Feios, porcos e péssimos

Sandra Sousa – Se o PS voltar a ganhar as eleições, vai repor a avaliação dos professores?

Sócrates – Com certeza que irei repor a avaliação dos professores, e até espero que ela não seja revogada; porque o que aconteceu foi feio demais. Reparem bem: numa manhã em que os partidos foram a Belém pedir ao senhor Presidente da República para dissolver a Assembleia da República, nessa mesma manhã juntaram-se todos os partidos e fizerem três votações numa manhã – a votação na generalidade, a votação na especialidade e a votação final global – e fizeram-no apenas na expectativa de com isso poderem ganhar um punhado de votos. Eu acho que isso foi mau demais. A isso chama-se uma golpada eleitoral. Foi o que quiserem fazer. E como digo, por um punhado de votos. Com um único objectivo: serem simpáticos com este ou com aquele. Sem o mínimo respeito por quem deu o seu melhor para que o País tivesse um sistema de avaliação consensualizado, que estava a entrar na rotina das escolas. Isso foi um gesto de um eleitoralismo que revela bem as lideranças, sabe. Isso foi um gesto de tal forma irresponsável que ficará para a História a marcar aquilo que é o carácter de uma liderança. Porque isso não se faz, sabe, isso não se faz…

Entrevista

*

Como não existe imprensa em Portugal, a oposição que vê Sócrates como um reles corrupto das berças, ou como uma lapa que não quer largar o Poder, nunca é desafiada para este básico exercício de lógica: por que raio alguém tão obscenamente ganancioso e moralmente desprezível se lembrou de atiçar a fúria da classe docente, arrastando na ira as respectivas famílias e amigos, e ainda abrindo o flanco à quinta coluna Alegre, decisão que lhe custou uma segunda maioria (diz-se), quando podia ter feito o mesmo que os outros Governos anteriores em relação à avaliação dos professores e respectiva progressão na carreira, ou seja, niente? Aqueles que o caluniam e ofendem sempre que abrem a bocarra que nos salvem da ignorância: que levou Sócrates a manter Maria de Lurdes Rodrigues, e respectiva política, sem vacilar até às eleições? Digam lá, vá lá.

Num país cuja população tivesse os mínimos de racionalidade colectiva, o que o PSD fez chegaria para acabar com o partido. Porque do PCP e BE, entidades que exploram o regime sem pretenderem contribuir para a comunidade, a pulhice não surpreende. E do CDS, uma coisa que papa tudo o que cheire a populismo, também nem dá vontade de falar. Mas do PSD, um partido que tem uma tradição e uma responsabilidade de governabilidade, o que veio foi uma traição à tal sociedade civil que fingem representar e defender. Se queriam acabar com a avaliação, iam a votos com essa proposta, tal como fez e faz o PS. Assim, chafurdando na dissoluta coligação negativa – a qual interrompeu o processo a meio do ano sem nada apresentar para o substituir e não assumindo qualquer responsabilidade pelas suas consequências nas escolas – o PSD exibiu em alucinação eleitoralista a sua já irrecuperável decadência.

20 thoughts on “Feios, porcos e péssimos”

  1. Desse ignominioso e irrecuperável naufrágio só se salvou, efectivamente, Pacheco Pereira. E aproveito esta oportunidade para lhe prestar uma sincera homenagem pela sua coragem e decência. Houvesse mais como ele no P. S. D., com estes mínimos de moralidade, e talvez o desastre irreversível para onde caminha pudesse ter sido evitado. Agora é demasiado tarde. Adiós…

  2. o pacheco é um porco como os outros e só não está de acordo porque a ideia não foi dele, assim funciona de reserva moral e ficam todos perdoados. uma coisa são declarações de circunstância correctamente politicas e outra é lutar para que aconteça.

  3. É melhor falarem com o Passos Coelho, com o Portas, com o indío Jerónimo e com o paspalhão do Louça:

    O porta-voz para aos Assuntos Económicos e Monetários, Amadeu Altafaj, desmentiu as notícias que davam como certo o início das negociações entre o executivo português e Bruxelas para um empréstimo intercalar.

