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Os sósias de Trump

Podia dar um tiro a alguém no meio da 5.ª Avenida e não perdia um único voto, OK?“, disse Trump num comício em Janeiro de 2016. Esta declaração foi interpretada como mera manobra retórica, uma metáfora provocatória, chocante, para alimentar a voragem mediática que fez de Trump um exímio manipulador dos processos fanatizantes que lhe foram dando crescente força política. Mas o que nessa altura ainda podia passar por desbocada extravagância deixou de o ser quando, ao mesmo tempo, vimos há dias Steve Bannon a fantasiar a decapitação de Anthony Fauci e de Christopher Wray e, a partir da Casa Branca, com o selo da presidência atrás de si, vimos um Presidente dos Estados Unidos da América a dizer que a contagem de votos após o dia da eleição iria provocar situações de “perigo físico” por causa da violência vinda das ruas contra os funcionários eleitorais.

Pode-se fingir, por mil razões e circunstâncias, que não se tomou conhecimento destes factos. Não se pode é, sob pena de tal implicar não se estar na posse das capacidades cognitivas mínimas para ser autónomo, ignorar que estas duas pessoas estão activamente a tentar provocar crimes, e que esses crimes são potencialmente assassinatos, e que esses assassinatos visam o prémio supremo de atingirem Joe Biden. Num país em que há 120 armas na posse de particulares por cada 100 indivíduos, e em que os grupos militarizados do racismo, fascismo e nazismo norte-americanos foram convidados por Trump a ficarem em “stand by“, não é difícil prever o futuro. Num país em que pela primeira vez na sua História se vê um Presidente a tentar dinamitar a democracia no que tem de mais sagrado, a descoberta da vontade soberana dos cidadãos, e a recusar-se a aceitar a derrota, prever que o futuro desejado por Trump é a explosão demente do ódio letal não custa.

Aos ingénuos, como eu, é sempre uma surpresa ver pulhas com protagonismo social e poder político. O pulha é pulha porque se sente impune, seja este chamado Trump com uma espantosa carreira de vigarices ou um infeliz qualquer a despejar merda numa caixa de comentários perto de si. O pulha só respeita uma lei, a do vale tudo. E, porque foi tendo sucesso praticando essa anomia, não só fica condenado a ver todos os adversários como imitações de si mesmo como jamais respeitará qualquer valor que implique ter de abdicar do que considera ser a sua poção mágica. Convém é reconhecer que a pulhice é um factor que explica maioritariamente o que vemos acontecer no que se chama “fazer política” quando está em causa a direita decadente – isto é, a direita que não assume e promove o Estado de direito democrático e os direitos humanos como fundamentos invioláveis de qualquer ideologia ou programa político.

Por exemplo, quem leia e oiça Eduardo Dâmaso e Octávio Ribeiro a gabarem-se de conseguir cometer crimes em conluio com magistrados, de perseguir alvos políticos e de envenenar o espaço público com calúnias, ainda gozando com a concorrência que vai indo à falência por estar agarrada à deontologia jornalística, encontra sósias de Trump. Por exemplo, quem usa violações do segredo de justiça e captações da privacidade de testemunhas, suspeitos e arguidos (portanto, cidadãos estritamente inocentes ao tempo da captura dos materiais e sua exploração mediática) para ganhar dinheiro na comunicação social a fazer assassinatos de carácter é um sósia de Trump. E, sem outro exemplo comparável em Portugal, quem faz acordos políticos com um partido dirigido por uma pessoa que se mostra não só disponível mas febrilmente interessada em violar direitos de outras pessoas e em transformar a nossa comunidade no terreno selvagem de uma desumanização cada vez maior e mais perigosa, esses idiotas são sósias de Trump.

Da tribo à cidade

Perguntei a um amigo meu em quem ia votar. “Trump”, respondeu tranquilo. E acrescentou “Aqui na empresa [de comércio de automóveis] vai tudo votar Trump.” Mas porquê, insisti. “Porque os democratas querem aumentar os impostos”, foi a singular justificação.

O meu amigo vive em Miami. Nasceu em Angola e foi para o Brasil, com oito anos de idade, por causa da descolonização. Veio para Portugal adolescente, em meados dos anos 80, e emigrou para os EUA há 20 anos. É alguém que quer viver em paz com o mundo e com os vizinhos, evitar chatices, aproveitar a vida. Ele não dá atenção à política a não ser na dimensão em que ela afecte o seu conforto e segurança. Egoísmo em vez de altruísmo, individualismo em vez de idealismo, interesses financeiros em vez de valores cívicos e morais. Qual é a surpresa? Nenhuma de nenhuma. Atire a primeira pedra quem estiver em condições de provar que é imune a estas telúricas pulsões.

