Cineterapia


The Girlfriend Experience_Steven Soderbergh

Soderbergh filmou em finais de 2008, apanhando em cheio as consequências da crise do Lehman Brothers e o clima da campanha presidencial norte-americana. Todos os actores estão a representar-se a si próprios de alguma forma, incluindo o único elemento profissional do elenco: Sasha Grey, actriz porno, aqui no papel de prostituta de luxo. Foi-lhes pedido para improvisar, foram deixados à solta – e isso nota-se a um ponto que chega a surpreender e incomodar. Gastou pouco mais de 1 milhão de euros e usou uma pequeníssima equipa de produção. Em 16 dias fez a versão negra do Sex, Lies and Videotape.

20 anos antes, um triângulo romântico ligava jovens adultos na descoberta da inexistência do amor. O amor não passava de instinto, medo e narcisismo. Mas havia um final feliz à espera dos iniciados. Quem conseguisse descer aos infernos da lucidez, aí tomando posse de si pelo verbo, regressaria à superfície afectiva para ser aspergido pela abençoada chuva da confiança. A confiança era superior ao amor da mesmíssima forma como o ser é superior ao nada.

20 anos depois, temos também um triângulo amoroso que levará ao desaparecimento de um casal, porém sem redenção no horizonte. Adultos abastados usam dinheiro para tentar adquirir confiança sob o pretexto de quererem sexo. Sexo e dinheiro são já elementos destituídos de qualquer fascínio. Deixaram de atrair, embora não possam deixar de existir. Mas é preciso continuar a acumular dinheiro e a consumir sexo, tal como é preciso continuar a respirar e a comer. Não há, literalmente, mais nada para fazer no topo da pirâmide. E ninguém o sabe melhor do que uma prostituta que trabalha como namorada. Oferece a suprema ilusão, o simulacro do bem maior: a tal salvífica confiança. Tão precioso é este bem que também ela o procura apesar de já o ter encontrado. E nessa ganância o irá perder através de um investimento amoroso falhado.

Soderbergh filma personagens assustadas com a crise económica, dando conselhos para se comprar ouro, zangadas porque perderam negócios, tentando criar esquemas para aumentar os seus rendimentos, discutindo o funcionamento da Reserva Federal, mandando palpites acerca de McCain e Obama, expressando a sua descrença no bailout aos bancos americanos. Estão apavoradas, o seu mundo ameaça ruir. Compram mulheres só para as poderem abraçar. E dão-lhes abraços desesperadamente sinceros, porque sinceramente desesperados.

Nesta nova economia do amor, a confiança é apocalíptica.

14 thoughts on “Cineterapia”

  1. Até que enfim alguém que, como eu, adorou o filme. Tinhas de ser tu, primo. Chegaste a ver o anterior Bubble também do Soderbergh? Acho que há um diálogo entre os filmes particularmente revelador. De resto, o rapaz é capaz de ser o meu realizador favorito da actualidade: The Limey (1999), por exemplo, é um filme absolutamente fabuloso.

  2. Em jeito de comentário “sui generis” a um dos tantos e excelentes textos que por aqui vou encontrando e que não resisto a ler, poderia limitar-me a deixar aqui este satírico e interessante poema de Pedro Barroso. Não quero contudo deixar de dizer que o faço porque, para mim, o momento político que atravessamos nem sequer merece que o comentemos.
    Que me perdoem os que pensam que o momento é para tudo menos para baixarmos os braços. Têm com certeza razão mas eu, pela parte que me toca, optei por me entreter com os meus livros e a minha música, partilhando com os amigos as coisas interessantes com que for deparando. É este o caso!

    CRITICA-MENTE

    Eu pecador me confesso, injustamente atento,
    crentemente duvidoso,
    cépticamente optimista,
    candidamente deslumbrado com todas as coisas.

    Creio piamente nos prazeres da carne, do peixe, da fruta, dos doces
    e de todos os enchidos e queijos em geral,
    pelo que sou culpado, penitente e mártir.

    Creio também no grande arquitecto universal
    Que apenas errou ao permitir que outros ambiciosos arquitectos
    construíssem estranhos arranha-céus
    e embaraçadas cidades com toda a sua confusão,
    Mas se redimiu ao sétimo dia,
    construindo o mar e as montanhas
    os homens, as mulheres e os cavalos,
    os rios, o céu e a terra,
    bem como os presuntos e as alheiras,
    o cozido à portuguesa, as feijoadas à transmontana,
    as sardinhas assadas com pimentos
    e o arroz de pato em particular!

    Eu pecador me confesso,
    perverso, até à fronteira invisível do Bom-senso,
    embora eu próprio deva admitir que também violo esse limite
    em momentos de menos obediência e contenção.

    À parte isso, creio na boa fé de todos os homens,
    até dos vendedores de automóveis e dirigentes de futebol,
    tal como acredito no poder da palavra e do silêncio,
    no poder do exemplo e da acção
    e no direito ao trabalho e à preguiça,
    com igualdade de acesso aos degraus mais elevados
    da justiça e da felicidade.

    Creio no direito à imaginação e à fantasia, mas, por favor,
    desejo muito mais o direito ao uso pleno do prazer concretizado.

    Eu pecador me confesso, vítima e instigador de todos os excessos
    que julgo deverem ser executados com candura,
    na mais saborosa das diferenças,
    dentro de liturgias próprias, adequadamente inconvenientes.

