A estratégia da calamidade

 

 

Este cartaz não faz sentido. Todos sabem que não faz sentido, a começar pelo economista Louçã. E isso intriga-me, porque a malta do BE, sendo fundamentalmente burra, é também malta que exibe alguma inteligência laboriosamente construída em cima da burrice primordial. Embora não o compreendendo, eles sabem como o mundo funciona. E por isso têm a perfeita consciência das consequências para os cidadãos desta proposta. Não ignoram o enorme sofrimento que causaria uma reestruturação da dívida. Não ignoram que o que aconteceria às pensões, salário e emprego caso seguíssemos essa via. Conhecem, porque é impossível não conhecerem, o que se passou na Argentina. A taxa de desemprego de 25%. As milhares de pessoas empurradas para a miséria, forçadas a recolher cartão para vender, os Cartoneros. As milhares e milhares de falências súbitas de PME. A corrida aos bancos, as contas congeladas, os limites de levantamentos, a fuga em massa de capital. E a desvalorização brutal da moeda, que estilhaçou de um dia para o outro o nível de vida de um pais inteiro. E no nosso caso, a provável expulsão do Euro, e talvez da própria UE.

Eles sabem isso perfeitamente bem, a começar pelo líder, o economista Louçã. E eles sabem que nós sabemos tudo isso também. Porquê então este caminho, esta proposta que oferece um alvo de tal maneira gordo e suculento ao PS que mais parece um suicídio eleitoral? Que sabem que é tão radical, que assusta tanto as pessoas, que iria inevitavelmente  provocar uma fuga em massa dos eleitores para o partido rival, precisamente o que está a acontecer? É isso que me intriga cada vez que passo pelos cartazes na 2ª circular. Não faz sentido, e eu não gosto de coisas que não fazem sentido.

Por isso, vou aventurar-me numa explicação possível: é a continuação da estratégia da desgraça, inaugurada pela direita que eles tanto admiram. Desde o início da crise que toda a estratégia do PSD se virou para o “inevitável” recurso ao FMI. Durante meses, enquanto Sócrates trabalhava laboriosamente para evitar a “ajuda”, tudo fizeram para que esta se tornasse realidade. Dificultar ao máximo a governação, fazer dramas à volta do orçamento e dos PEC sabendo perfeitamente que os mercados nos observavam à lupa, celebrar cada subida das taxas de juro enquanto avisavam que estava na altura de declarar a bancarrota, de pedir ajuda, de baixar os braços, já devia ter sido pedida antes, muito antes, andamos a avisar há meses. Apostaram tudo na vinda do FMI, de tal maneira que quando viram que estava prestes a escapar, não hesitaram em provocar uma crise que impedisse que isso acontecesse. Eles já tinham avisado que era inevitável, por isso o FMI tinha que vir, desse por onde desse. E agora dizem, à boca cheia, que devia ter vindo mais cedo, não fosse a irresponsabilidade da “teimosia” de Sócrates e do PS.

O BE, que cavalgou alegremente esta estratégia a reboque da direita, quer agora fazer a sua: chamar a reestruturação, tal como o PSD chamou o FMI. O economista Louçã olhou para a situação da Grécia e da Irlanda, e apostou que iriam ser obrigados a isso mesmo, logo também cá chegaria. E não está completamente fora de hipótese, não senhor. Pode vir a acontecer. Logo, a estratégia será: esquecer estas eleições, sabendo que o voto útil iria sempre para o PS, e apostar na calamidade económica para ganhar as próximas, como o partido que “sempre avisou” que deveríamos ter reestruturado mais cedo, que poderíamos ter renegociado numa posição de mais força (onde é que já ouvi isto?), que apenas a irresponsabilidade e “teimosia” do PS e direita provocou a desgraça. Daí a recusa de sequer se encontrarem com a Troika, em procurarem fazer parte da solução. Uma calamidade económica seria o ideal para partir de vez a espinha ao PS. Estes cartazes, então, pertencem não a 2011, mas à pré-campanha para 2013.

Ou então são completamente imbecis. Essa é também uma forte hipótese.

47 thoughts on “A estratégia da calamidade”

  1. entraram em transe cataléptico com a perspectiva de 5% e vai daí saltaram um episódio para chegar primeiro que a santa aliança, da qual fazem parte. anaclectu’s xico expertise as usual.

  2. E’ claro que essa opção tem custos imediatos importantes. O BE devia oculta-lo, como o PS e o PSD têm ocultado os custos da politica que eles propoem (custo que esta hoje bem à vista) ? Devia antes dizer ” esta tudo bem, vão ver ; se votarem em nos, em menos de 3 meses, o choque tecnologico vai resolver todos os nossos problemas”. E’ isso que estas a dizer, não é…

    Se ha um problema de competitividade internacional, e ha, não existe solução sem custos.

    A unica questão é saber se os custos, ainda que moderados por empréstimos, correspondem verdadeiramente a esforços uteis para recuperarmos o controlo sobre a nossa economia e para conseguirmos re-investir aquilo que produzimos na modernização do nosso aparelho produtivo.

    Portanto naquilo que me diz respeito, os argumentos deste post so me poderiam levar a votar no BE.

    Mais, acho totalmente contraditorio acusar o BE de irresponsabilidade para depois ironizar sobre o facto de ele colocar as cartas na mesa assumindo o risco de ser transparente em relação aos custos das politicas que propõe…

    E também acho irresponsavel fazer politica como se a questão se reduzisse a uma alternativa entre fazer o que mandam os alemães e calar, ou então instaurar um plano quinquenal de distribuição de crianças para serem comidas ao pequeno almoço.

