Cavaco e Bagão Félix

Cavaco lá saberá por que razão procedeu a remodelações no Conselho de Estado (CE). Este órgão constitucional é presidido pelo PR e é composto por um conjunto de personalidades, algumas por inerência, como é o caso do PM, outras eleitas pela AR e outras designadas pelo PR pelo período correspondente à duração do seu mandato.

O CE é um órgão que se quer plural, daí a existência de membros por inerência relativa a órgãos actuais e passados (pense-se nos antigos presidentes da república e nos membros eleitos pela AR numa lógica de proporcionalidade).

A coisa está pensada, portanto, uma vez que se trata de aconselhar o PR em assuntos tão sensíveis como a dissolução da AR, a demissão do Governo ou a declaração de guerra, entre outros, para que não haja concentração de poderes partidários, hegemonia, mas antes equilibrio de poderes. A não ser assim, não teríamos um órgão de consulta sensível, mas um gabinete de comparsas. Bastaria ao PR convocar uma jantarada com os amigos escolhidos por si e estava cumprida a formalidade exigida constitucionalmente.

Toda a gente sabe que embora o espírito da Constituição tenha sido o de permitir que os membros do CE eleitos pela AR fossem eco de uma certa proporcionalidade, acaba por suceder um monopólio da eleição por parte dos dois maiores partidos, porque efectivamente têm a maioria no Parlamento.

A coisa é compensada pelos membros designados pelo PR com base numa lógica de pluralidade.

Como se pode ver pelos membros designados pelo PR, não parece que Cavaco queira ser aconselhado de forma plural, mas antes abençoado: Marcelo Rebelo de Sousa; Leonor Beleza; João Lobo Antunes; Vitor bento; Bagão Félix

Mais uma vez Cavaco rompe com a prática constitucional no sentido do equilíbrio do sistema e nomeia só e apenas quem o ajudará com “conselhos” a fazer o que ele já sabe que quer fazer.

Para Cavaco, os órgãos constitucionais nunca tiveram qualquer importância e sempre foram cansativos. Dez anos de maioria absoluta no executivo e pouquíssimos idas à AR, num desprezo inesquecível pela casa da democracia. Pergunto-me o que seria do homem com a alteração ao regimento da AR promovida pelo PS que manda o Governo ir amiúde ao Parlamento.

É o mesmo Cavaco que assiste às declarações do novíssimo membro do CE, designado pela sua pena, membro de um órgão cujas reuniões não são públicas, afirmar uma insanidade destas: “Bagão Félix disse esta terça-feira à Antena 1 que José Sócrates mentiu ontem na entrevista que deu à RTP ao negar que um pedido de empréstimo intercalar tenha sido assunto de conversa no Conselho de Estado”.

A resposta veio pronta:

Numa resposta, os conselheiros socialistas Almeida Santos e Carlos César contrapuseram que Sócrates falou a verdade quando afirmou que o recurso de Portugal a um empréstimo intercalar não foi discutido no Conselho de Estado. O presidente do PS, Almeida Santos, considerou que a acusação de Bagão Félix “é inédita” num membro do Conselho de Estado, enquanto o presidente do Governo Regional dos Açores, Carlos César, acusou o antigo ministro de ser um “delator” e de ter “desonrado” o cargo de conselheiro “mal entrou” em funções.

Eis que para cúmulo, Bagão não quer mais do ruído que ele plantou.

E Cavaco? Não quer dizer nada? Não quer ter uma conversa com Félix para que ele tire as consequências da violação da ética de funcionamento do CE e de ter caluniado o PM? Ficamos assim? Será que Cavaco acha normal deitar fora conselheiros de estado como Anacoreta Correia e substitui-los por Bagão para, em dias, assistir a uma vergonha nacional a partir de um dos órgãos mais discretos do sistema?

Talvez Cavaco tenha tudo por normal e ao não fazer nada me permita pensar que ele faz parte do início desta história.

 Ele que não consinta para não permitir o ditado.

19 thoughts on “Cavaco e Bagão Félix”

  1. OK, mais uma conversa de fotonovela, mas esta certo uma vez que, neste momento, até nem existe razão particular de se debaterem questões de fundo importantes, a nivel politico, acerca do futuro do pais….

