacção da Justiça a seu respeito – quando enfiou João Miguel Tavares na lista dos que tiveram oportunidade para honrar a data e o que ela representa; algo comparável em imaginação exótica à partida dos “árabes” no Tavares Rico em 1971, só que no ano passado foi a sério, foi real, teve o selo do regime, mesmo que continue a parecer uma alucinação distópica.

O 10 de Junho de 2020 serviu para outras coisas bem diversas, deslocámos a atenção para o essencial da vida em comunidade, sentimos a passagem de um espírito são; mas numa coisa foi análogo ao ano anterior: permitiu que ficássemos a saber ter Ana Gomes gostado muitíssimo mais do penúltimo 10 de Junho. Essa normalização e defesa da pulhice, de que o seu apoio a um discurso soez e indigno de Abril é uma manifestação exuberante, acaba por produzir a mais harmoniosa das afinidades. De facto, no ano passado, a única personalidade a que o presidente das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas fez referência para além de si próprio e da sua família mais chegada (grupo onde se incluem os sogros e três mulheres que criaram a sua mulher, não esquecer) foi precisamente Camões. A única abébia que deu à elite, talvez por imposição exterior, consistiu em identificar uma das figuras que era dever protocolar comemorar no seu discurso. E só concedeu em nomeá-lo, sem o citar, porque tinha um conselho para deixar a professores e doutores: que se leia menos os Lusíadas pois já farta de tanta “exaltação patriótica”, se é para perder tempo com o zarolho que tragam os seus poemas giros com escravas boazudas. É disto que o povo gosta, vai sem discussão, pelo que estamos em condições de antecipar o futuro. Quando Ana Gomes for a presidenta, depois de pulverizar os corruptos com o seu fácies de imaculada furibunda, já sabemos a quem irá entregar o 10 de Junho para um encore. Não, padreco armado em poeta, tu vai lá para a tua Vitalina Varela da tanga e deixa-te de ilusões beatas. A regra da civilização não é a do fémur cicatrizado, essa foi a excepção. A regra é a da selva, onde os mais fortes comem os mais fracos, e onde os menos burros enganam os muito burros. Aprende com a gente séria, Tolentino, e tem cuidadinho com as más companhias.

Sermão da Guarda

Há um discurso do 10 de Junho que arrisca ser considerado definitivo, o de Jorge de Sena em 1977. Provavelmente, já só académicos, intelectuais da velha guarda e eruditos, à mistura com curiosos como aqui o pilas, estão em condições de perfilhar essa valoração. Jorge de Sena não é propriamente um nome que apareça com frequência no Facebook, desconfio, e o Twitter só se alvoroça com discursos do 10 de Junho quando eles são encomendados a caluniadores profissionais, aposto.

Para se conseguir compreender essas palavras lidas na Guarda há 43 anos é necessário ter diferentes e complementares conhecimentos acerca da História de Portugal, dos Lusíadas e do próprio Jorge de Sena. Tendo-os, não se concebe quem melhor pudesse comemorar numa reflexão de síntese oratória o programa completo do feriado em causa: nove séculos de perene pobreza, fugazes ilusões de grandeza e continuada diáspora; excepcionalidade de uma obra histórico-poética que ficou como bastião e fonte da identidade pátria para gerações de exilados em corpo ou alma; trajecto de resistência política e culto da liberdade vividos existencialmente por um especialista camoniano em vésperas de morrer – 12 meses depois, os seus pedaços repartiram-se no mundo pela última vez.

O texto oferece espelhos onde nos continuamos a rever. E há passagens de uma actualidade política e cívica fulgurante, inquietante, deslumbrante. Aqui ficam uns exemplos:

«Há quem diga e quem pense que celebrações como esta – de Camões ou das comunidades – são uma compensação para a perda ou derrocada do Império oferecida ao sentimento popular, e que isso das comunidades é mesmo ainda pior: uma ideia do fascismo. Antes de mais, neste país há que pôr um basta não só ao fascismo ele mesmo, mas à mania de atribuir tudo ao fascismo, até as ideias. Porque, por esse caminho, ficamos todos sem ideias de que precisamos muito, e os fascistas ou os saudosistas deles acabam convencidos de que tinham ideias, quando ter ideias e ser fascista é uma absoluta impossibilidade intelectual e moral.»

