Misteriosos são os caminhos do Senhor

O prelado afirmou que “uma das características da sociedade moderna é o individualismo e a indiferença na relação com as pessoas”, pelo que, destacou, há que encontrar “uma nova maneira de viver”, focada na partilha e na caridade.

Arcebispo de Braga, Jorge Ortiga

__

O santo bispo não nos disse em que período da História começou a referida “sociedade moderna”, daí nem sabermos a que século se está a referir. Talvez esteja a remeter para o mundo pós-II Guerra Mundial, ou para o século XIX, ou para os alvores da Industrialização, ou para o Iluminismo, ou para as 95 teses de Lutero, ou para as Descobertas, ou até para essa modernice chamada Renascimento. Só ele e Deus sabem, posto que a notícia não desvenda o enigma. Mas tal ausência deixa intacta a oportunidade de lembrar ao santo bispo que Jesus foi um magno exemplo dessa subida sabedoria que ensina a viver o individualismo de modo radical, porque a fé é uma mística, e a cultivar corajosamente a indiferença na relação com as pessoas, porque a fé é ascese e desprendimento.

Num outro recanto deste berbicacho bracarense, pedir a alguma santa alma que informe o santo bispo dos milagres que as sociedades modernas já conseguiram realizar para benefício das multidões e dos miseráveis nesses capítulos dos direitos, da saúde, da educação, da segurança, da qualidade de vida e da liberdade.

26 thoughts on “Misteriosos são os caminhos do Senhor”

  1. sabes, eu penso que há alturas em que o hábito não faz o monge e não consegui ver no que ele disse qualquer conotação política nem religiosa. o que li foi: já que o caldo está entornado vamos ser solidários a ponto de partilhar não só o que ainda ficou no prato mas também o que verteu. e interpretei o conceito de sociedade moderna como aquele sem tempo – o tempo moderno que não tem tempo para dar tempo. nem para amar.

  2. Não entendeste bem o (arce)bispo. Ele estava a comparar a sociedade actual com as nossas primitivas sociedades tribais e, no limite, com os formigueiros e as colmeias. Aí, sim, é que resplandecia a verdadeira dignidade humana. Depois, ao longo dos séculos, com a emergência da abominaçâo da cultura e da ciência, chegamos a este “individualismo”. Que saudade do paraíso das cavernas, senhor santo (arce)bispo!
    Será que estes santos nunca tiveram tempo para ler uma, umazinha que fosse!, página sobre a história do homem?

  3. Olinda, se alguma vez foste à catequese ou tiveste oportunidade de ler as “obras de misericórida” -as católicas são 14- ficarás a saber que uma delas é “enterrar os mortos”. Faz uma pesquisa histórica sobre o porquê da inclusâo de tão insólita “obra de misericórdia” no tal rol das 14. Será que os nossos solidários antepassados viam mortos pelos caminhos ou pelas ruelas e se limitavam a tapar o nariz? Se era assim, já pensaste no grau de indiferença e de “falta de tempo” para solidariedade, quando o que mais havia era tempo a correr tão devagar!

  4. Não sei o que me passou pela vista, mas juro que eu tinha lido “mentirosos são os caminhos do Senhor”. Tenho de ir ao psicólogo! Como pude antecipar, sem ler, “mentirosos são os caminhos do senhor santo bispo”?

  5. não, nunca fui à catequese. mas consigo colocar-me completamente do lado de fora da política e da religião quando estou perante factos inalienáveis e sei que nada mais posso fazer senão usar o meu tempo para partilhar. para amar.

  6. Os ultra católicos militantes estão ao lado dos comunistas quando avaliam os progressos das sociedades modernas, principalmente das democracias; quanto mais falhadas melhor.
    Para uns quantos mais pobres houver, mais oportunidade têm de praticar a caridade, brilhar nos debates e telejornais e guardar um lugar no paraíso.
    Para os outros quanto mais pobres e mais miséria houver, mais gente têm nas manifs, mais apelativo se torna o caminho da salvação para um outro paraíso, o da sociedade sem classes, o da ditadura do proletariado, sem capitalistas e muita porrada se refilares.
    Nem uns nem outros são especiais entusiastas da democracia, do progresso e da justiça social.

  7. Eduardo J fizeste-me recordar a cançâo do Rui Mingas, com essa do “porrada se refilares”.
    Era assim, se a memória não falha:

    “Fuba podre
    Peixe seco
    Pano ruim
    Cinquenta angulares
    Porrada se refilares”

  8. Vem mesmo daí, da musica Monagambé.
    Os ultra católicos lá estavam para encomendar as almas dos pretos , para servir o regime e os grandes proprietários brancos que beneficiavam de uma mão de obra quase escrava. Não ouvi dizer , eu estava lá.

  9. “pedir a alguma santa alma que informe o santo bispo dos milagres que as sociedades modernas já conseguiram realizar para benefício das multidões e dos miseráveis…”

    Não tantos como a Santa Igreja tem realizado ao longo da história e, mais difícil de negar, por seguir o seu exemplo profético.