    E estou a falar das eleições que vêm ai, não das de 2121…

    Boas

  3. Pois, no que me diz respeito, este cartaz só me recorda uma coisa: que o BE contribuiu para o recurso a um empréstimo externo (FMI+FEEF). Os juros altos que temos de pagar são consequência do empréstimo que tivemos de contrair, consequência do encerramento dos mercados à venda de dívida, depois da escalada dos juros dos títutos dessa mesma dívida, consequência da instabilidade criada pela queda do governo, consequência do chumbo do PEC IV. O BE, depois de ter contribuido para isto, propõe uma solução que serias ainda pior. Por esse motivo o cartaz é ultrajante de demagogia.
    Não ouvi ninguém dizer que daqui a 3 meses está tudo bem graças ao choque tecnológico ou seja lá o que for. Mas oiço quem acredite ouvir isso. De facto, ouvimos o que queremos, também. E é por isso que olhando para o cartaz do post do Vega cada um verá coisas diferentes.

  4. Os loucos furiosos que permanecem agarrados à condenada barca do B. E. (onde eu também já naveguei, noutros tempos de maior bonança programática) não são estúpidos, nem têm qualquer tipo de estratégia para seja que ano futuro for: limitam-se a permanecer sempre na mesma sala escura das suas mentes e a repetir para si próprios “ainda estou vivo?”, enquanto batem as suas “punhetas” intelectuais olhando para riscados “filmes pornográficos” do Séc. passado, como o marxismo-leninismo e o trotskismo, fitas essas que os impediram de crescer e de ter mentalmente uma “vida sexual” normal de adultos. Só isso, nem existem mais explicações. Só, eventualmente, tratamentos.

  5. “A unica questão é saber se os custos, ainda que moderados por empréstimos, correspondem verdadeiramente a esforços uteis para recuperarmos o controlo sobre a nossa economia e para conseguirmos re-investir aquilo que produzimos na modernização do nosso aparelho produtivo.”

    Não é liquido que a renegociação da divida, com o preço obviamente elevado que teria, implique para os Portugueses esforços menos uteis do que aqueles que lhes vão continuar a ser exigidos, ainda que de forma menos bruta, por quem não tem a mais palida ideia de onde esta a ir.

    Mas isso são bocas. E’ obvio que o Socrates sabe perfeitamente onde nos esta a levar : muito longe, longissimo na rota impecavel do sucesso. Ou seja ?

    Exactamente onde nos encontramos hoje !

    (por culpa de Nossa Senhora de Crise Internacional, eu sei, isso passa num instante, o choque tecnologico vai permitir que trabalhemos finalmente num mundo sem crises internacionais, vocês vão ver).

    E por falar em Julio de Matos, guardem-me por favor o quarto n° 84, que é onde se ouvem menos os aviões. E’ certo que não tem vista, mas por outro lado não sei se acredite no que vocês dizem acerca da transferência iminente do novo aeroporto…

  6. E também estou a gostar da alta coerência da campanha do PS :

    “PS : Votem em nos que os outros são ciganos que vos hão de levar à bancarrota !

    Eleitor : Mas, não estamos ja na bancarrota ?

    PS : Não interessa, vocês haviam de ver o que seria se têm sido os outros ciganos a governar.”

    Boas

  7. joão viegas, tem acompanhado a campanha? Mas onde é que o Loucã pôs as ‘cartas na mesa’ e foi ‘transparente em relação aos custos das políticas que propõe’?
    Nunca o ouvi em lado nenhum enumerar as consequências calamitosas que tal opção traria ao País. O joão ouviu, onde?

    Leu ao menos o cartaz? Nele associa-se a criação de emprego à renegociação da dívida, é isto a transparência do Bloco?
    Tal como as nacionalizações, alguma vez o Louçã explicou onde iria buscar o dinheiro necessário para as levar avante?

    Obviamente, cada um vota como quer, mas dizer que Louçã é transparente e que devia fazer como os outros ocultando os custos inerentes à política que defende, quando não faz outra coisa, por favor…

  8. Não, cara Guida, não tenho acompanhado passo a passo a campanha. O meu comentario era mais ao post e ao cartaz.

    Não chega gritar que a renegociação da divida trara consequências negativas. Todos imaginamos que sim. A questão é saber se essas consequência são piores, ou não, do que as de continuarmos a aceitar a politica de empréstimos a troco da abdicação de tudo o que pode (e deve) reforçar a nossa economia.

    Para mim, não é assim tão liquido que sejam piores.

    Acreditar cegamente que sim foi o que fizemos, no minimo, durante os 10 ultimos anos (pelo menos). Com que resultados ?

  9. Ha ai umas redundâncias, desculpem…

    O problema é não sermos capazes de debater a questão de fundo. Quando vejo o Vega9000 esmagado debaixo do Carmo e da Trindade so porque alguém sugeriu que deveriamos pôr em causa o pagamento da divida ao preço que nos impoem, fico perplexo. Se não é essa a alternativa, então qual é ?

    E se não existe alternativa, se é herético falar nela, então porque não votam na Manuela Ferreira Leite e na politica de suspender a democracia por seis ou oitocentos meses !

    Boas.

  10. Pois então vá lá embora renegociar a dívida.
    E como é que se faz? Chamam-se os credores e diz-se:
    – Tenham lá paciência, mas só receberm daqui a quatro ou cinco anos e sem juros, ou então nem pensem em receber mais um tostão.
    ou então:
    – As nossas condições são estas, tal, tal e tal se querem assinem, se não querem chuchem no dedo!

