Sê rei de ti próprio – III

A quem interessa o populismo, ou niilismo, anti-políticos, anti-partidos, anti-deputados? Depende, né? Depende donde ele vem e como ele vem.

Se vier do analfabruto, ou do deprimido, ou do xexé, ou do desempregado, ou do cínico, ou do facebookiano, é uma coisa. Uma coisa boa, porque exprime uma honestidade. Aquelas pessoas pensam aquilo. Tal e qual. Isso significa que, havendo recursos, disponibilizando-se voluntários e horas, ou dias, ou meses, aquelas pessoas trocariam os seus pensamento decadentes, anti-democráticos, anti-republicanos, anti-cidadania por outros. Melhores? Sem dúvida alguma. Qualquer coisa é melhor do que o culto da impotência, que é a única consequência do discurso contra os políticos e contra a política. A energia desses discursos é bondosa, pois contém uma ideia de justiça. Mesmo que essa ideia seja primária, ou incoerente, ou inviável, continua a ter uma certa forma que abre um espaço onde a comunicação pode acontecer.

Se vier do próprio político, do publicista, do jornalista, do empresário, do profissional disto ou daquilo, do dirigente de uma merda qualquer, é uma outra coisa. Uma coisa má, porque nasce de uma desonestidade. Aquelas pessoas não pensam aquilo. Muito pelo contrário. Se o pensassem não estariam a ocupar os cargos que ocupam, os quais dependem da manutenção de um qualquer sistema político em condições regulares de legitimidade e funcionamento para existirem e permanecerem. Invariavelmente, é a sua íntima frequência dos círculos e circuitos da política partidária e executiva que lhes dá a motivação e a confiança para simularem uma denúncia ou oposição a algo propositadamente abstracto para que não seja ameaça para nada nem ninguém.

Todavia, entre muito boa gente, daquela com vinte ou mais anos de cu sentado a olhar para professores e cheia de mundo, é comum encontrar algo parecido com o nojo quando se fala em partidos. Como se fossem antros das maiores malfeitorias. E desatam logo a contar histórias que o comprovam, ou deixam claro que as poderiam contar havendo maior recato na sala. Nascendo todos nós num planeta onde a corrupção é um fenómeno tão familiar que até nos podemos iniciar nela na própria família, bastando para tal ir aprendendo a fugir aos impostos com os pais, tios ou primos, não há grande dificuldade em dar crédito às suspeições que se ouvem com tanta regularidade e convicção. A própria comunicação social, no que poderá ser apenas uma lógica de audiências se não for uma estratégia de estupidificação geral, dá protagonismo a populistas eloquentes ou caricatos, como Mário Crespo e Medina Carreira, por exemplo, os quais amplificam e validam o seu ressabiamento e verrina através do poder mediático máximo posto generosamente à sua disposição. A descoberta de uma vocação partidária fica assim mais difícil do que a descoberta de uma vocação sacerdotal.

Um partido pode ser uma organização de dinâmica religiosa, como o PCP, utilitária, como o PSD, ou cívica, como o PS. Tal não impede que haja quem viva utilitariamente o PS, religiosamente o PSD e civicamente o PCP, et caetera. Há de tudo em todos, porque somos muitos. Mas não há substitutos para os partidos numa democracia representativa. Mesmo que o plano fosse o de arrasar com estes e criar novíssimos em folha, os problemas continuariam a ser velhinhos: a natureza humana, a dinâmica de grupos, as paixões, os interesses, as circunstâncias, os imprevistos – e o tempo, que tudo muda. Só que é nessas condições, desde a primeira assembleia da história, que se escolhem chefes. E os chefes escolhem outros chefes, ligados a si por acordo intelectual e volitivo, não necessariamente afectivo. Este é o modo como as sociedades se organizam, para o bem e para o mal, e não consta que se tenha inventado uma geringonça que nos proteja das agruras da decisão política. É no seio dos partidos, com aqueles que lá se encontram num ambiente inevitavelmente tribal, que uma parte fundamental da nossa qualidade de vida se desenha e concretiza. Logo, ou já, devemos começar a cultivar uma implacável atitude de confronto para a conversa contra os partidos, contra os políticos, contra a política. Porque essa conversa é contra ti, é contra mim e é contra cada um daqueles a quem queremos bem.