    Aliás, Altafaj repetiu que não há qualquer possibilidade de Portugal contrair esse tipo de empréstimo: “Não existe qualquer possibilidade de Portugal obter um empréstimo intercalar de emergência no quadro dos mecanismos de apoio existentes ao nível europeu, que passam sempre pela apresentação de um pedido formal e da aprovação de um programa de ajustamento plurianual”

  4. será que não passa pela cabeça dos acólitos socráticos que o homem perde popularidade por ser um reles mentiroso?
    conhece alguém que tenha tido semelhantes funções,que tenha atropelado tantas vezes a verdade?
    conhece algum patriota que para ganhar eleições aumentasse os funcionários publicos e baixasse o iva para de seguida retirar isso tudo e muito mais?
    será que não lhe passa pela cabeça que as pessoas estão fartas de ver um vigarista a envergonhar portugal?

  5. Não foi só o Pacheco. Verdade seja dita que Morais Sarmento e Paulo Rangel, pelo menos estes dois, que me lembre, criticaram com alguma veemência esta atitude irresponsável do seu partido. Na hora de verdade os homens sérios( que não tiveram que nascer 2 vezes para o serem) sempre aparecem.

  6. Cavaco tem aqui uma oportunidade de ouro para mostrar algum sentido de responsabilidade vetando esta decisão. O festim eleitoralista, vingativo e infantil a que se dedicou a Assembleia na última semana não abona nada em favor da nossa democracia. Será que Cavaco tem coragem? Ou neste momento nada fará que confirme a leviandade do PSD? Estou curiosa. Levará o seu jogo político tão longe, ao ponto de deixar passar essa vergonha para o PSD não perder a face?
    Se assim for, pobre país!

  7. Val, uma das coisas que mais me faz confusão no que escreves é a forma como reduzes uma série de questões importantes a um plano meramente pessoal, o da figura política. A tua perspectiva quase nunca é de fazer valer com argumentos concretos e cristalinos se determinada medida ou política é a mais correcta e adequada. Ou seja, pegando neste caso em concreto, a tua preocupação maior não é a de defender a avaliação dos professores porque a medida x constante do modelo de avaliação terá como consequência positiva Y, mas sim de fazer crer que a avaliação de professores é mais uma prova da competência, coragem e determinação que vês e admiras em Sócrates. com que base afirmas que é uma traição à sociedade civil? Tens conhecimento aprofundado sobre este modelo de avaliação? Que linhas desse modelo parecem-te mais positivas? Sabes o impacto que ele teve no terreno? Tens falado com muitos professores? É que eu não sei, com franqueza e por ignorância, se este modelo é o melhor.

    Dito isto, estou à vontade para dizer que me causa comichão que se tenha interrompido o processo de avaliação a meio do ano, independentemente das falhas que possa ter, embora já tenha lido que muitas escolas vão continuar a usá-lo até final do ano lectivo, salvaguardando o seu regular funcionamento sem perturbações. Se há aspectos deste modelo com os quais não se concordava, e aí dou-te razão, Val, teria que se submeter uma eventual proposta a votação. E nunca seria nesta fase, devendo aguardar-se pelo final do ano lectivo. Claro que assim ficamos todos a pensar que foi um mero impulso eleitoralista, da mesma forma que penso que também foi isso que aconteceu quando Sócrates deu um aumento de 2,9% aos funcionários públicos em ano de eleições. Faz parte do jogo político apontar e empolar os erros dos adversários, mas Sócrates não tem grande moral para falar em eleitoralismo.

  8. HG, estás a relacionar (a misturar?) diferentes questões. O resultado é um todo incoerente que não entra em diálogo, apenas faz claque. Repara: não está em causa no texto discutir os méritos da avaliação tal como acabou por ser negociada entre o Governo e os sindicatos pela actual Ministra da Educação. Em causa está protestar contra uma manobra parlamentar que – na minha humilde e errónea opinião – lesa os meus interesses como cidadão. Pelos vistos, também lesa os teus – e tal consciência é independente das preferências partidárias passadas, presentes ou futuras ou do que pensemos a respeito de qualquer outro episódio governativo ou parlamentar.