Assim, a democracia é um gigantesco e imparável caleidoscópio de ilusões. Pode-se votar em Trump porque se é fascista e racista, pode-se votar em Trump porque se papou a propaganda para acéfalos que faz de Biden um perigoso comunista, ou pode-se votar em Trump porque… dólares. Esta mistura de cognições, no caso do apoio a Trump, arrasta a democracia para o limite da sua capacidade de resistência à ameaça interna. Repare-se como os apoiantes de Trump não se importam, antes celebram, que Trump utilize o aparelho de Justiça como se fosse um escritório de advogados que ele contratou ou como se fosse uma polícia política. Atente-se como os apoiantes de Trump celebram, por nem sequer entenderem a importância do que está em causa, a conspurcação da dignidade das instituições soberanas dos EUA que serviu a Trump como táctica de marketing para dominar mediaticamente a política norte-americana.

O tribalismo, por ser um dos mais enraizados mecanismos de sobrevivência colectiva, não convive pacificamente com a democracia. Daí o recorrente triunfo dos ditadores ao longo da História universal. Só a cidade, necessariamente muralhada dada a animalidade inerente ao ser humano, consegue transformar tribos em cidadãos unidos pela liberdade.

Humildade e humilhação

No momento em que teclo, Biden vai à frente em mandatos e na probabilidade de chegar aos 270, mas não passa disso e o resultado final pode ainda demorar horas, dias ou até semanas. Para o Congresso, a desilusão e agonia é igual no lado do Partido Democrata, não apareceu uma vaga que consiga desbloquear o sistema. O que significa que, aconteça o que acontecer, Trump voltou a ganhar. Porque, mesmo que tenha de sair da Casa Branca, nunca irá reconhecer a derrota, irá lançar furiosas e maníacas teorias da conspiração, e deixa o caminho aberto para réplicas de si próprio – talvez logo dentro do seu clã – voltarem a meter o Partido Republicano no bolso.

A madrugada foi uma interminável e crescente experiência de humildade. Estes resultados de 2020 são muito mais surpreendentes do que os já inacreditáveis resultados de 2016. Porque 4 anos depois todo o eleitor americano sabe de ginjeira que Trump promove o racismo e grupos fascistas, que mente por sistema e orgulha-se de violar as leis, que despreza as mulheres e os mais fracos, que boicota a protecção climática do planeta e é responsável pelo aumento da epidemia de coronavírus no seu país e suas letais e socialmente devastadoras consequências. Como é que homens e mulheres, das mais diferentes idades, estilos de vida, regiões, conseguem ignorar este rol de misérias e dar-lhe o seu voto? Seja lá pelo que for, a democracia não é um concurso de argumentos ou motivações, é um simples cálculo de somar. E qualquer resultado é igualmente válido, eis a grandeza – e fragilidade – desta solução para se escolher quem vai governar numa dada comunidade.

Humilhação é outra palavra que se aplica à situação. Ver uma das mais desenvolvidas e historicamente fundamentais democracias a dividir-se para apoiar um tirano irresponsável e megalómano antecipa que a humanidade não deverá ser capaz de lidar com o crescente poder tecnológico que vai adquirindo. Quando a irracionalidade vence graças à democracia, ou ameaça voltar a vencer, as nossas crenças acerca da existência de uma preferência universal pela defesa dos direitos humanos fica irreversivelmente abalada, em queda.

Trump, Platão e Aristóteles

Imaginemos que todos os anos o Estado recorria a voluntários para termos professores nas escolas públicas – tivessem eles competências pedagógicas ou não. E que depois, para cumprir a democracia, quem aparecesse escolhia a matéria que queria dar apenas tendo como critério o seu gosto.

Imaginemos que quando o Estado queria construir uma estrada ou uma ponte abria um concurso a que podiam concorrer todos os cidadãos – com ou sem conhecimentos de engenharia, com ou sem recursos para fazer a obra. E que depois, para cumprir a democracia, o Estado atribuía a empreitada por sorteio.

Imaginemos que ao irmos ao hospital público havia uma lista de nomes para escolhermos – nessa lista aparecendo pessoas com conhecimentos de medicina, uns, de enfermagem, outros, e ainda pessoas sem conhecimento de nenhuma dessas áreas. E que depois, para cumprir a democracia, tínhamos de escolher às cegas com quem nos iríamos tentar tratar.

