A ascensão de Tsipras (3) – O cavaleiro e o dragão

Se pudesse resumir numa frase o que espera Alex Tsipras caso forme governo, seria esta: o garboso cavaleiro da armadura reluzente fará bem em recordar que os dragões têm o hábito de cuspir fogo, e há um em particular que está muito zangado. E é importante, antes do mais, reconhecer que os alemães têm razões legítimas para estarem zangados. Apesar de terem beneficiado enormemente com a zona Euro, o abandono do Marco Alemão em favor do Euro foi feito com a promessa muito específica de que não haveria transferências da economia alemã, ou seja, dos impostos alemães, para os restantes países. Isso, sabemos hoje, era mentira. Não sendo a UE uma federação com um governo central, a promessa baseava-se unicamente no compromisso pelos restantes estados que se portariam bem, não gastariam demasiado, e não aldrabariam as contas públicas. Ou seja, que cada um gastaria conforme as possibilidades do seu tamanho, e não pelas possibilidades do tamanho total. Daí a regra dos 3% de défice, e a importância por vezes maníaca com que era relembrado aos estados, apesar da própria Alemanha e França não cumprirem em várias ocasiões. Mas a mentira passava despercebida.

Depois veio a crise financeira, e logo a seguir a Grécia. E o que significava a moeda única veio ao de cima. A mentira revelava-se, para pânico e negação dos países mais poderosos. E o desespero de ocultar a realidade – que o sarilho da Grécia era também o sarilho dos restantes países – levou a uma “ajuda” de má-vontade e com condições punitivas, para prolongar no eleitorado nórdico e rico a sensação que era um problema “grego”, que os gregos teriam que resolver com muito esforço da parte deles, e sem esforço algum dos primeiros. Isto teve duas consequências: em primeiro lugar, uma recessão que tornou impossível qualquer recuperação da economia grega, por mais reformas que fizessem. Em segundo, assinalou aos mercados que a moeda única se calhar não era assim tão única, que a união era um tigre de papel pouco disposta a defender o seu próprio território. E como resultado dessa decisão, os dominós começaram a cair uns atrás dos outros, cada vez maiores: Irlanda, Portugal, Espanha, em breve Itália, e por aí em diante e cada vez mais rápido. Tudo porque a União recusou e ainda hoje se recusa a admitir o que é cada vez mais óbvio: uma moeda, uma economia. Ponto final.

Este é o dragão que Tsipras se propõe enfrentar. Não é impossível, mas terá que ser no entanto bastante astuto. Há felizmente muitos sinais de que é.

O início é óbvio, embora requeira bastante coragem: fazer saltar o dragão da toca. Isso foi feito com a promessa/ameaça de rasgar o memorando. A partir daí é que as coisas se complicam, e muito. À primeira vista, os gregos parecem ter todas as cartas na mão. Caso a Grécia entre em falência, toda a união vai atrás, com custos incalculáveis. Caso seja expulsa, e ressalvo que não há nenhuma maneira de o fazer se estes se recusarem, a primeira coisa que os mercados dirão será: já sabemos que os países podem sair. Quem é pois o próximo? E toda a União se desmorona, com custos incalculáveis. Ou seja, mal o próximo governo grego diga “recusamos o memorando”, há decisões muito difíceis a fazer por parte dos outros países, sendo que a mais segura e menos dispendiosa é continuar a apoiar a Grécia, condições ou não. Mas tem por outro lado um custo político incomportável mais a norte, e é isso que Tsipras tem de ter consciência. Os alemães precisam de salvar a face, ou sabe-se lá o que farão quando encostados à parede. E o custo do falhanço é, para os gregos, também incalculável, razão pela qual não existe, no programa do Syriza, uma única referência ao que fariam em caso de falhanço. Falhar não é pois opção.

Até agora, no entanto, creio que há bastantes razões para ter alguma esperança. Do lado europeu, apesar da retórica inflamada e de muitas ameaças, há alguns sinais encorajadores. Começo com a entrevista de Lagarde. Já disse que a linguagem utilizada me parecia bizarra, quase feita de propósito para inflamar os gregos. Houve outra coisa no entanto que me chamou a atenção: o ênfase único no pagamento de impostos, e a total ausência de apelos a “reformas estruturais” e quejandos com que a troika se entretém a fazer experiências para “salvar” as economias. A mensagem pareceu-me clara: a fuga aos impostos é o assunto crucial para a União. Resolvam isso, ponham ordem na corrupção, e as portas abrem-se. E nesse ponto, um partido de extrema-esquerda sem ligações a grupos de poder poderá fazer a diferença. A seguir, há o pânico cada vez maior com o acelerar da crise a países too big to fail, o que significa que algo terá de ser feito e a curto prazo, nos próximos três meses, e Tsipras vem no tempo exacto para influenciar o que esse “algo” poderá ser. O que não existia há um ano atrás, quando os mitos do firewall estavam mais enraizados, apesar dos avisos. Depois, há Hollande na França, para além de vários responsáveis europeus que já perceberam que a Grécia tem de ficar na União.

