Os últimos e os primeiros

Estava curioso a respeito da ida de Sócrates ao Fórum TSF. Isto porque todos os dias oiço o programa, pelo menos parte. Quem tenha a mesma experiência, e já lá vão anos e anos e anos deste hábito, sabe que os jornalistas que conduzem as emissões são de um profissionalismo inexcedível. E sabe que não se faz qualquer tipo de manipulação editorial das participações, pois a mancha opinativa que chega à emissão é plural. Invariavelmente. E também representativa das flutuações sociológicas e respectivas comoções psicológicas inevitáveis na população. Assim, esperava que a brigada dos desvairados, raivosos, catastrofistas, anti-socráticos e saudosos de Salazar aparecesse em massa como o faz todo o santo dia.

Ora, nada disso aconteceu. Em duas horas de emissão, só se ouviu um participante a colocar uma questão nascida de uma análise negativa para o Governo e Sócrates. Um único! As restantes questões opositoras vieram pela mão da jornalista que as repescou na Internet. Mas ainda mais estranho foi constatar que as perguntas, especialmente as primeiras, eram chapadas cábulas partidárias, artificiais no texto e na leitura. A coisa foi de tal maneira que Sócrates, no começo da segunda hora, manifestou o seu incómodo, ou surpresa, com a situação. Seguramente, também ele se tinha preparado para outro ambiente.

É sabido que os partidos recorrem a estes estratagemas, e sempre o fizeram. Ser militante é também, ou preferencialmente, para isto mesmo: militar. O irónico no episódio está em Sócrates ser um dos raros políticos que só tem a ganhar quando é afrontado. E isso mesmo pode ver-se no programa. As suas melhores respostas acontecem quando tem de acolher um ponto de partida que o desfavorece, pois não só aproveita para ser pedagógico, desmontando a argumentação na berlinda, como também transmite ainda mais notas de sinceridade no discurso, posto que se emociona sem qualquer filtro. Esta sua natureza afectiva, que os pulhas atacam apodando-a de falha de carácter, é uma configuração da personalidade. Sócrates, como outros políticos de variegadas ideologias e épocas, é um tribuno sanguíneo e bélico – ou seja, apresenta-se inteiro em cada disputa, oferece-se generoso ao seu adversário sem malícia. Recapitula-se nele a lição da Íliada que associa a bravura no campo de batalha com a competência oratória numa assembleia. Isso, como temos visto, e em especial por ser feito em Portugal, foi um choque para uma casta decadente de políticos.

O aspecto mais relevante nesta história, porém, acaba por ser o exacto simétrico do que está na origem da algazarra. Os infelizes do costume – onde se misturam apoiantes do PSD e CDS com seres cognitivamente em muito mau estado; não sendo fácil, ou sequer possível, a triagem – largaram a sua inevitável manifestação de impotência. Mas a imparável ferocidade com que perseguem e caluniam qualquer declaração de agrado para com Sócrates, Governo e PS sugere que já atravessaram o Rubicão, quer o saibam quer não, para uma implacável intolerância onde não admitem a liberdade de expressão. De facto, e existem as sondagens que o suportam, Sócrates tem uma sólida e vasta base de apoio. Este grupo de pessoas tem resistido a continuados anos de assassinato de carácter para com o seu líder, num ataque como nunca se fez antes em Portugal. Alguns até poderão ter vacilado e cedido à pressão, mas podem estar de volta; e agora com defesas que não tinham no passado, calejados. Para todos eles é legítimo o sentimento de solidariedade, tanto política como pessoal, e o desejo de a expressarem directamente ao próprio. Sob qualquer ponto de vista, estatístico ou logístico, nada impede que grande parte dos que telefonaram para o Forum TSF tenham sido espontâneos com esta motivação, a que se somaram os eventuais militantes para uma emissão que mais parecia uma sessão de esclarecimento a meio do congresso do PS.

Sócrates já não é apenas um político que faz muito bem o que o seu partido espera que faça, lutar pelo Poder numa democracia. Por razões que um dia serão estudadas pelos carolas, Sócrates é também a maior ameaça conhecida à nossa endógena cobardia. Ele não escolheu ter esta importância cultural, mas há muitos que o escolhem como exemplo a seguir ou a perseguir. Que os últimos odeiem os primeiros, eis o que não carece de um Fórum TSF para ser compreendido.