São exemplos grotescos de tão estúpidos, tão irracionais, tão impossíveis de aceitar, né?

Mas, então, por que misterioso processo mental aceitamos qualquer desqualificado para governar não só a educação, as obras públicas e a saúde mas todas as áreas onde o Estado exerce o seu poder? Por que raio não só desqualificados como retintos pulhas podem vir a ocupar lugares no Parlamento, em S. Bento e em Belém?

Por estas e por outras, a ciência política, desde Platão e Aristóteles, foi sempre uma investigação sobre os perigos da democracia para a coesão das comunidades. Em 2016, Trump deu-lhes razão. Em 2020, com as ameaças explícitas de querer provocar o caos e instigar à violência armada caso perca as eleições, Trump dá-lhes toda a razão.

Onde Platão e Aristóteles têm de baixar a grimpa é na contemplação da resposta dos cidadãos americanos, que estão a votar como se a sua vida dependesse disso. E depende, tragicamente. Gloriosamente.

Começa a semana com isto

The Flexibility of Female Sexuality with Wednesday Martin

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Para quem começou o fim-de-semana a ler A grande descoberta da vagina – que afinal se chama vulva – e desse grande mistério, o clítoris, onde se fala da anatomia e sexualidade feminina com ciência e sapiência, sugiro que se aproveite o balanço ficando a conhecer mais um olhar onde, a partir da ciência, se faz feminismo que é verdadeiro e fundamental humanismo. Não temos de concordar com tudo o que a Wednesday Martin diz, temos é de reconhecer que muito provavelmente ela sabe bem mais do assunto do que a enormíssima maioria de nós.

E posto que a semana tem vários dias à disposição, gastar um deles com Mais alguma vez nos vamos apaixonar?, recolha de testemunhos que dá a ver um mosaico de memórias e desejos imarcescíveis colados pela ternura da escrita, compõe um belíssimo ramalhete de inteligência sexual.

Revolution through evolution

Gender insecurity prompts women MMA fighters to date hypermasculine men
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World’s first agreed guidance for people with diabetes to exercise safely
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Positive Student-Teacher Relationships Benefit Students’ Long-Term Health, Study Finds
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Positive Outlook Predicts Less Memory Decline
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Good mental health and better sleep for the physically active
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Trump Supporters Increasingly Less Likely to Trust Health Officials, Survey Finds
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Cognitive decline distorts political choices, UCI-led study says
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Catarina Martins já é primeira-ministra mas ainda não fomos avisados

«Finalmente, o melhor que pode acontecer ao Governo, numa situação difícil, é ser confrontado com uma pressão forte, seja da negociação sindical, seja da negociação governamental, para se poderem abrir novas portas. Se um governo minoritário não procurar acordos, por entender que tem um poder absoluto por atribuição cósmica, então será o pior risco para si próprio. Cinco anos depois, a habituação pode criar a ilusão de que a exibição do poder é o poder.»

Louçã, 2020

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«Rejeitar o PEC IV é o princípio da saída da crise.»

Louçã, 2011

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Louçã explicou que o BE esteve em negociações com o Governo como se também fosse Governo – Negociar como um sindicato ou como um governo? Num exercício displicente e desbocado, postula que agora – no meio de uma pandemia – é a melhor altura para fragilizar um Governo de esquerda, o qual vai mesmo tomar decisões que afectam a saúde e segurança de milhões de pessoas tenha o apoio parlamentar que tiver. Há que pôr um pauzinho na engrenagem em nome de um Governo fictício de uma outra esquerda que só existe na cobiça alucinada do Anacleto e restantes irresponsáveis do BE que optaram por saltar para fora do barco. Irresponsáveis porque mostraram que não se importam nada de acrescentar dificuldades às que já existem apenas para poderem exibir as imaculadas mãos sem mancha de pecado.

A forma como Louçã termina o texto, parágrafo citado acima, é um monumento à sua hipocrisia, ao seu cinismo e à sua megalomania. Repare-se:

– “o melhor que pode acontecer ao Governo, numa situação difícil, é ser confrontado com uma pressão forte” – Estamos no reino da abstracção, o Governo aparece como entidade solitária que esgota o seu sentido e consequências no confronto com outras forças políticas opositoras e rivais. A tese é a dos negociadores implacáveis, que fez a história do capitalismo: apertar mais com eles quando eles estiverem mais fracos.

