Cabeça e pés

Para os políticos de carreira, ou à beira dela, o sentido de oportunidade é o mais valioso dos talentos. Têm de aprender a dominar os impulsos guerreiros, a lerem os fenómenos meteorológicos e naturais. Há ventos, correntes marítimas, nuvens, animais e plantas que precisam de ser constantemente observados ou escutados pois trazem consigo sinais do futuro. Isso leva estes políticos a cultivarem uma prudência tão sofisticada como a dos diplomatas, fazendo com que falem por meias ou vagas palavras, ou se calem, ou se ausentem calhando estarem enfraquecidos. Esperam pelo kairos.

A maior parte de nós pertence a um outro grupo de políticos. Nele, reina a urgência, a impaciência e a confusão. Não entendemos as demoras dos políticos de carreira, a complacência a imitar conivência. Magoa-nos a sua resistência e tolerância ao nosso sofrimento. Humilha-nos a sua evidente superioridade profissional. Eles sabem daquilo, e são atrevidos. Nós somos uns tontos, incapazes de manter um diálogo interno com pés e cabeça, quanto mais conseguir falar com um estranho, mesmo que seja esse tipo de estranho que se encontra na família, nos amigos, nos colegas e nos vizinhos. Como não falamos uns com os outros, passamos o tempo todo a falar dos políticos de carreira. Aqueles que estão sempre a falar de nós ou para nós, não percebemos bem o quê e o quando.

Isto é assim, e é assim desde que é assim. Se quisermos influenciar os políticos de carreira teremos de fazer como eles: aproveitar as oportunidades. Para falarmos uns com os outros. Com cabeça e pés.

9 thoughts on “Cabeça e pés”

  1. esta merda até parece escrita pela bécula, se te mandasses ao tejo com este texto amarrado ao pescoço dáva uma cena tipo travessia do mar vermelho.

  2. só recebi este texto agora, pelo feedly. e os outros de ontem hoje de manhã, não percebo. :-(

    em contrapartida este texto-delícia deu-me alento, sabes, portento. mas não é só preciso cabeça e pés – também urge falar com emoção.

  3. ignatz, quando tiveres tempo, deixa aí a morada do teu blogue – ou do teu canal de televisão, que és menino para já teres um no MEO – para ir lá aprender umas coisas contigo.

  4. grande verdade:” como não falamos uns com os outros passamos o tempo todo a falar dos politicos de carreira”.qualquer dia(já faltou mais) só a escoria da sociedade vai para a politica.

  5. tenho de dizer aqui e agora uma coisa: é triste, muito triste, que as pessoas que frequentam e fazem este blogue, as ausentes portanto, se intimidem e fujam perante um post assim e outros: querem máquinas a debitar informação e a lançar veneno, espalha -raiva, ao invés de apreciarem e participarem naquilo que é ser homem. fogem como se fosse preciso controlar a praga. e depois esperam dos outros, daqueles que nem sequer nos abrem as portas de casa, o melhor.

    (o que vale é que esta, a vossa, frieza e acidez não me desmotiva – antes pelo contrário, faz-me ver e querer mais. e cada vez melhor.)

  6. a maluca do riso quer entrar na coluna de taumaturgos e a gerência não lhe abre a porta. cambada de ingratos frios & ácidos.

  7. Com a maioria das pessoas é mesmo impossivel ter um diálogo politico.

    Conheço N exemplos de pessoas que não percebem o porquê dos direitos essenciais dos trabalhadores , dos pensionistas, o estado social e a saude e educação gratuitas. E muito menos conhecem a luta sangrenta, a guerra que foi , conquista-los no passado. Foram precisas duas guerras mundiais com milhões de óbitos, milhões, para que as sociedades parassem um pouco para reflectir.
    Hoje em dia tornaram-se complacentes e só percebem e reconhecem o que perderam quando de facto lhes é retirado.
    Infelizmente, quando tudo nos for retirado, teremos de recomeçar o longo calvário de o recuperar, de forma violenta, tal como acontece desde o inicio da história humana. E tudo porque a estupidez tolda o raciocinio e a apatia politica, a incapacidade de pensar para além das nossas necessidades e desejos egoistas, não está a deixar as sociedades ocidentais reconhecerem o que ai vem.
    Não vai ser bonito .

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