33 thoughts on “Sê rei de ti próprio – III”

  1. quer dizer que, o zé e a maria escolhem o chefe sobre promessa de mais couves e batatas, o chefe escolhe os seus chefinhos, juntos confiscam-lhes as galinhas e mandam entregar um carregamento de estrume e está tudo bem assim, o zé e a maria devem ser felizes porque à natureza humana, à dinâmica de grupos, às paixões, aos interesses, às circunstâncias, aos imprevistos nada há a acrescentar ou modificar a não ser o timbre de voz do chefe.

  2. “Um partido pode ser uma organização de dinâmica religiosa, como o PCP, utilitária, como o PSD, ou cívica, como o PS.”

    O “socialismo” do PS continua sem perceber que fala do comunismo com a voz daqueles mesmos que sempre foram inimigos do socialismo. A dinâmica que você diz religiosa do comunismo é aquela sempre necessária ao sujeito de um processo que vem quase literalmente do nada. Ou seja, a passagem do capitalismo ao comunismo nunca, na teoria marxista bem entendida, é uma passagem automática – o que acontece em Marx é a tentativa de recolher aquilo que no capitalismo é excluído como a verdade do capitalismo. E o excluído deve ser entendido quase literalmente, quer dizer, como o que paticamente não existe, de modo que para efeitos de uma prática revolucionária comunista ela trata em última análise de subtrair da inexistência uma opção pós-capitalista.

    Isto exige sujeitos empenhados num processo que tem uma íntima relação com o vazio que é o lugar do sujeito que introduz um processo de verdade* – se não houver uma verdadeira devoção neste sujeito à subtracção à inexistência de um novo conceito, um conceito verdadeiramente pós-capitalista o que acontece, quer dizer, sem essa devoção, é um inevitável afundamento na mera presença. A mera presença é o capitalismo. Esse foi o afundamento que o PS preferiu para que pudesse aceder ao lugar do poder dentro da esfera da presença.

    *Entenda-se por “verdade” não o conceito clássico de correspondência entre pensamento e presença mas, precisamente, a subtracção à inexistência de uma noção cuja verdade é precisamente a capacidade de subtrair-se à inexistência. Isto quer dizer que qualquer processo de verdade exige sujeitos empenhados nele.

    Cumprimentos,
    João.

  3. hum..pois eu acho que vegetal xéxé é quem se acomoda e não procura. com essas Verdades do post ainda tínhamos faraos e reis absolutos . ui , o status quo.

  4. ao contrário, com esta preguiça intelectual e reaccionarismo anti-político e anti-partidos é que se instalam os absolutos.

  5. “Porque essa conversa é contra ti, é contra mim e é contra cada um daqueles a quem queremos bem. “
    …pois é…o óbvio fica obnubilado quando embrulhado em exclusões…eu cá não sou politico e tal…mas onde estão afinal os ‘apolíticos’???…será até uma busca interessante…vamos lá…tipo procuro um homem… talvez isso nos ajude e encontrar mais uma das tais “verdades”… e para os então finalmente encontrados ‘apolíticos’ recomendo-lhes «o senhor das moscas»

  6. conversar, sim, sou sempre a favor da conversa. mas, implacavelmente, quem vem apelar à conversa é aquele que raramente conversa. conta-se pelos dedos de uma mão, uma contagem maneta portanto, as vezes em que aqui não faço monólogos. ora isso é indício forte de pouca política. está dito – toma e engole. e o governo e a oposição que se vão todos foder já que é a única forma que encontram no regular das relações. :-)

  7. “quer dizer que, o zé e a maria escolhem o chefe sobre promessa de mais couves e batatas, o chefe escolhe os seus chefinhos, juntos confiscam-lhes as galinhas e mandam entregar um carregamento de estrume e está tudo bem assim, o zé e a maria devem ser felizes porque à natureza humana, à dinâmica de grupos, às paixões, aos interesses, às circunstâncias, aos imprevistos nada há a acrescentar ou modificar a não ser o timbre de voz do chefe.”