«Pensarão alguns, acreditando no que se fez do pobre Camões durante séculos, que celebrá-lo, ou meditá-lo e lê-lo, é prestar homenagem a um reaccionário horrível, um cantor de imperialismos nefandos, a um espírito preso à estreiteza mais tradicionalista da religião católica. Camões não tem culpa de ter vivido quando a Inquisição e a censura se instituíam todas poderosas: se o condenamos por isso, condenamo-nos nós todos os que, escrevendo ou não-escrevendo, e ainda vivos ou já mortos, resistimos durante décadas a uma censura opressiva, e a uma repressão implacável e insidiosa, escrevendo nas entrelinhas como ele escreveu. Isto é, condenamos a vera ideia de “Resistência” que, modernamente, fomos dos primeiros povos da Europa a tristemente conhecer e corajosamente praticar. E sejam quais forem as nossas ideias e as nossas situações políticas, nenhum de vós que me escutais ou não, pode viver sem uma ideia que, genericamente, é inerente à própria condição humana: o resistir a tudo o que pretende diminuir-nos ou confinar-nos. Camões não tem também culpa de ter sido transformado em símbolo dos orgulhos nacionais, em diversos momentos da nossa história em que esse orgulho se viu deprimido e abatido.»

«Ao escolher para assunto central da sua epopeia a viagem de Vasco da Gama, ele sabia perfeitamente que escolhia um momento decisivo da história universal; o encontro, para todo o sempre, para bem e para mal, da Europa com a Ásia, passando-se pela África. Momento decisivo dessa história do mundo, como eminentes historiadores insuspeitos de simpatias portuguesas ou imperialistas o têm proclamado e reconhecido. E, na verdade, esse encontro (e esse Império que, no tempo de Camões, com todos os erros e crimes, não era os impérios coloniais inventados pela Europa do século XIX, nem socio-moralmente inferior à desordem política existente então, como hoje, em toda a parte) simboliza aquilo mesmo que, mais tarde, nos nossos dias, veio a verificar-se. Porque as ideias de independência política e de justiça social pelas quais lutaram e ainda lutam os povos da Ásia e da África, e às quais se renderam os povos das Américas ao separar-se da velha Europa, não são as tradições tribais originárias por respeitáveis que sejam: são aquelas mesmas ideias que, geradas na Europa, da Europa se difundiram, tal como as naus do Gama partiram de Lisboa para uma das mais gloriosas viagens de todos os tempos.»

«Eu fui convidado por Lisboa e de Lisboa, o que é uma honra, mas Lisboa não tem o direito de nomear representantes de nada ou de ninguém. Esse vício centralista da nossa tradição administrativa – um dos vícios que Camões denunciou e castigou nos seus Lusíadas – deve ser eliminado e banido dos costumes portugueses, sem perda da autoridade central que deve manter unido um dos povos mais anárquicos do mundo e menos realistas quando de política se trata. Porque os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha; e por isso disfarçam a sua insegurança adulta com a máscara da paixão cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista, quando se vêem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a experiência da liberdade. Isto não sucedeu só agora, e não é senão repetição de outros momentos da nossa história sempre repartida entre o anseio de uma liberdade que ultrapassa os limites da liberdade possível (ou sejam as liberdades dos outros, tão respeitáveis como a de cada um) e o desejo de ter-se um pai transcendente que nos livre de tomar decisões ou de assumir responsabilidades, seja ele um homem, um partido, ou D. Sebastião.»

