José Eduardo Martins apela ao linchamento de Ivo Rosa

José Eduardo Martins, um cidadão que se passeia desde 1985 pelos bastidores do PSD e que celebrará 50 anos lá para o Natal, tem relevante experiência política como parlamentar e governante. É advogado, com extensa presença mediática no papel de comentador político, e consta que se acha em condições de ser candidato laranja à Câmara Municipal de Lisboa, primeiro, e depois a presidente do partido, pois claro. Poderia ser o quadro social-democrata prototípico, tanto pelo perfil profissional e carreira política como, especialmente, por ninguém ser capaz de recordar uma ideia da sua lavra que mereça ser repetida (nem que fosse para a rebater). Este o retrato que nos permite fazer uma leitura informada do seguinte texto: NETO DE MOURA E IVO ROSA

O título cumpre. É mesmo de dois juízes que versa a prosa do licenciado em Direito e figurão do PSD. Na primeira parte do exercício, o jurisconsulto Martins declara que Neto de Moura, apesar de estar no Tribunal da Relação, não pesca nada da Constituição. Depois de convidar o valente juiz a estudar Rawls, para ver se ainda consegue perceber o que raio seja isso de um regime constitucional antes de ir para a reforma antecipada, fez uma transição orgânica para o alvo que realmente o andava, e anda, a acirrar. Sobre Ivo Rosa, alertou a Grei para estarmos perante um caso muitíssimo mais grave do que o do juiz compreensivo para com o uso de mocas de pregos no lombo das fêmeas adúlteras. Segundo a honestidade intelectual, brio cívico e sentimento patriótico do ilustre José Eduardo, esse tal juiz Rosa (o nome diz tudo, enfim) anda a colocar em causa a “sanidade de todo o sistema democrático” através da “manipulação de pressupostos legais e na violação da igualdade na aplicação da lei segundo a jurisprudência de aplicação adequada“. Daí a sua tristeza, asco, por se estar a querer maltratar um juiz que apenas se limita a odiar a Constituição e as mulheres (não necessariamente por esta ordem) em vez de se andar pelas ruas de Lisboa com archotes, forquilhas e cordame na mão à procura daquele outro juiz que, sozinho, está a destruir a democracia e o Ocidente.

Felizmente, o heróico autor não se limitou a lançar um Aqui-d’el-rei aos sacanas que preferem falar de Neto de Moura na Internet em vez de apedrejarem Ivo Rosa à chegada e saída do tribunal, um vero “Arraial, arraial, pela Operação Marquês!”, também nos bafejou com a sua ciência jurídica. É assim, ensina aos papalvos:

– Ao Tribunal da Relação podem chegar juízes que não sabem sequer para que serve o texto constitucional, JEM ipse dixit.
– Quando um Tribunal da Relação opina negativamente sobre um juiz que calhe não gramarmos, isso anula o ponto anterior e prova que ao Tribunal da Relação só chegam juízes perfeitos, puros, divinos, incapazes de cometerem o menor erro de interpretação e avaliação.
– A um juiz de um Tribunal da Relação pode acontecer “colocar subjetivismos, nos seus julgamentos, à frente da intersubjetividade plural objetivada na Constituição e na lei” se envolver mulherio e os coitados dos maridos e companheiros ficarem legitimamente perturbados com a falta de juízo do gajedo, JEM ipse dixit. Nesses casos, convém chamar a atenção desse juiz pois é um bocadinho chato, admite.
– Quando um juiz que nos assusta por não ser um Carlos Alexandre, este um juiz que gramamos à brava, toma decisões que os juízes do Tribunal da Relação acima descritos no ponto anterior considerem não passar de “teses peregrinas”, então devemos esquecer imediata e completamente o que já dissemos nos parágrafos do texto de merda que alguém faz questão de pagar e publicar.

Causa estranheza ver um dito social-democrata, capaz de se dizer amigo de socialistas com quem calhe partilhar palcos mediáticos, a atacar um juiz recorrendo a difamações e pontapés na decência? Não com este cavalheiro. Ele juntou-se a Miguel Morgado e a Duarte Marques para assinar uma das mais obscenas tomadas de posição de que há memória em democracia: Um momento definidor para Portugal. Trata-se de um panfleto onde reclamam abertamente ter em Joana Marques Vidal uma comissária política que conseguiu o mais desejado dos troféus, a cabeça de Sócrates numa travessa. O que ali se diz é a antecâmara de virem um dia a declarar ilegal o PS, já descrito como partido de natureza criminosa. Nada precisam de justificar, pois nada conseguiriam demonstrar, nada precisam de explicar acerca do seu próprio partido e das figuras directivas ao longo das décadas na direita portuguesa, nada precisam de objectivar e provar a respeito das instituições e órgãos de soberania da República.

A diabolização não se faz através da expansão e refinamento da inteligência, é ao contrário: através do deslaçamento da realidade, substituída pelos monstros espalhados por aqueles que transformam a cidade numa selva pulsional de violência acéfala e tribal onde se imaginam os mais fortes. Esta personagem, portanto, pode ser vista como uma caixinha de Petri para observarmos uma das estirpes principais de que é feito o PSD profundo; de caminho se explicando o surgimento de Passos Coelho e a fragmentação da direita em resultado da derrota da PAF nas eleições de 2015. Isto de estarem reduzidos à politização da Justiça e à judicialização da política não é uma escolha nascida do seu mérito intelectual e cívico – antes, é o único destino disponível para os videirinhos e os tiranetes.