– “para se poderem abrir novas portas” – Por que razão temos de abrir novas portas? Só por serem novas? E se as novas portas forem piores do que as portas já oleadas e moldadas pelo uso? Esta lógica de o novo ser melhor do que aquilo que seja corrente, sem se mostrar porquê ou se é viável, só satisfaz o proprietário ou vendedor das tais novas portas publicitadas.

– “Se um governo minoritário não procurar acordos, por entender que tem um poder absoluto por atribuição cósmica, então será o pior risco para si próprio.” – O Governo procurou o acordo com o BE até ao último minuto da última hora, fazendo sucessivas concessões. E o BE recusou porque se acha na posse de um poder absoluto por atribuição cósmica, o poder de se substituir ao Governo em nome dos cálculos eleitorais de curto prazo. A denúncia do “risco para si próprio” fica como projecção e auto-profecia.

– “Cinco anos depois, a habituação pode criar a ilusão de que a exibição do poder é o poder.” – Louçã aguentou cinco anos de convergência parlamentar da esquerda e declara estar enfastiado, precisa de uma mudança de cenário para se voltar a sentir animado, sonhador. Esses falsos socialistas que se deixem de peneiras e ilusões, o poder não é a sua exibição. O poder que é poder, explica este marechal às tropas na parada e à assistência, consiste antes nisto que o BE acaba de fazer: deixar um Governo minoritário ainda mais fragilizado, a sangrar, à beira de ser apanhado pelas feras. Para Louçã, é simples e luminoso: já Chega!

Isto de um partido com 19 deputados se conceber como um Governo, e assim legitimar o boicote ao interesse dos que alega representar, merece ficar inscrito na memória dos eleitores. E igualmente merece uma curta reflexão. De facto, inquestionavelmente, incontornavelmente, evidentemente, as democracias directas só são viáveis em sociedades que não excedam pouquíssimos milhares, ou se calhar só centenas, de indivíduos em condições de participar em assembleias deliberativas. A civilização resolveu esse problema adaptando o ideal original para modelos de representação da soberania popular cada vez mais complexos à medida que aumentava a complexidade demográfica, económica, tecnológica e cultural das sociedades onde o liberalismo político cresceu em formato constitucional. Contudo, opta-se pela democracia em vez de outros sistemas para que haja Governos livremente eleitos, não para que haja Governos livremente impedidos de governar sem outra alternativa no quadro parlamentar. O argumento do BE, que Louçã assume sem vergonha ou aparente consciência da sua gravidade, levaria à impossibilidade de qualquer Governo minoritário chegar alguma vez a acordo com qualquer força política. E, a ser assim, as tiranias passariam a ser opções políticas mais inteligentes por uma mera questão de sobrevivência colectiva.

O BE não pretende esperar por uma vitória nas eleições para formar Governo, até porque ela poderá chegar só depois da morte térmica do Universo, aproveita-se antes da oportunidade oferecida pela fraqueza do actual Executivo para o tentar. A intenção golpista tem aqui um nome: parasitismo.

Costa do castelo

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Notas:

– Os castelos construíam-se na linha da frente da ameaça.

– Mesmo com máscara, o descaramento do pulha está à vista. Aquela linguagem corporal não engana, estamos perante um político que não respeita o bem comum e com quem não pode haver tolerância intelectual, moral ou cívica.

– Costa provou aos imbecis e aos cobardolas que o tratamento indicado para lidar com o Ventura, e quejandos, é exactamente o oposto da saída pela esquerda baixa deixando a alimária em palco a puxar pelos borregos na plateia.

– Ventura berra em registo feirante e com estilo de tasca o que Passos Coelho deixava pendurado no subtexto do seu desprezo pelos “piegas” que se andavam a arrastar na “zona de conforto” em vez de emigrarem. Nada do que Ventura diz é novo, portanto, antes se podendo recuar até ao PSD de Ferreira Leite, Pacheco Pereira e Cavaco Silva, nos idos de 2008 e 2009, e lá encontrar os ovos da serpente. Na altura, pareciam apenas ovos podres. Azar o nosso, estavam a ser chocados pelo ódio pestilento.

SNS, espírito de Abril

Esta tomada de posição – 41 médicos em defesa do SNS [PDF oferta de Rosalvo Almeida] – envergonha-nos. Porque não estamos ao lado deles, assistimos alienados aos ataques constantes dos que pretendem lucrar financeira e ideologicamente com a diminuição da qualidade e da extensão dos serviços prestados pelo Estado no âmbito da saúde, uma das mais decisivas conquistas do 25 de Abril; e dimensão fundamental da segurança dos cidadãos mais pobres e mais isolados, mas também de uma classe média portuguesa endemicamente periclitante, a custo sobrevivendo na fímbria de uma ilusão de conforto consumista, e sempre a resvalar para a pobreza.