Revolution through evolution

Study of 62 countries finds people react similarly to everyday situations
.
Repetitive negative thinking linked to dementia risk
.
Unexpected uncertainty can breed paranoia
.
NUS and Stanford Researchers Uncover a New Mindset That Predicts Success
.
COVID-19 Triage Decisions Should ‘Ignore Life-Years Saved,’ Writes Bioethicist in Medical Care
.
URI Anthropology Professor Challenges Evolutionary Narratives of Big, Competitive Men and Broad, Birthing Women
.
Political ‘Oil Spill’: Polarization Is Growing Stronger — and Getting Stickier
.
Continuar a lerRevolution through evolution

Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep8)

Os deputados têm direito ao uso e porte de arma, entre outros direitos especiais considerados adequados à função. Porém, não me lembro de ter ouvido ou lido justificação para esta permissão estabelecida no Estatuto dos Deputados. Será assunto tabu? Virá, ao contrário, do mais evidente senso comum? Será uma herança de tempos quentes e perigosos há décadas desaparecidos que permanece por inércia? Que se espera que um deputado defenda ao tiro ou à facada, quiçá sachada? Apenas o corpinho ou mais algum valor inerente ao seu estatuto? Enquanto a dúvida não se resolve, o outro espectáculo de vermos deputados armados em parvos é, infelizmente, de uma banalidade vexante.

Também não me lembro de algum político dos partidos da direita, ou que fosse um independente nesse território ideológico, que seja identificável pela paixão com que defende sonhos, ideias ou projectos políticos. Sonhos colectivos, ideias desenvolvidas com honestidade intelectual e projectos concretos para o País, para a comunidade, para os portugueses enquanto cidadãos e pessoas, defendidos por quem possamos apontar como representante da direita portuguesa, para onde olhar? Podemos esquecer aquele fulano que mentiu a estudantes menores, com a ironia sórdida de tê-lo feito no 1 de Abril de 2011, garantindo não ir subir impostos nem cortar pensões e que tinha o fetiche do “ir além da troika”. Impossível lembrar-me de um singelo exemplo construtivo e honroso pois não se encontra nem a sombra disso. A direita portuguesa, depois da fuga de Barroso – que anunciou ao povo laranja ir imitar o estilo de Cavaco, e que jurou querer ser primeiro-ministro como realização suprema de vida, e que rapidamente trocou o voto dos portugueses pela carreira privada – afundou-se na decadência. Primeiro com Santana Lopes, depois com a luta de vida ou morte face ao duplo pânico causado pelo poder político de Sócrates e sua equipa governativa, por um lado, e pelo terramoto financeiro que destruiu baluartes bancários da oligarquia, pelo outro. De lá para cá, as paixões políticas e cívicas desta direita decadente apenas se canalizam no ressentimento, no ódio, na caçada. Não lhes interessa qualquer tipo de actividade intelectual onde aceitem dialogar com os adversários e expor perante os eleitores algo racionalmente analisável e comparável, estão reduzidos à barricada do desgaste e do boicote. São perdedores assanhados, feridos. Rio prometeu, na campanha para presidente do PSD, conseguir fugir desse círculo vicioso e recuperar a decência, a inteligência e a coragem para a direita portuguesa mas a campanha que fez nas legislativas de 2019 foi mais do mesmo que temos visto aos pulhas. Ao lado, o CDS desapareceu e Ventura é neste momento o activo mais valioso da direita parlamentar porque em crescimento. Marcelo? Anda a apanhar bonés na Marginal.

Ignoro se João Paulo Correia alguma vez na sua vida disparou uma arma de fogo, talvez até nem nunca tenha posto a existência de uma mosca em risco. Todavia, no preenchimento da segunda ronda de perguntas a Vara (Ep7) constata-se como o vice-presidente do Grupo Parlamentar do PS usou os seus privilégios de deputado para deixar uma imitação da direita decadente. Não fez uma única pergunta para a qual tivesse interesse na resposta, pois ele já tinha as conclusões que lhe interessavam, e a solitária finalidade do seu questionamento foi a de deixar registado que o zangado e bem nutrido João Paulo apertou com o Vara e disse-lhe das boas. O teor difamatório dos seus comentários, o tom sobranceiro e arrogante e – antes e acima de tudo – o seu silêncio perante o relato cru e ofuscante da golpada que foi o “Face Oculta” pelas martirizadas palavras da sua mais importante vítima, eis o retrato de um deputado traidor. Não seguramente traidor para o seu grupo parlamentar que combinou a estratégia hipócrita e vil para se protegerem da contaminação, a prova de que o PS de Costa é cobarde em matérias de Justiça, mas traidor em pleno face à missão e glória de ser um representante do Soberano.