    Mas alguém sabe quem é que é detentor da nossa divida? Não é o BCE? Não é a China? Não é a banca portuguesa? Não serão fundos de pensões pulverizados um pouco por todo o lado?
    Mas e depois onde vamos buscar o dinheiro para vivermos? Vendemos o ouro que temos para ficarmos mais pobres? Saímos do euro e vivemos outra vez de escudos que ninguém quer comprar? E que dizer dos preços que seriam atingidos pelas importações, nomeadamente o petróleo e os efeitos que teriam sobre a nossa economia?
    E onde é que íamos arranjar empregos?
    Alguém quer ser a velha Albânia da Europa?
    Esta aí alguém?

  11. Não somos os primeiros, nem seremos os ultimos a ter de renegociar a divida.

    E o discurso da Albânia também não pega. Se não somos capazes de produzir globalmente o que consumimos, então temos um problema que não vai resolver-se com empréstimos…

    E ja agora, emprestaram-nos dinheiro porquê ao certo ?

  12. joão viegas, para lhe responder seria obrigatório falar na crise internacional, mas com o joão isso não pega. Teríamos de recuar a 2008 e 2009 e lembrar os motivos pelos quais o défice se agravou, a dívida aumentou, etc. Pelo meio encontraríamos de certeza os apelos de Louçã para que se tomassem mais medidas para reduzir o impacto da tal crise, ou seja, apelos para desequilibrar ainda mais as contas públicas. Portanto, duvido que o joão queira mesmo conhecer a resposta a essa pergunta.

  13. Ó guida,
    quem dera que fosse assim tão simples.
    Já ninguém liga à crise internacional, pois acham que isso é apenas folclore do engº Sócrates (mais uma mentira, talvez), ou uma esfarrapada desculpa.
    Não temos petróleo, a nossa produção química está abaixo de cão, não temos indústria pesada, destruímos o que tínhamos na produção de equipamentos de transporte, temos uma agricultura deficiente, baseada no minifúndio com equipamento mal distribuído, inadaptado à realidade e que continua a arreganhar os dentes ao associativismo, a produção mineira é o que se sabe, a pesca não tem dimensão nem quem nela invista.
    Importamos quase tudo e exportamos quase nada. Como equilibrar o país?
    O dinheiro que nos emprestaram foi para termos juízo, modernizarmos a nossa rede viária mas sem a megalomania das auto-estradas para tudo que era lado, apostar na ferrovia e na renovação do parque industrial, redimensionar a nossa frota pesqueira, formar os nossos trabalhadores, irrigar o país, apostar nas energias alternativas, apostar forte num turismo de qualidade, criar polos de I&D, ministrar cursos diversificados mas com qualidade.
    O que se fez?
    Expo98, CCB, auto-estradas e estradas com traçados que não lembravam ao perneta, concentração dos dinheiros na Região de Lisboa, Vale do Tejo e Algarve, financiar Ferraris e casas de férias, apostar no trabalho intensivo e barato sem qualidade, apostar no crédito à habitação (uma casa para cada português), destruir o ordenamento do território, aumentar a máquina do estado, criar carreiras automáticas onde a progessão se fazia por antiguidade e não por merecimento, consolidar a fuga aos impostos com a criação de amnistias e perdões fiscais, complicar a máquina judicial, esticar até ao limite do impensável os leques salariais, criar bases para a criação de monopólios…
    Isto não foi feito nos últimos seis anos meus caros, nem nos últimos quinze… puxem pela cabecinha.

  14. Tss, tss, meu caro Teofilo M.

    Veja se fala mais baixinho, senão v. vai acabar por assustar o choque tecnologico, logo agora que ele estava mesmo a aproximar-se da gente…

  15. Interessante discussão, desculpem só chegar agora. joão viegas, tenho um problema para ti:

    Reestruturação da dívida + (A) = criar emprego

    1) Defina (A)
    2) Justifique (A) de acordo com os ideais de esquerda

    Depois falamos sobre quem realmente defende os interesses dos cidadãos.

  16. Meus caros:

    Venho a este blogue por causa dos “postes”, acutilantes, sérios e irónicos, – melhorou com as duas últimas aquisições, IM e V2000 – e dos comentários.
    A maioria dos comentários são sérios e com fundamento. Uns mais profundos do que outros.
    Neste post, tirando alguns comentários de mau gosto, confrontam-se, com seriedade, duas posições.
    Seria interessante, para mim, ler todos os argumentos, sem “peixeiradas” ofensivas.
    Confesso que esta dialéctica me leva a reflectir nas duas posições e eventualmente concluir, cá para mim, uma terceira.

    Como não sou dogmático e cultivo a tolerância, é importante assistir à defesa de pontos de vista diferentes.

    “Larga o vinho” não é argumento, mesmo perante uma provocação ordinária.
    Uma provocação ignora-se, ou desmascara-se!
    A ordinarice fica com quem a pronuncia.

    Obviamente, isto pode ser ingenuidade minha!
    Mas deixem-me sonhar!

  17. Soberba a equação de Vega9000. Venham então daí todos os economistas do BE. Toca a identificar e justificar a incógnita!

  18. Esta é facil caro Vega9000,

    1)

    Se X representa as politicas super-eficientes postas em pratica nos ultimos 10 ou 15 anos, que nos permitiram até hoje pagar os juros da divida com uma perna às costas perante os aplausos entusiastas dos nossos credores.

    E se Y representa o choque tecnologico.

    Então A = X – Y

    Ou seja : mais e melhor trabalho, menos gastos (e menos mas melhor consumo).

    2)

    O que é de esquerda é distribuir de forma mais equitativa a riqueza que produzimos. Distribuir os bens que não temos mas que vão com certeza cair do céu amanhã é precisamente o contrario, sobretudo se esses bens fantasmagoricos são pagos com a cedência dos instrumentos de trabalho necessarios para continuarmos a produzir.

    Boas !

