Um papelinho na engrenagem

As propostas de combate à corrupção que João Ribeiro apresentou na corrida a Setúbal evocaram as palavras de Seguro no discurso com que encerrou o XVIII congresso em 2011. As três prioridades assumidas para o seu 1º mandato eram as da diminuição do desemprego, do crescimento económico e do combate à corrupção. Neste último ponto, comprometeu-se solenemente a realizar uma espectacular promessa de campanha para secretário-geral, a qual pretendia “separar o trigo do joio” através da elaboração de um “código de ética” a ser assinado por “todos os membros do Secretariado Nacional e todos os candidatos socialistas a todas as futuras eleições”.

Que o tema da corrupção é relevante e grave não aparece como uma novidade, pois. Será uma daquelas conversas onde à esquerda e à direita reinará o consenso mais denso, e tão mais gorduroso e infecto quão maior for a pobreza intelectual e informativa do opinador ou o seu cinismo impotente. De resto, nem sequer Portugal terá aí qualquer exclusividade, sendo uma inevitabilidade nas opiniões públicas de quase todas as democracias. O que surpreendia em Seguro era o facto de estar a içar uma bandeira sem nenhum conteúdo substantivo para a contextualizar, apenas se agitando generalidades inanes. Consequência? Seguro alinhava conscientemente com um ambiente populista alimentado pela direita partidária e presidencial para desgastar e derrubar o anterior Governo socialista. Como as operações de difamação e calúnia foram de uma dimensão e alcance nunca antes observados nestas paragens, tendo-se pintado todas as esferas da administração do Estado como corruptas no ódio febril a que estava reduzida a direita, a escolha desse tema como pilar de uma afirmação política ou serviria para desmontar a corrupção dos acusadores ou para subscrever o seu diagnóstico. Vários foram os sinais de que Seguro concordava com a atoarda de que o PS era um coio de marginais, ao mesmo tempo que o chefe a estrear de tão suspeito partido se apresentava numa excepcionalidade moral que o tornaria imune a essas tentações. O “código de ética”, portanto, fazia parte dessa limpeza da casa e de uma nova era de transparência que iria acabar com o mal entranhado.

O tempo foi passando e de tal filtro alquímico nunca mais houve notícias. O que fomos ouvindo com repetida ênfase foram variações à volta do tema das promessas eleitorais serem para cumprir e de não se dever prometer nada que não se está em condições de cumprir. Este disco não tem parado de tocar na rádio Seguro apesar de não se ver nenhuma eficácia na mensagem; entretanto, o lado B é uma converseta também abarbatada pelo verdinho Maduro, isso de ser necessário criar “uma nova cultura política”. A actual cheira a podre, dizem em coro estes dois, e logo estes dois, ambos os dois se propondo salvarem-nos só pela fulminante emanação da sua imaculada pureza. A situação é tão mais caricata quanto Seguro se recusou a aproveitar o historial de colossais mentiras com que PSD e CDS fizeram oposição nos últimos anos, pelas quais afundaram o País, e com as quais tourearam o eleitorado em 2011. Só os seus camaradas é que lhe enchiam o peito de ar e valentia, levando-o a ameaçá-los com uma conversão por escrito à nova religião da ética segura ou a assumirem as suas vergonhas e desaparecerem de cena.

Dito isto, reconheço que posso estar enganado. Às tantas, esse código existe mesmo. Vai na volta, até já foi assinado em segredo pelos membros do Secretariado e por todos os candidatos. E ninguém me avisou por ninguém ter de me avisar. Quer-se dizer, isto de olhar para Seguro e ver uma figura que se equivale a Cavaco e Passos em sonsice, opacidade e demagogia pode não passar de uma falta de informação. Peço, por favor, a quem tiver assinado o papelucho que me faça chegar o texto lá escarrapachado ou um resumo de cabeça no caso de não ter ficado com uma cópia. O combate à corrupção, assumido pelo visionário secretário-geral do Partido Socialista como uma das suas prioridades, não pode parar e muito menos ficar encravado por causa de um papelinho na engrenagem.

11 thoughts on “Um papelinho na engrenagem”

  1. “e resto, nem sequer Portugal terá aí qualquer exclusividade, sendo uma inevitabilidade nas opiniões públicas de quase todas as democracias.” Completamente de acordo. Parece-me, também, que a política autárquica tem um papel central na ideia negativa que as pessoas têm da política.

  2. Esse não é o problema, são bandeiras que o vento rápidamente rasga!
    O verdadeiro problema será a recontagem de votos no próximo dia 30!
    O Tózé já começou a ficar preocupado com a enorme abstenção que, poderá
    acontecer … gorando as suas melhores expectativas de vir a ser p. ministro,
    que Deus nos livre de semelhante coisa!!!

  3. Quando como demais à noite, por vezes tenho pesadelos.Uma destas noites sonhei que o

    Seguro era primeiro ministro e estava na cave da sede do governo com o seu ministro das

    finanças a imprimir notas de 500 euros para financiar as promessas que fez ao povo.