Tudo isto, mais os vários sinais por parte do Syriza que querem negociar – recentemente, um responsável já veio dizer que não podiam impor acordos unilaterais – dá também a ideia que será possível chegar a um acordo. E que terão a paciência necessária para as negociações mastodônticas que caracterizam a União.

Há no entanto perigos, e muitos. Em primeiro, a UE não vai abdicar do seu acordo apenas por pedido. O que significa que vão esticar a corda até ao máximo possível, provavelmente até a uma situação de falência eminente, no dia seguinte, e será necessário muito sangue-frio para evitar e controlar o pânico e consequentes tumultos. Teremos pois o privilégio de ver a extrema-esquerda a tentar manter a ordem pública, o que será no mínimo interessante. O outro perigo é o de, mais uma vez, tentar isolar a Grécia como um “caso especial”, ou seja, tentar a expulsão ao mesmo tempo que se reforçam as muralhas dos restantes, os “cumpridores”. Isto pode ser feito, e é aliás uma séria hipótese favorecida pelos países nórdicos. Se resulta a prazo é muito questionável, mas para os gregos será indiferente.

A história do cavaleiro e do dragão começa no próximo Domingo. No final, saberemos qual o reino que nos resta.

10 thoughts on “A ascensão de Tsipras (3) – O cavaleiro e o dragão”

  1. As ditaduras dos paises do sul. A miseria generalizada, legitimou quem ousou recuperar anos de atraso. lembro que a recuperação da Alemanha no pos guerrra teve o apoio da Europa, e de uma boa parte do resto do mundo.os investimentos que portugal fez,em infraestruturas rodoviarias, ferrovarias, aeroportuarias e portuarias,vão tornar depois da crise o pais mais competitivo.O que se passou no nosso pais verificou-se igualmente nos outros paises do sul.A crise internacional que começou em 2007 no sistema financeiro,veio por a descoberto e agravar dos deficits publicos e privados do pais.Ainda ontem ouvi nos pros e pros que o deficit dos privados é o dobro do diabolizado defict publico.faço uma pergunta: o diretorio nao teve responsabilidade quando deixou andar a grecia a aldrabar contas? A Alemanha até agora, foi o grande beneficiario da moeda unica,se quer continuar neste registo tem que abrir os cordões à bolsa.Achei piada quando diz:teremos o privilegio de ver a extrema esquerda (grecia) a tentar manter a ordem publica.chegou a hora? de essa malta ter alguma responsabilidade? eu com a syriza estou preocupado,mas preocupava-me muito mais se fossem os comunistas tipo PCP a ganhar as eleiçoes Termino com um numero factual do nosso pais.Em 1966 o numero de universitarios em portugal era de 30000, hoje o numero é mais de dez vezes.Acreditemos no futuro de portugal, para bem do pais e do futuro dos nossos filhos.

  2. Contada assim, até parece uma história da Carochinha que, inocente, casou de boa fé com o malandro do João Ratão que a enganou e aldrabou as contas (pobre da Srª Merkel e da Alemanha!).
    E esta história até tem um final feliz: temos em Portugal 300.000 universitários! (precariedade e desemprego dos jovens são simples pormenores, efeitos colaterais)
    Como sempre os perigosos, bem perigosos são “os comunistas tipo PCP”, metidos na narrativa a martelo, porque nestas histórias de adormecer, convém não esquecer o “papão” e fica sempre bem uma pitada de anti-comunismo (Abrenúncio! não vá o diabo tecê-las!).

  3. Edgar,a narrativa é muito teimosa. Os comunistas pagam pelo o que ainda gostam de comer.Coreia e Cuba são bons exp.Criticas ao pcp é anticomunismo.poupe-me,com esse chavão,pois o PCP e todos os outros partidos que estiveram no poder e os que estão na oposição foram e continuam a ser socialfascistas. O que dizer do pcp que cada vez que critica a direita mete o partido socialista no lote.pergunto para quê? para eternizar a direita no poder já que não chega à barreira maxima atingida dos 12% com mais ou menos operaçoes de charme? É melhor ter 300 mil universitarios do que ter 300 mil agricultores analfabetos a trabalhar sol a sol no alentejo.A superioridade moral dos comunistas terminou com o fim da propaganda e depois de levarem com o muro em cima.Admiro,alguns homens sem partido ,com vida simples e solidaria e que buscam uma sociedade mais justa,mas que não passa pelo Pcp.Para terminar, estiveram e ainda estão mais proximos de uma sociedade mais justa,os paises do norte da Europa,Suecia e Dinamarca do que todos os paises ex comunistas.Não meta no lote, ospaises anexados à força…em portugal e na europa nunca houve nenhum regime que tenham assassinado milhões de agricultores ou outros milhoes de pessoas que lutaram contra a anexação.Edgar acredito na sua boa fé,com amizade lhe digo… não acredite nos amanhas que cantam….Nota: Prefiro ser um desempregado licenciado do que um desempregado indiferenciado.As minhas possibilidades são muito maiores neste mundo global.

