Os finlandeses, esses simplórios

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Teve justo sucesso a peça mui bem esgalhada de promoção da marca Portugal lançada no encerramento das Conferências do Estoril. E sucesso entre portugueses, a quem se dirigia inconscientemente num lapsus video que Freud não precisa de maçar-se a explicar, pois nós compreendemos bem que algumas daquelas informações, mesmo trabalhadas como discurso humorístico, não são do conhecimento público nacional ou nele não encontram memória, nem celebração, nem imaginário. Daí, estarmos perante um falso título, cuja versão original se lê em palimpsesto: O que os portugueses precisam de recordar acerca de si próprios.

Uma das provas de que o filme se estava a marimbar para os finlandeses consiste na ausência de qualquer referência ao facto de termos Portugal, enquanto nome e património histórico, associado a um dos mais importantes fabricantes de relógios de luxo: IWC Schaffhausen. A sua colecção mais valiosa e reputada chama-se Portuguese. E um dos modelos da família leva a extraordinária designação de Portuguese Grande Complication. Extraordinária porque descreve uma característica técnica desse relógio relativa ao número de funções que desempenha (quantas mais complicações, mais complexo e raro é o relógio), e extraordinária porque se aplica na perfeição ao tempo que vivemos e ao povo que somos quando toca a ter de assumir responsabilidades colectivas.

Os finlandeses, excelentes rapazes e ainda melhores raparigas (são gostos, calma), não têm nada que consiga rivalizar com esta opulência lusitana que inspira os suíços e se passeia no pulso de milionários dos sete mares. A vulgaridade dos seus Nokias provoca-nos uma homérica gargalhada e revela-os como simplórios que são, ignaros do fausto a que se pode chegar após 8 séculos de grandes, enormes, complications.

6 thoughts on “Os finlandeses, esses simplórios”

  1. Então e diz-me lá: que tens a partilhar com a malta acerca das nativas desse país fresquinho? Isso é que é informação necessária, que horas são vejo depois.
    :)

  2. shark, tenho pouco a dizer. O que lamento.
    __

    Primo, fui ver a teu pedido: simultaneamente hilariante e deprimente, e quão mais hilariante mais deprimente. Um feito incrível.

  3. porreirex este artigo.
    Também gostei muito do video e do seu efeito “cá dentro” e sinto-me devidamente honrada por ter sido agora apresentada ao Portuguese Grande Complication

  4. E é de dar, isso das homéricas gargalhadas aos Nokias (que há 20 anos eram também o expoente máximo em modems de especificação militar).

    Infelizmente, além das tais já citadas e dadas homéricas, restam-nos talvez as conservas Pitéu e quem sabe um ou outro pirilampo mágico vendido em Suonenjoki.

    Neste momento só exportamos maus políticos e seres boçais que passam por faróis da intelectualidade nacional (e que bem vistas as coisas talvez o sejam de facto).

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