Por razões familiares, a partir do Verão de 2018 estive muitas vezes em contacto com os profisisonais do SNS, a começar pelas idas às urgências. Entre Outubro e Janeiro de 2019, fui duas vezes por dia a Santa Maria nos dias úteis, e também uma vez por dia ao fim-de-semana, visitar um doente. O espectáculo dos pacientes em macas nos corredores era constante, onde ficam até haver vaga nos quartos ou terem alta. E constante o espectáculo do profissionalismo com que aquele aparente caos das necessidades e crises dos acamados, das actividades dos auxiliares, enfermeiros e médicos, e das vagas de confusão e conflitos provocados pelas visitas, era gerido. O meu intenso convívio ensinou-me que há variedade de atitude no pessoal que corporiza o SNS, como seria inevitável, mas havendo uma enorme maioria que se orgulha da excelência médica e da missão de serviço público que o SNS representa e concretiza. É para o SNS que os privados mandam os seus doentes quando as coisas correm mal por azar, inépcia ou falta de equipamentos. E uma evidência se impõe, pelo menos a respeito do Santa Maria que fiquei a conhecer com essa intimidade diária: trabalhar sempre no limite da resistência exige capacidades extraordinárias e gera competências únicas face a outros profissionais de saúde que não estejam sujeitos àquela pressão.

Como se lê no texto, há uma “estrutura” e há um “espírito” no SNS. Os nossos impostos pagam a estrutura, o espírito vem da liberdade de cada um. Os ataques a Marta Temido e ao Governo por causa disto e daquilo relativo ao SNS estão sempre ligados a agentes com grandes interesses em jogo, sejam corporações ou investidores. Não aconselho a minha experiência a ninguém, por razões óbvias, mas desconfio que para muitos só algo parecido os despertaria para o que está em causa nas jogadas públicas e subterrâneas a respeito do que queremos – ou do que vamos deixar que queiram por nós – para a Saúde de todos os que habitem em Portugal, portugueses e estrangeiros.

Ócio e negócio

Uma boa negociação é aquela em que ambas as partes saem igualmente insatisfeitas

Anónimo

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Daniel Deusdado (ninguém conhece) escreveu sobre Daniel Oliveira (toda a gente conhece) para lhe dar tautau – Tal como no PEC IV, Bloco chama por Passos todos os dias A tese é a de que o BE continua a ser um partido sem enraizamento que depende da visibilidade na comunicação social, e que o Daniel Oliveira fez pressão pública sobre o BE para o chumbo do Orçamento de Estado dado continuar ligado de coração à dinâmica viciosamente táctica das opções políticas dos bloquistas. De facto, não custa a validar esta ideia, basta tropeçar nesse loquaz e nervoso comentador para ficarmos encharcados em verrina contra o PS, especialmente contra Costa. Estamos perante um general que rivaliza com Louçã na genialidade com que vêem no horizonte o triunfo da esquerda pura e verdadeira, a esquerda grande, sobre os bandalhos e vendilhões dos socialistas – a cassete sectária que de 2015 a 2019 foi posta na gaveta com os benefícios históricos que se conhece e desfruta. É esperar mais um bocadinho, dizem-nos estes imbatíveis treinadores de bancada. Se não for ainda nesta temporada que o PS passará a aprovar Orçamentos de Estado do BE, será numa outra já em produção.

Deusdado gasta apenas um parágrafo com Oliveira, o resto do texto é preenchido quase todo com aquele olhar lúcido e equidistante onde se denúncia a farsa a que a democracia fica reduzida quando o bem comum e o interesse nacional não passam de poisos turísticos que os partidos locais não frequentam, apenas se lembram deles quando agitam postais ilustrados no Parlamento dessas belezas sublimes da política e da vida em comunidade. Só estraga a coisa quando fala de Sócrates. Não porque a sua opinião seja negativa, nada de nada contra, mas porque não tem opinião. Escrever “É difícil esquecer 2011 e quem ajudou a chumbar o famoso PEC IV. Sócrates era péssimo? Sim. Mas talvez não fosse inamovível. Já o que sucedeu a seguir estava à vista: uma “troika hard core” e a maioria absoluta PSD/CDS. Do ponto de vista da esquerda, foi o pior resultado possível.” implica nada justificar a respeito de Sócrates, o que acaba por invalidar não só o argumento em causa como toda a sua honestidade intelectual. Este tipo de espasmos contra Sócrates, em que os comentadores sentem necessidade de assinalar a sua aversão visceral à pessoa, quando vêm da direita sabemos que nascem do ódio; e quando vêm da esquerda, também podendo vir do ódio (como em Ana Gomes, para dar um notável exemplo), o mais frequente é virem da burrice. O caso deste amigo, infelizmente, borrando a boa pintura.

