A grande coligação

Se me pergunta, objectivamente, qual foi o maior erro que cometemos, foi o de não ter, no início da legislatura, insistido mais em promover uma coligação.

Francisco Assis

*

Estas palavras são intrigantes, seria muito interessante conhecer os seus pressupostos. Porque não se vislumbra como tal coligação poderia ter acontecido. À esquerda, o PCP estava impedido de sequer pensar numa coligação por causa do seu racismo ideológico, e o BE vinha de ter sido mandatado pela classe docente para continuar a diabolizar Sócrates. Aliás, da reunião entre BE e PS na inútil ronda de auscultações, em Outubro de 2009, ficou a ideia de que Louçã estava convicto de ir conseguir partir o PS ao meio em pouco tempo, assumindo ele a chefia da grande esquerda. Convenhamos que o seu entusiasmo vinha de ser engordado a votos, mas igualmente revelou uma juvenil falta de siso no cinquentão. À direita, o CDS não tinha qualquer vantagem em ir para o Governo num cenário de extrema volatilidade resultante do PSD ir para eleições em breve, nem Portas teria estaleca para aguentar as condições de Sócrates. E o PSD, por ir mudar de liderança, só podia aproveitar para servir Cavaco evitando uma crise de vazio governativo que iria prejudicar os planos de reeleição, desse ela para onde desse. Por isso Ferreira Leite garantiu aprovar o Orçamento para 2010, fosse ele qual fosse.

Que se diria do PS caso tivesse recusado governar em minoria? Seria uma situação insólita e calamitosa para o partido e para o País. Ninguém a iria compreender, muito menos aceitar. Assim, naquele quadro político-económico, era responsabilidade do PS aceitar as condições que todos – eleitorado, oposição e Presidente da República – lhe estavam a colocar como facto consumado: puxem por isto sozinhos e fragilizados.

Seguiu-se a crise grega e a alteração das regras do jogo no mercado dos financiamentos, logo depois a do edifício do euro nas suas bases económicas e políticas. Havia para lidar com esse gigantesco desafio um governo minoritário odiado à esquerda e à direita, e ainda sujeito às insídias de uma figura perversa com demasiado poder entre mãos. Sem excepção, a estratégia dos partidos da oposição foi só uma: desgastar e boicotar ao máximo o Governo – basta lembrar o espectáculo burlesco dado no Parlamento aquando da comissão de inquérito à liberdade de expressão, onde os deputados foram toureados pelo Crespo e levaram com teorias de conspiração que envolviam o Rei de Espanha, e também esse momento fundador para o regime democrático dito Estado de direito, na comissão ao caso PT/TVI, em que dois deputados aceitaram devassar escutas de conversas privadas alegando que eram matéria do foro político. Culminou esta lógica infame com a coligação negativa mais ruinosa, mais estúpida, mais aberrante que Portugal e a Europa registam na memória recente.

12 thoughts on “A grande coligação”

  1. A minha leitura da afirmação é um pouco “diferente”, mas só um pouco, em termos de resultados práticos.
    Creio que ele sugere que o PS deveria ter responsabilizado, no plano da opinião pública, o PSD, o próprio CDS/PP (que foi abordado por Luís Amado, com o MNE para Paulo Portas…) e, claramente, o Presidente da República que, como PM, viveu uma experiência “infeliz” de Governo minoritário.
    Creio que é este o sentido que Francisco de Assis (como diz, sempre, Jaime Gama, quando o anuncia no Parlamento) quis emprestar à frase.
    J.A.

  2. Bom dia Val,
    pois…há afirmações sempre intrigantes, nomeadamente se não tiverem a situação que se vivia no momento em que a coligação poderia ter ocorrido e que bem relembras aqui.
    Gostaria também de relembrar que na altura e do lado do PSd o PS ficou sem ninguém para falar. Explico-me :
    1. Com a derrota , o PSD ficou com a direcção a prazo.
    2. Seguiu-se o minímo ainda com MFL de deixarem passar o Orçamento 2010.
    3. E depois foi o penoso processo, até Março de 2010, de elegerem Passos Coelho como Presidente.
    Assim entre Setembro 2009 e Março de 2010 se o PS quisesse um compromisso com o PSD fazia-o com quem se o PSD não tinha direcção ?
    Cumprimentos

  3. A questão é essa, não é, António P.? O teu ponto 1 é válido para qualquer eleição legislativa, tanto para o PSD como para o PS. E o ponto do Valupi sobre a posição do CDS é, por essa razão, automaticamente renovado a cada ciclo.
    Tenho tendência a concordar com o jose albergaria.