  10. Ola,

    Não percebo bem onde esta o problema. Parece-me claro que o sucesso da religião cristã se explica, desde o inicio, entre outros factores, pela evolução social no sentido do individualismo. Mas também me parece claro que a dita religião se reclamou desde o inicio, entre outras coisas, de uma ética que pretende combater as consequências do individualismo (a religião do amor, etc e tal).

    Pode ser que uma coisa explique a outra mas, em todo o caso, a “contradição” não é propria do arcebispo de Braga e a caridade (cristã) levaria a dirigir a critica a todos aqueles que se reclamam do cristianismo desde o seu aparecimento…

    Boas

  11. Muita atenção – na canção do Rui Mingas é bem «angolares» de Angola e não angulares de ângulo. Fuba podre / peixe podre / pano ruim / cinquenta angolares / porrada se refilares…

  12. A maior vitória das civilizações avançadas ( leia-se com estado social) sobre a igreja foi a de precisamente passar a responsabilizar todos pela diminuição da pobreza e das desigualdades, através da redistribuição dos impostos de todos, dos caridosos ( mesmo que por razões egoistas) e dos não caridosos ( que os há há farta, sobretudo quanto mais têm ).

    Essa vitória está atravessada na garganta da igreja até hoje.

  13. Afinal o Jeremias, tadinho! Essa do peixe seco e da fuba podre, santo Deus, ainda a semana passada paguei bem pago por um almoço assim, num restaurante do Estoril.
    Certamente nem sabe o que é bom.

  14. Eduardo J, tadinho! nem saberá que o autor poeta António Jacinto seria ele próprio proprietário branco?

    Demagogia ao fim de tantos anos?

    Claro que eu gosto de fuba podre e peixe seco, só não gosto nem permito porrada.

  15. “A maior vitória das civilizações avançadas ( leia-se com estado social) sobre a igreja foi a de precisamente passar a responsabilizar todos pela diminuição da pobreza e das desigualdades”

    Não, não. Essa é a maior vitória da Igreja: a aceitação universal das suas práticas e atitutes que romperam com o salve-se quem puder egoista.

  16. oh debolbido! o martins era proprietário de quê? na volta era latifundiário de poesia e foi por isso que passou férias no tarrafal spa por conta da pide.

  17. debolbidos devem ser os Retornados do norte.

    Vá lá que também havia transmontanos amiguinhos e com peninha dos pretinhos que não comiam bacalhau só comiam peixe seco coitadinhos.

    Quem não tinha “peninha dos pretinhos” não ia para o Tarrafal.

    Por isso o pai do poeta não consta que foi para lá.

  18. Obrigado JCFrancisco, pela rectificação. São os anos…Quanto aos “angulares” foi mesmo distracção. No mesmo poema também lá está aquela aliteração muito linda “finjo só que faço força”, que vai bem com o nosso Camões de “um fraco rei faz fraca a forte gente”. Aproveitei ambas, numa aula de português sobre as figuras de estilo. Luanda ficou para trás há trinta e quatro anos.

  19. O senhor Bispo não precissa dizer quando començou a “sociedade moderna”. Pois não. Dende que existe a Igrexa cos seus exércitos e papas-emperadores até hoje, toda a “sociedade é moderna”.
    Sempre houve uma sociedade mais moderna que a da Igrexa, porque todas as sociedades avançavam e iam em comtra do projecto da “Cidade de Deus” .
    Deixemos constancia das nobres excepciões que houvo e haverà.
    Quanta mais pobreza, mais ignorancia, e mais santinhos haverà.
    São sinais de voltarem tempos medievais de morte e silêncio ò vermos por cima das nossas cabeças os abutres a cheirarem alimento.

  20. o bispo leu a “divisão do trabalho social” e percebeu que os laços da solidariedade orgânica se romperam , está meio mundo desempregado , e vai daí , e muito bem , apela ao renascer da mecânica.. não creio é que seja bem sucedido ( só mesmo os cristãozinhos caridosos do amor ao próximo e afastado é que irão , talvez , estar para isso ) porque : consciência colectiva nessa área da entreajuda ? quê é dela ? o estado monopolizou-a , não foi ? com essas coisas todas que ele “dava”.
    revolução industrial ? divisão do trabalho ? sociedades modernas ? alloooo
    pós modernas ? serviços ? tecnologia ? mecanização ? no jobs ? allooooo

  21. Valupi,

    o bispo, perdão, arcebispo, pôs-se a jeito (põem-se muito) para a crítica. Mas não vás nessa de que o contraponto é Jesus “porque a fé é ascese e desprendimento”. Nada disso pode estar desligado da vida e dos outros. Esse é um dos grandes equívocas das religiões e de algumas religiosidades.

  22. a sociedade moderna era muito boa , não era ? permitiu muita coisa jamais vista . mas , temos pena , que é que se há-de fazer ? a pós modernidade está aí. a ciência e tecnologia não param , cabras , deixam viver todo mundo , e até aos 100 anos , nada menos , e ao mesmo tempo retiram-lhe empregos , de modo que o ponzi já não funcemina. um berbichaho. claro que a filosofia , cristã , budista , zen , 2012 , pagã , ateia (who cares ?) , há-de resolver o problema . se a economia e a política largarem o osso a tempo , of course.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.