Os 18 dias que não mudaram o Egipto

Na CNN, os repórteres vão perguntando aos egípcios: O que sente/sentiu com o afastamento de Mubarak? Nada que interesse se pode responder, claro. Em todas as estações televisivas internacionais, com emissão a partir da Praça Tahrir, os jornalistas repetem esta pergunta só para obterem a mesma inanidade. E mostram-se contentes, querem ser veículos amplificadores da excitação à sua volta. A festa é contagiante ou mandatória.

Celebra-se o fim de 30 anos da tirânica autoridade de um homem que se preparava para uma sucessão dinástica, não a chegada da democracia. Mubarak tornara-se o boneco de vodu do regime que, subitamente, era possível espetar com agulhas, rasgar e mandar para a fogueira. É a esta catarse que os egípcios chamam liberdade. Mas se estivéssemos perante uma revolução, o povo não teria tido o apoio de todos os militares – todos, os mesmos que garantiram durante três décadas a segurança do ditador finalmente amaldiçoado em público.

A rua egípcia ainda nem sequer sabe lucidamente o que não quer, quanto mais saber o que quer.

13 thoughts on “Os 18 dias que não mudaram o Egipto”

  1. Assim é. Esperemos para ver o que vai, e quem vai, «armar» o exército a partir de agora.
    Uma obra faraónica, a construção de uma democracia por ali, à beira do Nilo.

  2. È sempre engraçado ver os tudólogos de serviço opinarem sobre outros povos. Os “egípcios sabem”, os “egípcios não sabem”, “coitadinhos dos egípcios”. Se o paternalismo e o etnocentrismo pagassem imposto estávamos todos ricos. E se respeitassem os egípcios e os deixassem escolher o modelo de sociedade que querem?
    É extraordinário como determinadas pessoas, que nunca se preocuparam com a ditadura de Mubarak, andem agora tão preocupadas com as escolhas do povo egípcio…
    Grandes democratas!

  3. Imagino o cegonhão que apanhaste quando viste todos aqueles egipcianos na “rua” dos teus pesadelos. Só para premiar a tua sensibilidade, um dia ainda te vão dar o Nobel da Ciência de Não se Fazer Mal a Uma Mosca Para não Incomodar o Menino. Qualquer gritinho, um erguer de braços, uma pedrada de resposta, crescentes flamejantes e sirocos quentes, põem-te o coração em alvoroço. Se fossses neutro ou bem intencionado, ou falasses com conhecimento de causa, deverias antes dizer que Liberdade ainda vai no dia 1, precaucionando as pessoas, apresentando temores e receios. Mas não, viraste-te logo ao murro contra pràticamente toda a gente, pobres jornalistas, e não usaste o sapato sabe-se lá porquê.

    Tudo pode acontecer, pois, mas o facto, por enquanto, é que nada ainda aconteceu que te dê o tal prazer íntimo que fará explodir o teu orgasmo muito especial.

    Lembra-te do teu herói: “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Mas a alma daqueles gajos é grande, essa é que é a merda. E não estou a pensar nos militares quando digo isso.

  4. Realmente não entendo este post…

    No 25 de Abril o povo saiu à rua depois dos militares, como em grande parte das revoluções, uma manifestação como esta no Egipto não tenho memória de acontecer. Eles saíram à rua e passados uns dias apareceram os militares, que tinham duas opções, ou esperavam como o fizeram sem escolher uma posição certa, mas sempre fazendo alguma pressão para a mudança, ou faziam um massacre e arriscavam guerra civil.

    Quem é que os obrigou a estas duas opções? O povo!

    Não há revoluções sem os militares, é o último bastião da segurança de um povo, é o último braço armado do Estado. Mas quem fez esta revolução? Foi o povo. Para quê? Simples como a água – mudança. E é mais que certo que as coisas estão a mudar. Para onde? Não se sabe, são milhões de pessoas, cada uma com a sua opinião. Eles querem democracia. A ver se é isso que vai acontecer. Uma coisa é certa, qualquer coisa que corra mal, o povo egípcio sabe sair à rua. E nós?

  5. Penélope, nem mais.
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    rui mota, quem é que não está a deixar os egípcios fazerem não sei o quê? Se tens informações desse calibre, vais fazer uma fortuna.
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    Kalimatanos, larga o tintol.
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    Miguel Bordalo, no 25 de Abril alguns militares tomaram o poder, o povo limitou-se a assistir. No Egipto, os militares continuam a ser o poder. O que o povo imagina que fez não se chama revolução, mas golpe de Estado. E, aparentemente, no próprio interesse dos militares. Se daqui nascer a democracia, processo lento e altamente complexo, então, sim, terá chegado a revolução.

    E nós, o quê? Alguém te impede de ir para a Praça do Comércio pedir o derrube do Paulo Sérgio?
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    Maula, valha-nos!

  6. Valupi,

    Ou és vítima de manipanço desconhecido ou andas a ler muito o “Jerusalem Post”. Seja como for, aconselho-te, para os futuros, a eriçares a crista com muito cuidado e só em assuntos que possam ser lavrados no terreno da filosofia com cheirinho a Platão.

    Não me dizes (nunca dizes nada, não sei que feitio é esse) mas palpito que andaste durante esta “crise” no Egito 10 ou 15 dias com suores frios na área do garganil a imaginares guilhotinas, cutelos e movimento de tropas yarmulkikas no Sinai – é o que eu penso. Se tivesses encostado a cabecinha ao meu ombro amigo, tinha-te feito uma festinha e estou seguro que ficarias mais bem preparado para enfrentares a tempestade. Continua assim e não te vou propor para ires a exames.

  7. Claro que o post de Val é mt lúcido e contra a corrente de quem, parece, nada aprendeu (nem se interrogou ) nas últimas 2 décadas…
    É a minha opinião, oh democratas puros e inocentes (somente) !

  8. maria pires,

    Sim, os egípicios, os árabes (que sei eu?) não têm tradições de cidadania.
    Viveram séculos sob o domínio do império otomano (que não era dado a essas coisas), depois foram colonizados pelos ingleses/franceses e, após a II guerra, por governos militarizados e armados pelos EUA, franceses e não só. Como podem estas alminhas saber o que é a liberdade? Pior, como escolher o “modelo” certo? Então não se está mesmo a ver que só pode ser uma democracia ocidental? Se não for a bem, vai a mal. Se necessário, com a ajuda do exército local, que recebe 1,5 mil milhões de dólares/ano dos EUA para manter a “irmandade muçulmana” em respeito. Claro, a gente sabe que o Mubarak era um filho de puta, mas sempre era o nosso filho de puta, não é verdade? É cá um alívio…

  9. Muito bem. É exactamente isto que eu penso: o Povo egípcio não lutou por nada mais do que por uma vitória simbólica (e logo contra um velho fraco e cansado – que heróis!). Por detrás dela ainda não se vê nada com substância, disso ninguém tem dúvidas. Em tudo quase o oposto do 25 de Abril, apesar do que “sentem” os que não o viveram…

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