Cineterapia


Hugo_Martin Scorsese

A vida de Méliès merece um filme. A obra de Méliès merece outro filme. A herança cinéfila de Méliès merece ainda outro filme. Ver Scorsese a realizar algum deles teria sido mais do que merecido, para ambos. Infelizmente, Marcantonio Luciano resolveu fazer o 3D-em-1 disto tudo.

James Cameron, talvez o mais eficaz representante na actualidade do estilo invisível de Hollywood, o qual entende o cinema primeiro que tudo como experiência de plena imersão emocional na profundidade do ecrã pela maior quantidade de espectadores possível, o cinema como puro entretenimento, disse que nunca se utilizou tão bem o 3D até agora. Ora, acontece que Cameron é uma puta velha que pode ter com esse elogio evitado falar do filme ele próprio. O próprio elogio pode não passar de irónica ironia, se nos lembrarmos que o 3D em Avatar é não só inútil como ridículo.

A indústria, desde os primórdios, tentou acrescentar realismo a uma imagem que começou por ser monocromática e muda. De imediato se tentou aplicar o 3D ao cinema, aparecendo os primeiros desenvolvimentos técnicos estereoscópicos ainda no século XIX, e as primeiras projecções nos anos 20 do século XX. Nos anos 50 viriam inovações que criaram uma moda que levou à produção de dezenas de filmes pelos maiores estúdios. As décadas seguintes repetiriam o padrão de permanente procura de soluções técnicas que tornassem o 3D economicamente viável e confortável para os espectadores.

Faz sentido continuar a insistir no 3D, para mais sendo as lentes tão penalizadoras da fruição visual e causando vários incómodos corporais? Quando um cineasta com a importância e carisma de Scorsese diz que sim, ainda por cima na solenidade de uma homenagem a Méliès, até parece mesmo que sim. Mas a impressão só dura 3 segundos. Há algo de espectacularmente errado em pretender ocupar a já existente terceira dimensão que nos separa do ecrã com uma simulação brutalmente redutora e canibal. O efeito de profundidade obtido aqui e ali, por isto e por aquilo, é inevitavelmente irrelevante para a nossa relação com a narrativa. Pior: o 3D é uma barreira que impede a entrada no 4D, a quarta dimensão do filme onde se vive um certo tempo cinematográfico, análogo ao tempo literário, em que o presente é constituído pela fusão do passado com o futuro, oposto do presente cronológico que se define pela sempiterna exclusão de futuro e passado. E muito pior: o 3D é uma camada superficial oca que nos faz perder o 5D, essa dimensão onde o cinema acontece como vivência existencialmente real, esse espaço onde o filme é projectado na sua definição ontológica e a história é um destino que se torna parte de nós – o ecrã infinito da alma.

Méliès, que começou por ser ilusionista, sabia melhor do que os seus colegas de então que um bom truque consiste mais na arte de fazer desaparecer do que em fazer aparecer. Quando algo aparece nas mãos ou cartola do prestidigitador, o público deixa de achar graça, acaba o número. É quando algo desaparece do nosso olhar que a visão se expande e atravessa a matéria. Os deuses do cinema escolheram-no para ser o primeiro cinesta a descobrir o poder da montagem por interrupção, onde a câmara pára de filmar e algo na cena é alterado ante de se voltar a filmar. O resultado é pura magia, algo desaparece por intervenção de forças que não respeitam as leis cósmicas com que nos governamos fora das salas de cinema, e inaugurou os variados géneros fantásticos onde Méliès foi pioneiro e inovador supremo. Usá-lo para defender o 3D é um truque manhoso.

19 thoughts on “Cineterapia”

