Caixas de cidadãos

«É que ao publicar nos seus sites e FB, sem qualquer filtro ou mecanismo de controlo, comentários como os descritos - e piores -, os chamados "media tradicionais", os jornais, rádios e TV, estão a colaborar na normalização acelerada da falsificação, da calúnia e do ódio. De cada vez que alguém é caluniado, ou ameaçado, ou alguém destila ódio nos comentários a notícias de um jornal ou no respetivo Facebook é esse jornal que está a veicular essa calúnia, essa ameaça, esse discurso de ódio, a validá-los com o seu carimbo, a acolhê-los sob a sua marca.

Não sou jurista; admito que em tribunal se possa ter dúvidas sobre a responsabilidade criminal e civil que esse comportamento acarreta. Mas do ponto de vista ético e deontológico não vejo como ter alguma. Até porque a existência de comentários nos sites e no Facebook de meios de comunicação visa "gerar tráfego", ou seja, proveito.

Combater as fake news deveria começar por aí: porque todos os media que permitem que os seus sites e FB sejam um festim de ódio, acusações falsas, devassas, ameaças, racismo e quejandos estão a contribuir para o ambiente em que elas, as fake news, medram e se tornam indistinguíveis, para parte do público, do jornalismo. Se está tudo no mesmo sítio, distinguir como?»


Fernanda Câncio – “Quando danças com o diabo”

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O argumento é facilmente aceite. Fechar as caixas de comentários pode ser a única solução para o ambiente degradante, se não for criminoso, que as caixas de comentários na imprensa (leia-se: os espaços de livre comunicação escrita por e para livres utilizadores de um dado canal digital) geram numa relação inversa entre a literacia e a violência verbal (mas há excepções para ambos os extremos do primeiro factor, podendo a alta literacia gerar extrema violência e vice-versa). Dando um exemplo recente, o Expresso tinha uma antiga e pujante comunidade de comentadores encaixotados, os quais geravam milhares de comentários mensais. Apesar disso, resolveu acabar com esse território mediático adjacente – ou, como defende a Fernanda, inerente – à entidade legal e respectiva marca. Terá sido por razões morais, deontológicas, legais ou meramente financeiras (custar dinheirinho manter esses dados)? Não faço ideia. Noutros casos, vemos o Observador a cultivar um estilo de pseudo-jornalismo que está em simbiose com o aproveitamento das suas caixas de comentários como elementos de uma dinâmica de propaganda e militância, ou assistimos a um autor (JMT, no Público) que participa nas suas caixas de comentários por razões estritamente narcísicas e megalómanas (ele fala de si nos artigos e continua a falar de si com os comentadores, está satisfeitíssimo com a sua pessoa, et pour cause). Se listarmos exemplos estrangeiros, a diversidade é a regra.

A literatura sobre o fenómeno é tão antiga quanto a WWW, pois desde o início da massificação do acesso à Internet foi sempre assim (aliás, já o era antes, no tempo dos BBS, mas de forma quantitativa e qualitativamente distinta). O facto de se usar a linguagem escrita para comunicar gera inevitavelmente disfunções emocionais na interpretação, por um lado, e permite excessos de agressividade que não se teriam face a face, ou mesmo ao telefone, por outro. Por cima disto, temos depois as diferentes idades (alguém de 84 anos e alguém de 13 anos podem estar a insultar-se mutuamente sem terem noção da diferença etária), a diferente escolaridade, as diferentes literacias, a diferente informação e formação, a diferente motivação e maturidade, a diferente intencionalidade, a diferente capacidade cognitiva, as diferentes personalidades e os diferentes estados de saúde (corporal e, especialmente, mental, mais os eventuais quadros farmacológicos). Finalmente, temos os elementos idiossincrático e existencial, isso de cada um ser único e estar numa situação única a cada momento. Se nem numa junta de freguesia, numa reunião de condomínio e numa família é fácil, sequer provável, chegar a acordo em tudo com todos, ainda menos a consensos, por que raio se vai para uma caixa de comentários de um meio de comunicação generalista esperar tal coisa no que não passa de um baile de máscaras desopilante e/ou alucinado? Só se estivermos completamente avariados da corneta sem arranjo possível.