Obviamente, tratar como traidor uma personagem tão séria e profissional, tão dedicada e rigorosa, é um estupendo exagero que só diz de mim e deste pardieiro para onde teclo. Seja como for, o cidadão que sou, apaixonado pela Assembleia da República como sede primeira da liberdade e da democracia, teria preferido que este deputado socialista e valentão tivesse optado por ter levado uma pistola para a comissão e gastasse o seu tempo a fazer pontaria a Vara em silêncio. Seria preferível à cena torpe de vê-lo armado em parvo por cagufa da pulharia.

Dia do Caluniador Profissional

Graças à inventividade gaiata de Marcelo Rebelo de Sousa, o 10 de Junho acrescentou ao seu frontispício simbólico de Dia de Portugal, de Camões, das Comunidades Portuguesas e do Anjo Custódio de Portugal o ficar também pelos pátrios séculos afora como Dia do Caluniador Profissional. Atento ao que foi o perfil dos anteriores presidentes da comissão organizadora das comemorações, sem excepção figuras de extensa e consagrada dedicação a trabalho com relevância cultural e comunitária, o actual Presidente da República pensou, idealizou, maturou, ouviu o sábio conselho dos sábios que o aconselham e numa iluminação súbita telefonou ao João Miguel Tavares. Foi ali algures no começo de 2019, ainda havia restos da consoada de Natal nas arcas frigoríficas da sua casa em Cascais, Marcelo despachou meia travessa de arroz-doce enquanto combinou com o fabuloso portalegrense a Operação Plebeu.

2019, ano eleitoral e de “Operação Marquês” numa das suas fases judiciais decisivas, como resistir? Tendo repetido amiúde que o seu papel é de nadador-salvador e veterinário da direita decadente, Marcelo decidiu transformar o 10 de Junho num comício. Para tal, foi buscar um fulano que estava num momento difícil da sua carreira pois já se estava a tornar insuportável até para os colegas de calúnias dado só ter um reportório: a obsessão consigo próprio e a disponibilidade mercenária para ser pulha. Ora, não há dinheiro para pulhas à esquerda, por falta de capital e vocação. O mercado da pulhice só tem uma cor e um cheiro, e são poucas as vagas para os operacionais estrelas. JMT dava provas de ser um homem para todo o serviço desde que lhe garantissem que ia continuar a ter os bolsos cheios a perseguir a sinistra esquerda e a poder aparecer na TV ao lado do Ricardo Araújo Pereira. Era o perfil ideal, repetia entre colheradas na travessa o ilustre cascalense. Agora, restava só pôr a cereja na coisa para o gozo ser completo, isso de mandar o Expresso, o Público e o Observador começar a espalhar que a surpreendente escolha presidencial tinha como finalidade defender o jornalismo. Gargalhadas homéricas atravessaram as redacções da nossa “imprensa de referência” enquanto alinhavam na marcelice.

Como estamos bem lembrados, o presidente da comissão do 10 de Junho de 2019 fez o melhor discurso de sempre e para sempre na ocasião. Segundos depois de ter terminado, as redes sociais explodiram de entusiasmo, os mais sérios políticos e as mais airosas vedetas juntaram-se à festa, e os restantes jornalistas celebraram o sucesso do seu admirado e invejado companheiro de tantas investigações e triunfos para a causa da verdade e da justiça para os mais fracos. Tomar conhecimento dos nomes de terras e pessoas relacionadas com o orador, e ficar com uma grande antipatia contra as malvadas das elites, foi teluricamente comovente para uma audiência saturada dos enfadonhos paleios dos intelectuais de esquerda e explica o fenómeno popular só comparável à reacção de transe espírita nas prédicas do saudoso Dr. Sousa Martins. Confronte-se com o que acabamos de ver ao longo do dia de hoje, uma apagada e vil tristeza como resposta ao discurso de Tolentino de Mendonça. Marcelo estará naturalmente arrependido de ter convidado alguém que não foi capaz de listar os nomes dos seus filhos ou de revelar por onde andou a passear em calções de banho. Uma desilusão armada em poeta, a citar pessoas esquisitas com frases que ninguém percebe, e que nem sequer deu um calduço aos porcos dos políticos para alegria do bom povo.