    Há! A voz do Zé e da Maria a esclarecer que queriam couves e batatas e não estrume trocado pelas galinhas. Mas como o estrume ainda dá para vender e ainda dá para comprar as couves e as batatas preferem ficar caladinhos,que barafustar dá muita maçada. Resultado: não votam e vão á praia com o farnel de couves e batatas na cesta.E enquanto houver farnel o chefe lá vai mandando.Tudo vai depender de quanto das couves e batatas estão o Zé e a Maria dispostos a ceder !

  8. também se pode ver isto desde outro angulo que não a patetice do “fim da história dos sistemas políticos ” : os partidos dão muito dinheiro a ganhar às agências de comunicação , consultores de imagem e blablas propagandisticos e cada um puxa a brasa à sua sardinha , né? com esta crise , então.

  9. Até que enfim! O post «sê rei de ti próprio 3.0» foi finalmente publicado.
    Mas agora sou assaltado por uma dúvida. Quem escreveu este post? Terá sido o Valupetas «genuíno»? Ou foi só aquele Valupetas que anda a «gozar como um louco»? Estou tentado a escolher a segunda hipótese, pois era escusada tanta conversa sobre os gregos ou sobre o Maquiavel para acabar esta série de posts a defender a partidocracia como ela é. Mas também estou tentado a escolher a primeira hipótese, pois este último post é onde se revela melhor o verdadeiro Valupetas, que todos nós já conhecemos: o situacionista e adepto da «ordem natural aristotélica», ou guardião do sistema. Porque o que realmente chateia o Valupetas é a degeneração do regime, degeneração que «populistas», «niilistas» e gente «anti-partidos» promovem. Ainda não se apercebeu de que a democracia representativa, que diz defender, há muito tempo que se transformou numa oligarquia.
    Valupetas começou esta série de posts com uma abordagem materialista-histórica. A seguir procurando limpar a imagem decadente e religiosa que deixou ficar, fez uma apologia das ideias neoliberais e utilitárias no post 2.0. Como também esta forma de conceber a realidade social e politica não fica bem a um «centrista» sem ideologia, Valupetas decidiu concluir a série com um post «desideologizado» e apenas motivado por uma «dinâmica civica» e em defesa dos partidos. A conclusão da série consiste, portanto, em afirmar que o «rei de si próprio» é aquela pessoa que se apresenta como não estando comprometida com nenhum partido, nem com nenhuma ideologia, nem com nenhum projecto politico, mas apenas com a democracia e contra os ataques «populistas» e «niilistas» que a esta são dirigidos. È a conclusão politicamente correcta de quem quer esconder as suas inclinações ideológicas.
    E se esconde então estamos, de facto, perante o genuíno Valupetas: o Valupetas impostor que gosta de fazer a cabeça aos socretinos.

  10. Olá Val,

    O comunismo é uma subtracção à inexistência e nessa medida é uma não-presença. A presença é a substância ética (ou seja, reguladora e mediadora das relações sociais) capitalista. Neste sentido o comunismo é uma ideia em sentido forte, quer dizer traz a sua própria lógica consigo, subtrai-se da inexistência, ou seja, passa à existência somente enquanto é essa nova lógica. Neste sentido, porque é uma ideia em sentido forte, com a sua própria lógica, não há verdadeiro diálogo entre comunismo e capitalismo. O comunismo dialoga essencialmente com o nada, é o nada que é o seu adversário digamos assim. Este nada, a meu ver, deve ser entendido ao jeito de Alan Badiou (desculpe esta citação de nomes, mas devo remeter para o autor se me sirvo de categorias dele) como multiplicidade inconsistente ou seja uma multiplicidade que não pode ser contada por um. Isto quer dizer que o chão do comunismo, na medida em que é este nada que, então, pode ser qualquer coisa, não é coberto por alguma verdade substancial que pré-exista. A cobertura do nada como fundamento a partir do qual a ideia se subtrai à inexistência advém da própria ideia, enfim, ela cria-se a si mesma. Entre as forças mediante as quais a ideia se subtrai à inexistência e se cria a si mesma está o amor. O amor, assim, é em certa medida a primeira frente de resistância da ideia ao nada de onde ela vem, ou ela vem do nada na medida em que passa a ser amada.