  19. Portanto, a tua resposta será:

    Reestruturação da dívida + (mais trabalho + (-gastos)) = mais emprego

    Agora diz-me: se há menos gastos, quem é que absorve o trabalho?

  20. joão viegas, já percebemos que tu és mesmo assim.

    Pegas no veículo, arrancas, aos poucos, avanças mais ou menos bem, mais cedo do que tarde, atinges a velocidade de cruzeiro, naturalmente, as curvas vão-se tornando cada vez mais apertadas, derrapas aqui, derrapas ali e breve estás estampado. Quinze dias para sarar ferimentos. E voltas ao mesmo.

    Precisas é de estradas largas e ausência de veículos.

    O Loiça, esse sabe mentir muito bem. Diz que quer renegociar a dívida para bruxelas ver. O que ele quer é nacionalizar tudo o que mexa. Pensa que a economia é a kitchenette lá de casa. Está bem que é como é. E pequena. Mas acredita piamente que o importante é a cozinheira porque manipula os alimentos ao gosto dele. Esquece totalmente que transformar a espelunca dele num restaurante, de preferência michelin, exige obras que podem até serem inviáveis.

    Vejamos a banca. São uns ordinários que ganham demasiado. Têm que pagar mais impostos. Não têm nada que emprestar dinheiro para o imobiliário porque deve ser para aquilo de que ele gosta e aos juros que lhe apetecer. Existe aqui alguma diferença em relação às nacionalizações? Eu, que nem empresário sou, tenho que sair. É uma reunião previamente agendada. Obrigadinho por este bocadinho.

    Mas tenho que reconhecer. Existirá algum prazer maior do que privatizar sem cheta? Carago!

    Do que ele gosta? As pescas são lindas. A agricultura é um orgulho. A indústria é grossa. A piquena economia de proximidade até o lambuça. E a renovação urbana é aquela deusa bela e substancial, que ele está careca de saber que nunca irá consubstanciar em propostas concretas. Qualquer pessoa, minimamente lúcida, vê isto e corre o risco de até se lamber, meu deus.

    Lamento, Vega, mais tarde ou mais cedo, vais ficar a falar sozinho.

  21. Caro Vega9000,

    Se os nossos gastos absorvessem o nosso trabalho, como parece depreender-se da tua pergunta, não teriamos problema de endividamento, pois não ?

    A tua equação não resolve nada e é perfeitamente possivel devolver-te a pergunta (A + empréstimo a juros altissimos = mais emprego, define A e explica porque é que é de esquerda). Se A é uma boa politica, que permite criar riqueza e desenvolver a estrutura produtiva tornando-a mais capaz de responder ao mercado interno, então tudo bem.

    Mas se ha crise e se ha endividamento crescente, é porque o A seguido até hoje não era nada de especial, não achas ? Nesse caso, sera boa ideia continuar e aumentar ainda o endividamento ? Ou sera melhor pensar em mudar alguma coisa ?

    Boas.

  22. joão viegas, seria verdade se fossemos auto-suficientes. Mas tendo em conta que temos de importar uma boa parte da matéria-prima que as empresas precisam, isso nunca acontece, né? A não ser que descubras, por exemplo, petróleo em trás-os-montes, já para não falar dos tractores do Jerónimo.

    Quanto ao endividamento, se resolveres ignorar a maior crise desde a grande depressão, tens toda a razão. Como não podes, não tens, e esta conversa está rapidamente a ficar perfeitamente inútil.

    Quanto a ser de esquerda, nota o seguinte: há duas maneiras de sair desta situação. A mais simples e rápida é a reestruturação da dívida e a saída do Euro. É a preferida do Financial Times, que tem economistas que te provam isso com gráficos. Tem no entanto a desvantagem de provocar um sofrimento enorme entre a população, com uma descida abrupta do nível de vida, e pobreza a sério para os mais desprotegidos.

    A mais lenta é aguentar com os juros para não provocar o colapso súbito da economia, mesmo que isso signifique uma solução muito mais lenta e cara (em juros), mas que tem a vantagem de não provocar tanto sofrimento entre a população, sobretudo os mais pobres.

    Qual é que te parece mais de esquerda?

  23. Caro Vega,

    Quatro pontos (na verdade são 5, depois não digam que eu não avisei) para concluir pela minha parte :

    1. A questão da auto-suficiência esta mal colocada. E’ provavel que nenhum pais consiga sobreviver muito tempo fechado sobre si proprio. Não é menos verdade que a saude de uma economia nacional tem necessariamente de se medir pela sua capacidade de produzir mais riqueza do que aquela que consome. Se os termos estiverem invertidos, não ha empréstimos nem soluções milagrosas que salvem o pais em causa. Isto é que deve ser equacionado em Portugal, estamos ou não a produzir mais riqueza do que aquela que consumimos. Se não estamos, porquê e quais as perspectivas realistas de alcançar esta meta a breve trecho ? E como é que se chega la ?

    2. Não ignoro que a solução da renegociação tem custos, como o tem a da desvalorização competitiva. Tem custos mas funciona e teria sido ja implementada se ainda tivéssemos mãos na nossa politica financeira. Se deixas de importar toneladas de Yoplait, a UCAL, que produz a custos nacionais, vai ter mais procura, etc. Isso tem custos. Significa uma perda de poder de compra da população. Não haja duvidas a esse respeito. Mas funciona.

