Rui Rio e a lama

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Alguém se recorda de ler ou ouvir Rui Rio a insurgir-se furibundo contra o “jornalismo na lama” e contra o “abandalhamento dos mais elementares princípios de relacionamento humano” numa qualquer outra altura ou a propósito de um qualquer outro assunto? Ninguém, nem o próprio. De certezinha absoluta, tal não se encontra no seu canal Twitter e nas suas declarações públicas desde que se tornou candidato a presidente do PSD e até à actualidade. Mas esteve próximo em 2014 – Rui Rio confessa-se “em choque” com a prisão de Sócrates – embora nem aí tenha chegado à ira dos idos de Novembro de 2019. Motivo para a explosão twittada? É ver, ver a parvoeira em questão, e pensar no que isso diz de Rio.

Umas beiçolas à mostra deixam um candidato a primeiro-ministro pronto para defender com a vida os mais elementares princípios de relacionamento humano. Então, como explicar que esse mesmo candidato a primeiro-ministro tenha feito uma campanha eleitoral onde traiu os mais elementares princípios do respeito pelo Estado de direito, da presunção de inocência, da separação de poderes, da ética republicana, da honestidade intelectual e da integridade de carácter? Como explicar que esse mesmíssimo candidato aceite conviver calado com uma indústria da calúnia onde foi buscar munição assim que desistiu de brincar aos políticos decentes e corajosos?

Causticar o jornalismo por causa de um inane exercício de pulhice do Expresso que só rebaixa quem o fez e encher aí a boca com a grandiloquência dos “princípios de relacionamento humano” quando temos uma indústria da calúnia que diariamente amplifica crimes e disfunções de magistrados ao serviço do comércio e da agenda política da oligarquia, que trata como criminosos sem defesa possível cidadãos inocentes até prova em contrário, muitos nem sequer ainda acusados nem se sabendo se alguma vez o serão, que devassa e explora a privacidade até de testemunhas em processos, eis o retrato de um chefe político impotente. Impotente para defender a cidade.

Não admira que o Twitter de Rui Rio seja um espectáculo de amadorismo bacoco e egocentrismo transparente. Ele dá muito mais valor à sua imagem, tal como a concebe no mundo pequenino que habita, do que aos mais elementares princípios da vida em comunidade num Estado de direito democrático. Foi exactamente por isso que resolveu encher de lama as legislativas de 2019.

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