E quanto ao voto contra do BE na votação do OE para 2021? Foi a decisão mais fácil, aquela que deu a maior satisfação, como explica o Daniel Oliveira e vai passar as próximas semanas a desenvolver. Para recusar ficar na fotografia ao lado do PS qualquer razão servia. Literalmente qualquer uma, ao ponto de ser indiferente em que número a bola fosse parar, se era preto ou vermelho. Porque o que conta para os cálculos do BE é o embrulho retórico e o efeito que ele provoca nos palcos mediáticos onde for exibido. Claro, o Daniel não lhe chama a “decisão mais fácil”, diz antes que foi a resposta da coragem à “chantagem” – como se a responsabilidade de um partido com a incumbência de governar, mesmo em minoria e face aos desafios do presente crítico e do futuro tragicamente incerto, fosse igual à do partido que se recusa a tal e ainda faz birras. A sua demagogia é, pois, de boicote e ganhos maximalistas, exigindo ao PS que trate o BE como um igual eleitoral já que precisa dos seus votos. Um tudo ou nada que o enche de adrenalina enquanto tecla furioso e se vai a eles na televisão e nas redes sociais. Também isto são os vícios do ócio a foderem as virtudes do negócio.

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Study shows active older adults have better physical and mental health
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‘Use it or Lose it’: Regular Social Engagement Linked to Healthier Brain Microstructure in Older Adults
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High flavanol diet may lead to lower blood pressure
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Eating jellyfish: Why scientists are talking up a ‘perfect food’
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Individuals may legitimize hacking when angry with system or authority
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Creating Critical News Consumers
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COVID-19 study: Meaning in life and self-control protect against stress
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Cavação

«Cavaco diz que o que mais o “impressiona” hoje é a “agressividade na linguagem dos políticos”. “As minhas relações com os políticos da oposição – do Partido Comunista ao CDS – foram sempre cordiais. Hoje, há demasiados insultos na política, demasiadas falta de respeito. E isso afasta os eleitores, particularmente os jovens, que não se reveem nisso”, lamenta.

"A mim, surpreende-me muito que o insulto se tenha tornado tão corrente no combate político – e eu participei em muitos, como sabe. Mas nunca olhei um adversário como um inimigo. Nunca ouvi insultos, nunca insultei ninguém. Agora é comum.", acrescenta.

Em concreto, Cavaco Silva diz que no seu tempo “não estávamos, um ano depois de chegar ao Governo, a culpar governos anteriores”. “Hoje, cinco anos depois, vejo-os culparem o Dr. Passos Coelho, que fez, ainda por cima, uma obra altamente meritória e tirou Portugal da bancarrota”, afirma Cavaco Silva.»

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Fonte

Trump, Biden e um puto de 12 anos

Para um europeu, ver o documentário Trump: Um Sonho Americano consegue o feito de explicar tudo a seu respeito e de tudo tornar ainda mais misterioso a respeito da América. Porque se descobre que o homem já era exactamente assim, um arrogante e megalómano vendedor de feira, logo nos anos 80. O substancial não mudou nos últimos quase 50 anos. Intensificou-se, encheu-se de televisão, e atingiu o zénite na campanha eleitoral de 2016 para a Casa Branca – em que o vimos a destruir o Partido Republicano e os seus símbolos vivos, algo que considero muito mais impressionante do que depois ter vencido Hillary Clinton. Como é que este pavão vácuo e patologicamente narcísico, incapaz de servir a comunidade, pode congregar o voto de alguém que se respeite a si próprio? A resposta é que pode porque os processos cognitivos dependem da construção da identidade, esta a gerar afectividades que moldam os processos cognitivos. Simplificando, quem tiranete ama doce papá lhe parece.

Biden esteve ainda melhor do que no primeiro debate, e pareceu ainda mais frágil e mais gago. A um ponto tal que nos podemos questionar se, paradoxalmente, o que o desqualifica como líder forte na comunicação social – a falta de carisma, o centralismo e a postura friável – não poderá funcionar como fonte de atracção tal o contraste com a voracidade caótica e irresponsável de Trump.