    E veja ainda que é porque em última instância o comunismo dialoga com o nada que para o capitalismo os comunistas são como uma espécie de loucos. Os comunistas, no entanto, não se devem incomodar com isto, devem simplesmente prosseguir o seu caminho, que se pode dizer de devoção à ideia, o caminho de manter a ideia subtraída da inexistência esta subtração – para falar dela novamente – quer dizer também que nesta altura o comunismo não existe realmente ou positivamente ou, se quisermos, ele existe apenas como subtracção à inexistência. Este é o promeiro passo, sem ele nada vem a ser. Para que o comunismo passe da subtracção à inexistência para a existência em sentido forte é preciso uma vasta adesão de sujeitos que amem a ideia e que, nessa medida, lhe dediquem a vida. Neste momento vemos que não há ainda essa quantidade suficiente de sujeitos, quer dizer, uma quantidade que por sua natureza passe a qualidade, quer dizer, que por ela o comunismo não seja apenas uma subtracção à existência mas um evento político, a construção determinada de uma substância ética que passe a regular as relações sociais em nome dessa ideia – o que, diríamos então, resulta na construção efectiva de uma sociedade comunista.

    A experiência soviética, para ir ao busilis da questão, não pode ser dissociada do comunismo mas o comunismo não pode também aceitar a lógica capitalista de que a experiência soviética – e seus derivados – foi a primeira e última experiência possível do comunismo, que, por essa experiência, o comunismo ficou enterrado de vez. Esta é a lógica do capitalismo. A exeriência soviética, o seu claro falhanço, deve ser para os comunistas o alvo da maior atenção e o amor à ideia só o é verdadeiramente quando não só se mantém na ideia apesar do seu falhanço soviético como é ao mesmo tempo, por esse mesmo falhanço, capaz de (re)educá-la – é digamos um amor filial. Um filho que cometa um erro terrível em princípio não é abandonado pelos pais mas também não é meramente esquecido o seu erro, faz parte do amor filial não só a defesa pura e simples do filho mas nessa defesa a sua educação face aos erros que cometeu.

  11. O “João.” fala do Comunismo e de uma “sociedade comunista” como outros falam da construção de uma comunidade verdadeiramente cristã. Isto aqui não é o sítio para discussões filosóficas, mas todos sabem que estamos a falar de ideais utópicos que nunca terão outra expressão prática do que já conhecemos, desde a Inquisição como modelo de virtude aos heróis do trabalho soviéticos como modelo do Homem comunista.

    A crença de cada um é livre, e o Marxismo teve (e se calhar continuará a ter) um papel histórico indelével na construção das modernas sociedades livres e emancipadas, sobretudo no Ocidente. Mas o Comunismo como sistema político sempre foi uma quimera, desde o leninismo. O Comunismo em boa verdade nunca chegou a nascer, ou nasceu já morto, no momento em que mencheviques e bolcheviques divergem. E essa morte consuma-se no momento em que Trotski é repudiado.

    Só o Comunismo ocidental, que nunca foi poder, mas o influenciou decisivamente, sobretudo em França, com a Frente Popular, e em Espanha, durante a República democrática, teve um papel construtivo e revolucionário, ao transformar o Capitalismo selvagem, em certos casos o próprio Feudalismo que ainda subsistia na Europa, pelo menos em termos mentais, até meados do Séc. XX, é que está vivo e pode voltar a ter um papel importante no continuar do Progresso e da Civilização. Mas nunca só por si, ou sózinho, sem a Democracia, a Liberdade e a Justiça. E com ou sem o Capitalismo, que em si nem sequer é um sistema positivo, mas apenas uma forma de adequação dos impulsos primários e bárbaros do Homem às contingências históricas de cada época.

  12. Corrijo: “(…) outra expressão prática DIFERENTE DAQUILO que já conhecemos”;

    “(…) teve um papel construtivo e revolucionário, ao transformar o Capitalismo selvagem – em certos casos o próprio Feudalismo que ainda subsistia na Europa, pelo menos em termos mentais, até meados do Séc. XX – numa Sociedade mais justa e mais igualitária, diria mesmo numa Sociedade (já quase) sem Classes. Só esse Comunismo é que está vivo e pode voltar a ter (…)”.

  13. João., estás a fazer exercícios de comunismo místico. Muito bem. E uma caixa de comentários de um blogue qualquer, como este, é mesmo o local ideal para esses divertimentos.