  1. Há duas coisas que convém separar neste filme. Primeiro, o filme em si é muito fraco, em 3D ou não. É longo, chato, previsível, com personagens ridículas, a começar pelos dois protagonistas, um enredo tão mau que nos faz, em alguma ocasiões, tirar os olhos do ecrã por vergonha, e uma profundidade narrativa que faz o “Rei Leão” parecer obra de Shakespeare. Essa é a primeira, e aí concordo contigo, Meliés merecia outro filme.
    Outra completamente diferente é o uso do 3D, e aí não podíamos estar mais em desacordo. A meu ver, também este pode ser dividido em duas partes distintas: a técnica, e a cinematográfica. Na parte técnica, apesar da evolução dos óculos, que já estão a uma longa distância dos coloridos que apresentas na imagem com a intenção de ridicularizar, ainda há algum caminho a percorrer. Mas não muito. Apercebi-me disso quando, no outro dia, experimentei uns da Sony, vendidos para a linha de televisões 3D, e todo esse incómodo evaporou-se. Eram, simplesmente, perfeitos, e permitiam uma imersão total no 3D sem que me apercebesse sequer que os estava a usar. Mais um par de anos até o preço baixar o suficiente e termos a tecnologia disponível nas salas de cinema multiplex, e esse problema do incómodo desaparece.
    Já a parte cinematográfica pia mais fino. Não pretendo ter os teus conhecimentos nem a tua vivência do cinema, por isso me perdoarás alguma simplificação de conceitos, sou um simples espectador. Começo pelo princípio: o Avatar. Discordo em absoluto dessa tua apreciação do 3D ser inútil neste filme. Para mim, foi na altura uma revelação, e melhor ainda, é o benchmark pelo qual os outros são ainda hoje avaliados – não no sentido qualitativo, nota, mas no sentido em que o 3D espantoso desse filme revela, ainda hoje, o seu imenso potencial e as suas limitações, que estão tão à vista em Hugo. O 3D, quando se retira a parte de novidade e se pretende usá-lo como parte integrante do objecto cinematográfico, revela-se muito, mas muito cruel, no sentido em que expõe implacavelmente todas as pequenas e grandes falsidades das restantes técnicas cinematográficas – dos planos ao guarda-roupa, da velocidade das cenas aos efeitos especiais. Essa exposição do falso tem como consequência a destruição de uma boa parte da vivência de um filme – aquilo a que tu chamas o 5D, creio – mas, e aí é que discordamos, é apenas porque as técnicas habituais de cinema têm limitações sérias e ainda não foram adaptadas, e ainda ninguém filma a sério essa nova realidade. O 3D é de tal maneira poderoso que exige uma nova linguagem, linguagem essa que está, as we speak, a ser desenvolvida e experimentada, com resultados fracos e ridículos ao início, sem dúvida, mas creio que em evolução constante. O Avatar nesse sentido é enganador, porque vive num plano diferente, o da fantasia pura, onde essa crueldade não se nota tanto, daí que tenha dado a impressão que era mais fácil do que na realidade é. Seria como se o cinema colorido tivesse o seu primeiro blockbuster num filme sobre palhaços de circo, onde a cor exagerada se integra naturalmente. Já o Hugo, ao pretender a reconstrução de uma realidade mais próxima, espalha-se ao comprido. Simplesmente, os planos não resultam, o CGI é exposto como obviamente falso – e aqui a malta dos computadores leva um balde de água fria que estavam a precisar, para não ficarem arrogantes e complacentes – a caracterização é ridícula. Isso pode ser lido, e é-o por ti certamente, como um agente de destruição do objecto cinematográfico, que convém expulsar o mais rapidamente possível para podermos voltar todos às nossas zonas de conforto cinéfilo, onde crescemos e que dominamos na totalidade. Não o vejo assim, vejo o potencial para tornar o cinema uma experiência ainda mais mágica, com novas maneiras de filmar e de contar uma história, e mal posso esperar para ver o que o Peter Jackson faz com isto, por exemplo. E mais do que ele, toda uma nova geração de realizadores que se estão a desenvolver com este potencial à mão de semear, mas sem uma carreira e uma linguagem 2D cristalizada para trás. Vai ser, espero, uma nova era de ouro, uma viagem de descoberta. Pretendo desfrutá-la ao máximo. A alternativa será, como aqui fazes, ficar a cantar “Teodoro, não vás ao sonoro”. Não obrigado.

  2. pois: a profundidade é, e deve, continuar a ser invisível aos olhos da ilusão – nem o cérebro gosta, e merece, ser enganado. essêncializar é preciso. :-)

  3. Vega9000, fizeste uma reflexão impecável, muito obrigado. Estou contigo nessa campanha de erradicação dos inimigos do sonoro, e não serão filmes como o premiado “O Artista” (de resto, uma bela merda) que nos irão vergar. Donde, e à partida, nada contra a continuada evolução tecnológica do cinema, aproveitando para confessar que também aderi à cor depois de algum tempo de reflexão. O que se passa com o 3D, contudo, é algo mais complexo, pois, apesar dos sucessivos desenvolvimentos nas películas, câmaras, projectores, óculos e ecrãs, ainda não se estabilizou uma solução que seja vencedora. Poderá acontecer, claro, e a qualquer momento lá irei comer o meu chapéu, mas até lá está a valer a crítica de muitos que apontam para o abandono de espectadores por causa de diversas queixas, para a factual perda de qualidade na imagem e para a perversão numa certa experiência universal, ou tão-só clássica, de fruir as imagens cinematográficas. O exemplo que trazes da televisão em 3D não me parece comparável pois a televisão, tal como os jogos de computador, é um meio radicalmente diferente do cinema, apesar das muitas semelhanças. Aliás, alguns críticos do 3D antevêem o próprio fim do cinema nesta tentativa de transformar as salas de cinema em salas de televisão (as pipocas, o barulho, a invasão dos códigos da promoção musical, a promoção de produtos televisivos, o uso de aparelhos digitais pessoais enquanto se vê o filme). Qualquer dia, deixará de fazer sentido fechar as portas e apagar a luz.