Se Trump voltar a ganhar passarei a acreditar, sem um bit de dúvida, que o nosso é mesmo um Universo criado num computador. No computador de um cruel puto de 12 anos.

À série


Borgen_Adam Price_2010-11-13

Esta série passou em Portugal em Janeiro e Fevereiro de 2015, na RTP, nas suas três temporadas (vem mais uma a caminho, prevista para 2022). Agora está disponível na Netflix, e o preciso momento que vivemos, em que assistimos à agonia das negociações entre o Governo e o BE (com o PCP não há espectáculo embora também haja dura negociação), é o mais oportuno para desfrutar plenamente desta pérola televisiva dinamarquesa.

Em 2015, até às eleições legislativas de 4 de Outubro e mesmo nas largas semanas seguintes, a possibilidade de o PS governar com o apoio do PCP e do BE continuava a ser para a enormíssima maioria, incluindo nela os especialistas em politica, uma quimera (metáfora que ainda vai a tempo de substituir a da “geringonça”, talvez merecendo ficar à espera dos eventuais primeiros ministros bloquistas e comunistas num futuro Executivo tripartido). Conceber esse Governo inaudito na história da nossa democracia num quadro em que o PS não teria obtido o maior número de deputados, então, já pertenceria ao domínio da pura alucinação – pelo que rigorosamente ninguém previu esse cenário antes das eleições. Porém, contudo, todavia, aqui estamos em 2020 à espera que a fórmula continue a dar frutos de estabilidade e justiça social, segurança e desenvolvimento, depois de uma primeira legislatura de enorme sucesso após o fim do bloqueio à esquerda no sistema partidário. As sucessivas sondagens mostram que não se concebe melhor solução política para o bem comum e o interesse nacional face às conjunturas económicas e sociais do presente e do futuro imediato.

Pois quem viu a série na RTP não pôde então reconhecer mais esses elementos de comunhão entre os dois países, dado que o enredo nas três temporadas pode ser entendido como um estudo das relações partidárias para conseguir acordos de governação num contexto de fragmentação partidária e fluída plasticidade ideológica na ficcionada configuração do parlamento dinamarquês – situação estranha à cristalização de décadas que o PCP impôs a seguir ao 25 de Novembro e que acabou por influenciar Louçã em 2009 e 2011, com os belos resultados que a História gravou na memória eleitoral. Mais uma razão, para os apaixonados por política, de renovado interesse a justificar o regresso ao Borgen. É ainda possível estabelecer variegados análogos entre as tipologias partidárias da narrativa, e suas figuras características representadas, com os partidos portugueses. O mesmo para os problemas políticos dramatizados, e para o comportamento dos meios de comunicação social, a um ponto de equivalência tal que chega a deslumbrar dadas as aparentes diferenças culturais, sociais e económicas entre a Dinamarca e Portugal. Também por aqui a série é altamente valiosa ao nos dar acesso a consumir um produto mediático europeu que nasce das diferenças entre os povos e, em simultâneo, esculpe a golpes de criatividade e realismo uma identidade e uma solidariedade comum, verdadeira união europeia.

E há muitas razões mais para ver esta excelente série pela primeira vez. Pese a semelhança temática, não será justo comparar Borgen com The West Wing, esse diamante de Aaron Sorkin que pertence ao panteão da TV. Nesta, a escrita intrincada e na esgalha, sempre a correr o risco de cair numa exibição vaidosa, espalha uma sofisticação e densidade que não têm qualquer paralelo com a escrita de Adam Price e sua equipa de argumentistas. A opção dinamarquesa é pelo registo não só realista, o que é duvidoso que seja o caso americano dado o seu artifício idealista, como pedagógico (a resvalar para o ingénuo?). Se fosse preciso concluir uma formação universitária em Direito, Ciência Política, História ou Filosofia para entrar a fundo no universo de Josiah Bartlet e Toby Ziegler, em ordem a nos sentirmos à-vontade no universo de Birgitte Nyborg e Kasper Juul basta estar em vias de concluir o secundário. Ao mesmo tempo, Borgen retrata fielmente as lógicas, dinâmicas, rituais e acidentes que ligam políticos e jornalistas num frenesim imparável de aproximações e separações, alianças e batalhas. E tudo isto, notavelmente, sem cair no melodrama nem procurar fazer humor.