    3. E’ bom pôr os dois termos da alternativa de forma clara, mas também saber que na pratica, não estamos num mundo a preto e branco. Não tem de ser o fim do mundo ja para amanhã. Trata-se apenas de dizer : houve investimento em Portugal porque se apostou na integração da sua economia no espaço europeu ; esta integração esta a ser problematica, em grande parte porque não houve modernização tão rapida quanto se esperava do nosso aparelho produtivo. A aposta foi feita mutuamente. Os beneficios que existiram até agora (e houve obvios beneficios, basta ver quais eram os principais parceiros comerciais de Portugal em 1985 e quais são hoje) não foram apenas para nos. Temos de poder restabelecer a competitividade e proteger o nosso aparelho produtivo. Não se trata de gastos publicos à toa : nos ultimos anos fizemos contenção dos gastos publicos de forma drastica e isso não resolveu coisa nenhuma, o problema não esta ai. Portanto começar a falar em renegociar a divida não é equivalente a construirmos ja amanhã de manhã uma muralha da Albânia à volta do pais. Trata-se apenas de dizer o que muitas pessoas compreenderão na Europa : o modelo não pode ser “so te dou dinheiro se eu acreditar que tens perspectivas de te transformar a breve prazo numa Singapura da Europa”. Os Franceses não deixam de pagar salarios aos funcionarios da Corsega, ainda que não se vislumbre que ela se va transformar amanhã numa nova Hong Kong…

    4. Não compreendo que estejamos a debater como se fosse pecado falar na alternativa que existe na realidade. Se os juros do empréstimo fossem a 200 % ao mês, ainda tinhamos de aceitar porque nem pensar em renegociar a divida com o risco de nos cortarmos do Euro ? Isso não é sério. O que devemos debater é qual é o limite a partir do qual se torna obvio que continuar no Euro esta a ser contra-producente para a nossa economia. Se o BE servir para tomarmos consciência que não temos NADA a ganhar com esconder o problema graças ao dinheiro facil obtido à rasca para poder respirar mais uns meses, então sempre esta a servir para alguma coisa.

    Olha, afinal tenho um ponto 5 : O ponto 4 é que me fez reagir ao teu post. Se o proprio BE esta a propor soluções que implicam custos imediatos em termos de poder de compra, não sera um sinal que podemos falar com ele de maneira responsavel ? Devemos antes dizer “cruzes credo, rigor e defesa do aparelho produtivo ! eles devem estar parvos, vou antes ver o Passos Coelho que ele ao menos da-me ja vinte mil reis se eu penhorar o meu relogio” ?

    Boas

  24. A questão é mesmo essa, joão viegas, é que os juros não são a 200% ao mês. Há um ponto a partir do qual esse sofrimento intenso da população se justifica, porque a alternativa é pior. Ainda não estamos nesse ponto, e tudo devemos fazer para o evitar, na minha opinião. E o partido que defende a renegociação já nem sequer se mostrou disponível para ajudar o país nos encontros com quem cá veio para nos ajudar a evitar a bancarrota, e já defendia isso antes sequer de saber quais eram as condições.
    Portanto, ou o BE concorda com o remédio duríssimo dos economistas liberais do FT, e nesse caso lamento mas não é de esquerda, ou então há outra coisa qualquer a funcionar. Eu sei qual é. Mas não te digo.

  25. Não interessa personalizar a discussão em torno dos líderes, ou dos Partidos políticos actuais. Podemos falar apenas de conceitos e em abstracto. O joão viegas que me desculpe, mas não está a ser honesto na sua argumentação. Dizer que não se compra “Yoplait”, compra-se “UCAL” é uma panaceia simplória que não resulta nos domínos essenciais do consumo. Não se compra carne e fruta importadas e fazemos o quê, voltamos a ter 33% da população a guardar cabras e a labutar nos campos de sol a sol? Não se compram “Peugeots” nem Toyotas e compra-se o quê, só as carrinhas VW produzidas em Palmela? Não se compram viagens à “Eurodisney” e a Cancun e compra-se o quê, excursões ao Santoínho e “time-sharings” em Albufeira? Pior do que isso, não se compram LCD’s, plasmas, “Nokias”, “i-Phones”, etc. e compra-se o quê, “walkie-talkies” e mesas de matraquilhos?! Não se compra petróleo nem gás natural e anda-se como, a pé? A apanhar lenha para acender a lareira?

    O Mundinho económico ideal da filosofia do joão viegas, em que havia os Países que produziam “mais do que consumiam” já existiu na Europa. Era assim a União Soviética, a Jugoslávia e a Roménia. É ainda assim em Cuba. E era assim o Portugal dos pequeninos do Oliveira Salazar.

    Mas então eu pergunto ao joão viegas: está disposto a ir guardar cabras para a Serra da Estrela descalço e a pôr os seus filhos a aprender o ofício de ferreiro para não morrerem à fome? Para exactamente quanto é que pensa que o que se produz hoje em Portugal chega? Para quantos Polícias? Para quantos Hospitais modernos e bem equipados? Para quantas Escolas e Infantários? Para quantos pensionistas?

    Há quem queira resolver o problema retrocedendo, na prática, ao tempo dos senhores e dos servos. Não o diz assim, mas o objectivo é esse. E há os que querem manter a equidade com a maior Justiça social possível, sem comprometer os objectivos de crescimento e modernização (que só “falharam” na estreiteza das suas têmporas). Depois há os que pensam como as crianças, a sopa não presta, quero é o chupa-chupa, e pensam que os Pais só são amigos se lhes fizerem as vontades…

  26. Eu sabia que não devia ca voltar,

    Caro Marco Alberto Alves. O PIB evoluiu desde 1985, não evoluiu ? E a ideia é que evolua mais. Para que isso seja possivel, é sustentavel defender que poderemos eternamente gastar mais do que aquilo produzimos ? Não é, pois não ?

    Levantar esta questão, que não tem nada a ver com a divida (pois claro), é necessariamente pugnar por uma economia administrada com planos quinquenais ou estar a colocar a primeira pedra da constução do Gulag ? Não é pois não ?

