A loucura da impotência

O pedido de ajuda externa ficou decidido no final da semana anterior ao seu anúncio, segundo se percebe apenas olhando para os acontecimentos públicos: a reunião do Conselho de Estado, a 31 de Março, donde saiu a marcação de eleições, e a declaração de Fernando Ulricht, a 1 de Abril, onde pedia que a ajuda externa viesse urgentemente. Isto passa-se à quinta e sexta-feira. Na segunda-feira, dia 4, os principais banqueiros reuniram com o Governador do Banco de Portugal e anunciaram-lhe a decisão conjunta de interromper a compra de dívida pública. Esta reunião foi imediatamente publicitada e tinha uma única leitura: o pedido de ajuda externa já estava em marcha, seria apenas uma questão de acerto no calendário político para ser assumido pelo Governo. No terça-feira, dia 5, Durão Barroso reafirmava que a União Europeia estava pronta para responder ao pedido de Portugal. Também nestes dias, os juros da dívida soberana continuavam a bater recordes e o rating dos bancos tinha ficado a um nível de ser considerado junk. Na manhã de quarta-feira, dia 6, Jorge Lacão afirmava que o pedido poderia estar iminente. Sócrates anunciou o pedido à noite.

Também durante o dia 6, à tarde, foi publicada uma entrevista com Teixeira dos Santos. Nela, o Ministro das Finanças informava que o Governo tinha decidido pedir a ajuda externa. Era uma informação objectiva e que antecipava por poucas horas o que viria a ser comunicado pelo Primeiro-Ministro face à inevitabilidade da situação após a marcação de eleições. Pois os ranhosos do PSD andam ainda hoje, e cada vez com maior assanhamento, a dizer que foi esta declaração de Teixeira dos Santos que forçou a tomada da decisão. Caso contrário, cospem eles, a corrida de Sócrates para o abismo não teria sido travada e ainda continuaríamos sem pedir ajuda só para satisfazer o orgulho de um déspota.

Neste grupo de víboras há manipuladores frios e lacaios sabujos que exploram debochadamente a calúnia, mas também há retintos casos psicóticos, em que pessoas funcionais em quase todas as áreas da sua vida (ou assim imagino) entram em delírio quando se fala de Sócrates. Para chegarem a esse estado em que papam qualquer irracionalidade que sobre ele seja despejada, estas vítimas tiveram de ir desligando os nós de realidade que ligam os factos por elas observados uns aos outros. De repente, Sócrates deixa de ser um homem que faz parte de variados grupos com outros indivíduos, onde está sujeito aos seus constrangimentos e responsabilidades (como no Governo, no PS, no Estado, na Comunidade, até na Humanidade), para se tornar num ser com poderes sobrenaturais que esmaga e desgraça quem dele se aproxime. Curiosamente, este demónio tão poderoso afinal podia ser vencido apenas com o recurso a um singelo email enviado para um jornal, o suficiente para o derrotar segundo os autores desta intriga.

A impotência sempre foi um dos caminhos mais rápidos para a loucura.

3 thoughts on “A loucura da impotência”

  1. Seria caso para dizer, caro Valupi, que quem já não consegue “dar uma “, roi-se de inveja, até à loucura, da vitalidade dos outros.
    Vitalidade que os deixa de quatro, impotentes perante a “enrabadela” mais que provável.
    Basta ver o estado lastimoso em que ficou uma mão-cheia de presidentes do PSD…E Cavaco também se tem posto a jeito. Mas a esse vai ser a História a dar-lhe o tratamento merecido.
    Grande Socrates! E bem “abonado”, queixam-se eles.

  2. Boa Valupi,
    talvez esta descrição correta e verdadeira de factos ocorridos, feita com bocados de uma realidade transcrita nos orgãos noticiosos e precisa nos tempos devesse ser esclarecedora para mentes que conseguiram arranjar tempo para frequentar pós-graduações, fazer mestrados, tornarem-se doutores e alguns chegarem até às catedras, mas quanto os terão feito à custa de muita biqueira de sapatos estragada por terem de bater às portas com elas, pois tinham os braços ocupados com o peso das prendas.

  3. A incompetência nunca teve grande admiração pela racionalidade e essa é, de há muito, a marca de água do maior partido da oposição. Ou não andassem eles há anos a atirar moedas ao ar para ver se descobrem alguma boa. Essas disfuncionalidades depois difundem-se como uma pandemia pelo aparelho partidário, simpatizantes e acaba a afectar uma boa parte da sociedade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.