Para mim, e não estarei só nessa experiência, o mais admirável na visão de Adam Price é ter conseguido mostrar a democracia a funcionar na perfeição sem ter cedido meio milímetro ao cinismo e ao tribalismo. As personagens são profundas quanto baste, o elenco é credível e envolvente, e há um arco narrativo que faz da decência o valor mais importante para o estadista. Um estadista que se vê a falhar como os outros, pois é humano, mas que é salvo pelo afecto e pelo idealismo de terceiros – da comunidade, portanto. Esse estadista modelo germinou na cabeça do autor da série e conheceu a luz no corpo e arte de uma actriz fabulosa, Sidse Babett Knudsen. Ela consegue o feito de vencer o estigma que penaliza as mulheres na política ao criar uma personagem cuja autoridade de líder é verosímil e inspiradora. Ficamos a sonhar com o milagre de vermos a Birgitte a saltar do ecrã e a meter-se a caminho do parlamento mais próximo. Afinal, a sua (e nossa) segunda casa.

“Contra a corrupção, a desgraça da Nação” – Hipocrisia e decadência

Portugal é o tal país onde um procurador e um juiz usaram a Lei para fugirem à Lei e assim conseguirem espiar um primeiro-ministro em funções, montarem uma golpada judicial para decapitar um Governo e um partido, e recolherem material da sua privacidade que passaram a políticos rivais e à indústria da calúnia.

Portugal é o tal país onde um Presidente da República, atentando contra a Lei, tentou manipular e perverter umas eleições legislativas lançando através de um jornal uma teoria da conspiração contra o Governo e o Partido Socialista em cima das eleições legislativas.

Portugal é o tal país onde um candidato a primeiro-ministro admitiu usar a Lei contra certos governantes por causa das suas opções políticas, e que depois de ser primeiro-ministro permitiu que a sua ministra da Justiça tivesse como bandeira política a criminalização do Governo anterior.

Portugal é o tal país onde um Presidente da República ofereceu o 10 de Junho a alguém que defende um Ministério Público criminoso ao serviço da perseguição a certos alvos ligados ao Partido Socialista e que considera que todos os políticos, incluindo quem lhe deu o palco estatal e quem lhe guardou os filhos nas instalações oficiais do Governo, são corruptos e usam o Parlamento para blindarem na Lei a continuidade dos seus actos de corrupção com plena impunidade.

Portugal é o tal país onde uma famosíssima procuradora-geral da República disse, sorridente, que se existisse no poder político a intenção de acabar com as violações do segredo de justiça – actividade criminosa praticada principalmente por agentes da Justiça – então os partidos com representação na Assembleia da República já há muito teriam alterado a Lei de forma a permitir usar os métodos de investigação necessários para descobrir os prevaricadores. Como não o fizeram, ela apenas podia abrir inquéritos inúteis e continuar a sorrir.

Portugal é o tal país onde um celebérrimo juiz disse numa entrevista que não precisava da Lei para descobrir se um certo arguido à sua guarda constitucional em fase de inquérito era ou não corrupto. E também disse que sabia de muitas histórias secretas a respeito de outros magistrados, que tinha tão boa memória que até as suas alcunhas estavam registadas, pelo que o melhor era não se meterem com ele. E também disse, noutra ocasião, que um certo juiz tinha sido escolhido para um certo processo porque o sorteio respectivo foi falsificado pela Justiça portuguesa para ter esse resultado.

Portugal, portanto, é o tal país onde quem se cala perante estes factos e enche a boca com o Estado de direito à pala da Hungria, do Ventura ou de uma aplicação para o telemóvel não passa de um hipócrita. E de hipócritas está a decadência cheia.

Começa a semana com isto

Judith Orloff on Thriving as an Empath

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Judith Orloff é uma muito simpática, e retintamente exótica, especialista em empáticos. Que se passa com os empáticos? Regra geral, acabam sempre por sofrer abusos de todo aquele que se aproxime e não seja empático. Abusos que começam por ser de atenção, depois de tempo, depois de paciência (mas não só, a lista é ilimitada). A empatia pode causar doenças, como qualquer outra fonte de tensão mental que provoque reacções e processos psicossomáticos disfuncionais.

Embora ela tenha abraçado feliz os registos new age e esotéricos próprios do tempo e lugares em que viveu a adolescência e a primeira fase da vida adulta, os seus conselhos radicam numa experiência com que qualquer um se pode relacionar (desde que empático, lá está) sem carência sequer de termos de nos questionar acerca das suas pretensões mais ambiciosas no plano da sensibilidade e da terapia.

De grande utilidade para proteger e afinar essa maravilha, a capacidade de ser o outro em nós sem o contrafazermos numa cópia de nós mesmos.