    Dito isto, é óbvio que tens toda a razão ao apontares para o óbvio: ninguém sabe qual vai ser o futuro, pelo que pode vir aí quem faça do 3D um uso magistral, inaugurando um novo paradigma. Só não te concedo é razão alguma ao me atribuíres qualquer autoridade especial em matérias cinematográficas, pois não passo de um tosco sem vergonha, e também não te reconheço qualquer razão, apesar de teres todo o direito a tê-la, quando apontas o Avatar como exemplo de bom 3D. Para além da tua irrefutável experiência pessoal que para aí te levou, a opinião na indústria não é nada essa e por isso trouxe o que ele disse deste Hugo para melhor contextualizar esta tridimensional questão.

  4. É pá! A quantidade de coisas que eu desconhecia sobre os filmes 3D!
    Se eu soubesse isto antes não tinha gostado tanto de ver o Avatar!!
    ;-))

  5. Ora, se tu és um tosco sem vergonha, que serei eu então. Aliás, nem vou muito ao cinema, desgraçadamente, e acho que entrei uma vez na cinemateca, pelo que estou a anos-luz dos teus conhecimentos nessa matéria, o que não me impede todavia de te responder com algumas farpas, nem que seja para as ver magistralmente respondidas. Para sem vergonha, estamos conversados.

    Voltando ao Avatar, há uma razão para ter adorado aquilo no cinema e recusar-me a tê-lo em casa: aquilo, como filme, é bastante sofrível, uma fantasia proto-adolescente muitíssimo bem feita que se vê bem, claro, o Cameron sabe o que faz, mas que não passa disso mesmo. Não há ali nada que me faça voltar a querer vê-lo num ecrã menor e em 2D. Mas não me esqueço da sensação de apagar as luzes, começar a projecção, e de repente o ecrã à minha frente abrir-se literalmente, como um teatro. Foi lindo, caramba, o equivalente à cena de abertura da Guerra das estrelas, ou a ver O Abismo ainda no ecrã gigantesco do Condes. Algo que só pode ser verdadeiramente desfrutado numa sala de cinema. Agora, chama-me tosco se quiseres, mas por muito que aprecie o Match Point e compreenda que ali não se ganhava nada com o 3D, só se perdia (aliás, nem fazia sentido), os nossos amigos do cinema comercial de massas percebem bem o valor do espetáculo. Os Woddy Allens deste mundo só têm que pegar nas técnicas agora a ser desenvolvidas e pensar: o que fazer com isto? Como é que eu filmo Nova Iorque em 3D? Posso usá-lo para meter o espectador literalmente na mesa ao lado dos protagonistas num café? Como é a luz? Como é a caracterização? Como integrar o 3D num filme de modo a que valorize tudo o resto, em vez de aniquilar? Tudo questões que têm respostas fascinantes, a meu ver, quando os realizadores ditos “de respeito” resolverem pegar nisto.
    É isto que eu vejo quando estou num cinema 3D – não o blockbuster do momento, mas as possibilidades que permitem. Vi recentemente o John Carter (não gozes, tenho um filho com 11) e é outro desastre visual, destruído (entre muitas outras coisas, aquilo é intragável) por um uso incompetente do 3D, a expor implacavelmente a falsidade daquilo tudo. É problema da técnica, ou do realizador? Inclino-me para a segunda hipótese. Mas nas poucas cenas em que resulta, é magnífico.
    Agora, o 3D tem ainda problemas? Tem, claro, todos esses que apontaste e mais alguns. O timing tem de ser diferente, os planos têm de ser diferentes, as cenas de acção vão ter de ser muito menos frenéticas (finalmente) sob o risco de afogarem o espectador em estímulos visuais e se tornarem incompreensíveis, e sobretudo o nível de realismo tem de subir uns valentes pontos, os velhos truques já não resultam tão bem. E a porra dos óculos, ainda demasiado pequenos. Tudo isso está agora a ser desenvolvido e experimentado, e não tenho dúvidas que a evolução será bastante rápida. Veremos como resulta o Hobbit, o Prometheus, e a evolução nos próximos anos. (As pipocas e anúncios, já agora, não têm nada a ver com este assunto)
    Parafraseando Al Jolson – “You ain’t seen nothing yet”