10 thoughts on “José Eduardo Martins apela ao linchamento de Ivo Rosa”

  1. Ivo Rosa, em Portugal, e, agora, Robert Muller, nos EUA,(estava enganado em relação a este fulano) são dois exemplos grandiosos de resistência das instituições ao manobrismo de Lawfare que caracteriza a política contemporânea. Ainda há esperança.

  2. E o Face Oculta? Cumprido o propósito persecutório da condenação sem provas de Vara, os restantes arguidos, “corruptor” incluido, correm o risco de não cumprirem pena por prescrição dos eventuais crimes. Tá visto para o que serviu o processo, mas ninguém diz nada neste e noutros casos, o condicionamento é geral pelo menos no corporativismo politicomediatico. Uma vergonha de país.

  3. Eu o que leio no texto de JEM é

    “Ivo Rosa, cujas decisões em processos polémicos, colocadores em causa da sanidade de todo o sistema democrático, foram julgadas – sublinhe-se, julgadas – pela Relação de Lisboa, em letra de forma, como baseadas em “teses peregrinas”, baseadas na manipulação de pressupostos legais e na violação da igualdade na aplicação da lei segundo a jurisprudência de aplicação adequada…”

    Ou seja, parece que Ivo Rosa foi “condenado”, digamos assim, pela Relação de Lisboa por ter julgado mal (noutros processos, presumo eu, que não o de Sócrates).

    A mim parece-me que isso deve ser divulgado… Se Ivo Rosa julgou mal, isso deve ser conhecido e afirmado…

  4. Por favor, não me interperem mal : é bom, importante, fundamental mesmo, que os cidadãos se preocupem com a forma como os tribunais dizem a justiça, que leiam, com espirito critico, e que deplorem ou mesmo denunciem quando for caso disso, as decisões aberrantes. Agora isto também pressupõe que os mesmos cidadãos façam um esforço, minimo, para procurar compreender o que lêem, como funcionam os tribunais e do que estam a falar. E talvez, também, que ponham os neuronios a funcionar, minimamente.

    Por exemplo, qualquer juiz que julga em primeira instância sujeita-se a ver as suas sentenças revistas pelo juiz de apelação, apos um exame cuidadoso, contraditorio, que pode e por vezes conduz mesmo a por em causa a apreciação feita em 1a instância, sobre matéria de facto e/ou sobre matéria de direito. Portanto o facto de um juiz de primeira instância ter sido criticado em razão da apreciação que fez é, como dizer, banalissimo e ainda bem que é assim. Ainda bem porque convém lembrar aos mais incautos que um juiz comete erros. Todos os juizes, mesmo os do supremo. Um juiz que não aceite à partida esse risco so pode ser um péssimo juiz.

    A alternativa, meu meninos, é submeter os nossos diferendos a deus, que nunca erra. Foi muito tempo assim, por exemplo atravês das ordalias. Ao que leio neste blogue, o antigo sistema era capaz de não ser pior, pelo menos era adaptado à mentalidade de muitos comentadores…

    Porra, la escrevi mais um comentario a defender a corporo-conspiração dos maçons que mandam nesta merda toda e que ninguém se decide a queimar de uma vez na praça do Rossio. Isto é mais forte do que eu. Alguém tem alcatrão e penas ?

    Boas

  5. tanto quanto percebi do acórdão do neto, faltava manifestamente um pressuposto legal para aplicar uma medida de coação. eu sei que por vezes, principalmente nisto da violência doméstica, dá ganas de fazer justiça pelas próprias, mas vivemos num estado de direito. se o pressuposto legal falta e o juiz está vinculado ao cumprimento da lei, expliquem-me lá, ó alminhas iluminadas, tende piedade da minha ignorância, mas expliquem lá, como aplicavam legalmente a medida de coação?

  6. importante engajado, tanto quanto percebo as criticas ao juiz Neto de Moura dirigem-se mais à forma como motiva os seus raciocinios do que à substância das suas decisões e não são so, nem principalmente, relativas a este ultimo acordão.

    Boas

  7. Valupi, não sei se Ivo Rosa julgou mal. Nada sei sobre ele. Não faço ideia do que aconteceu. Só sei que JEM diz que o Tribunal da Relação escreveu que ele julgou mal. Não sei se o Tribunal da Relação tem razão ou não mas, quer tenha quer não tenha, acho que isso deve ser sabido e debatido.

  8. No fundo o grande problema de todos os JEM, PP, JMT, fedorento-mor e fedorentos menores é o grande medo (terror) de um julgamento segundo a Lei e justo do Juiz Ivo Rosa desmentir toda a inventona narrativa iniciada em Aveiro pelos Vidal e continuada no conluio cúmplice dialogado entre o MP, chefiado por outro Vidal e vidaleiros, e o “cm”.
    Porque o desmantelamento da versão do “bode expiatório” numa figura em quem despejam toda a corrupção do país levará a que salte as cabeças do povão a perguntar, afinal, quem foram os verdadeiros autores da tal corrupão.
    O terror deles é tanto mais forte quanto mais insinuam e fazem correr a ideia, subrepticiamente, que não é apenas Sócrates que é o “Diabo” como também este é intrínseco e faz parte da vida normal do PS ao ponto de poderem vir “um dia a declarar ilegal o PS”.
    Pois se toda esta falsa invenção diabólica, que tem sido a face visível da moeda-corrupção, se vier a desmontar e desmoronar em sede de justiça todos se voltarão para observar a outra face ocultada da dita moeda.
    E aí as coisas complicam-se seriamente, para os acusadores em causa própria, se o PS assumir sem receios e rodeios uma acusação frontal e plena acerca da escola de corrupcão que foi o cavaquismo e seus alunos que rapidamente se tornaram Mestres na arte.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.