Stand-up direitolas

A direita que temos, Rio incluído (como se tem visto para desconsolo dos apaixonados pela cidade), não possui ideias que valha a pena conhecer, quanto mais debater. Em vez disso, tem impérios mediáticos que exploram o cardápio da baixa política, tem poderes fácticos intocáveis, e tem Sócrates, uma armadilha onde se enfiaram vai para 15 anos e que não largarão enquanto a decadência reinar nas lideranças do PSD e do CDS. Entretanto, a esquerda reinventou-se, democratizou-se, libertou-se.

Se esta direita não parece ter jeito para a política como actividade de entrega da inteligência e coragem à sociedade e a ideais comunitários, já para a comédia o talento abunda caudaloso. No Governo Sombra, um bastião do socratismo lucrativo, o divertimento está garantido. O programa cresceu em popularidade ao se tornar cada vez mais sectário e monotemático, é uma fórmula vencedora. O Gente Que Não Sabe Estar é uma variante revisteira da fórmula, num formato que pretende imitar o que se faz na estranja mas escrito por fanáticos do calibre do José Diogo Quintela e daquilo em que se transformou o Ricardo Araújo Pereira.

No Expresso, há muito que o Henrique Raposo arranca gargalhadas dos valentes que ousam ler a sua prosa. Eis um exemplo vintage:

«O que está antes do Big Bang? Se o Big Bang é a explosão da criação, qual é a centelha inicial que causa a ignição? Os ateus que instrumentalizaram a ciência nunca tiveram uma resposta e, aliás, ficavam enfurecidos quando se fazia a pergunta. Diziam que era uma questão imprópria. Não gostavam da pergunta, porque ficavam incomodados com um pressuposto que se tornou tabu: a ciência não cria, só descobre. E o Big Bang foi criado por uma entidade que é anterior e superior ao próprio tempo da história natural. Agora, perante a maravilhosa “fotografia” do buraco negro, podemos atualizar a pergunta: o que está para lá do horizonte de eventos que suspende as leis da física tal como a concebemos em 2019? O que está para lá do buraco negro é o que está para cá do Big Bang.

De resto, são espantosas as semelhanças entre a cosmologia do cientismo (Big Bang) e a cosmologia do Génesis judaico-cristão: a explosão inicial, dizem ambas, ocorreu num dado momento. A teologia identifica uma ignição, o cientismo prefere entrar em negação e fingir que não ocorreu ignição. Ou, pior ainda, recorre ao acaso como explicação. Ou seja, o cientismo que identifica as leis fixas e previsíveis do cosmos é o mesmo cientismo que diz que, ora essa!, toda esta arquitetura racional e previsível nasceu de um mero acaso sem intenção. É um erro lógico absoluto: como é que um acontecimento aleatório pode ser a causa da imensa arquitetura do cosmos, que existe precisamente para suspender o aleatório? Dos anéis de Saturno até à ordem precisa das células do olho humano, nada parece existir por acaso. Portanto, quando transforma a aleatoriedade do acaso na centelha inicial, o cientismo torna-se místico e incongruente com a sua própria lógica interna.

A ideologia deste cientismo tecnológico (não confundir com ciência) aboliu a ideia de começo, para citar George Steiner. Durante todas estas décadas de pós-modernidade, não tivemos começos, isto é, não tivemos narrativa ou narrativas. Os filmes e romances não podiam ter um começo convencional. As nações não podiam ter sagas com princípio, meio e fim (trágico ou redentor). Estávamos suspensos no ar, porque o cientismo dominante lançou uma fatwa à pergunta mais básica e profunda: viemos de onde? Quem nos criou? Qual foi o nosso começo? Neste sentido, a fotografia do buraco negro pode ser uma libertação. Ao contrário do Big Bang, o buraco negro está ali e é impossível fugir à questão: o que está para lá do horizonte de eventos? Porque é que o espaço e o tempo se tornam moldáveis, isto é, relativos? Ora, seguindo a imaginação de Frank Herbert, até podemos conceber uma civilização humana ou humanoide capaz de dobrar o espaço para assim viajar no tempo. Imaginem que se dobra a Europa ao meio como uma folha de papel: Lisboa ficaria ao lado de Moscovo nesse espaço moldável. Mas como é que se concebe o tempo a ser moldado enquanto barro sem o recurso à transcendência? Como é que se compreende a “relatividade do tempo” de Einstein sem a “eternidade” de Santo Agostinho? Como é que se compreende o tempo enquanto variável material sem a introdução do grande tabu, Deus?»


Deus

E Assunção Cristas, muito mais económica de meios, atinge o mesmo grau de hilaridade igualmente recorrendo a esse grande folião, o Agostinho malandreco que viria a ser uma mui perniciosa e milenar influência na forma doentia como o cristianismo, o catolicismo em especial, veio a conceber a sexualidade e a natureza humana. Talvez esta confissão explique o comportamento errático, pecaminoso, da senhora nos últimos dias:

6 thoughts on “Stand-up direitolas”

  1. não tenho paciência para ler tudo, mas…entre o “fez-se luz” e o big bang a diferença é nenhuma ; e a ciência, hoje, não cria, sobretudo destrói : todos os problemas ambientais gravíssimos que temos derivam da falta de cabecinha da ciência, a jezabel do apocalipse, tal qual. ver o mundo através de factos, provas, matéria é de uma profunda limitação.
    adeus.

  2. Este texto do Raposo não me faz rir, muito menos à gargalhada.
    Aquilo que Raposo expõe é, simplesmente, a necessidade que ele sente (e muita outra boa gente também sente) de um Criador inicial. Para ele, o Universo necessita sempre de uma ultima ratio que o crie. Muita outra gente sente da mesma forma que Raposo. Não é o meu caso, que não me preocupo com essas coisas que estão fora do nosso alcance, mas respeito quem sinta dessa forma.

  3. eu gostei foi dos livros da Cristas
    tanta gente por tão pouco
    topa-se à légua que a leitura não
    é o seu forte.
    lugares comuns por assim dizer

    o Raposo c’est le fascismo mais para lá
    do que para cá—ka

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