Vítor Gaspar terá visão lateral?

Ele, de facto, foca muito o olhar nos papéis. Em entrevista ao NYT, o ministro das Finanças insiste nas teorias ligeiras para americano ver. É um tanto ridícula e até revoltante a forma como escamoteia a crise de 2008 e a deficiente arquitetura do euro. Diz ele que “em 2008 foi tentada uma abordagem keynesiana, mas o resultado foi que ainda tornou as coisas piores” ou, como diz o jornal em título, “tentámos o estímulo económico, mas não resultou”.
Para ele, tudo seguia o seu ritmo normal, segundo um modelo económico “expansionista” escolhido pelo governo anterior, numa espécie de espaço sideral, sem gravidade, num contexto vazio de forças. Nem Portugal estava na União Europeia, nem a política da moeda única nos ditava regras, nem os especuladores, num contexto de grande caos financeiro internacional, nos pediam juros proibitivos, sem que nenhum mecanismo de regulação interviesse, nada. Nada disso tem importância ou existe sequer na sua cabeça. O Estado gastou demais e não devia, ponto. Agora temos de sofrer (ele não, claro). Esquece-se até que a dívida privada é muito maior que a pública e que o esforço de contenção orçamental já estava a ser feito há muito tempo (que o diga o PCP).
Pois mesmo que muitos países europeus já comecem a recusar a austeridade como meio exclusivo de resolução dos seus problemas e dos da Europa no seu conjunto e o próprio economista-chefe do FMI comece a pressionar a Alemanha para que lance gradualmente o regime de euro-obrigações, agora que o rigor orçamental foi “interiorizado”, este senhor continua a apregoar que a austeridade máxima é aquilo que nos convém.
Ridículo.

5 thoughts on “Vítor Gaspar terá visão lateral?”

  1. Para ler devagar, soletrando. Não é preciso um charro.

    O Tribunal da Relação rejeitou os recursos de Isaltino Morais, pronunciando-se pela não prescrição dos crimes, e o do Ministério Público rejeitando a prisão imediata do autarca de Oeiras.

    No acórdão conhecido esta terça-feira, os juízes desembargadores substanciam o seu indeferimento do recurso da defesa de Isaltino no facto de a decisão sobre a eventual prescrição dos crimes ser passível de recurso para o Tribunal Constitucional enquanto não transitar em julgado. Sendo passível de recurso, a consequência que o Tribunal do Palácio Raton tira é a de que Isaltino Morais não poderá ser detido.

    Os dois recursos, embora independentes, acabaram por ser interdependentes, já que decidindo-se pela não prescrição a decisão quanto ao recurso do MP só poderia ser a que resultou de facto no acórdão tornado público esta terça-feira.

    Foi assim que, no que diz respeito ao recurso interposto pelo ministério Público – que requeria o cumprimento pela juíza de Oeiras da pena de prisão decretada entretanto – o coletivo de juízes indeferiu também a pretensão desta feita do Ministério Público, fundamentando a sua decisão na ausência do trânsito em julgado do recurso anteriormente mencionado [o da prescrição dos crimes].

    Esta decisão da Relação é ainda passível de recurso para o Tribunal Constitucional. Caso Isaltino Morais o faça, a decisão não transitará em julgado e Isaltino poderá gozar mais algum tempo em liberdade.

  2. A austeridade máxima é aquilo que nos convém, diz o senhor; só que essa austeridade não é para todos: é só para funcionários públicos, reformados e restantes trabalhadores a quem se escalpeliza a alma. Para os privilegiados do costume, para esses não há austeridade. As benesses continuam sem ser tocadas. Que o digam os amigos deles e os compinchas beneficiários das PPP e de todos os que recebem escandalosas rendas do estado.

  3. quanto o governo de socrates aumentou o iva e cortaram o salario aos funcionario publicos, não havia dessas queixas

  4. Oh Penélope uma divida publica na ordem dos 107% do PIB, e uma divida privada ainda superior é sustentável num pais que na ultima década pouco ou nada cresceu e que tem as dificuldades estruturais como Portugal???

  5. jose: No início da crise financeira internacional, a nossa dívida pública rondava os 85% do PIB, praticamente igual à da Alemanha atualmente (já sei, tudo é relativo, mas foste tu que touxeste números). A dívida privada era maior, mas, com juros tão baixos, era praticamente impossível impedir as pessoas de terem uma vida melhor, nem os bancos estavam nisso interessados. As medidas de apoio à economia e aos desempregados quando tudo começou a desabar e quando a dimensão e evolução da catástrofe económica eram ainda incógnitas na Europa fizeram com que a dívida pública subisse, com o beneplácito da Alemanha, subida essa que esteve em sintonia com todos os nossos parceiros europeus, cujas dívidas subiram na mesma proporção. Com a iminência da bancarrota grega e vendo a Alemanha que uma solução europeia coletiva e solidária lhe faria perder votos e subir os juros e não “moralizava” nem punia devidamente os alegados gastadores, seguiu-se o caminho do “cada um por si”, ou melhor, a Alemanha por si e os outros pela Alemanha. Por cá, a direita e a extrema-esquerda, insatisfeitas com a austeridadse demasiado branda de Sócrates, chamaram a Troika e, aí sim, a sangria começou em grande. Sabendo-se que quanto mais austeridade maior a recessão e quanto maior a recessão mais nos dizem ser necessária austeridade, facilmente se chega a uma quebra substancial de receitas e ao aumento das despesas sociais, que nos levam aos atuais 107%, que não vão ficar por aí.

    Para facilitar a minha vida, vou gravar uma cassete.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.