  6. Também quero ir ver o John Carter, e estou na fezada de ir gostar. Mas não tenho qualquer esperança de ir apreciar o seu 3D, pela simples razão de não haver nada para gostar no 3D por si mesmo. O facto de se conseguir simular uma mais tangível profundidade nunca fez qualquer falta para gostarmos de ver filmes, banda desenhada e pintura. Mais: quando no 3D se colocam efeitos que nos fazem sentir que há objectos a sair do ecrã e a pairar por cima dos espectadores, algo de profundamente anti-cinemático acaba de acontecer, porque estamos a ser puxados para fora da profundidade do ecrã e a sermos obrigados a reconhecer que tudo aquilo não passa de uma pirotecnia para espantar aqueles que, precisamente, não estavam com a alma dentro da história (isto é, com a história a ser projectada na alma). Na sua essência, o 3D que tem sido experimentado está mais preocupado em ser um espectáculo de feira do que em ser um acrescento à narrativa.

    O teu optimismo é o meu, nesse sentido em que tudo pode acontecer. Mas, no entretanto, há que defender uma arte que consiste em nos levar para o lado de lá do ecrã, não em nos levar a olhar para o espaço vazio por cima, ou por dentro, das nossas cabeças.

  7. Objectos a sair do ecrã e a pairar? Onde? Tenho a impressão que, se foste ver o Avatar, saíste da sala indignado quando passou o anuncio da Vodafone. Devias ter ficado ;)

    (Vai ver o John Carter então, mas garanto-te que o que o filme deixa é pena pelo desperdício de tão boa história e ambientes. O que podia ter sido se fosse filmado pelo David Lynch…)

  8. Em vários filmes. Por exemplo, no Hugo. No Avatar, não me recordo com rigor, mas apostaria que também. Acima de tudo, a impressão que me ficou do 3D no Avatar foi a de ser manhoso. Manhoso em termos técnicos e cinematográficos.

    Quanto ao John Carter, e confiando na crítica que li algures, o que está em causa é apenas um honesto e escorreito entretenimento. Se for esse o resultado, tudo bem!

  9. Ah, mas no Hugo, se bem me recordo (e tento não recordar) essas cenas são uma espécie de homenagem 3D aos efeitos de Meliés, que também utilizou esses truques. É um piscar de olho.
    Já no Avatar, o que Cameron fez, uma revelação estupidamente simples, foi precisamente o oposto: utilizar o 3D apenas do ecrã para lá, aprofundar o ecrã. E só assim é que faz sentido. Dá toda outra dimensão teatral.

  10. Estás feito um teórico do 3D e um inquebrantável defensor do Avatar. Bravo! Entretanto, esta leitura tem interesse para a nossa conversa:

    James Cameron’s partner Vince Pace has stated that the 3D in Avatar could have been taken further – admitting that there were times when they played safe with the most famous 3D movie of all time, and insisting that Hugo represents the evolution of the technology.

    Avatar was a smash hit, partly because of the technology and innovation of the Cameron Pace Group – which has also been responsible for the stellar 3D within Martin Scorsese’s critically acclaimed Hugo.

    “We were experimenting with Avatar,” Pace told the Hollywood Reporter. “We could have gone further, but we wanted to make sure we found ourselves somewhere in the middle of concentrating on a good film and focusing on 3D elements.

    “We didn’t want to compromise the actual film by taking away from the story for the sake of 3D. We tended to play it somewhat safer in the approach. But as Jim likes to say, ‘You don’t make any mistakes when you’re first.'”

    http://3dradar.techradar.com/3d-tech/we-played-safe-avatar-3d-says-camerons-partner-20-12-2011

  11. ehehehe, “teórico do 3D”. Boa farpa, e inteiramente merecida. E um defensor não do Avatar, mas da técnica inaugurada neste. Artigo interessante, na medida em que confirma a experimentação.

  12. “Posso usá-lo para meter o espectador literalmente na mesa ao lado dos protagonistas num café?”

    Mas por que razão é que isso será um objectivo cinematográfico? Não me parece. Aliás o cinema pede distanciação e apenas ganha com a consciência de que nós espectadores estamos a olhar de fora. Tal como um livro. Dá-me vontade rir essa ideia de estar sentado ao lado do Darth Vader, ou entre os lençois com a Angelina Jolie e um qualquer manfio de ocasião. Ou a passear na floresta do Vietname ao lado do Niro. Um gajo até se convencia que a floresta tem ar condicionado e cheira a pipocas.