    Em termos de pura logica, e salvo melhor informado, naquilo que descreves não vejo nenhuma incoerência no que diz o Bagão Félix (por quem não nutro admiração nenhuma) : ele, de facto, não disse nada sobre o que se passou no conselho de Estado. Fez uma afirmação sobre o que disse o primeiro ministro.

    Façam campanha, esclareçam, debatam…

    Quando sairmos da crise havera tempo de sobra para ir ao circo !

  2. Ao negar (ou confirmando) que certo assunto tenha sido discutido no CE, não estará também o PM a violar a “ética de funcionamento” do mesmo?

    Uma verdade é também considerada como calúnia? Como pode a Isabel dizer que é calúnia? Sabe o que se passou no CE? Quem é que violou a “ética de funcionamento do CE” para a informar? Caso não saiba (o que é o mais normal), ao acusar uma pessoa de calúnia sem provas, não está também a caluniar?

    Perguntas, perguntas…

  3. o bagão não é incoerente, é mal educado e não foi por acaso que o portas substituiu o anacoreto. é o regresso dos delfins à doca de belém.

  4. Até que enfim já não ha unanimidade, que parece que foi o que sempre aconteceu nestes 37 anos de conselho de Estado.

    Tanto Sampaio como Soares e Alegre criticaram Cavaco ,segundo o que saiu para os jornais.

    Ou seja até aqui sempre houve a UNIDAE NACIONAL, que substituiu a UNIÃO NACIONAL, do tempo da outra senhora.

    Foi preciso Cavaco para acabar com a UNANIMIDADE. inimiga de qualque democracia.

    Viva Cavaco!

  5. O novo Conselheiro de Estado
    No ano de 2004, o então Ministro das Finanças, Bagão Félix, transferiu fundos de pensões de empresas públicas (entre outros, o Fundo da Caixa Geral de Depósitos) para a Caixa Geral de Aposentações, conseguindo um encaixe financeiro de cerca de 1,9 mil milhões de euros. Com esta “habilidade” reduziu o défice e saiu-se bem na fotografia.
    Porque não tem memória, acusa, agora, outros de fazerem o mesmo, o que é lamentável, mas um facto a que nos vamos habituando no dia a dia.
    Rebuscando na memória, por mais esforços que faça, não consigo encontrar uma medida que Bagão Félix tenha tomado para reduzir o défice e mudar a administração pública.
    Penso mesmo que a sua grande decisão foi a de levar Celeste Cardona para a administração da Caixa Geral de Depósitos, coisa que deixou Saldanha Sanches em polvorosa, como se deve lembrar um dos actuais assessores de Cavaco Silva, colaborador de Saldanha Sanches e filho de Jaime Gama.
    Por esta carreira de mérito, foi empossado Conselheiro de Estado por Cavaco Silva. A bem da Nação e da Pátria.
    Publicada por VITOR FONSECA

  6. Conselheiros de Estado escolhidos por cavaco:

    Meu adorado Cavaco

    Dias Loureiro esteve com Cavaco desde o dia zero até à altura de arrumar as tralhas da campanha presidencial. As histórias de vida ajudaram: «Não nascemos em berço de oiro», esclareceu, um dia, o ex-gestor do BPN. O professor escolheu-o, em 1985, para secretário-geral, com as finanças do partido nas lonas e sem poder à vista. A vitória nas legislativas daquele ano mudaria tudo. A partir daí, Dias Loureiro foi o fiel servidor de um chefe que, segundo diz, não agia como chefe.

