Cineterapia


Rio Grande_John Ford

Cinéfilos há que dizem ser este o filme mais débil da “Trilogia da Cavalaria” – o último depois de Fort Apache e She Wore a Yellow Ribbon – por ter sido concebido a mando do big boss do estúdio e como moeda de troca para Ford conseguir ir à Irlanda produzir The Quiet Man. Herbert Yates, presidente da Republic Pictures, queria primeiro lançar uma coboiada que lhe garantisse os cobres suficientes para colmatar o buraco financeiro antecipado no lirismo telúrico que Ford insistia em mostrar ao mundo. Nesse espírito, este western teria sido feito a despachar, de facto tendo demorado pouco mais de um mês a filmar e havendo testemunhos que dão conta de um ambiente de grande à-vontade entre as equipas de produção e os actores. Seria como um projecto de férias, enquanto não chegava o trabalho a sério. Também criticam a opção pelo preto-e-branco, que consideram ter empobrecido a obra, e chegam ao ponto de explicar a inabitual quantidade de momentos musicais como um recurso dos argumentistas face à obrigação de encher o chouriço e já não haver mais nada para contar nem cabeça para o inventar.

Espectadores há que dizem ser este filme uma asquerosa exibição do catolicismo, militarismo e xenofobia de um americano reaccionário. Ligam-no ao começo da guerra na Coreia, interpretando a perseguição aos índios para além do Rio Grande, assim entrando no México, como a manifestação do desejo de perseguir os norte-coreanos até à China e tratar do pêlo aos amarelos todos. Lembram que foi a partir desta altura que John Wayne se tornou num ícone da direita conservadora norte-americana, tendo alinhado militantemente em campanhas anti-comunistas. Apontam o modo caricatural e nefando como os nativos são apresentados, pintando-os criminosos sanguinários, bandidos inumanos. Chamam a atenção para a perversidade daquela cena onde as crianças brancas estão refugiadas numa igreja católica e os índios embriagados preparam-se para as ir buscar, molestar e matar. Nessa cena, ai que cena, dois bravíssimos soldados da Cavalaria matam indígenas à fartazana a partir de uma abertura em forma de cruz na porta do templo enquanto uma menina loirinha badala o sino como se não houvesse amanhã nem hora de almoço. Afirmam que estamos perante uma alegoria à prova de estúpidos: a cruz cuspindo chumbo na direcção dos infiéis.

E fordianos há. Os fordianos são simples de entender, eles apenas esperam que o tempo gasto a ver um filme, qualquer filme, traga como recompensa o desvelamento do sentido da vida. É por isso que são fordianos, porque com o mestre é certinho: a função do seu cinema é dar a ver a verdade última acerca disto de estarmos aqui uns com os outros. E é para quê, atão? Pois, para limpar o sebo aos peles-vermelhas, por exemplo. É uma forma de começar a revelar a verdade fundamental como qualquer outra, o que vem a seguir é que será crucial (pun intended). Se quisermos partir da matança dos índios, o passo fordiano imediatamente conexo implica reconhecer que só se dispara contra os índios maus, os bons são deixados em paz, protegidos e até convidados a trabalharem connosco. E esse trabalho não é outro senão o de aumentar a segurança para todos, estabelecer a concórdia entre os povos e os indivíduos, consagrar o Estado de direito, mas com muito menos recursos do que o razoavelmente necessário e arriscando a vida diariamente no cu do mundo envoltos em poeira, álcool marado e bosta de cavalo. Acontece que esse é o ambiente perfeito para criar amizades, como sabe quem sabe, bastando que continuemos assistidos pelo instinto de sobrevivência. Quão maior o perigo, maior a falta que fazemos uns aos outros, mais frequentes as ocasiões para revelarmos o melhor de nós, mais fácil tropeçarmos em sábios e heróis. E haverá maior perigo do que o do amor? Só o de dois amores, ao consorte e à prole, ao par e ao ímpar.

Antes de chegarmos ao amor, ou para conseguirmos lá chegar, Ford leva-nos para uma ilha no Exército norte-americano que se parece com a Legião Francesa, e onde nem falta o deserto nem um oficial francófono zarolho. Embora obedeçam ao Presidente dos Estados Unidos, trata-se de uma milícia irlandesa platónica que vai treinando com os coiros dos selvagens até poder desembarcar nas costas do Eire e partir para a guerra de libertação contra os ingleses. Não admira, pois, que as autoridade civis americanas na figura de um xerife manifestem um completo desprezo por estes últimos recursos humanos, recebendo de volta desprezo maior na forma de ostensiva fuga à Lei. São uns falhados, colocados nessa falha entre a civilização e a barbárie, e só um falhado maior do que eles juntos os poderia manter unidos, fortes, resistentes. Esse falhado é o Tenente-Coronel Kirby Yorke. 15 anos antes, destruiu o seu casamento ao obedecer às ordens para destruir a propriedade da sua sulista mulher. Nunca mais se viram ou falaram, trágico casal para quem a Guerra Civil ainda não acabou. Nunca mais viu o filho. E o filho está a seguir as pisadas do pai, pois acaba de ser expulso de West Point, falhando o curso de oficiais e sendo agora um soldado prestes a entrar ao seu serviço. É mais um falhado na família; logo, é da família.