  14. Caro Val, está dito no meu próprio comentário que o comunismo não tem no capitalismo o seu verdadeiro interlocutor portanto a sua posição e a do anel de saturno confirmam isto mesmo.
    Nesse sentido não só reconheço a naturalidade do seu sarcasmo como, mais do que isso, ele, o sarcasmo, do ponto de vista do pensamento capitalista é, no que respeita ao pensamento comunista, uma necessidade imediata – enfim, o sarcasmo capitalista em relação ao comunismo é como ser acomotedido de uma diarreia que não se consegue conter de forma alguma. É como uma merda que escorre animada de vontade própria.

    Cumprimentos.

  15. “A crença de cada um é livre, e o Marxismo teve (e se calhar continuará a ter) um papel histórico indelével na construção das modernas sociedades livres e emancipadas, sobretudo no Ocidente. Mas o Comunismo como sistema político sempre foi uma quimera, desde o leninismo. O Comunismo em boa verdade nunca chegou a nascer, ou nasceu já morto, no momento em que mencheviques e bolcheviques divergem. E essa morte consuma-se no momento em que Trotski é repudiado.”

    Mais uma vez, digo que faz parte da lógica do capitalismo ter o comunismo como um evento encerrado. Por isso novamente refiro que os ideólogos do capitalismo não são os interlocutores do comunismo, nem são mesmo os adversários porque numa luta entre adversários supõe-se que essa luta tenha um fim, ora o debate directo entre comunistas e capitalistas é um debate sem fim – debates sem fim pertencem à lógica da democracia capitalista uma lógica a que o comunismo resiste enquanto é comunismo. Então efectivamente você está de um lado e eu de outro e a ponte que nos liga não tem fim, querer atravessá-la é inútil. O meu comentário então, resume-se a ser uma apresentação. Os comentários do Val aos meus comentários mostram bem que fundamentalmente, entre capitalistas, enquanto comunista, falo para o nada.

    Reconheço que você apresenta um esforço sincero de reflexão mas isso não inibe que fiquemos separados por um infinito.

    Cumprimentos.

  16. João., és tu quem impede o diálogo, como muito bem expressas no que vais escrevendo. Por isso acabas a considerar sarcasmo o que para mim é uma descrição objectiva: estás a elaborar divertimentos adentro do comunismo místico, o qual faz uma leitura pós-histórica. Nesse sentido, mas não só nesse, há muito que deixaste de ver Marx no horizonte.

  17. João ponto, não me parece nada que fiquemos separados por um infinito. Você é um crente, uma espécie de beato numa crença que compreende mal e que, se compreendesse, ou melhor, quando compreender, porque suspeito que tenha ainda muito fôlego mental para evoluír, vai ver que nada terá que renegar de si e dos seus valores para relativizar e perspetivar com maior racionalidade. Não há mal nenhum em ser crente, desde que isso não nos deixe fechados na nossa crença.

    Se não está interessado em discutir, não perca tempo connosco. Mas não pense que é você que define a que distância alguém se encontra do Comunismo, ou até do Marxismo. Fica-lhe mal a arrogância e a soberba, quando ainda não nos impressionou rigorosamente com nada…

    Saudações cordiais e democráticas.

  18. Val, o que você chama comunismo místico é na verdade apenas a evidente consideração que num contexto adverso aos comunistas o amor e devoção à ideia é uma necessidade. É uma necessidade na medida em que marca a adesão subjectiva imediata à ideia, ou seja, não é tudo, mas sem devoção e amor não se permanece nela.

    Não sei, ainda, porque razão o amor e a devoção devem permanecer no estrito terreno do religioso e do místico.

    Veja que as ideias não surgem sem sujeitos finitos, não persistem sem a persistência de sujeitos finitos nelas – então, mesmo que Marx tenha a importância de ter lançado a ideia a verdade é que sem a adesão ao longo do tempo de sujeitos históricos que peguem na causa da ideia ela já teria desaparecido – e cada pegada nesta causa vai gerando também transformações na própria ideia que ainda hoje continua a receber importantes contribuições. A história da ideia do comunismo não é apenas a história de Marx.