    Por ele, pelo PSD, fez de tudo. De hinos a discursos preparados madrugada dentro, com chávenas de chá pelo meio, para Cavaco ler depois. Partilharam a restrita intimidade do poder, férias, tacadas de golfe e almoços de família em São Bento. A empatia ajudou à influência do discípulo. Segundo um ex-governante e actual deputado «laranja», Maria Cavaco Silva também «tinha a sua preferência», inclinando-se «para os jovens turcos [como Loureiro] e menos para os que falavam baixinho e davam conselhos avisados e moderados». Algo «altamente comentado nos círculos mais restritos». Laços nunca quebrados e extensivos a outras pessoas: no gabinete da primeira-dama, em Belém, trabalha hoje Diana Ulrich, antiga assessora de Dias Loureiro. A gratidão de Cavaco também assumiu várias formas. Como Presidente da República, cortou a fita da fábrica da Inapal, em Palmela, elogiando o investimento da Sociedade Lusa de Negócios (SLN), na presença de Dias Loureiro. E até a inauguração do Estádio Municipal de Aguiar da Beira fez parte da agenda do PR, em Maio do ano passado. «Tenho adoração por ele, de facto», reconheceu o ex-ministro. A única vez que se desencontraram foi, talvez, em confissão. Na sua autobiografia, Cavaco revela não ter convidado Dias Loureiro para o Governo, em 1987, «pela simples razão de não poder prescindir dele no partido». Uma decisão recebida com desgosto. «Foi parco em palavras e fiquei com dúvidas sobre se ele compreendia e aceitava os meus argumentos.» Já o então dirigente diz ter recusado um convite de Cavaco para ministro da Administração Interna, quando ainda era secretário-geral, pois não queria acumular funções no partido com a tutela do SIS. Confusão de datas? Certo é que, pelo menos no «caso BPN», Cavaco acredita «solenemente» na palavra de Dias Loureiro.

    Luxos e prazeres caros

    «Quando se sai do Governo, precisa-se de ganhar dinheiro, é verdade. Mas passados cinco ou seis anos, tinha o suficiente para não ter de me preocupar com isso», explicou Dias Loureiro. Há dias, reafirmou à RTP que, em 1995, «não tinha dinheiro nenhum». Onze anos depois, a jornalista que entrou no seu gabinete a pretexto de uma entrevista para o Jornal de Negócios viu um espaço que exalava «bom-gosto e dinheiro», com quadros de Cargaleiro e Vieira da Silva. Em 2002, foi noticiado que pagava mais impostos do que o empresário Belmiro de Azevedo.

    O curioso é que, em 1991, Dias Loureiro já tinha comprado e remodelado uma vivenda, no Estoril, por 150 mil contos. A origem do dinheiro para a compra e obras foi questionada pelo Expresso, sobretudo porque a casa anterior era em Sete Rios, Lisboa, e custara 9 600 contos. Poderia um vencimento modesto de governante e de advogado em part-time suportar tamanho luxo? «Quem não tem a consciência tranquila em relação ao dinheiro pode tentar escondê-lo. Quem tem a consciência tranquila pode fazer o que entender», disse, então, o detentor da pasta dos Assuntos Parlamentares. E justificava a mudança para a casa da Linha de Cascais com uma herança e venda de propriedades em Coimbra. Avô e divorciado, vive actualmente na quinta Patiño, no Estoril, uma das zonas mais privilegiadas e caras do País (diz-se que cada metro quadrado de terreno custa 5 mil euros), onde residem pessoas da alta sociedade como Rocha Vieira, João Rendeiro, Diogo Vaz Guedes, Stanley Ho ou Stefano Saviotti.

  7. isto faz lembrar aqueles dias gloriosos para a honra da nossa republica em que deputados opinavam em abstracto o conteúdo concreto de escutas ilegais.

    nunca devemos esquecer o papel pedagogo de personalidades como JPP que da mesma forma que bagão agora insinuavam coisas que nunca poderiam ser materializadas.

    tem um nome este comportamento , mas é feio e eu sou delicado

  8. No dia 5 de Abril , o ministério das finanças publicou uma

    “NOTA SOBRE O PROCESSO DE CONSOLIDAÇÃO
    ORÇAMENTAL EM 2010 E 2011”

    onde se diz:

    “Adicionalmente, as medidas de consolidação orçamental para 2011,
    anunciadas pelo Governo a 11 de Março, que representam uma margem de
    segurança adicional para alcançar a meta do défice público de 4,6% do PIB,
    não necessitam de ser aprovadas pela Assembleia da República e estão a ser
    implementadas pelo Governo actualmente em gestão.”

    Ora se estas medidas estão a ser implementadas, mesmo após a recusa da A.R., por que razão se demitiu o Governo? Apenas para se vitimizar?

  9. Pedro S,

    Se calhar é necessário aprender a interpretar:

    SÓ AS MEDIDAS QUE NÃO NECESSITAM DE SER APROVADAS PELA AR É QUE ESTÃO A SER IMPLEMENTADAS PELO GOVERNO DE GESTÃO.

    É o que eu intrepreto do comunicado.

    O resto é má fé.