    E ja agora, porque é que a divida é um problema ? Não passa tudo de uma birra momentânea dos credores que, não tarda nada, vão cair de novo em si e emprestar-nos Euros a potes, aceitando que o reembolso esteja 100 % garantido pelos empréstimos vindouros ?

    Não estou a defender que devemos ir guardar cabras para a serra da Esterla (seria mais ovelhas, por acaso até cabe referir que a produção de queijo da serra não chega para abastecer o mercado interno, apesar do preço altamente proibitivo, efeitos da crise com certeza, e também manter a floresta, com muito menor custo do que aquilo que somos obrigados a gastar numa so das nossas famigeradas “épocas oficiais de incêndios”, enfim adiante).

    Falo na indispensavel modernização das nossas estruturas produtivas (de “produção”, e “produto”, como em “PIB”), o que implica que elas não sejam destruidas, ou que seja possivel reconstrui-las. Ha solução que não passe por ai ? E se não ha, é ou não legitimo interrogarmo-nos sobre os efeitos de continuarmos a seguir uma politica seguida nos ultimos 10 ou 15 anos (ou mais) com os resultados que sabemos ?

    O que não me entra na cabeça é que vocês desatem aos berros quando sugiro que o problema é produzirmos mais riqueza do que aquela que consumimos. Mas vocês imaginam alguma saida de outra forma ? Em nome de quê ? Ha por ai quem se tenha obrigado a pagar-nos pensões de invalidez ?

    “Economia”, dizem vocês. Ora bem, não sei o que vocês entendem por isso, mas para mim não se trata da ciência de se colocar em posição ver aplicado o artigo 138 do Codigo Civil (mais uma importação, alemã).

    Outra coisa : eu nem sequer estou a dizer que excluo completamente que a opção do empréstimo deva ser seguida. Estou a dizer que ele não vai solucionar nenhum problema de fundo, e sobretudo que não vai solucionar a questão de saber como fazer para evitar estarmos na mesma situação daqui a uns dois ou três anos…

    Esta é que devia ser a questão debatida.

    Boas !

  27. joão viegas, fala “na indispensavel modernização das nossas estruturas produtivas”. Ao contrário do que diz, as políticas seguidas para atingir esse objectivo não foram as mesmas nos últimos 10 ou 15 anos. Nos últimos 6 anos, Sócrates apostou e investiu em ciência e tecnologia como nunca antes se tinha feito. À conta disso, os cientistas falam de uma produção científica sem paralelo no passado e isso tem tido um impacto muito positivo em muitas empresas nacionais dos mais variados sectores e consequentemente na qualidade das nossas exportações. Por exemplo, Portugal passou a exportar mais tecnologia do que a que importa.

    Agora pergunto-lhe eu, há solução que não passe por aí?
    A ver pelos seus ‘comentários’ acerca do ‘choque tecnológico’, julgo que tem outra solução. E é uma pena se não a partilhar connosco.

  28. Caro joão viegas, então vamos lá ver se nos entendemos reduzindo ao mínimo o perímetro desta discussão (que o tempo não dá para tudo).

    «O PIB evoluiu desde 1985, não evoluíu? E a ideia é que evolua mais. Para que isso seja possivel, é sustentavel defender que poderemos eternamente gastar mais do que aquilo produzimos? Não é, pois não?»

    Não existe qualquer relação entre o crescimento do PIB e o défice externo. A menos que defenda que os americanos estão a pensar deixar de ver o seu PIB continuar a crescer só porque também possuem um défice colossal. Deixamos esta questão para os Economistas, porque como provei ela não nos leva a lado algum, de acordo?

    «Levantar esta questão, que não tem nada a ver com a dívida (pois claro), é necessariamente pugnar por uma economia administrada com planos quinquenais ou estar a colocar a primeira pedra da constução do Gulag? Não é, pois não?»

    Não será, mas não foi disso que falei. O Portugal de Salazar não tinha a economia estatizada, nem verdadeiros planos quinquenais (para além de umas vagas orientações designadas “Planos de Fomento”), nem «Gulag», mas nem por isso deixava de ser um paradigma perfeito de País miserável mas com as contas externas certinhas, tal como os do “Comecon”. O que digo é que nos tornaríamos um País pária se decidíssemos renegociar a nossa dívida externa, o que nos levaria a uma situação de “albanização” comparável à do salazarismo, ou do gonçalvismo (o que é irrelevante para a questão que estamos a debater).

    «E já agora, porque é que a dívida é um problema? Não passa tudo de uma birra momentânea dos credores que, não tarda nada, vão cair de novo em si e emprestar-nos euros a potes, aceitando que o reembolso esteja 100% garantido pelos empréstimos vindouros?

    Não estou a defender que devemos ir guardar cabras para a serra da Esterla (seria mais ovelhas, por acaso até cabe referir que a produção de queijo da serra não chega para abastecer o mercado interno, apesar do preço altamente proibitivo, efeitos da crise com certeza, e também manter a floresta, com muito menor custo do que aquilo que somos obrigados a gastar numa so das nossas famigeradas “épocas oficiais de incêndios”, enfim adiante). Falo na indispensavel modernização das nossas estruturas produtivas (de “produção”, e “produto”, como em “PIB”), o que implica que elas não sejam destruídas, ou que seja possível reconstruí-las. Há solução que não passe por aí? E se não há, é ou não legítimo interrogarmo-nos sobre os efeitos de continuarmos a seguir uma política seguida nos últimos dez ou quinze anos (ou mais), com os resultados que sabemos?»