Dá-se é o caso, substantivo, de ser civicamente importante o que cada um dos participantes nas caixas de comentários dos meios ditos de “referência” está a fazer mesmo quando o que faz é só merda atrás de merda. A importância começa por vir da decisão em participar numa interacção social. Este é o fundamento mesmo de qualquer experiência e instituição políticas. Ora, o que se faz ao participar numa caixa de comentários é lutar para ser o centro das atenções, lutar pelo estatuto, pela posição na hierarquia, pois é isso que antropologicamente se aprende assistindo ao que fazem as celebridades da opinião, essas a quem os mesmos órgãos dão o palco cimeiro. As vedetas, aliás, tendem a queixar-se das “redes sociais” precisamente por causa dessa imitação e concorrência. As vedetas também sonham com audiências caladinhas e em êxtase, só interrompendo a adoração para os aplausos e aclamações do seu brilhantismo, não com o pesadelo de lidarem com uma infinidade de opiniões tão aparente e democraticamente válidas ou vocais como as suas.

No palco onde se passeiam os profissionais comentaristas, como nas catacumbas onde se reúnem os amadores e rebeldes comentadeiros, a lógica e pulsão do antagonismo, e seu cortejo de recursos retoricamente bélicos e assassinos, moldam os conteúdos transmitidos de acordo com as capacidades de cada um. O nivelamento por baixo, essa ecologia da estupidez e da brutalidade, será tão mais fatal quão mais larga for a participação (mas atenção à inversão desta lógica na indústria da calúnia, onde prosperam selectos caluniadores profissionais). Porém, a participação em si mesma da ralé, essa multidão de “anónimos”, é não só bondosa como traz a semente de um crescimento psicológico e cívico – portanto, um crescimento cultural e político. Quem se expõe através da escrita, enviando uma qualquer expressão do seu entendimento (ou falta dele) de uma qualquer realidade, fica excitado com o poder à sua disposição. Trata-se do poder da própria linguagem verbalizada, poder multiplicado pela potência social do meio de comunicação em causa. Poder que se torna meio para uma ontológica necessidade de inclusão. Somos o “zoon politikon”; cuja melhor tradução não é “animal político”, antes “animal da cidade”. E o que é uma cidade? É aquele espaço rodeado de muralhas, feitas de pedra ou de leis, onde a Natureza dá à luz a Civilização.

Os jornais vindos do papel assistem desorientados e em pânico à falência do antigo modelo de negócio sem saberem se existirá um outro substituto. A trágica ironia é a de não terem falta de leitores, talvez até nunca tenham tido tantos. Só que este novo tipo de leitor não pretende pagar por um bem que se tornou ubíquo e com o custo residual igual ao do acesso à Internet, a informação. Daí o triunfo do tabloidismo, o qual vende circo, sexo e sangue, impotência, ópio e ódio. Simetricamente, a irónica tragédia é a de os jornais ignorarem olimpicamente aqueles que os procuram e se expõem na sua ânsia de pertença e crescimento. As tais caixas de comentários infectas, que não passam de becos escuros onde bêbados urinam e miseráveis defecam, resultam da ausência de autoridade. Os jornais abdicam de governar esses espaços, ou quando o fazem são apenas censores, deixando os frequentadores comportarem-se como feras e Quixotes numa guerra civil cuja maior vítima é a inteligência comunitária. Mas seria logística e financeiramente viável fazê-lo, quando nem para os jornalistas há dinheiro? E como? E para quê?

Estudantes, reformados e carolas poderiam, a troco de recompensas simbólicas umas e sem custos monetários outras, passar a exercer a autoridade legal, deontológica e cívica do órgão respectivo em todas as suas caixas de comentários. Em vez de apagarem os comentários que justificassem a sua intervenção, entrariam em diálogo com esse utilizador seguindo protocolos a desenvolver por cada entidade. Um modelo que se baseasse nas regras do pensamento crítico bastaria para o essencial do que está em causa. Aproveitariam os conteúdos enviados para as caixas para o criticarem, mesmo que fossem barbaridades insanas, justificando por que razão, ou razões, tais declarações eram motivo de reparo e dando informações para que o utilizador em causa – e todo o grupo de utilizadores ali de passagem a participar ou só a assistir – pudesse usar a sua própria cabeça, pudesse aferir, pudesse investigar. Pudesse, enfim, tomar consciência das consequências do que tinha escrito, pensado, sentido a partir de um ponto de vista oficial da entidade para onde tinha ido gastar o seu tempo e cujo espaço estava a utilizar de forma tão pessoal. Nesse ambiente, os boatos e as calúnias teriam vida muito curta, por exemplo. Na enormíssima maioria dos casos, esses utilizadores modificariam a sua atitude, abandonando o infantilismo ou desvario iniciais e passando a participar de acordo com as regras explícitas e implícitas assim instituídas pedagogicamente. Nos casos patológicos, em que a proposta dialógica não fosse eficaz, então a censura seria uma solução de higiene inevitável. Finalmente, os jornais teriam oportunidade de entender que cada um se poderia distinguir da concorrência pela qualidade e extensão das comunidades de participação livre que estavam a criar no seu espaço. E ainda que esses quantos representavam muitos mais que precisam que os jornais continuem a ser fontes de inteligência, pois a democracia é de todos os sistemas políticos aquele que mais carece de inteligência – dado tanto a exigir a quem governa como a quem se deixa governar.