    Olé

  10. O texto diz “as medidas de consolidação orçamental para 2011,
    […] QUE REPRESENTAM uma margem de segurança adicional para alcançar a meta do défice público de 4,6% do PIB, NÃO NECESSITAM de ser aprovadas pela Assembleia da República e estão a ser simplementadas”

    não diz

    “as medidas de consolidação orçamental para 2011 QUE NÂO necessitam de ser aprovadas pela Assembleia da República ESTÃO a ser implementadas”

    Até admito que a intenção do autor do texto seja a sua interpretação, mas não é esse o sentido de texto. Em nenhum ponto do mesmo se diz que só algumas medidas requerem o assento da Assembleia.

    A nota também diz “o Governo e o principal partido da oposição reafirmaram o
    seu compromisso para o alcance das metas orçamentais entre 2011 e 2013,
    nomeadamente 4,6%, 3% e 2% do PIB. ” repito a pergunta: se o Governo e o principal partido da oposição ” reafirmaram o seu compromisso “, por que razão se demitiu o governo?

  11. Mas também diz lá que as medidas em causa são estas: “Estas medidas, que representam 0,8% do PIB, incluem a actualização extraordinária das tarifas dos transportes públicos e uma intensificação do controlo dos custos no Sector Empresarial do Estado em geral, nomeadamente, através do reforço dos limites à despesa que as empresas têm que verificar, que acresce ao corte de 15% nos custos operacionais e aos limites de endividamento já em curso desde 2010. As novas medidas nas empresas públicas têm um impacto estimado de 0,1% do PIB e a informação disponível indica que a execução orçamental em 2011 está em linha com o previsto.”

  12. Diz que as medidas em causa incluem essas, não diz que se limitam a essas.
    Também não diz que essas medidas não necessitam de aprovação, e não diz por que razão o Governo achou que precisava de se demitir, considerando que os cortes na despesa até se iam fazer.

  13. Há personalidades que tem o toque de Midas, outras o toque de me…. . Há ainda aquelas que tem o complexo do cano de esgoto e conspurcam tudo o que tocam. O Félix poderia muito bem ser substituído pelo papagaio Pélé , penso ser esse o nome da ave que possui, o que lhe daria muito jeito…à avezinha claro e a ele próprio. Já imaginaram o que seria uma entrevista do Crespo ao Pélé como fonte privilegiada do Conselho de Estado?

  14. Sobre o ilustríssimo novo Conselheiro de Estado Bagão Félix vale a pena deixar aqui esta deliciosa passagem encontrada no Câmara Corporativa, suponho:

    “Bagão Félix abriu o Código Civil no artigo da sucessão testamentária e logo topou uma norma que estabelece que os “nascituros não concebidos” têm capacidade sucessória passiva. Positivamente eufórico, de Código Civil em punho, acabou de passar pelos telejornais com essa prova esmagadora de que a vida intra-uterina é protegida pela lei civil.

    Assim se provou que Bagão Félix sabe abrir um livro. Mas a iliteracia toca a todos… Confesso que Bagão me surpreendeu. Será que ele não percebeu que um “nascituro não concebido” é coisa nenhuma? Aquilo que o Código Civil diz é que o próprio Bagão Félix, se quiser, pode fazer um testamento em que contemple um filho que eu venha a fazer daqui a um, dois, três anos — ou até 20 anos.

    Será que a vida começa com esse testamento? Com essa contribuição, Bagão Félix merece tornar-se teólogo. Já estou a ver a nova encíclica: Prehumanae Vitae Testamentariae. Siga o desnorte”

    Há, pois, que dar-lhe um certo desconto!

  15. …é o nível cavaquista,ANIPER, o nível do fundamentalismo irracional, estúpido e prepotente. Os miolos cor-de-laranja que estão em frenesi, com a perspectiva de mandar nesta merda toda com base na palavra de deus, perdão do bagão, perdão…bom, não interessa, vai dar no mesmo.

  16. o merceeiro do pingo doce está na sic a dizer que tem 4 netos que vão acabar o curso este ano e que não tem emprego para lhes dar, vão ter que emigrar. mais um avó à rasca.

  17. Mas pode ficar tranquilo, ele e o snetinhos, que agora é que vai dar.
    (embora eu, pessoalmente, se os netos forem como o avô, não os empregava)

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