Exactissimamente

Sarjeta

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NOTA

Louçã parece ter acordado, em 2018, de um coma de quase três lustros. Que se terá passado? Terá o seu súbito ímpeto punitivo contra a indústria da calúnia algo a ver com as imagens abaixo?

São apenas dois exemplos para ilustrar uma hipótese cínica e que não ultrapassa o âmbito da psicologia de café. Na verdade, pouco me importa descobrir o que está a motivar as suas denúncias. Importa é que a sua influência mediática seja posta ao serviço da salubridade do espaço público, da sociedade e do regime.

Coisa que ele não fez (mas se fez, corrijam-me) logo em 2004, quando Santana Lopes, à mistura com elementos do CDS e da Judiciária (pelo menos), criou o “caso Freeport”. In illo tempore, podia ter verbalizado com perfeita adequação o que agora escreveu: «um exemplo de como a direita, que sabe que perde as próximas eleições, vai fazer política. Feia, porca e má. E mentira, antes de mais.» Também Santana sabia que ia perder as eleições, por isso não só lançou o Freeport como protagonizou pessoalmente uma campanha para colar a Sócrates o boato de ser homossexual. Era a política à americana, onde as campanhas negras são de praxe, mas algo ao arrepio da tradição e cultura europeias. Mas era também o reconhecimento pela direita decadente da sua inferioridade intelectual e cívica, nada mais tendo a que se agarrar do que a chicana, a pulhice e as golpadas mediáticas e judiciais. De 2004 para cá este tipo de indecência e violência não diminuiu, foi precisamente ao contrário – chegando ao ponto de termos visto a Presidência da República a dirigir e produzir a estratégia da calúnia. Que ouvimos de Louçã a respeito nestes 14 anos? Algo, aqui e ali, mas nada que mereça agradecimento em nome da cidade dado não ter recebido da sua parte a coragem que a defesa do Estado de direito democrático merece.

A actual fórmula governativa é também inovadora nessa disrupção com um sistema partidário e um ecossistema mediático – que se confunde com a história da democracia em Portugal depois do 25 de Novembro – onde a direita e a esquerda eram tácitas aliadas contra o PS. Tal levava a que a esquerda gozasse o prato enquanto via a direita a despejar mentiras e ódio sobre os socialistas, enquanto a direita gozava o prato ao ver a esquerda a despejar delírios e fanatismo sobre o inimigo comum. Em Março de 2011, essa coligação negativa afundou o País numa situação em que o resgate de emergência se tornou inevitável. O que se passar nas eleições de 2019 e solução governativa daí resultante revelará se o eleitorado aprendeu alguma coisa, tanto com a traição de que foi vítima no chumbo do PEC IV como com a recuperação do patriotismo, da decência e da economia a que temos assistido com um PS finalmente apoiado no Parlamento pelo PCP e BE. A postura de Louçã, ao sair a terreiro indignado com a absoluta falta de escrúpulos desta direita dos assassinatos de carácter, se calhar não teria ocorrido sem a desgraça colectiva de que ele se sabe um dos responsáveis.

12 thoughts on “Exactissimamente”

  1. «A postura de Louçã, ao sair a terreiro indignado com a absoluta falta de escrúpulos desta direita dos assassinatos de carácter, se calhar não teria ocorrido sem a desgraça colectiva de que ele se sabe um dos responsáveis».

    Exacto ! Sabe. Mas faz de conta que não. Há tempos, quando ainda escrevia no Público, confronteio-o com isso e retorquiu : ” Que queria que fizesse? Que assinasse por baixo da privatização da ANA e da TAP ?”. Na resposta perguntei-lhe em que cenário pós chumbo do PEC iv ele ponderou que essas ( e outras ) privatizações seriam evitadas. Nunca me respondeu.

  2. Não é tanto assim. Louçã foi quem denunciou Fernando Lima no caso das escutas do Publico/Belém.
    https://www.dn.pt/dossiers/politica/caso-das-escutas/noticias/interior/louca-acusa-assessor-de-cavaco-1358682.html

    Foi muito crítico da Justiça no caso Casa Pia Paulo Pedroso.
    https://www.publico.pt/2003/10/08/sociedade/noticia/be-processo-de-paulo-pedroso-ilustra-a-fragilidade-da-justica-portuguesa-1169800

    També ja criticou o processo Marques e o juiz maçaneta.