    O único sítio onde essa ideia me parece poder ser explorada com alguma fecundidade é no teatro. Fazer os espectadores andar “no palco” por entre os actores e os acessórios. Lembro-me de ter assistido a um espectáculo assim no teatro da Comuna quando era miúdo, por entre caravelas e tal, e fiquei fascinado com aquilo. Chamava-se a Viagem (se me recordo bem). Mas o ponto é que era absolutamente não realista, por nenhum momento pensava que estava a atravessar o oceano ao lado do João Mota e do Carlos Paulo.

  13. Miguel, o que terias que perguntar é porque razão não poderá ser um objectivo cinematográfico? E onde é que está escrito que o cinema “pede distanciação”, quando o objectivo de um filme é fazer o espectador perder-se nele (e isto é válido para todos, desde o “Cleópatra” até ao infame “Branca de Neve”)? E o que é isso de “distanciação”, afinal? Pegando no teu exemplo, quando vais ao teatro (clássico) perdes essa distanciação, apesar de estares a ver tudo em perfeito 3D? É que se a ideia é ser como um livro, não faz então sentido a introdução da cor, os filmes a preto e branco serviam muito bem, e se calhar dá-me vontade de rir o technicolor, a não ser que um gajo se queira convencer que o mundo é feito naquela paleta de tons.
    Nota que me parece que há aqui um preconceito, teu e do Valupi, sobre o 3D fazer o espectador estar no meio da acção, como no teu exemplo do teatro da Comuna, ou das coisas a pairar no ar. Não é o caso. Trata-se de abrir o ecrã em profundidade, mais uma vez, como num teatro. Do palco para lá.

  14. não, desengana-te: escrevi muito mais do que isso – há uma narrativa por dentro do que escrevi que é preciso explorar sem recurso a artificialidades imediatistas. vá, Vega, tira os óculos 3D. :-)

  15. Vega, não é apenas a distanciação que pode bem ser um parti-pris meu. Gosto dos filmes
    e do teatro em que tenho de participar, em que não sou levado a perder-me naquilo que os autores acharam bem que eu me perdesse. Isso está mais próximo da definição de “entretainment” do que de cinema — e eu passo. Repara que a pintura não é mais interessante nem acrescenta grande coisa por ser mais realista ou em “alta definição”. O Hopper enriquece mais o olhar do espectador do que o Cezanne, o Klee ou o Giacometti?
    Querias o espectador ali ao lado da Vanda no quarto dela, no meio das carnificas a propósito do private Ryan? No Pierrot le Fou, onde é que punhas os aviões feitos de fósforos, onde é que metias a montagem “cubista” da fuga do apartamento? E como é que mergulhavas de cabeça na chávena de chá em “Deux ou trois choses que je sais d’elle”. Que raio de coreografia se ia inventar para meter o espectador nos combates de boxe no Raging Bull? Era a maneira mais simples de destruir a liberdade criativa na escolha dos planos e na montagem pois tudo teria de ser arranjado de forma a conformar-se com a percepção instantânea e repetitiva dessa construção abstracta que é o espectador lambda.

    Tudo isso vai aliás contra a corrente da arte desde o modernismo que tende a valorizar o esboço, a abstracção e a auto-reflexidade. Parece-me ser essa a assinatura do 3D que propões. Achas que os filmes 2D ganhariam em ser filmados com uma profundidade de campo até ao infinito? Perderias a enfase, o força do grande plano, é o abdicar do olhar próprio do realizador em troca da reprodução neutra da realidade.

  16. Mas há coisas onde o 3D pode ser interessante. Lembro-me do filme do Herzog sobre a gruta Chauvet onde o 3D capta de forma distinta a disposição das pinturas sobre as paredes irregulares e curvas, e em dos vestígios arqueológicos dispostos no chão
    da gruta. Alguns planos no filme do Wenders sobre a Pina Bausch. Mas resulta apenas quando é utilizado a favor de um olhar analítico e distanciado sobre a realidade. Até porque, pelo menos actualmente, se perde muito na cor. E a confusão de linhas a pairar por cima da cabeça dos espectadores na plateia não é propriamente aquela experiência do mergulhar e ficar imerso na realidade do filme com que nos impingem o 3D. Note-se que o 3D tem sido utilizado e promovido essencialmente com fins de negócio de bilheteira e estratégias de conquista de mercado, etc.

    De qualquer modo, aqui fica um link para uma discussão interessante sobre o tópico:

    http://www.slantmagazine.com/house/2012/01/the-conversations-3d

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