Daniel Oliveira, do instinto ao mercado

O “Sem Moderação”, nascido no canal Q e daí tendo também chegado à TSF, é um programa de debate político que estará no fim da tabela quanto a notoriedade e audiências (mas agradecerei ser corrigido, ignorante dos números ao teclar). Será preciso gostar muito de política, mas bué da muito, para lhe dar atenção. Apesar do seu estatuto a raiar a invisibilidade, é possível ficarmos a conhecer melhor este Portugal onde viemos parar na roleta ontológica observando o comportamento dos bípedes implumes que lá se exibem. Dado que o Zeitgeist arrasta esses protagonistas para contumazes automutilações cívicas e éticas quando botam faladura sobre Sócrates, a observação é rica de aprendizagens. Como na última emissão.

Ausente Pedro Delgado Alves, os restantes companheiros quiseram voltar a sentir a excitação da caçada pela enésima vez; posto que não se esgota o vício com a repetição do disparo, só aumenta, como sabe o caçador. Eles não têm dúvidas: Sócrates deixou de ser uma pessoa, nunca teve nem terá família e amigos, perdeu o direito a ser condenado de acordo com a Lei apenas e só se existirem provas julgadas em tribunal. Transformou-se no bode expiatório do regime e cada um quer reclamar um pedaço do seu corpo abatido. Sócrates é presa de montaria. Daí, a baba caudalosa a escorrer das favolas, os rostos hieráticos ou ferozes, as vozes esganiçadas e o palavrório soberbo.

Este frenesim significa – porque só assim se explica a energia que convoca e por ele se espalha no éter intersubjectivo – que cada um dos caçadores socráticos vivencia o processo judicial e respectivas peripécias da “Operação Marquês” como a continuação da luta política, da agonia inerente à conquista ou perda do poder. Logo, ter-se prendido um cidadão para ser investigado, ter estado preso por suspeitas entretanto desaparecidas do processo, ter a sua privacidade devassada e achincalhada mediaticamente, e assistir a violações grosseiras dos deveres de magistrados e do juiz que supostamente seria o garante dos seus direitos, isto – mais a práxis criminosa à solta no Ministério Público e na comunicação social – se aceita, se explora, se celebra porque faz parte do arsenal necessário ao combate a um inimigo formidável contra quem vale tudo. Até vale despachar convicções de culpabilidade ao mesmo tempo que se reconhece não ter aparecido até hoje qualquer nexo factual com um qualquer crime de corrupção, que é para a fajardice destes três tristes trastes ser ainda mais cínica e debochada.

José Eduardo Martins é sócio na Abreu Advogados, o mesmo escritório onde Paulo Teixeira Pinto e Marques Mendes são consultores. Francisco Mendes da Silva é advogado sénior na Morais Leitão, o mesmo escritório onde Lobo Xavier é sócio. O primeiro é militante do PSD, o segundo do CDS. Sonham com cargos políticos dirigentes e governativos, o comentariado poderá ser escadote ou atalho. Perceber, entender e compreender as motivações de ambos para usarem a sua competência académica e profissional em ordem a se constituírem oficiosamente como coadjuvantes do Ministério Público e das polícias não gasta meia caloria. O linchamento de Sócrates é para eles uma extasiante festa. Mas como dar sentido ao papel do Daniel Oliveira na cegada? O suposto representante da esquerda naquela Troika justicialista, o qual se concebe como modelo de integridade intelectual e cívica enquanto artista da política-espectáculo, estava feliz da vida por poder juntar-se aos outros dois colegas de corricão. E trazia munição grossa: “parece-me haver matéria clara, sólida, para acusação de branqueamento e fuga ao fisco” + “José Sócrates é corrupto, o dinheiro que gastou veio da corrupção”. Estas afirmações peremptórias, pela boca de um pulha, seriam sempre dignas de nota tamanha a sua estupidez e indecência. Vindo de quem se vende (literalmente) como paladino da inteligência e da decência é de arrebimbomalho.