João Miguel Tavares é um cidadão com uma ideia clara, simples, já cristalizada na sua cachimónia, para Portugal. Consiste em afastar a esquerda da governação para que finalmente se consiga diminuir a presença do Estado tirânico e instituir-se um modelo meritocrático que passará a ser o critério para as esferas públicas e privadas. Como é que se aplicaria o conceito na economia, na saúde, na educação e etc., e com que efeitos imediatos e de longo prazo, isso é algo que ainda não foi publicitado pelo senhor Tavares; talvez por falta de tempo pois tem andado a tentar vender a edição impressa do tal discurso do 10 de Junho. Esta ideia do mérito, sem qualquer dúvida, é simples. Não espanta que muita gente sinta de imediato uma completa identificação pois não oferece a mínima dificuldade cognitiva; e, sejamos francos, se há quem mereça tudo e mais alguma coisa é cada um de nós, não falha. Só esquerdalhos e socráticos é que não a aceitam porque têm um pacto com o Diabo. Por aqui, Marcelo fez muito bem em ter oferecido o 10 de Junho a este visionário.

Acontece que João Miguel Tavares é igualmente um cidadão com outra ideia clara, simples, já cristalizada na sua mioleira, sobre Portugal. Consiste em acusar publicamente todos os políticos com representação parlamentar no regime democrático de fazerem leis cuja finalidade suprema, ou paralela, é a de permitirem que outros políticos, governantes e administradores públicos cometam sistémicos crimes de corrupção que ficarão impunes. Em que provas se fundamenta o senhor Tavares para fazer essas denúncias não sabemos nem sabemos quando as irá revelar, mas talvez a demora se deva apenas à falta de tempo pois vender várias edições do seu magnífico discurso do 10 de Junho não é pêra doce num país infestado de marxismo cultural. O que sabemos é que Marcelo Rebelo de Sousa – assim como todos os ex-Presidentes da República, todo os actuais e ex-deputados, todos os actuais e ex-governantes, todos os actuais e ex-magistrados que tenham exercido desde o 25 de Abril – é um dos tais ladrões arrastados para o pelourinho da indústria da calúnia pelo meritocrático Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas em 2019.

Quod erat demonstrandum.

À série


The Wire_David Simon_2002-03-04-06-08

«I think it’s one of the greatest not just television shows, but pieces of art, in the last couple of decades.»

Obama

*_*

Premissa: a ficção televisiva não pode superar o cinema mas pode igualá-lo se conseguir o milagre de se transformar em cinema televisivo. Esse milagre aconteceu, tem nome e data. Quando, a 10 de Janeiro de 1999, David Chase apresentou Tony Soprano e sua famiglia aos telespectadores, estes descobriram que a vida atribulada, sofrida, do Tony era genuinamente cosa nostra. Cada episódio foi pensado como um filme, não fazendo qualquer concessão ao modelo publicitário das televisões nem à psicologia imatura e fragmentada dos seus públicos típicos. O realismo pretendido, e alcançado, não era o dos efeitos especiais e sua fanfarra irrelevante, antes o da profundidade e verdade das personagens à procura de si mesmas. Como nós, se estivermos lúcidos.