  9. claro que o modelo deveria ter sido apenas revisto e corrigido (tanto quanto percebi bem precisa) e não revogado. mas há outras coisas no teu texto que parecem um bocado ‘ou sim ou sopas’. por exemplo, é óbvio que a avaliação apareceu não para melhorar o ensino e sim para introduzir cortes, ao limitar numericamente a progressão na carreira. tudo bem (tudo mal, a meu ver) é um processo que continua, agora vão haver reduções no carga horária, número de disciplinas e até no desporto escolar. tudo bem, mas convém que se assuma e não se pretenda que tudo tem uma razão estrutural que não económica. (a questão relevante é ONDE se fazem cortes, quando, por exemplo os institutos públicos que por aí proliferam são uma escandaleira em desperdício e abuso.)
    por outro lado, a tua ilação na parte da fúria atiçada contra uma classe profissional está a esquecer que a porção da sociedade que se relacciona com o ensino por via dos alunos é muito maior, e que o governo contava com a simpatia desta fatia: os professores estavam já bastante descredibilizados, havia um capital de antipatia, nomeadamente nas famílias dos estudantes. este pessoal apresentava uma tendência marcada para culpar os professores de todos os maus resultados e das falhas de educação pelas quais as únicas responsáveis eram as próprias famílias. assim, ao enfrentar os professores sócrates enfrentava o suposto papão da educação.

  10. susana, apresentas duas interpretações: a de que a avaliação teria como principal objectivo a redução dos custos no Ensino (a tese dos sindicatos, como seria inevitável) e a de que o Governo pretendia virar a população contra os professores (a tese do BE e PCP). Para conseguires suportar cognitivamente estas hipóteses tens de abdicar de pensar no que aconteceu na reforma da Função Pública e respectiva instituição da avaliação, no facto de ser política e civicamente legítimo querer avaliar os professores nalgum modelo que garantisse real aferição de capacidades e méritos (algo que de todo acontecia com o modelo da avaliação formativa, que é apenas uma farsa) e na obrigação do Estado em racionalizar os recursos e respectivos custos.

    Quanto à ideia de que a estratégia do Governo passava por ganhar o favor da sociedade, há uma interpretação benigna e uma maligna dessa ideia. A benigna é a que a transforma numa banalidade: todos os Governos querem, ou desejam, ganhar o favor da sociedade a respeito de tudo o que decidam. A maligna pressupõe que a temática da avaliação é nefasta por si mesma, só podendo avançar através de processos imorais, ilegítimos ou inaceitáveis de manipulação de um número indefinido, mas gigante, de indivíduos. Aqui, não referes a quantidade de opiniões favoráveis à avaliação que foram veiculadas por figuras de referência na construção da opinião pública oriundas da esquerda, direita e centro. Ou seja, negas-te a aceitar que possa haver bondade no Governo, e não apresentas qualquer prova que confirme a tua acusação ou suspeita. Estás, pelo menos adentro do comentário, num plano paranóico ou mesmo esquizóide (de resto, frequente em conflitos políticos, não o coloco no campo das patologias psiquiátricas).

  11. não, não, não, estou a apresentar apenas a verosimilhança de outras teses, ou seja, a insuficiência de bases argumentativas para as tuas conclusões do tipo “é óbvio que se sócrates fazia algo tão difícil e avesso à opinião pública, então só o poderia estar a fazer por bons motivos”. estava só a estabelecer que essa afronta não era taxativa, podia contar com forte apoio da população.

    quanto à avaliação, nunca me viste defender a sua inexistência, sempre concordei com essa necessidade (incluindo por motivos económicos, porque não?). se bem te lembras participei com entusiasmo nessa discussão à época. precisamente por isso fui também investigando, para concluir que a avaliação foi muito mal dirigida, com aspectos tão absurdos que constituíam uma ridicularia gritante do próprio processo.