16 thoughts on “Os últimos e os primeiros”

  1. “Por razões que um dia serão estudadas pelos carolas, Sócrates é também a maior ameaça conhecida à nossa endógena cobardia”. Não posso estar mais de acordo.
    Dizia Brecht que “descobrir o insólito no quotidiano” é um desafio à nossa condição de seres inteligentes, criativos e transformadores. Não é normal que baste o simples acto de defender Sócrates como político para remeter quem o faz para uma etiqueta de amiguismo político, cegueira ou insanidade. De saudar a recente posição de Eanes (que até apoia o outro lado da barricada, infelizmente) na entrevista em que condena a diabolização constante e injusta de Sócrates dizendo que na sua primeira fase governamental fez importantes reformas mas que não há dois Sócrates mas um só homem. Que me lembre foi a primeira figura conhecida que teve a coragem de o fazer, não deixando por isso de ter uma posição política diferente.

  2. Ate me custa dizer que subscrevo inteiramente o Valupi nesta sua esclarecida e esclarecedora análises sobre Sócrates, porque me sinto um tanto seguidista. Mas que hei-de fazer se tudo aquilo é verdade?

  3. Aparte o panegírico (acho que o Valupi consegue ser muito mais objectivo, para além de mordaz, na crítica dos adversários do que na defesa daqueles que apoia), não deixo de registar a sua observação de que se se esperaria que os militantes acorressem em catadupa, o mesmo seria de esperar dos críticos, com base na critério do ‘first come, first served’ que vigora nos fóruns da TSF. Ora, que só uma voz crítica se tenha erguido, mostra bem a falta de coragem pela banda os adversários de Sócrates (porque há muitas críticas sérias que se podem fazer ao homem e à governação do PS). Parece que as catilinárias são sempre lançadas quando o adversário está de costas…

  4. Como diz o Jaime Santos “aparte de panegírico” eu diria mais, aparte da sabujisse trauliteira ………….

    Ó Valupi, esse tipo de discurso laudatório parece-me contraproducente, quem ler os teus texto fica a pensar que falas de um qualquer deus, oh pá não será bem isso…..

    Pela minha parte, entre escolher entre dois “diabos”, escolho o menor deles ;-). Se votar no Sócrates não é por acreditar nele, é para tentar evitar males maiores……………

  5. Claro que a reacção a este Fórum nos blogues de direita não se fez esperar com insinuações de que tudo foi manipulado para que Sócrates não fosse confrontado com críticas negativas, como se não tivesse coragem ou argumentos para as rebater. Pois, eu lembro-me de em 2009, em período pré-eleitoral, ter havido um encontro inédito de Sócrates com bloggers. Numa altura, como em todas, em que o primeiro-ministro era arrasado dia sim dia sim numa boa parte da blogosfera. Não me recordo de terem sido escolhidos unicamente bloggers ‘amigos’, por exemplo, não consta que lá tivesse estado o Valupi ou os autores do Câmara Corporativa, havia de tudo. Mas lembro-me que a coisa correu muito bem, Sócrates teve argumentos para todos e nenhum dos mais hostis conseguiu dizer-lhe na cara os disparates que repetiam nos respectivos blogues. Enfim, entre muitas outras coisas, padecem de falta de memória.

  6. ou então a entrevista foi totalmente manipulada… quem ganharia com o “crime”? -Sócrates, quem manda nesta estação de rádio? – O PS!.
    A propaganda tem destas coisas…

  7. Boa tarde,

    Só um esclarecimento sobre tudo isto. Embora não concordando com o que está expresso, devo dizer que os militantes de qualquer partido, quando o seu lider vai há televisão, faz um comicio ou á rádio como é o caso são devidamente informados com um ou dois dias de antecedência. Neste caso como em outros lideres partidários anteriores que foram á TSF eles receberam um SMS no dia anterior com a hora que começava as inscrisões no forum. Claro que isto não obriga aos militantes se inscreverem para defender o seu lider mas é uma forma implicita de o fazer.

    grato pela atenção,

    Rui Abreu

  8. Meu Caro,

    é o que dá quando se manipulam quer as RGAs, como qualquer outra reunião onde ninguém arrisca o que é seu, viva o profissional da coisa. Só na assembleia geral da empresa onde somos sócios, aí não, que custa caro. Ficam sempre a falar sozinhos.

    O tempo deu-te uma patine de luxo, escreves como um Camões.

    Não queres parecer, mas és um verdadeiro produto da casta dos “inteiros”, como se diz dos bravos da lezíria. A transumância já começou, vai tudo comer onde abunda.

    A seguir sabes o que acontece? Devia saber, não te fies no anonimato, é muito curto.

    A Isabelinha já está encaminhada e tu?