Achar que algum tribunal irá condenar um réu por branqueamento de capitais sem, concomitantemente, estabelecer que o dinheiro em causa resultou de um ilícito é a vanguardista jurisprudência elaborada pelo magnífico pensador Daniel Oliveira. Vou atribuir à influência do Dr. Martins, o qual fez uma caótica declaração inicial no programa cujo singular objectivo foi o de promover a redução dos direitos e garantias dos cidadãos perante a Justiça, a himalaica calinada. Achar que se pode agitar a bandeira da convicção de culpabilidade num caso onde estabelecer a posse do dinheiro é fulcral, e onde ainda nem sequer o principal acusado a esse respeito se pôde defender nesta fase, Carlos Santos Silva, já não remete para a estupidez. Aqui estamos realmente no vórtex da indecência, onde uma figura pública que ganha muito dinheiro como opinador não hesita em desprezar o Estado de direito democrático e as mais básicas noções de respeito pelos direitos de pessoas inocentes até prova em contrário devidamente transitada em julgado – ou seja, o Sr. Oliveira está-se a cagar para o que venha a ser apresentado pela defesa de Carlos Santos Silva, registe-se para memória futura.

O pior, infelizmente, nem é esta exibição de crassa ignorância e violência persecutória cruenta por parte do risonho Daniel sem vestígios de humanidade para gastar com o miserável Sócrates. O pior é ver como o nosso valente esquerdista alinha com os métodos de levar para o despique político as escutas policiais, a obscenidade da exploração deturpada, agendada, sensacionalista, torpe da privacidade do alvo e de quem mais se apanhar no seu círculo de relações íntimas. Na sua fúria de atingir Sócrates por onde puder, anula-se a separação de poderes e mergulha-se de cabeça na judicialização da política, como se fosse normal poder espiar adversários políticos por atacado e deixar a “gente séria” da Justiça escolher aqueles que serão expostos nas suas vergonhas ocultas. Vê-lo a cuspir-se de satisfação por ter conseguido descobrir que Sócrates gastou uns trocos aqui e ali em banalidades cuja soma nos deixa perante um valor ridículo (as férias, os jantares, os fatos, os hotéis, com que se atiça a inveja mais reles da populaça, a inveja de todos nós pobretanas, inveja submissa e reverente à gargalhada olímpica da oligarquia), tendo à sua frente dois colegas da indústria da calúnia que se passeiam nos corredores alcatifados onde a real história da corrupção e tráfico de influências à portuguesa está silenciada desde o Plistoceno e com a qual se poderia levantar uma torre de capas de jornal que daria a volta à Lua, faz de Daniel Oliveira um animal social que só pretende adaptar-se ao grupo onde come a ração. A coragem de defender a cidade pode esperar para quando – e só se – acontecer o mesmo a alguém de quem ele goste ou alguém que lhe possa dar alguma coisa em troca.

É instintivo. E é o mercado.

16 thoughts on “Daniel Oliveira, do instinto ao mercado”

  1. Essa criatura que se diz – da esquerda -, mas que para mim, de há muito e pela análise do seu discurso e reais objectivos pretendidos, não passa de um direitista disfarçado. Lá vai ganhando a vidinha fazendo uns toscos e imbecis comentários, defendendo causas em que não acredita mas, assim, continuando a enganar quem ainda se deixa ir enganando. Diz-se democrata mas não hesita em utilizar os mais vis argumentos para atacar e tentar destruir politicamente o carácter dos seus criticados. Como disse a outra, não passa de um nazi travestido de comunista. Só que já só os tolos é que ainda se deixam enganar. Quando o Balsemão verificar que a criatura já não vende, porque está desmascarada, deixará de lhe pôr palha na manjedoura.