    Anel de Saturno,

    você diz que eu adiro ao comunismo porque sou um beato que não compreendo bem as coisas e que se algum dia as vier a compreender que mudarei de ideias. Para mim isto indica aquilo que eu disse, a distância é infinita. Você sugere, enfim, que ou eu concordo consigo, ou seja, com o pensamento dominante sobre o comunismo ou sou uma espécie de louco delirante. Já tinha referido num dos meus comentários que essa é uma reacção normal do pensamento capitalista em relação aos comunistas – portanto não estranhe se eu de minha parte não ficar nada impressionado com essas tiradas. elas apenas confirmam a pertinência do que eu já tinha dito antes.

    Cumprimentos.

    Cumprimentos.

  19. E, já agora Val, voltando ainda ao tema do amor e devoção, não é nada difícil ver que as pessoas têm amor e devoção a todo o tipo de coisas, fora da mística e da religião, que inclusive consideramos normal – têm amor e devoção a animais de estimação, têm amor e devoção a obras de arte, têm amor e devoção ao seu trabalho, têm amor e devoção ao estudo, têm amor e devoção ao seu clube de futebol, etc – então eu posso inverter a sua crítica e chegar a sugerir que é pura e simples incompreensão da condição humana pensar que o amor e devoção só tem lugar no misticismo e na religião, que fora destes só é digna de valor uma atitude de adesão mecânica às coisas com que nos envolvemos.

    Cumprimentos.

  20. Anel de Saturno, por exemplo na obra de Deleuze e Guattari, “Anti-ádipo”, é sugerido que a fronteira que separa, dentro do domínio da auto-reprodução capitalista, que é o nosso, o princípio da normalidade do princípio da loucura é a adesão subjectiva ou não a esse próprio domínio da auto-reprodução capitalista. Então quando vimos Passos Coelho a dividir as pessoas entre piegas e heróis do empreendedorismo devemos, a meu ver, surpreeder aí uma variação desta ideia. Veja que no termo piegas está uma caracterização psicológica e embora não seja dito “loucura” a verdade é que os piegas são para ser tomados como incapazes de se ajustarem às demandas que marcam a fronteira do que deve ser tido como a atitude saudável – ou seja, a de não só não resistir subjectivamente ao que é dito como necessidade económica como ser também um fervoroso adepto dessas necessidade.

    Cumprimentos.

  21. “João., o teu tempo de atenção esgotou-se. Prometeste divertimento mas és básico demais para o gasto.”

    Como queiras. O blog, efectivamente, é teu para fazeres dele o que bem entendas.

    Cumprimentos.

  22. Ola,

    “A história da ideia do comunismo não é apenas a história de Marx”.

    Subscrevo completamente. Alias, não fosse o comunismo tão antigo como a especulação sobre a repartição dos bens na sociedade politica, e a ideia de propriedade (privada) dos bens, tutelada por regras juridicas, seria desprovida de conteudo, senão mesmo de sentido.

    Tratando-se de uma questão moral, é ponto assente que não é uma questão indiferente para a religião, ou pelo menos para a maioria das religiões que conheço. Mas isso não a transforma numa questão principalmente religiosa…

    Não é menos certo que ha algo de religioso (no mau sentido da palavra) na nossa mania de querer por força discutir esta questão com absolutos e visões idealistas radicais, ocultando que, na realidade, não temos conhecimento de nenhuma sociedade que abdique completamente do considerar certos bens como proprios, tal como também não temos exemplo de uma sociedade que considere todos os bens como proprios (de propriedade “privada”).

    E finalmente, é inegavel que, se o amigo João queria um debate teologico, veio ter ao blogue certo…

    Boas

  23. João., não estranho nada, acredite, mas se o seu consciente pensa que não se impressiona, o seu inconsciente impressiona-se e muito, caso contrário nem se daria ao trabalho de me responder.

    Como não é agressivo nem mal-educado, ainda não dou por mal empregue o tempo que gasto neste diálogo, mas só lhe digo que a sua insitsência em rotular o meu pensamento de “capitalista” apenas reforça a minha convicção sobre a sua flagrante imaturidade. O que é muito diferente de eu ter afirmado que um dia, quando amadurecer, mudará forçosamente de ideias (eu falei sómente em perspetiva), muito menos em “loucura delirante”. Veja se não lê com a emoção, que a razão é que se usa para as taregas da descodificação dos símbolos da linguagem.