Salto para 2008. Chase passa a tocha a Vince Gilligan. Este trouxe-nos Walter White e o seu mundo. Um mundo onde só dá para entrar, de onde nunca mais se pode sair. E a prova chama-se “Better Call Saul”, a genial prequela que é também uma sequela. Há muitas aparentes tragédias nas salas de cinema e nos ecrãs de televisão que não passam de involuntárias, desmioladas ou reles comédias. Gilligan serve-nos altíssima comédia como entrada para o seu prato principal, nacos de tragédia clássica com molho narrativo e especiarias estéticas apurados à perfeição.

No entretanto, “The Wire”. O meu panteão do cinema televisivo tem estas 3 (que são 4) séries como objectos supremos de adoração. E o feito de David Simon – que não teria sido possível sem a sua tarimba jornalística e peculiar equipa; em especial, Ed Burns – acaba de atingir o zénite da actualidade com a execução pública e filmada de George Floyd. Quem ainda não viu pode correr para a HBO ou para um DVD perto de si e passar a abrir a boca de espanto várias vezes por episódio. Não há bons nem maus, não há caricaturas, não há simplismos. Há estruturas, sistemas, economia, natureza humana, geografia. E daí ser corrente considerar-se estarmos perante um olhar documental dada a detalhada e rigorosa verosimilhança dos enredos em “The Wire”, mas o segredo é outro. Sem o poder artístico da escrita, ao mais alto nível da tradição cinematográfica, não poderíamos desfrutar da companhia daquelas personagens e aprender com o tanto que têm para nos ensinar.

Ouvir o autor a falar da América é uma eulogia do que mais importa para o momento que a civilização atravessa, e que a eleição de Trump e de Bolsonaro, mais a vitória do Brexit, tornaram crítico. Esses fenómenos políticos foram e são acompanhados por disfunções e perversões sociais como o racismo e a xenofobia, o pasto dos instigadores e manipuladores dos medos e dos ódios correspondentes – enquanto à volta a crise climática e a catástrofe ecológica nos levam para consequências absolutamente desconhecidas na história da Humanidade.

Simon resiste a celebrar e promover o seu trabalho como artista, preferindo a interpelação cultural e cívica, e isso só nos faz amar ainda mais a sua arte. Aqui ficam exemplos do favor que nos está a fazer ao discursar na cidade para o bem da cidade:

2019 – Imperdível relato do que levou à sua expulsão do Twitter

2014 – Apaixonada, urgente, visão política

2016 – Presciência e frontalidade crítica preciosas

Começa a semana com isto

6 de Outubro de 1884, segunda-feira

__

É difícil recomendar leituras, porque é tudo delicioso, mas aqui vai uma selecção mínima:

– Primeira página, do lado esquerdo, a notícia intitulada “Desordeiro”. Para ficarmos a saber do que aconteceu ao polícia 121 num certo sábado, já madrugada, ali ao Bairro Alto.

– Segunda página, ao fundo do lado direito, peço ajuda para decifrar o “Cancioneiro popular”.

– Terceira página, ao cimo no lado direito, um dos mais surpreendentes textos que já me foi dado ler em língua portuguesa: “As pernas verdes”. Porquê? Por causa disto, daquilo e do que se descobre sobre a tonteira do autor quando surge a expressão “dupla haste”.

– Quarta página, lado esquerdo, o anúncio “A almofada de Holman”. Em abono do publicitário de antanho que gizou a peça, confirma-se ser cada vez mais válida para a ciência, em 2020, a seguinte afirmação: “Quasi todos os males que afligem a humanidade têm a sua origem no estômago”.

Revolution through evolution

Luxury Handbag Wearers Likely to Behave Selfishly, Study Shows
.
Behaviors and traits that influence social status, according to evolutionary psychologists
.
Monitoring environmental exposures in dogs could be early warning system for human health
.
‘Poisoned arrow’ defeats antibiotic-resistant bacteria
.
New model predicts the peaks of the COVID-19 pandemic
.
Policing and Law Enforcement: Further Considerations from Psychological Science
.
Democracy’s Shapeshifting Past — and Its Uncertain Future
.
Continuar a lerRevolution through evolution

Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep7)

