Um Guerreiro em negação é derrota certa

Pedro Santos Guerreiro assina uma crónica – O que é que você acha? – onde no meio de uma juliana de oportunas e fecundas perguntas se sai com esta:

Acha mesmo que o Governo não está a entrar no mesmo processo de negação em que Sócrates andou em 2010 e início de 2011 quando dizia que o Estado tinha dinheiro à vontade?

Ponto de ordem à mesa: é possível falar do passado para melhor escolher o futuro, e é possível falar de Sócrates para melhor compreender Portugal. O facto é que tanto o passado como Sócrates não saem dos discursos. Mas de quem? Não do PS, nem dos socialistas em geral, antes daqueles que o atacaram, perseguiram e não o conseguem largar por causa das dinâmicas passionais que moldam parte substantiva da vivência política. É o caso deste Guerreiro, um estimulante representante da imprensa de opinião que, in illo tempore, também contribuiu entusiasmado para o clima irracional onde o derrube de Sócrates era vendido como a salvação nacional.

Pois este Guerreiro afiança que Sócrates andou em 2010 e no início de 2011 a dizer que “o Estado tinha dinheiro à vontade”. 2010+início de 2011 dá para aí uns 13, 14 ou 15 meses. É tempo suficiente para dizer muita coisa, e muita coisa realmente foi dita. Mas onde, em que meses, mês, semanas, semana, dias, dia, horas, hora, minutos, minuto ou segundos disse Sócrates tal enormidade trazida para as páginas do Jornal de Negócios em Setembro de 2013? Este Guerreiro nunca o irá revelar pela simples razão de não ser possível encontrar uma singular declaração que sustente a sua calúnia. Porque é de uma calúnia que estamos a falar, uma calúnia não do âmbito judicial mas político. E é parte de uma calúnia maior, pois para se ter andado por aí a dizer-se que o Estado tinha dinheiro à vontade em 2010 e 2011 é preciso ser muito mentiroso ou muito louco. Sócrates, como sabemos, acumula, sendo alguém completamente louco que consegue mentir com o mais perfeito domínio racional, atestam os criadores da sua lenda.

Pois bem, Guerreiro, tenho um presente para ti:

Um dos efeitos da crise global, que acabou por condicionar todo este ano de 2010, foi a séria crise de confiança que se abateu nos mercados financeiros sobre as dívidas soberanas dos países do Euro. Esta situação, sem precedentes na União Europeia, levou à subida injustificada dos juros, e afectou todas as economias europeias. Basta, aliás, ver o que passa lá fora para se compreender a dimensão europeia desta crise que a todos afecta embora a alguns países de forma mais intensa.

A verdade é que todos os governos europeus tiveram este ano de fazer ajustamentos nas suas estratégias e tiveram de adoptar medidas difíceis e exigentes, de modo a antecipar a redução dos seus défices como forma de contribuir para a recuperação da confiança nos mercados financeiros.

O Governo português tomou as medidas necessárias para enfrentar esta situação. Com confiança, com sentido de responsabilidade e com determinação. Definiu metas ambiciosas para 2010 e 2011 que vamos cumprir. O que está em causa é da maior importância. O que está em causa é o financiamento da nossa economia, a protecção do emprego, a credibilidade do Estado português e o próprio modelo social em que queremos viver.

Sócrates, Natal de 2010

Neste discurso estão chapadas tanto as causas da crise como as necessárias e eventuais consequências da mesma, sendo o fatal cenário de não haver dinheiro em resultado da escolha da Europa por uma austeridade radical e insana. O aviso não podia ter sido mais claro: “O que está em causa é o financiamento da nossa economia, a protecção do emprego, a credibilidade do Estado português e o próprio modelo social em que queremos viver.” Ou seja, o que está em causa é um conjunto de direitos com que temos vivido nos últimos quase 40 anos. E foi exactamente isto que foi posto em causa pela acção concertada de toda a oposição, do Presidente da República, da banca, da imprensa e dos restantes poderes fácticos, fosse por actos ou omissões.

Estávamos em Dezembro de 2010, Sócrates chefiava um Governo minoritário que andava a ser queimado no Parlamento, na Justiça e na comunicação social só para fazer tempo até Cavaco ser reeleito. Disto não nos fala um Guerreiro ainda em estado de negação e cúmplice de uma derrota colectiva.

__

Tive de pagar 4 euros e tal para ler a crónica. Prova provada de que Sócrates continua a dar dinheiro a ganhar a muita gente.

4 thoughts on “Um Guerreiro em negação é derrota certa”

  1. O P.S. Guerreiro como “fazedor de opinião” já teve a sua época!
    Entrou em estado de negação no programa de análise política ” O Termómetro”,
    orientado pelo “pivot” do PSD na RTP, onde as suas classificações nem sempre
    eram justificadas ou, quanto muito, é assim porque acho ser assim!
    A vida está difícil, todos nós o sabemos, mas há outras formas, mantendo um
    minímo de rigor sobre as situações históricas recentes o que, não se confirma em
    muitos dos comentadeiros ao serviço da direita aliás, no painel que referi foi no-
    tório na sua composição; o Guerreiro, o Marcelino e a srª Graça da R. Ren., qual
    a orientação que pretendeu seguir, mesmo quando marginalmente se falava no
    anti P.Ministro José Sócrates!!!

  2. @val,

    A crónica do sucedido, nesse fatídico ano de 2011, é mais ou menos assim:

    Os laranjas andaram a ler contos de fadas sobre desvalorização interna e outras tretas pseudo-económicas. Enganaram o povo na campanha eleitoral; logo depois, munidos de maioria absoluta, governo, presidente, e coligados com o FMI e com os poderes de Bruxelas, aplicaram a receita, ao arrepio de muito do que prometeram aos seus eleitores.

    Agora, têm que ser responsabilizados pelo resultado das suas opções. Quanto do dano que causaram não se deve ao ambiente psicologicamente depressivo que eles criaram no país? Não foi isso uma auntêntica irresponsabilidade? Não se pode o PSD vir agora descartar do facto de, para além de ter acreditado na pseudo-ciência de Reinhart, Rogoff e afins, tê-la aplicado com uma convicção que só existe nos espíritos dogmáticos. Mais ainda, a política económica do PSD descredibiliza e põe em causa o sistema democrático, no nosso país.

    Em Setembro de 2012 a careca do PSD ficou à vista de todos, com a infeliz tentativa de desvalorização interna da TSU, de que os portugueses imediatamente entenderam o alcance. A partir daí, foi o descrédito. O PS é culpado de não ter seguido a onda de descrédito, de não ter saído da sua posição confortavelmente equívoca, nessa altura chave em que o povo andava a protestas, pelas ruas.

    O PS de 1975, num momento decisivo da história portuguesa, fez isto:

    http://www.arqnet.pt/portal/discursos/julho02.html

    E o que fez o PS de 2012, num momento igualmente decisivo?

  3. Foi este mesmo Guerreiro que na análise à entrevista do Sócrates (a reentrada) deu a entender que o que interessa na dívida de um país é o seu valor absoluto e não a sua relação com o PIB. Isto para acusar o Sócrates que a dívida aumentou mais nos 6 anos de governação dele do que nos 2 do Passos. Portanto, uma desonestidade intelectual.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.