    E passe bem com a sua mitologia pueril, mas lembre-se de que o Comunismo já exigiu barba rija e respeite a memória de quem lutei por ele convictamente e no tempo histórico a que ele pertence e de onde não mais sairá.

  24. Não sei se o Val ainda publicará isto mas cá vai:

    “E passe bem com a sua mitologia pueril, mas lembre-se de que o Comunismo já exigiu barba rija (…)”

    Precisamente, homens que não hesitaram em colocar a vida em risco.

    Deixo-lhe uma citação de um desses homens de barba rija que você cita – julgo que as minhas apresentações sobre o papel do amor e devoção no comunismo têm aí uma ressonância efectiva, quer dizer, aí onde de facto há barba rija:

    “Correndo o risco de parecer ridículo, deixem-me dizer-lhes que o verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor.” (Che Guevara)

    Quanto ao que diz o João Viegas, bom é a cassete capitalista. Se se der ao trabalho de ver o programa e posições do PCP quanto à propriedade privada verá não constam as teses que você atribui ao comunismo.

    Mas volto a dizer, a diferença é infinita também porque o pensamento capitalista julga que a sua verdade assenta em alguma instância válida em e por si mesma, é enfim resultado ainda do pensamento pré-crítico. Para os comunistas que já são pós-críticos (pós Kant) não há uma tal substância senão aquela que resulta do pressuposto da actividade e pensamento dos homens, o capitalismo pensa que existem leis em si mesmas que o pensamento descobre lá no reino onde habitam, já o comunismo, precisamente por ter a matriz pós crítica, nomeadamente levando em consideração o trabalho de Hegel – de onde Marx recolher muitos dos seus fundamentos – parte do princípio que não existe um tal mundo das leis no seu próprio reino, que, efectivamente, a lei pressupõe a actividade da auto-consciência sem cuja a lei se reduz a indeterminação. Basicamente, então, o que é lei não é senão o que recai sobre uma determinada mundividência como aquilo mediante a qual essa mundividência se actualiza e sustenta. Mudando-se a mundividência mudam-se as leis.

    “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
    Muda-se o ser, muda-se a confiança;
    Todo o mundo é composto de mudança,
    Tomando sempre novas qualidades.”

    Enfim, se isto ainda passar, termino aqui a minha participação neste debate pois que é evidente que a partir daqui só restará a repetição de uma diferença insuperável.

    Cumprimentos a todos e obrigado ao Val pelo espaço concedido.

  25. Amigo João,

    Eu não pretendia magoa-lo ao concordar consigo. Mas não seja por isso, se assim prefere, passo ja a discordar.

    Por exemplo, agora parece-me que v. exclui que tenha existido comunismo “pré-critico”, o que é um pouco contraditorio com o que v. dizia mais acima…

    Acredite, se quiser falar de comunismo (coisa que é de facto diferente do programa do PCP, este ultimo não esta em causa no meu comentario), deixe momentaneamente de lado os tratado de teologia, o Kant, o São Badiou e essas tretas, e procure pensar pela sua propria cabeça.

    Dito por outras palavras, procure apropriar-se a ideia de comunismo, e vai ver que apos este exercicio, ela se prestara muito mais ao uso comum…

    E, por favor, não me chame de capitalista, que eu, apesar de não ser membro nem simpatizante do PCP, sou muito longe de ser isso.

    Em suma, não se deixe ludibriar pelos teologos, sejam eles do partido, ou meros Valupis de papel.

    Boas

  26. “Acredite, se quiser falar de comunismo (coisa que é de facto diferente do programa do PCP, este ultimo não esta em causa no meu comentario), deixe momentaneamente de lado os tratado de teologia, o Kant, o São Badiou e essas tretas, e procure pensar pela sua propria cabeça.”

    Caro João Viegas espero que perceba que o que você aqui sugere é que eu pense como você julga que eu deva pensar.

    Desculpem ter insistido e voltado já depois de me ter despedido.

    Cumprimentos.

  27. Se eu julgo que você deve pensar pela sua propria cabeça ?

    Julgo, sim.

    Mas você é livre, como é obvio.

    Boas

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