  2. Do mesmo calibre ou pior foi o modo e sentido da conversa acerca de Sócrates no eixo-do-mal da qual vi, precisamente, desde quando se discutia o assunto Sócrates.
    DO voltou a debitar os mesmos argumentos e risotas aos saltinhos na cadeira num frenesim de esperteza jornalística que nunca contextualiza as situações e muito menos imagina que possa haver personalidades com carácter completamente diferente da sua. Da sua que é o perfeito modelo do “politicamente correcto” oportunista pedante.
    Para tal gente Sócrates tinha de pensar, juízo a juízo, e sentir, caso a caso, exactamente como se fora uma imitação pura das suas triviais personalidades calculistas e oportunistas que sobem “a pulso” à custa da cunha, do amiguismo, da destruição do outro e, sobretudo, da subserviência face ao poderoso.
    Pois no eixo-do-mal é precisamente a subserviência face ao patrão empregador que vigora para além de uma ou outra tirada “esquerdista” para fazer passar melhor a mensagem pàfiana. Calcules-se que a Clarinha até falou das emboscadas feitas pelo Santana (homossexualidade e caso Freeport) mas rapidamente esqueceu tal caso inicial claro e esclarecedor, e esclarecido política e juridicamente, para se virar a Sócrates como um tal de Hermes que mal acabado de nascer foi roubar as vacas de Apolo e foi dado à mitologia como deus dos ladrões.
    Para esta gente séria, mui séria, boé de séria o outro, Santana, bate-se contra Sócrates por meio de falsidades infames mas continua sendo sempre, também, pessoa boé de séria ao contrário de Sócrates que tudo que diz é motivo de chacota de corrupto porque sim.
    Como no caso do cofre da Mãe. Foi uma risada geral pois que para tal pessoal pós 25A alguém ter um cofre em casa é de rir sem averiguar se era ou não habitual as famílias ricas do princípio do Séc XX usarem tal utensílio para guardar os bens móveis face ás várias falência de bancos nesse tempo.
    Nem lhes passa pela cabeça que nesta inquirição Sócrates queira alegar casos que nunca confiaria prestar ao duo Alex & Teix que logo apareceriam “interpretados” pelo “cm” na praça pública para gáudio do DOs deste mundo.
    Diga-se, aliás, que foi esse o modelo de investigação premeditadamente adoptado por aquela dupla que transformou boé de jornalistas em maluquinhos broncos.
    Ou espertos amigos da onça.

  3. aditamento,
    Não quero deixar de assinalar o fecho do programa com um conjunto de cantores pimba cantado ao jeito do Live Aid a “Minha Maezinha” em referência à Mãe de Sócrates; uma obsenidade, um nojo, um acto desprezível.

  4. Há muito que o “eixo do mal” deixou de ter ponta de interesse e, deve ter uma
    audiência residual … podem os artistas zurrar, com ares de dotores ou de palha-
    ço como o cromo parecido com o Kadafi, pois vozes de burros convencidos não
    chegam aos ouvidos da generalidade dos portugueses!
    Eles sabem de tudo, desde as Leis até à Psicologia, melhor com a sua invisível
    isenção dominam a verdade universal com aquela humildade quase atroz!!!

  5. Estes gajos do eixo, mais os do governo sombra, mais os da quadratura, agora todos têm “vergonha”de se aproximarem de Sócrates, mas não tarda o Sócrates virar o Lula português, aí é vê-los virar o bico ao prego.

  6. Um juiz normal de uma justiça normal levará Sócrates a julgamento por suspeitas de ser ele o dono de parte do dinheiro daquela conta e de consequente fraude fiscal, algo que terá de ser provado em sede de julgamento, ponderando as provas que a acusação apresenta com aquilo que as defesas apresentam (não só a de Sócrates, mas também a de Carlos Santos Silva).
    – Corrupção SEM FACTO identificado, nem vê-la.
    – Braqueamento SEM CRIME identificado na origem da obtenção do dinheiro (seja ele propriedade de quem for), adeus.

    – ESTROINICE na vida pessoal não é crime, embora não seja qualidade que recomende alguém para o exercício de cargos públicos, … á exceção de Winston Churchill que foi apenas um dos maiores governantes que a Inglaterra teve até hoje num dos períodos mais críticos da sua História.

    E quanto á MORAL metem-na aonde os padres a costumam meter quando vão ás p….