  4. Maria Rita, sua resposta é elucidativa, se dúvidas houvesse ficam esclarecidas. Só faltou mesmo a acusação de comermos criancinhas e matarmos os velhos com a injecção atrás da orelha.

  5. deixaram de comer criancinhas ao piqueno almoço por causa do regime, mas antes fizeram picnics com os gajos que começaram a matar os velhos alegando falta de verba para injecções. pinta outro ambiente que esse tá gasto.

  6. Edgar,essas das criancinhas ao pequeno almoço,foi uma invenção inteligente de alvaro cunhal,para desvalorizar as criticas ao pcp e ao regime sovietico.O muro não caiu,por ter sido construido com 4 baldes de areia e só um de cimento! Foi um sistema caduco e despota por falta de liberdade, que matou todas as esperanças de um dia termos uma autentica sociedade socialista.Edgar, agora estou a ler a guerra civil de Espanha.Até aqui os socialfascistas trairam o povo de esquerda espanhol com o acordo nazi- sovietico em 1939.Isto é o que se costuma dizer de vitoria em vitoria até à derrota final.Insista no erro que vale a pena.Olhe, internet não tinhamos… e se tivessemos nem de gays podiamos falar durante 100 anos…

  7. Se procurarem bem no baú ainda vão encontrar mais algumas calúnias. Como septuagenário com quase 50 anos de militante já ouvi muitas outras. Mas por muitas e variadas que sejam não conseguem esconder a realidade: o desaparecimento da União Soviética transformou o mundo para pior e permitiu que se agravasse a vida de milhões e milhões de trabalhadores, com o aumento da exploração e a liquidação de direitos laborais e sociais.
    Não são os comunistas que despedem, retiram direitos e cortam salários, bem pelo contrário, são eles os mais perseguidos por lutarem pela defesa dos direitos de todos os trabalhadores.
    Hoje, poucos se atrevem a defender o capitalismo a que eufemisticamente chamam “economia de mercado”, porque é precisamente o capitalismo (e não o socialismo) que está no banco dos réus, a debater-se com crises cada vez mais profundas.
    Não são os comunistas que ameaçam a paz mundial e levam a guerra a todos os recantos do planeta; ainda há dias correu a notícia de que um presidente decidia pessoalmente com os seus conselheiros quem devia integrar a chamada lista negra, a lista de pessoas a matar. Imagine-se o que seria se tal acusação recaísse sobre Fidel ou Chavez, por exemplo.
    Para terminar, cara Maria Rita, um esclarecimento: a guerra civil espanhola terminou em Março de 1939 com a derrota das forças republicanas apoiadas pelas Brigadas Internacionais e o Pacto Molotov-Ribbentrop foi assinado em Setembro desse ano.
    E, se não se importam, fico por aqui.

  8. Para Portugal a queda do muro foi prejudicial,por varias razões mas a principal foi a deslocalizaçoes de fabricas para o ex leste com mão de obra mais barata. Foi optimo para os povos vitimas do socialismo sovietico.Prezado Edgar não podemos descurar o internacionalismo proletario que durante anos foi esquecido.A propaganda sovietica, adoptada pelos partidos comunistas na europa,trouxe alguns beneficios para as classes trabalhadoras.Já fui à Russia,e o que eles nos dizem é que o “socialismo” foi bom para quem não o viveu.

  9. A piada que eu acho a frases como a do “jurnal i”, citado pelo anónimo parágrafo:

    «O porta-voz económico do Syriza foi uma das principais figuras do Partido Comunista do Interior até 1991 e faz parte do Synaspismos, a principal força dentro do Syriza, desde a sua criação.»

    Onde é que o pobre escriba foi buscar esta de que o “Synaspismos” é “a principal força dentro do Syriza”???!!

    Pensará ele que a grega Coligação (“Synaspismos”) de Esquerda Radical (“Rizospastikis Aristeras”) é uma espécie de “federação” de três pequenos “movimentos políticos”, chamados “O Radical”, “A Esquerda” e “A Coligação” (este a “principal força”, onde “milita” o tal Dragasakis…)? Céus, santa ignorância…

    Ah, quanto a este texto veguiano, muito bom, sem dúvida. Parabéns…

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