Acaba-se o 12º ano – portanto, após 12 anos contínuos no sistema de educação em Portugal – já a poder exercer o direito de voto, ou na iminência disso, mas, para a enormíssima maioria dos que chegam a completar a escolaridade obrigatória, sai-se da escola sem qualquer noção do que seja o Estado de direito democrático e os pilares civilizacionais onde se sustém: história e evolução do conceito de Estado, história e evolução do conceito de democracia, história e evolução do conceito de monarquia, história e evolução do conceito de república, história e evolução do conceito de liberdade, história e evolução da Constituição da República Portuguesa de 1976. Se saltarmos para a também enormíssima maioria dos que completam licenciaturas, mestrados e doutoramentos, o panorama não será diferente; exceptuando as áreas académicas que versam disciplinarmente sobre essas matérias e os percursos individuais que tenham civilizado ou politizado mais uns poucos em práticas e epistemologias díspares.

A Cofina domina o espaço mediático por causa do tanto que devemos a Eduardo Dâmaso no combate à corrupção e do tanto mais que devemos a Octávio Ribeiro no respeito e defesa da deontologia jornalística? Outra é a explicação. O sensacionalismo não alimenta a inteligência e a indústria da calúnia não trabalha para a edificação moral da Grei. Perante uma população que entrou no século XXI com baixa literacia política, baixa cidadania, baixa produtividade e alta desigualdade económica, o pão e o circo funcionam tão melhor quão mais graves sejam as inevitavelmente cíclicas crises económicas. No caso da Cofina, como nas forças fácticas que moldam a estrutura dominante na comunicação social nacional, para além do projecto económico existe um projecto político assumido com desplante e provocação. Talvez não tenha existido um único número do Correio da Manhã, desde a sua fundação, onde o PS se tenha livrado de ser apontado como o inimigo a abater. Não custa perceber porquê nem para quê. Custa é ver uma sociedade inteira envenenada pela cultura da calúnia, custa é ver um regime conivente e adaptado aos profissionais da violação do Estado de direito da República Portuguesa.

A prestação de Inês Domingos na sessão em que interrogou Armando Vara (Ep6) arrisca-se a estar já esquecida até da própria. Os raros que a irão observar do princípio ao fim vão deparar, no entanto, com 20 minutos luminosos. A deputada do PSD limita-se a ler, com evidentes dificuldades, perguntas escritas por terceiros – enquanto ao seu lado o folclórico Virgílio Macedo vigia o desempenho da fêmea e o assombroso Duarte Marques serve de ponto e complemento. As perguntas feitas, notável e até escandalosamente tendo em conta a exploração que o PSD fez da ida de Vara para administrador da Caixa e para o BCP, são inanes. Não há vestígio nelas de ligação tangível com matérias objectivas e concretas de potencial interesse judicial. A intenção das mesmas é única e exclusivamente a de insultar e ofender Vara, tratando-o como um reles criminoso a quem não se reconhece o direito à honra e à palavra própria. Isso fica patente, logo de início e ao longo da inquirição, pela linguagem corporal da deputada, pelas suas interjeições enfáticas e teatralmente enfastiadas e desdenhosas, e ainda pela postura de arruaceiro de Duarte Marques ao mandar bocas chulas por cima das declarações de Vara.

Recapitulemos. O “dream team” enviado pelo PSD para uma comissão de inquérito dedicada a voltar a emporcalhar o espaço público com difamações e calúnias contra Sócrates, contra Vara e contra o PS, no seu segundo momento de ataque directo e presencial ao gigante do crime chamado Vara, dedica-se à boataria acéfala e ao holiganismo. Tal só é possível porque não existe qualquer penalidade para tamanha decadência. Os jornalistas nem sequer o denunciam, e o público jamais o conseguiria criticar mesmo que fosse forçado a tal. Vemos, assim, como o círculo se fecha: a ignorância civilizacional da população é usada na redução da política ao poder pelo poder. O poder de quem tiver mais meios de assassinato de carácter e menos escrúpulos, ao ponto de se transformar a Assembleia da República numa capa do esgoto a céu aberto.