  7. Daniel Oliveira de Esquerda? Esquerda há só uma a do PCP e mais nenhuma. O resto são divisionistas, quiçá artistas, malabaristas e por vezes oportunistas…

  8. reconheceu a Intersindical como a “confederação geral dos sindicatos portugueses”. A discussão em torno da questão sindical colocará em evidência dois polos, os defensores da “unicidade sindical”, ou seja, a aglomeração de todas as estruturas sindicais em torno da CGTP, posição defendida pelo PCP, e os defensores da “unidade sindical”, que se traduz na luta comum de diversas “centrais sociais”, posição defendida pelo PS. Esta questão fora determinante para um gradual afastamento entre as direções do PS e do PCP, aspeto determinante para o desenvolvimento do Processo Revolucionário em Curso.

    o jc (jovem comunista, presumo) pretende a unicidade da esquerda e quem for pela unidade é no mínimo divisionista, podendo ser artista, malabarista e em final de carreira atingir o grau de oportunista.

  9. Antes de mais, é necessário dizer com toda a clareza e com tudo o que isso possa querer dizer que a SIQUE do Balsemão se tornou num vespeiro fascista e onde todos os comentadores e “pivots” são meros bonecos manipulados e que respondem perante a voz do dono e de acordo com o guião que lhes é distribuído. O “Eixo do Mal” e os seus comentadores de meia tigela, limitam-se a fazer a figura triste que lhes mandam fazer. O mesmo se pode dizer do Espesso da Meia Noite, onde os cães de serviço escolhem as presas de acordo com a sua própria ideologia. Ou o Polígrafo do famoso Ferrão! Ou o comentário do Marque Mentes, qual aldrabão de larga data, no igualmente aldrabão “Jornal da Noite” do famoso canal 3.
    Depois… temos a campanha devidamente orquestrada e amestrada pela direita fascista, que dia a dia vai “enchendo” a mona do português menos atento às aldrabices de mentalização fascista de todos os dias e promovida por especialistas no assunto. A PIDE e o Estado Novo morreram, mas os seus mentores continuam aí e a “andar por aí”, tentando, por todos os meios, reverter o sentido da história. Esquecem-se, no entanto que a história não se repete. Bem podem os Oliveiras, as Claras, os Marques Mentes, os Ferrões, o Costa do Espesso, o Carvalho e outros seres abonivaeis do ninho fascista instalado na linha de Cascais a serem porta-vozes do Todo Poderoso Ministério Público dominado pela linha sectária fascisoide, assim como o Tribunal da Relação que tem juízes sem mérito nem competência e que se limitam a ” vender cabritos e cabras não têm”!! A história de Sócrates é a maior vergonha da justiça deste país, protagonizada por actores de 2ª linha e que, afinal são os “Yes Men” duma direita fascista reacionária, revisionista, trauliteira e altamente saudosa dos tempos do “sabe quem eu sou?” É o vale tudo para evitar a derrocada total duma justiça injusta e apodrecida!

  10. A este Daniel Oliveira não serei eu a ir mijar-lhe na campa. Homens não se tratam assim, e,se algo de maior se passar,na praça,e à vista de todos,resolveremos as nossas questões. Lembro que apanhar faz parte da Nobre Arte, e não existiu campeão que não fosse exímio a enfardar. Os “queixo de vidro” nunca tiveram hipótese como boxeadores…
    O grande e maior defeito do Oliveira é ser um chato. Um grande chato que só fala do que já lhe está no folhoso e que,mais uma vez, é remoído. Factos novos,provas novas,certezas novas,nem uma! É sempre aquele rol lamuriento que não aquece nem arrefece, nenhuma pica,nenhum tesão !
    Todos o sabem: ler o Oliveira conduz ao tédio e à deserção.

  11. O Oliveira,o Daniel,está bravo! Vai tudo raso,com ele! Sodoma e Gomorra não são nada ,comparadas com a chama de esquerda com que o Daniel bafeja,sopra,varre a direitada !
    Vá lá que a pega é com a Bolívia,que fica a milhares de Km. de distância … por grande que seja a destruição não se sente, por aqui, o calor…
    Quero vè-lo no Eixo do Mal : a Dona Clara vai ficar chocada. No Sem Moderação até o sono permanente dos imoderados pode ser perturbado, nos comentários da bola até o VAR terá de repetir n vezes as declarações do campeão das Liberdades! (aqui do lado dizem-me que o Daniel não comenta a bola;por isso ela não endireita).
    Que o Daniel volte ao seu habitat natural: tosando a erva,auxiliando o dr. Balsemão, perorando sobre o muitíssimo bem condenado Sócrates, é um gosto vê-lo .

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