Kathleen Yorke chega ao forte para resgatar o mais fraco, o seu menino. As mães fazem tudo pelos filhos, incluindo aceitarem voltar a ser felizes nos braços do seu homem. Mas como regressar ao paraíso, como recuperar o que se perdeu? Esta é a única questão que importa para o fordiano, porque é a única actividade que faz do Universo um sítio minimamente decente para se passar uma temporada. Kirby foi rápido a sugerir que fosse através do seu guloso corpo de mulher. Kathleen não lhe ficou atrás, apelando a que fosse através do seu volúvel apetite de homem. Ambas as soluções seriam fonte de novos problemas, simulacros com pavio curtíssimo daquilo que teria de nascer da eternidade. Que há de eterno em nós? Nada de nada. A eternidade é sempre uma dádiva de terceiros, o que fica quando a lagarta se transforma em borboleta. O que fica é uma promessa realizada, e a eternidade não quer ser outra coisa.

Ford conta-nos uma história em que uns pais aprendem com o filho a libertarem-se do passado que os separava. Para tal, têm de se libertar do próprio filho no acto mesmo de libertarem o filho de si próprio. Permitiram os deuses que este ensinamento arcano pudesse ser escondido no cinema. Está lá bem protegido, intacto, imune aos olhares impuros dos que se deixam apanhar pelos índios maus.

7 thoughts on “Cineterapia”

  1. não há hipótese alguma de não ser: ler-te em palavras que te saem do casamento, fusão, entre a cabeça e o coração é cair no Val das delícias, colina de eternidade em bicos de espreita, montanha d’entusiasmo em cume. :-)

  2. não há hipótese alguma de não ser: ler-te em casamento, união, da cabeça com o coração é cair no Val das delícias, colina de eternidade em bicos d’espreita, montanha d’entusiamo em cume. :-)

  3. Quando Portugal teve que em 1961 resistir em Angola aos turras da UPA apoiados pelos americanos e evangelistas, os americanos propuseram que dessemos a independência a Angola que eles resolviam.
    E alguns nossos, que ainda andam aí, achavam que era a solução.
    Para outros a solução vinha do lado oposto.
    De facto os indios apaches e outros morriam mas nem eles nem os cavalos sujavam de sangue o chão americano. Mas era nos filmes dóliud.
    Mas como já foram à lua, temos que levar com eles na cara a toda a hora.

  4. oh debolbido! se retornares um pouquinho mais ainda vais descobrir que foram os amaricanos que provocaram o conflito colonial para porem os vermelhos a combater os pretos, assim ficavam com aquilo de borla e viam-se livres dos índios. há banda desenhada sobre isso, mas foi apreendida por uma providência cautelar interposta pelo pentágono, entretanto na posse d’assangel e prestes a ser revelada pelo 5dias.
    bécula! o teu problema de realização é henry fodas. vai esfregando com alô-é-vera.

  5. Valupi,
    Talvez tenha percebido, suponho, esta revisão crítica a Ford que me parece feita sob a força da actualidade.
    Na tal ilha onde nem falta o deserto nem o oficial zarolho que eu suponho uma analogia com o actual Fort Apache e moita de deus.
    Também podem ser outra dúzia de pares deles, seus equivalentes, que proliferam agora tanto no apache como na assessoria bem paga, para atirar aos índios de hoje.

  6. Ó ignácio! mandas-te-me ao 5 dias mas é polítiquice americana demasiada para a minha carroça.
    Pra mim eles são todos iguais, só gente muito, mas muito inteligente como tu é que distingue a direita e a esquerda daqueles gajos.
    Eles que devolvam o chão das torres gémeas aos indios que lá estavam!

  7. Esta cineterapia deixa-nos com um sorriso estúpido na cara…um Sopro no coração…

    “Mas como regressar ao paraíso, como recuperar o que se perdeu?” ou

    Como pode um homem nascer duas vezes?

    Vou borboletear por aí… :)

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