    Foi um pessimo dirigente do BE sem visão politica para alem dos interesses imediatos do seu partido (uma mal da esquerda, so liga a sua zona de conforto, amigos e correligionarios, etc) mas tem tido uma boa açao civica . Agora não se pode exigir-lhe publicamente o que nenhum militante do PS faz, preocupados que estão em gerir a carreira e o ciclo politico.

  3. Joe Strummer, lembro-me bem disso que referes, daí a referência “algo, aqui e ali”. No caso do Fernando Lima, ele deu eco público ao que se falava nos bastidores “en passant” num comentário na SIC, mas quem realmente denunciou a coisa foi o DN ao publicar as provas. Ou seja, apesar do que já disse sobre esta problemática das campanhas negras e golpadas a mando da direita, nunca o disse de forma sistemática e prioritária.

  4. Valupi, no caso das escutas até muito provavelmente por contactos dentro do proprio jornal (intuição minha) o que nao o desmerece, deu a cara publicamente, não hesitou. Diz-me o nome de um politico (no activo ou não) que tenha feito criticas sistemáticas e prioritárias aos media como ele, vá lá, intermitentemente, as faz? Se há boas razões para o criticar penso que esta não será uma delas.

  5. Joe Strummer, não fez nem um milionésimo do que poderia ter feito. E não é por outros nada de nada terem feito que ele passa a herói da decência e do Estado de direito.

    Marinho e Pinto, Garcia Pereira e Miguel Sousa Tavares têm estado na linha da frente desse combate, o Louçã só fragmentada e ambivalentemente. Daí a recente novidade que lhe assinalo. É que nele os sectarismos ideológico e partidário sempre foram mais fortes do que a defesa da liberdade.

  6. Valupi, muito poucos e não são politicos full-time e um é comentador/escritor e faz parte do circo que critica, mas ok. O meu ponto é, há uma mole de políticos que não aparecem nunca e nunca são criticados por isso, quem faz críticas do género que Louça faz, seja porque motivo for, merece credito. Agora, criticas aos media sem serem consequentes são todas ineficazes, do Marinho a Louçã ao Guerreiro. Se quiserem ser consequentes não façam parte do circo, mas disso ninguém abdica, mais vale enganar o consumidor/leitor do outro lado de que a critica não faz parte do mesmo negocio. Faz e a maior parte das vezes é entretenimento.

  7. Foda-se, que conversa de merda e que mania idiota da fulanização absoluta de tudo o que é noticia ! Que pais provinciano e tacanho. O que diz o Louçã é sensato, ponto final. Sê-lo ia ainda que fosse dito pelo Santana Lopes, ou não ? Porque não te limitas a cita-lo ? Porque é que sentes a necessidade de acresentar imediatamente que se ele diz tal coisa é porque ele, se calhar, esta feito com o vizinho do 3° esquerdo ? Sera que não realizas a que ponto esta mania idiota transforma o que procuras dizer, que até acho convincente neste caso, num simples rufo de tambor vindo da bancada do sporting (ou do benfica), a que ninguém da atenção ?

    Não ha paciência…

    Boas

  8. Onde a coisa está mesmo linda é no Brasil.
    Aí sim, aí é que a coisa ferve.
    E por cá, alguém nos media deixa que transpareça o que de tão importante se vai passando no mundo ? isto parece o tempo da outra senhora, do regime do tipo de Santa Comba Dão.

  9. Joe Strummer, o Louçã merece-me tanto crédito neste exemplo na berlinda que recomendo a sua leitura. Mas ele, precisamente por ter sido muito mais do que um simples comentador, tem outras responsabilidades onde ficou muito mal na fotografia.

  10. Valupi, compreendido. No entanto neste caso eu prefiro dar enfâse aos que nunca abrem a boca a propósito de nada e por tal nunca sao criticados. Não podemos ser acríticos com a sonsice e “ausencia” como armas políticas.

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