Lirismo? Sim, claro. Lirismo, ingenuidade e optimismo. É por aí, ou para aí, que vão os construtores de cidades.

14 thoughts on “Caixas de cidadãos”

  1. Não é tudo igual. Nas redes sociais, há vários grupos ideológicos que se distinguem pela violência verbal e linguagem de escárnio e ódio. Nos primórdios da blogosfera, um dos mais activos era o dos ateístas fundamentalistas. Estão no éter milhões de páginas de paus e pedras atirados aos crentes católicos (não a qualquer religião). E f. assinou algumas delas. Actualmente, entre outros exemplos, vejo duas claques simétricas particularmente agressivas, onde a indigência cívica é mais evidente: a extrema direita bolsonárica, deste e do lado de lá do Atlântico, tanto mais corrupta quanto mais grita contra a corrupção, e o activismo extremista vegano-animalista, totalitário. É impossível ter qualquer interacção racional com estes grupos. São duas teratologias políticas incubadas em caixas de comentários, e equivalentes, que estão fazendo o seu caminho. Não digo fechar esses espaços. Já nem se consegue fazer isso. Antes ensinar nas escolas a distinguir, na cidadania, o que é lixo e o que são materiais de construção.

  2. Apoio o teu lirismo, Valupi. Mas parece-me que o desenvolvimento do tema é feito sobre uma permissa questionável. Essa coisa de dar a entender que nas ditas caixas de comentários é que está a origem de todos os males, parece-me que está a ser um expediente rasca para que os senhores jornalistas passem entre os pingos da chuva perante as suas responsabilidades face ao que publicam e não publicam. Todos os dias se lêm e ouvem “noticias” editadas sem confirmação dos factos, sem contraditório nem contestualização, ou com uma enfase dramática que mais não faz do que tentar inventar”realidade” a partir de coisa nenhuma. Exemplos não faltam. Veja-se o que se passou ainda há pouco com a inventona dos “coletes amarelos” tugas. E não me parece que seja com “fiscais” das cxs de comentários que isso se resolve, num tempo em que até os provedores dos leitores já foram à vida.

  3. Ola,

    Em França, as caixas de comentarios dos principais jornais são moderadas, e muitas incluem a possibilidade de qualquer leitor assinalar abusos. Isto não muda muita coisa, como podemos ver ao consultar as caixas do Figaro. O que torna a moderação efectiva, é a massa critica dos leitores que encontram interesse em comentar e que tratarão eles mesmos de desincentivar trolls e abusadores. Tal e qual como nos blogues. Para um leitor do Aspirina B, a caixa de comentarios do Blasfémias ou do Portadaloja esta cheia de abusos. Os leitores destes dois ultimos blogues acharão provavelmente o mesmo acerca do Aspirina B e de blogues marcados à esquerda…

    So mais uma nota, que no fundo apenas confirma o que digo acima : francamente, eu comento em blogues desde ha muitos anos, e não me lembro nada de ver os tais comentarios “fundamentalistas ateus” a que se refere o Lucas Galuxo. Tanto quanto me lembro, entre ateus, cedo imperou a moderação e a critica a posições extremas, algumas delas eram de facto militantes (as do Esquerda Republicana ou do Diario Ateista, é isso que o Galuxo tem em mente ?) mas, que eu visse, nunca sairam do quadro do debate de ideias. Mas la esta, eu sou ateu, portanto é possivel que a minha percepção esteja inviezada.

    Boas

  4. olhos que não vêm, coração que não sente…. quem não gosta das caixas de comentários, não as lê, que ninguém obriga. ligar a insultos virtuais, a palavreado, é das cenas mais imaturas que conheço. isto são coisas do tuga e do respeitinho e das formalidades.
    no lavanguardia há notícias que geram milhares ( isso 1000) de comentários, todos na converseta, a insultarem-se à brava com ironia e ninguém liga.