    Claro que temos de produzir mais e consumir menos. Isso é indiscutível. Mas o joão parece não se aperceber de que o FMI também teve de nos resgatar quando ainda não consumíamos à maluca como agora e quando ainda tínhamos o nosso “aparelho produtivo intacto” – as tais pescas, a indústria têxtil, o calçado, etc. -, pelo que a resposta não passa por “restaurar” o aparelho produtivo tradicional, passa quanto a mim por desenvolver ou criar um aparelho produtivo o mais consentâneo possível com as nossas potencialidades: seja ele baseado no Turismo, na cortiça e no Vinho do Porto, na indústria tecnológica, ou na Pecuária. Não tenho óbviamente respostas. Isso deve surgir do nosso esforço e da nossa procura incessante do que sabemos produzir melhor do que os outros.

    «O que não me entra na cabeça é que vocês desatem aos berros quando sugiro que o problema é produzirmos mais riqueza do que aquela que consumimos. Mas vocês imaginam alguma saída de outra forma? Em nome de quê? Há por aí quem se tenha obrigado a pagar-nos pensões de invalidez?»

    Bom, não me parece que estejamos aos gritos, nem vejo onde é que eu disse algo de diferente do que defende neste seu parágrafo. Mal-entendido sanado?

    «“Economia”, dizem vocês. Ora bem, não sei o que vocês entendem por isso, mas para mim não se trata da ciência de se colocar em posição ver aplicado o artigo 138º do Código Civil (mais uma importação, alemã).

    Outra coisa: eu nem sequer estou a dizer que excluo completamente que a opção do empréstimo deva ser seguida. Estou a dizer que ele não vai solucionar nenhum problema de fundo, e sobretudo que não vai solucionar a questão de saber como fazer para evitar estarmos na mesma situação daqui a uns dois ou três anos…

    Esta é que devia ser a questão debatida.»

    Parece-me que está a confundir questões estruturais, de fundo, com questões conjunturais delicadíssimas, como o cumprimento escrupuloso do Memorando do assistência económica e financeira ao Estado português. Embora relacionadas, são questões muito distintas.

    Quanto à segunda, parece-me que estamos conversados. Quanto à primeira, se calhar temos de aceitar Portugal tal como ele é. Sem fatalismo, mas com muito realismo. Não é possível transformar um Diesel de 80 cv num Fórmula Um. Nem concertê-lo num Diesel de 250 cv em meia dúzia de anos e de “intervenções correctivas”.

    A Europa tem de aceitar o “atraso” do seu Sul, assim como a Itália faz à Calábria, a Alemanha faz à Turíngia, a França faz à Córsega e Portugal faz aos Açores, à Beira, a Trás-os-Montes, ao Alentejo e ao Algarve (pois é). Experimente aplicar as suas medidas de “consumir em função do que produzam” a estas Regiões portuguesas e verá o que acontece à unidade nacional. Assim deverá ter de pensar a Europa – sem prejuízo da Justiça que é um alemão ter sempre muito mais salsichas do um português tem chouriços.

  29. Ola,

    OK com o realismo e com o comentario da Guida (as minhas bocas ao choque tecnologico não pretendiam dizer que investir em R&D é mau, é obvio que a solução também passa, em parte, por ai). E OK com a tonica geral que consiste em dizer que temos de saber combinar o combate às dificuldades de conjuntura com a reforma da estrutura. Acho que isso é pacifico.

    Uma nota apenas sobre “Isso deve surgir do nosso esforço e da nossa procura incessante do que sabemos produzir melhor do que os outros”.

    Isso é ilusorio. Nenhum pais conseguiu “produzir melhor que os outros” sem começar por produzir para o seu mercado interno. Não tudo, como é obvio. Os dinamarqueses não produzem o azeite que consomem, nem os chilenos a cortiça com que engarrafam o vinho (pelo menos acho que não produzem, alias agora fazem rolhas de plastico). Mas nenhuma economia se desenvolveu sem se tornar primeiro capaz de assegurar os fundamentais para o seu mercado, e isso implicou sempre proteger as suas estruturas proprias.

    E’ que se o programa é candidatarmo-nos a região pobre da Europa, cometemos um erro em 1985. Não era a adesão à CEE que deviamos ter pedido, mas antes a venda directa do pais à França ou à Alemanha, como a Corsega fez no século XVIII…

    Pessoalmente, com a incrivel vantagem retorica de estar errado, continuo a pensar que estamos a dramatizar inutilmente a questão e que não estamos a ver o obvio : a renegociação vai acontecer mais cedo ou mais tarde (ja viram o que pagamos de juros), com os sacrificios que sabemos. Os beneficios de retardarmos essa realidade vão existir, mas não vão reverter para a nossa economia. E os custos no fim, vão ser muito parecidos.

    Mas talvez seja porque, das encostas da Serra da Estrela, com o nevoeiro que esta que nem me deixa bem ver o meu rebanho (bendita manta que me protege do frio, com o seu suave cheiro a chicote) não consigo ver bem a sillicon valley de Miraflores, onde se estão a fazer os ultimos preparos da solução iminente dos nossos males.

    Boas

    Não faço um PS sobre o meu voto, porque receio que seja apenas um post scriptum…

  30. João Viegas, o último parágrafo, em particular, era escusado. Dir-se-ia que estás a menosprezar as capacidades científicas dos portugueses. Não te fica bem, nem adiantas nada com isso.

  31. Sim, para além dos graves problemas económicos, financeiros, culturais e demográficos, temos igualmente um dramático défice de “massa crítica”, quantitativa e qualitativa, para podermos discutir com serenidade e de forma construtiva a melhor forma de nos governarmos. Já um sábio romano escreveu isso.