    e também penso que a implementação da avaliação teria beneficiado duma componente formativa prévia. seria dispendioso, certo, mas uma espécie de reciclagem constituíria um suporte para a subsequente avaliação, com directivas bem mais explícitas sobre o que era pretendido. mas isto que digo, claro, é só treino de bancada… :)

  12. Mas não contou com o forte apoio da população, pois não? Nenhuma sondagem da altura valida essa hipótese, para além de que tal gerou fortes protestos cujo desgaste atingiu o Governo como um todo. Até no PS houve revolta, incluindo o espectáculo de ver o grupo parlamentar a perder a unidade. Na hora do voto, o PS perdeu a maioria, e o BE tinha a melhor votação de sempre.

    Claro que me lembro das tuas posições passadas, mas tratava-se de comentar uma posição presente. Por aí, também eu defendo uma avaliação perfeita, mesmo que suspeite que nem Deus a conseguiria concretizar sem protestos de alguém.

  13. sim. a avaliação deveria resumir-se a uma matriz, que resultaria de uma ponderação curricular bem objectiva, tudo em excel, saindo no fim uma ordenação decrescente.
    pronto.nem os senhores professores mereceriam menos. tudo muito simples, sem trabalheira, que os professores, imagine-se, estão lá é para ensinar. tipo exército americano. step by step, um desaperta parafusos, outro retira a tampa da caixa de mecanismos, outro a placa programadora. claro que em porugal há um que faz tudo. mas não é professor, coitado. já se for licenciado. por exemplo, digamos até, chefe da conservatória de um registo, técnico superior de uma assessoria jurídica, um economista, enfim, nada que chegue aos calcanhares de um professor, esse sim, leva com o SIADAP, faz propostas de avaliações de desempenho, define objectivos e competências, e sujeita-se aos critérios de diferenciação…e mais não digo, que a hipocrisia traz sempre uma boa dose de saturação.
    a não ser que a diferenciação seja necessária por um problema de quotas e de cotas, trazida à liça por uma enorme preguiça. a ser assim, vão mas é trabalhar…

  14. mas deus alguma vez concretizou alguma coisa?

    quanto à posição presente não é diferente da passada. sempre fui favaorável à avaliação, e sempre pensei que um governo competente teria obrigação de lidar com assunto tão sensível de um modo que não fosse facilmente repreensível. não foi o caso.

  15. susana.
    se olhar melhor, verá que eu falei em diferenciação.que avaliação, para mim, é uma coisa de somenos.
    e quer concretizar melhor?

  16. jrrc, não fiz reload, por isso não tinha visto o seu comentário. assim, estava a responder ao valupi, não a si. não o que quer que eu concretize.

  17. Palavra de honra que eu gostaria de saber se essas gentes do PPD têm algum “contrato colectivo definitivo” com a verdade. Se têm, qual verdade??? é que ao longo dos últimos anos,fomos confrontados coma várias verdades do PPD, e também reparamos, porque não somos todos estúpidos, que entre as verdades do PPD e a realidade há um infinito de mentira engenhosamente, ou manhosamente criada pelos seus fantásticos lideres, esses inominaveis estrategas.

    Esta resposta é directamente para o burns´e para o anónimo que pensa que o Pacheco afinal até sabe pensar algo com jeito

  18. Os bons Professores anseiam pela avaliação dos maus Professores. Isto é, ansiavam, porque agora… Os Sindicatos (demasiado politizados) é que nunca deixam transparecer esta realidade. Que não deixa contudo de existir, lá por não aparecer nas televisões comerciais e nos tablóides. Eu já fui Professor (e custou-me bastante ter de deixar de o ser…) e ainda lido com eles, os bons, os maus e os assim-assim, todos os dias. E espero continuar a lidar durante muitos anos.

    O Pacheco Pereira neste caso concreto esteve bem e merece aplauso, porque estava lá e deu a cara. Para os outros, que não tinham de levantar (ou deixar sentado) o rabo da cadeira (como os oportunistas Rangel e Sarmento), é muito fácil falar.

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