  9. cidadão presente, bem lembrada a declaração de Eanes, a qual corresponde ao que se deve objectivamente dizer de Sócrates. Vinda de Eanes, apoiante de Cavaco na reeleição, teve especial valor.
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    Mário, também eu me sinto um seguidista. E espero nunca deixar de o ser, desde que continue a seguir a minha consciência. É isso que deixa os ranhosos furibundos.
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    Penélope, não dou dinheiro a esse jornal, pelo que vou ter de esperar que saia no Abrupto.
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    Jaime Santos, exactamente. Também estava à espera que aparecessem os mais fanáticos anti-Sócrates para lhe dizerem directamente o que repetem todos os outros dias.
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    Ibn, vais votar PS? Quem te viu e quem te vê. Estás todo queimadinho.
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    guida, Sócrates, no Fórum da TSF, disse várias vezes que tinha todo o gosto em discutir com opositores e que o fazia a cada 15 dias no Parlamento. Ele estranhou a falta de contraditório na sessão, é o que fica bem marcado pelas suas palavras.
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    Manolo Herédia, acaso ouviste o programa?
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    Scevola, pois foi isso mesmo que escrevi.
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    o Vitelo, agrada-me muito essa tua referência aos “inteiros”. Se não te fizer diferença (ou mesmo que faça) é dessa forma que tenciono manter-me.

  10. Eu ouvi o Forum como , aliás , faço diáriamente e achei que até Sócrates estava um pouco supreendido mas constatando a confirmação das sondagens.

  11. Val, garanto que a primeira vez que abri o meu link para a página do Público podia ler-se o artigo! Afinal não. Também não gasto um tostão com esse jornal, mas como conheço quem gaste…

    Como muita gentinha que odeia Sócrates, os argumentos são viscerais e totalmente irracionais. O artigo tem o título significativo de “o diabo”.

  12. Ó IBN ERRIQ, olha que para fazeres jus ao nome que usas devias ter mais apreciação pelo Sócrates! Olha que lutadores determinados como o teu Afonso há alguns na nossa História, mas Sócrates figurará seguramente nela como um dos maiores! E estou com o Valupi, estou-me nas tintas para os que me chamem seguidista e outras merdas que tais. Violentaria, sim, a minha consciência se, com medo do que me possam chamar, hesitasse em estar ao lado de quem indiscutívelmente o merece.

    Só ouvi este Forum TSF depois de ter lido o Valupi. É que deixei pura e simplesmente de ouvir estes “fora” (é assim que deve dizer-se, não é?!) porque me cansava a deprimente má-língua a que, com uma monótona insistência, se resumem. Quase sem qualquer espécie de contraditório. Por vezes são até os “moderadores” e os “convidados” que dão o tom!

    Acontece, porém, que neste, em que Sócrates se prestou a dar a cara no papel de “convidado”, a surpresa foi total. Apenas uma ou duas interpelações claramente contra o que surpreendeu o próprio convidado. É este um fenómeno sobre o qual acharia interessante ouvir reflectir os ilustres comentadores deste “nosso forum”. Eu tenho uma opinião, mas gostaria de confrontá-la com a vossa. Muito obrigado desde já!

  13. VLUPI, é verdade, já várias vezes aqui o escrevi, voto PS pela 1ª vez na vida um facto simples. O resto é muito PIOR à esquerda portaram-se como inconscientes e inconsequentes, à direita o Pedro Pomposo Coelho a mim não me convence o carrapatoso (homem de mão do PPC) dá-me arrepios na espinha. Foi giro ver ontem um fulano do mais não sei o que no expresso da meia noite, coitado…. não fossem o professor da católica e o Nazaré serem uns tipos educados e o fulano tinha saído muito mal da coisa.

    Por isso, se gosto do JS? Não não gosto!

    ANIPER, de facto algumas das qualidades do JS são a combatividade, a resiliência e a resistência, não fossem os restantes “pecadilhos” e tínhamos provavelmente um dos melhores PM que Portugal poderia ter, assim olha……..

    Quando às semelhanças entre o Afonso-I e o JS não se ficam só pela combatividade, como bem sabes, tanto o nosso PM como o nosso primeiro Rei, têm também em comum o facto de não não precisarem um dia para dar o dito por não dito e falharem os compromissos assumidos, enfim é a nossa sina! De qualquer forma o Nosso Afonso-I devia ser um gajo que sabia o que queria e que tinha o projeto de nação, já o JS é que não sei.

  14. É uma pena que em Portugal não haja o hábito de fazer um jantar anual com os media como acontece na casa branca, nesse humortistico e “descontraído” ambiente inclinado para o sarcasmo Sócrates poderia responder à letra, como Obama aqui tão bem faz.

    O video oficial do nascimento de Obama, para que não restem dúvidas.

    http://www.youtube.com/watch?v=2bqEn8AXzJ4

  15. Não deixo de dar-te razão, IBN ERRIQ! De facto, em resultado dessas tropelias do Afonso quem pagou as favas foi o Egas! Mas vamos lá! A História é a História e ela é feita de tantos e tantos pecados, meu Deus! Mas olha que perante o facto de ter fundado uma nação que vai a caminho dos nove séculos de existência, a História já há muito absolveu o teu Afonso desse pecadilho!

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