    Mas o toque a rebate “à produção”, que já era praticado no gonçalvismo pelo Costa Martins, precisa de um tempero fundamental de que o Povão carece para acreditar nos governantes: temos de inverter a asneira adquirida de que “para distribuir, é preciso primeiro criar riqueza” para a máxima oposta e correcta: não falem em “criar riqueza” enquanto não se perceber que a mesma é para distribuir com Justiça!

    E, já agora, sem prejuízo de tudo o que possamos fazer pela Serra da Estrela e por todas as veigas, várzeas, socalcos, pastagens, florestas, estufas, viveiros, aviários e fábricas, fabriquinhas e fabriquetas deste País de mercadores, não se ganha nada menosprezando os diversos “mini-sillicon valleys” de que já nos vamos orgulhando, de Miraflores a Talaíde, ou do Monte da Caparica a Aveiro, Porto e Braga. Certamente que muito do nosso Futuro passará sobretudo por aí…

  32. Ora essa, cara Penélope,

    Tenho pouquissimo a dizer sobre as capacidades cientificas dos Portugueses, a não ser talvez que acredito estarem em directa relação com o seu dominio da lingua.

    Ora, sob esse prisma, e salvo melhor informado, não vejo como se pode ler desprezo no meu ultimo paragrafo, a não ser talvez em relação à minha capacidade de visão, que é por natureza limitada…

  33. João Viegas, se troças, e troças, claro (não fui a única a notá-lo), do trabalho científico e do que ele pode contribuir para a competitividade das empresas e a melhoria da nossa economia e da nossa afirmação a nível internacional, também tenho pouquíssimo mais a dizer-te sobre isso.
    Por princípio, diverte-te desconversar. Tudo bem, crias polémica, com a qual, diga-se, nada tens aprendido. É pena é não apresentares uma boa solução para a nossa auto-suficiência em tudo (ideal nobre que defendes), desde minério, a maquinaria, automóveis, tecnologias, alhos, leite, comboios, peixe, trigo, petróleo, etc. Lembro-te que, apesar de tudo, satisfazemos com produção interna mais de 70% das nossas necessidades de bens alimentares. E aproveito ainda para te lembrar que, se nada comprares aos outros, eles nada te vendem.

  34. joão viegas, então as suas bocas ao choque tecnológico (despropositadas, diga-se) pretendiam dizer exactamente o quê? Que é tudo igual, que as políticas são sempre as mesmas e todas conduzem inevitavelmente ao desastre?
    Tratar tudo da mesma forma, fazer ruído por fazer, achincalhar o que se faz mal e o que se faz bem, esta incapacidade de valorizar o que deve ser valorizado, independentemente da cor do Governo, parece-me que é um dos graves problemas que ainda temos pela frente e que não se resolve com resgates financeiros nem com renegociações seja do que for…

  35. Calma ai e ja que apregoam que se distinga o que esta bem e o que esta mal, releiam o que eu escrevi e respirem fundo.

    A aposta no choque tecnologico não surtiu resultados, pelo menos suficientes para evitar a crise que temos. Isso não quer dizer que não deva haver aposta no R&D, mas também não quer dizer que é boa ideia continuar a considerar que essa aposta chega para a resolução de todos os nossos problemas. Não chega, pelo menos a breve prazo não me parece que possa chegar. Infelizmente.

    E agora se quiserem inventar que insultei os cientistas portugueses e que sou culpado de ter um espirito negativo perverso contrario ao interesse nacional, estejam à vontade que não me importo de vestir a carapuça.

    A unica coisa que me interessa, contrariamente ao que v. escrevem, é ver melhor onde estão as respostas às minhas perguntas, ainda que elas não estejam onde eu imaginava, hipotese que encaro com a maior descontracção.

    Por isso mesmo é que as coloco (as perguntas), alias, em vez de me dedicar aos prazeres impolutos de cantar hinos…

    Boa continuação

  36. João Viegas,

    A aposta tecnológica não surtiu resultados pelo menos suficientes para evitar a crise que temos? Mas uma não é causa da outra, nem tem efeitos sobre a outra,onde está a relação lógica? Países tecnologicamente mais desenvolvidos que o nosso sofreram e vários sofrem ainda os efeitos da crise: EUA, a Alemanha (ainda a braços com uma dívida demasiado elevada e com os bancos falsamente em bom estado) , a Itália, a Dinamarca, Reino Unido.
    O choque tecnológico serve para preparar o terreno para a nova vaga de desenvolvimento. Se surtirá efeitos ou não é algo que só se saberá daqui a vários anos, isto se quisermos ter uma abordagem séria.
    Quanto à produção nacional, tem de competir no mercado global e é isso que determinará a sua sobrevivência. Vale a pena apostar em tudo o que possa sobreviver no mercado como ele é e não como sonhamos que poderia ser. O resto são palavras vãs. Até porque estamos integrados no mercado único, temos a PAC, há várias elementos que são coordenados e decididos a nível comunitário. Iludir isto é irrealista.
    Pessoalmente, adquiro produtos bons e que conheço (óbvio). Ou seja, o que é necessário é produção portuguesa de qualidade, com público alvo conhecido e que a conheça (marketing). Produção que raras vezes poderá ser de grande escala e baratucha tendo em conta a nossa dimensão e nível de vida, logo, não competindo nos preços, temos de competir com produtos bons, diferentes e em continua adaptação ao consumidor (ou então sabendo criar a necessidade no consumidor). Para inovar é preciso investigação científica.
    A menos que desejemos que Portugal seja eternamente a China da Europa. E nem a China será sempre a China como a conhecemos agora.

  37. joão viegas, mas quem é que disse que a aposta na ciência era a solução para todos os problemas? O joão é que puxou o assunto e não foi para reconhecer que esse é um dos caminhos que temos de percorrer, pelo contrário. E fazê-lo não é cantar hino nenhum.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.