  5. Então e o Aspirina, Valupi? O Valupi não moderou em tempos atrás uns certos comentadores que se dedicavam ao insulto de outros que deixavam opiniões assertivas, educadas e inteligentes com vista a promover o debate saudável. Em vez disso deixou degradar o ambiente das caixas de comentários deste espaço também público, também informativo. O que está á vista nos sítios de notícias, é geral.

  6. Lucas Galuxo, o âmbito da opinião da Fernanda Câncio – donde, igualmente da minha – é só o das caixas de comentários da imprensa profissional e, acrescento embora ela não o tenha limitado a esta categoria, o da imprensa “de referência”.
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    MRocha, não é esse o argumento do texto da Fernanda Câncio. Noutros textos, ela já criticou a baixa qualidade, e mesmo flagrante violação do código deontológico, do jornalismo português (referindo-se a casos específicos). Aqui, ela reflecte sobre uma realidade que até a levou a pedir (ou exigir, não faço ideia) para não ter as caixas de comentários abertas nos seus textos de opinião. Donde, o sentido da minha (reles) proposta está circunscrito às caixas de comentários na imprensa, um espaço que actualmente nenhum gestor ou administrador de um órgão de comunicação profissional concebe que mereça o gasto de um cêntimo para além do que já custa a sua manutenção.
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    joão viegas, a moderação é praticada há muito tempo e em muito canal digital. A sua ineficácia é patente na comparação com um outro modelo onde a entidade onde se está a interagir exerça a sua autoridade legal, deontológica, moral e cívica (pelo menos, pois há mais dimensões de autoridade que podem ser exercidas no espaço público).
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    teste, feito. Dá tonteira pois não é de blogues que se está a falar.

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    yo, pois ninguém liga. É exactamente disso que falo. E a Fernanda Câncio falou de esse desligamento aparente ser sintoma e causa de outras degradações cívicas e políticas.
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    Maria de Sempre, desde o início do Aspirina B que a minha opção, nas minhas caixas de comentários, foi a de só exercer censura e de tentar bloquear utilizadores em casos limite. Esses critérios continuam activos mas não dizem respeito ao tema que a Fernanda Câncio desenvolveu e que eu comentei. É que isto aqui é um blogue, e ninguém me paga para o transformar noutra coisa para além de um espaço de reinação livre (com os tais limites últimos, de acordo com o meu arbítrio).

  7. Parte do incomodo da autora nasce da incompreensão do meio, o digital. A anulação da distância, que é inerente ao respeito e ao juízo, torna o digital um meio iminentemente e abusivamente afectivo . A outra parte diz respeito à natureza da comunicação jornalística, que é uma comunicação de poder, unidirecional e de cima para baixo. A estranheza reside no recuo para uma opção pré digital por parte de uma utilizadora do twitter.

  8. Valupi, no espaço digital, há diferença na cultura de participação de diferentes tribos ideológicas mas não há diferenças significativas entre os meios utilizados. A caixa de comentários do Observador (por vezes) é semelhante à caixa de comentários do Antagonista e esta é semelhante à rede bolsonáricade watsap e twitter. No teor, são semelhantes, por exemplo, à página de facebook dos IRA: chavões de insinuação e calúnia, insulto e ódio, escassa elaboração argumentativa. Coisas que muitas vezes se encontram até em textos de opinião de jornais e em intervenções de comentaristas na televisão. É da educação para a distinção de materiais úteis e nocivos para a construção da cidade que se trata, seja onde fôr que o cidadão os encontre.

  9. Joe Strummer, bem visto.
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    Lucas Galuxo, sim, o que se passa nas caixas de comentários tenderá a ser exactamente igual independentemente do estatuto do canal em causa. Daí, precisamente, a reflexão da Fernanda Câncio sobre a responsabilidade da imprensa profissional.

  10. Com efeito Valupi, há ali uma certa ambiguidade; por um lado participa na desmediatização da comunicação/informação e por outro no seu sacerdócio. Há até casos curiosos de produtores de conteúdos que o fazem primeiro no digital informal (twiter, facebook, et..)e depois republicam nos media de forma mais formatada, pergunto, para quê a representação (via media) se tenho a presença (via redes sociais) e posso interagir?
    Quem desmediatiza os media? Os próprios jormalistas e muitos que neles participam.

  11. Para compreender como as redes sociais nos podem ajudar a compreender a quão fundo pode chegar a maldade dos homens, é a acompanhar as reacções digitais de muitos bolsonaristas à morte do pequeno Artur, de 7 anos, neto de Lula da Silva.

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