  4. Será caro Vega9000 até à data…já que há a “tradição” de direcção derrotada em eleições se demitir, a ver vamos o que acontece desta vez.
    Dois cenários para reflexão / advinha :
    1º – O PSD ganha sem maioria e PS é segundo a pouca distância : Deve José Sócrates demitir-se de Secretário Geral do PS ? Espero bem que não, introduziria algo de novo e obrigava os ranhosos a negociarem com ele à frente do PS. Talvez fizesse bem à democracia.
    2º- O PS ganha sem maioria e o PSD é 2º. O que se passará no PSD ? Pedem a cabeça de Passos Coelho e uma vez mais o PS fica à espera ?

    Cumprimentos

    P.S. : ainda me vou rir quando o 2º cenário se confirmar

  5. … e enquanto isso o pais continua na m****, mas os boys continuam a rir enquanto o taxinho lhes cair todos os meses.

  6. Caro António P, o segundo cenário é tão certo como a morte e os impostos. Aliás, a cabeça de Passos Coelho já estava a prémio antes da crise politica, quanto mais quando perder. Aliado a isso, teremos um PR extremamente fragilizado, e muita gente a pedir a sua demissão também. Vai ser interessante, mas no que diz respeito a acordos de governação, talvez o CDS aproveite a oportunidade para arrumar de vez com o PSD. Só se for por aí.
    Já o primeiro é intrigante, mas não estou a ver que Sócrates também tivesse condições para continuar. Até porque a sua cabeça iria ser pedida pelos partidos da oposição e pelo PR, em nome do “interesse nacional”.

  7. josé albergaria, mas essa responsabilização quereria dizer o quê, exactamente? Que o PS se recusava a governar em minoria? Ou que barafustava e tudo se repetiria de forma igual à que ocorreu?

  8. Sim, não se percebe nada bem nem onde quer chegar Francisco Assis, nem qual o interesse dessa bizantinice neste momento. A menos que Assis já se imagine como Vice-Primeiro-Ministro de Passos Coelho…

    Quanto a Sócrates, caso perca (mesmo que por pouco), deve viabilizar um Governo de Direita, em nome da salvação da Pátria, fazer uma Oposição firme, mas de qualidade e esperar pacientemente, se necessário os quatro anos (dando o exemplo oposto a estes estupores), por uma nova maioria absoluta, dessa vez com alguém mínimamente decente na Presidência da República.

  9. Caro Val,
    Do ponto de vista prático, das consequências, em concreto, a minha opinião não diverge da sua.
    Acho que você tem toda a razão.
    Do ponto de vista da opinião pública e da opinião publicada – penso que o PS, à época deveria ter sido mais contundente e assertivo.
    Deveria ter trazido para a “praça pública” a urgência do entendimento e o comprometimento das oposições.
    Deveria ter dramatizado as possibilidades de um Governo sem maioria parlamentar claudicar peranta a sanha egoista dos partidos da oposição.
    Deveria ter pressionado Cavaco para este se comprometer e empenhar…
    Deveria, em suma, ter tomado precauções e caldos de galinha.
    Lembro-me de umas imagens dos “partidos” a entrarem e a sairem de S. Bento a declararem que não estavam disponíveis para “emparceirar” com o PS na condução do Governo.
    O resto é a história das coligações negativas que condicionaram até ao esgotamento a acção governativa e culminaram no chumbo indecoroso do PEC III.

  10. Pois, são fascinantes especulações essas a respeito dos cruzamentos no passado, o que teria acontecida se a direcção escolhida fosse outra…

  11. Meu caro Val,
    Assiste-lhe toda a razão do mundo nesta observação.
    Há quem tenha escrito livros de “história” imaginando que aquilo que realmente ocorreu não se realizou, ou aconteceu de modo diferente.
    Por exemplo: Trotsky matou Estaline; a França ganhou as batalhas da Indochina e etc.
    Abraço,
    J.A.

  12. Ontem ouvi o Assis a responder, quando lhe perguntaram sobre a ajuda e as contas publicas, que não podia responder porque não tinha os dados todos e que só o Governo poderia explicar, já que este é que possuia todos os dados. Ora, se nem o lider da bancada do partido que apoia o governo conhece a verdadeira situação das finanças do país, como pode, ao mesmo tempo exigir que a oposição conheça a situação das finanças públicas.

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