    Creio pouco na justiça dos homens
    que permite os muito ricos e os muito pobres,
    mas duvido ainda mais da justiça em lugares que não conheça,
    porque vivo hoje, aqui e agora e, tudo o que seja embarque para amanhã,
    está sempre sujeito às contingências do tempo, das marés e do próprio nevoeiro.

    Todos os outros que me perdoem em sua infinita generosidade,
    mas creio profundamente nas mulheres,
    desejo do nosso ventre,
    prova visível da vitória da beleza sobre todas as coisas!
    Creio nelas, como quem crê na mentira e na memória,
    e, apesar da decadência sátira que me invade
    espero saborear a sua existência até ao fim!

    Creio nos seios quando são verdade e no cálice e na boca
    e em todos os ventres lisos e elegantes em geral
    e naquele andar que faz parar o tempo,
    em saltos altos de pouquíssima conveniência mas óptima ondulação.

    Creio em todas as saias justas em geral,
    em todos os lábios carnudos e sabedores
    e em tudo o que se faz e não se diz e não se diz porque se faz
    e, se calhar, nem se diz quando se está fazendo.

    Creio também na minoria escassa mas intensa que ainda pensa e escuta
    e sonha com futuros de seriedade e intenção
    e sofre com a incultura enorme e boçal que a cada dia nos afoga,
    entre temperos de culinária patético-musical de gosto flatulento
    e propósito duvidoso e portuguesmente suicida,
    com a conivência sorridente das mais altas instâncias intelectuais.

    Creio num mundo de fragrâncias e elegâncias
    onde, com nobreza e distinção,
    todos viveríamos o requinte das elites, entre iates e casinos,
    mesmo que para isso tivéssemos que ser
    os “almeidas” do nosso próprio lixo.

    Creio firmemente em Deus. Em todos os deuses.
    Grandes e pequenos. Justos e injustos,
    especialmente nos que, não acreditando já muito em si próprios,
    se começaram a tornar agnósticos ou até ateus
    a meio caminho entre o recolhimento e a flagelação.

    E porque em tudo isto creio,
    entre eflúvios de contemplação plena e humilde disfrute,
    sou decerto o mais indigno dos pecadores.
    Pela boca, pelo gesto, pelo tacto, pela exigência, pela vaidade
    pela inquietação eterna, pelo chicote com que zurzo a existência
    e pelo cavalo alazão que conduzo por caminhos impossíveis
    em trilhos de infinito sabor, ao fim da tarde.

    Acredito no poder da deusa Televisão e da Lisboa da noite
    onde cabem todos os negócios da opinião e da visibilidade,
    nos oportunistas e medíocres que têm sucesso
    e em todos os ricos e poderosos em geral.
    Mas tu, natureza dos poetas, ilumina-me,
    Mãe de todas as coisas, perdoa-me,
    E a minha alma, se existir, talvez ainda possa ser salva!

    E se esta garra camponesa for matéria,
    se esta lúcida recusa for temperança,
    se este pôr-do-sol for divindade,
    andarei ainda aí por mais um tempo,
    incomodando a sombra e o desleixo,
    falando ao vento, das pessoas,
    fugindo contigo todos os dias para lugar incerto,
    nas margens imaginárias do futuro.

    E que, para todo o sempre, o mar esteja connosco
    e todas as ilhas do mundo, todos os gelos e montanhas
    e todos os amantes e todas as crianças que brincam
    e todos os homens que fazem pontes e estradas
    e todos os desconhecidos a quem perguntarmos uma coisa
    e nos derem uma resposta e um sorriso
    E todas as coisas difíceis de explicar mas que sejam cá de dentro
    Para que a razão dos tempos assim creia, assim viva e assim seja,
    POR TODO O TEMPO DOS TEMPOS QUE HÃO-DE VIR!

    PEDRO BARROSO

  3. Primo, ainda não vi o Bubble inteiro, por isso não posso comentar. Quanto ao The Limey, estou contigo: ganda malha. Soderbergh vintage.

    Em relação ao The Girlfriend Experience, porque gostaste tanto?
    __

    ANIPER, agradeço-te o poema. Excelente alimento para o coração.

  4. é bom vir aqui ao cinema. desta vez fiquei a pensar nisso da nova economia do amor e como é possível economia dar, a não ser na gestão do lar, com amor e com confiança. e como quarenta anos foi tanto – e tão pouco – tempo para o amor continuar num saco escuro misturado com as entranhas do ego, o filho da puta do ego. :-)

    (que o mar esteja connosco, ANIPER. sempre) :-)

  5. Já protegeste a retaguarda por si las moscas ? espero que tenhas família no campo para não teres de comprar abraços a estranhos. e que andes a pedir força para aguentares o barco em águas completamente desconhecidas.
    ps) adoro o pedro barroso. ele e o rapaz dos belle chase hotel e do quarteto tati , o jp simões , são as mais belas vozes do portugal. e tão pouco aproveitados que elas são. os únicos tugas a quem compro cds. tb gosto do pac man e do boss ac belas letras têm os dois.

  6. Aniper:
    Falou do poemapoema do Pedro Barroso e eu por que gosto de o ouvir gravei o concerto no dia 07/07/11 nas festas Sebastianas de Freamunde. Não está nas melhores condições, encontrava-me bastante retirado mas não quis perder a oportunidade de o fazer.

  7. Muito obrigado, Manuel Pacheco! Excelente! A importância e a força das palavras do Pedro Barroso superam de longe os problemas da imagem.

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