    O VAL das Tretas tambem tem Pesadelos quase diarios e vomita-os logo pela madrugada

    aqui nesta esterqueira de SOCRATEIROS RESSABIADOS, para deleite de umas ovelhas

    alucinadas, mas ciosamente crentes, que se lambuzam com as dejeccoes deste

    VALborreico.

    Pelo menos permite umas boas gargalhadas e quase me mijo a rir de tanta

    esquizofrenia misogena, quando decide falar do PALHACO, de um ficcional e patetico PS

    e das SEGURAS Miserias.

    Um Must … nao pares meu. Obrigado pelas barrigadas de galhofa e pingos na cueca.

    Foda-se que sabe mesmo bem … Thanks

  4. Nã há duvida que a classe politica não presta. Mas tudo isto acontece porque os tugas são tolos, ingénuos e burros.. E o que é verdadeiramente negro é imaginar Portugal governado por gente desta, só porque os portugueses votaram neles..

    Infelizmente os tugas aceitam qualquer porcaria, até o Inferno, desde que algum aldrabão lhes prometa que isso, afinal, e o Paraíso.. mas este SEGURO nem aldrabão consegue ser, olha-se para ele e fica-se com dúvidas se ele próprio acredita no que está a dizer.. e tem de dizer muita coisa para que os patrões dele não o despeçam..

    Por isso mesmo, ainda que se deseje dar um chuto no Pata de Coelho, ouve-se esta abécula e perde-se logo a vontade.. A xuxaria está mesmo mal para que não consiga apresentar melhor que isto.. O que vale é que há muito mais partidos, e sempre é melhor o benefício da dúvida num desconhecido do que a certeza de um grande disparate, às mãos deste artolas

    Pode estar muito desesperado por poder, mas tem de ter o bom senso de não abusar da desgraça do País para construir o seu projecto de vida.. Se com este exemplo, todos os outros partidos lhe fizerem o mesmo quando for PM, então Portugal deixará de precisar que alguém de fora o afunde, enterra-se sozinho.. É o patriotismo à portuguesa em tons de cor de rosa

  5. adorei coio na magnífica caracterização.:-)

    e por falar em coio,PESADELOS SEGUROS, se não te disseram ainda que cheiras a poio – andam a enganar-te.

  6. PESADELOS SEGUROS,pela tua lingua, deves gostar muito de “lamber as bordas”.VASCONCELOS,nos socialistas os portugueses ainda votam,em voçes o povo nunca votou! ou por opçao,ou por não haver eleiçoes,por falta de meios democraticos! que vos pariu!

  7. quanto a joão ribeiro,acho bem que fale em etica numa cidade cada vez mais empobrecida,por uma gestão comunista.quem quer investir naquele antro a cheirar a bafio? a dependencia, causa efectivamente a resignaçao!

  8. Quando Jeronimo for eleito PM de portugal,a primeira coisa que faz é ir visitar os ex: a ex. união sovietica,a ex.rda,a ex.juguslavia. vai ser bem recebido pela ex.comunista merkel. enfim tudo ex.a europa vai-se render ao regresso do passado!

  9. Por vezes leio-o e não acredito que seja normal.. falta um parafuso qq para analisar com um mínimo de coerência. A crítica que faz a João Ribeiro à priori é injusta. Se eleito se esquecer.. bem. Aproveitar para fazer julgamento de AJS, com todos os considerandos que faz, é mal intencionado, velhaco, manhoso e revelador(?) de alguma má consciência e sentimentos mal resolvidos. Oh homem D. Sebastião morreu.. e não consta que tenha reencarnado. Quanto à corrupção e falta de transparência, tenha ela a extensão que tiver no todo, encontrou na percepção da população uma relevância que não pode ser menosprezada nos democratas. Tudo, mesmo tudo que se faça para implantar regras de transparência no funcionamento das instituições será pouco. GOZAR, DEPRECIAR O SECRETÁRIO GERAL DO PS, USANDO TRUQUES E INSINUAÇÕES.. É MÁ FÉ OU MÁ CONSCIÊNCIA.. À mulher de césar não basta sê-lo, é preciso parece-lo
    Quanto `a contribuição militante que dá para a fragilização do PS,,não sei como explicar:
    – uma explicação psicanalítica(?) … o tempo não volta para trás , nem D.Sebastião
    Trate-se no recato da sua vida privada. Esqueça AJS e ficará melhor.
    – Se estiver a ser injusta, e o defeito é meu verifique cuidadosamente a coerência dos seus escritos e a quem aproveitam.

    Não tenho qq acesso ao interior do PS, mas o que vou vislumbrando por aí,assumindo que um partido não é uma ONG, não tem que ser, não deve ser uma casa de irresponsáveis que se entretêm a espetar facas nas costas uns aos outros..
    Nisto tudo bem haja AJS que sabendo ao que ia, OUSOU AVANÇAR…
    Já agora, gostaria que este comentário fosse publicado.

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