Um novo partido ecologista sobre os escombros do BE?

Calma, dir-me-ão, o anúncio da morte do BE é muito exagerado. Talvez. E a verdade é que vão estar 8 deputados na Assembleia, com um mandato para quatro anos, os quais, além do tradicional protesto, vão ter de seguir uma estratégia. Adianto já que a mesma me parece bem simples: por cada intervenção que o bloco fará contra as medidas do governo PSD/CDS, fará uma intervenção e meia a lembrar ao mundo o quão ligado está o PS ao acordo da Troika, ao ponto de ter sido o responsável pela sua assinatura. Nada de novo nesta frente, portanto. Pelo menos com estes deputados, formatados pela actual Mesa. Desejo-lhes felicidades democráticas no exercício de tão repetitiva e vã função!
Entretanto, lá fora, e nos bastidores, o processo histórico continua, e particularmente activo sobre o agrupamento. Tão activo que Louçã corre o risco de chegar à famosa Mesa e não encontrar por lá ninguém. Ou então, a concretizar-se o desejo de Miguel Portas, encontrar uns jovens com menos de 30 anos a dizerem que terão todo o prazer em coordená-lo a partir de agora.

Entra agora aqui o tema do nosso eurodeputado que se transferiu para o grupo dos Verdes no Parlamento Europeu, depois de romper a união de facto com o partido português pelo qual fora eleito, deduz-se que por se terem esvaído os 50% de afinidades que a ele o ligavam, sempre um bom argumento para ruptura conjugal.
A menos que queira permanecer além-Pirinéus e fazer carreira política como apátrida num partido verde continental, o seu regresso a Portugal, dentro de dias (se ceder às pressões) ou daqui a dois anos, fá-lo-á pensar certamente, ganho que está um genuíno gosto pela política, no partido ou movimento que o poderá acolher para poder prosseguir a militância. Inscrever-se no PCP para militar nos chamados “Verdes”, dando o braço a Eloísa? O preço parece demasiado elevado (refiro-me à inscrição, já que Eloísa é jeitosa) para tanta independência. E que teria Eloísa em comum com Cohn Bendit?

Então aonde militar, e com saúde?
Não me preocupa, obviamente, o futuro do eurodeputado recém-amigado. É lá com ele. É mero pretexto para a reflexão sobre a viabilidade de um novo partido ecologista sobre os eventuais escombros do BE.
Um pouco de contexto, pois. Em matéria de verdura, e de verdura ameaçada, existem seguramente em Portugal focos preocupantes de poluição, como cimenteiras, celuloses, suiniculturas e outros, porém não tão graves como os que estiveram na origem dos movimentos ecologistas que foram surgindo há décadas na Europa central, altamente industrializada e com centrais nucleares, ou nos países nórdicos, atravessados pelo círculo polar árctico, que os torna hipersensíveis às mudanças climáticas, ou ansiosos e excitados com elas, suspeitamos. Há ainda outra fonte de onde brotaram tais movimentos. Morto o comunismo e, pelo odor fétido libertado pelo cadáver, os seus derivados – o marxismo-leninismo, o trotskismo, o maoismo, etc. -, mas havendo sempre entusiastas do alternativo e do “fora do sistema”, os movimentos ecologistas, transformados entretanto em partidos, constituíram um bom substituto das causas perdidas, capaz de manter aceso o espírito de luta e constestação ao capitalismo, agora pela via da rejeição da poluição. Alguns acalmaram-se e já vestem fato, às vezes ocupando as cadeiras do poder.
Talvez por não nos faltar natureza vicejante e praias deslumbrantes e limpas, inclusivamente nos arredores das maiores cidades, os Verdes do PCP, como ramo, são um pouco atrofiados e, como causa, um pouco envergonhados, tendo içado o cartaz e a bandeira, mas não largando as calças do avô…

Regressando ao Rui Tavares, potencial activista “verde”. O seu ex-BE, um bloco não tanto de esquerda, mas antes de cimento, decorado de estrelas luminosas mas cadentes e perfumado de erva, mas um bloco – duro, fechado, inflexível e errante, e ultimamente, por força quiçá do erro original, das circunstâncias e da história, sujeito a fortes pressões contraditórias, perdeu o brilho, o “glamour” e, mais do que isso, ameaça abrir fendas irreparáveis ou mirrar pela força da erosão. Não se vislumbra saída.

Poderá o (ainda) eurodeputado e outros criar um novo partido, dando-lhe um qualquer tom de verde? Fará sentido em Portugal? Não soará a imitação, a tardio, a sucursal, para já não falar em sobreposição? Em que poderá transformar-se o BE? Em coisa nenhuma? Pulveriza-se e os dois ímanes mais próximos, PS e PCP, captam devidamente as partículas?
A coisa é mais séria do que parece, sobretudo para os seus elementos, porque aquelas pessoas existem e têm arranjado emprego (e família) sentando o traseiro na Assembleia e no delírio de acabarem com o PS. Mas a coisa também é séria, porque, a existir alguma força partidária naquele espaço, o que não é de todo obrigatório, seria útil ao grande partido do centro-esquerda poder contar com um potencial parceiro de coligação não agarrado a radicalismos serôdios. Construirá esta gente alguma coisa – verde, amarelo ou azul celeste – sem Louçã? Contra Louçã?

28 thoughts on “Um novo partido ecologista sobre os escombros do BE?”

  1. Eu acho que faz todo o sentido um partido assim. Ecologista a sério e, como dizes, sem “radicalismos serôdios”. Eu seria um militante entusiástico. Aliás, no blog do Rui Tavares lancei o desafio, só em meio tom de brincadeira, de fundar um partido assim. E por aqui, alguém disponível para lutar contra os e-colis da política?

  2. Bem visto, será se calhar a saída mais viável para o BE.

    os Verdes do PCP, como ramo, são um pouco atrofiados e, como causa, um pouco envergonhados, tendo içado o cartaz e a bandeira, mas não largando as calças do avô

    Não. Os Verdes são o avô vestido com avental de jardineiro.

    uns jovens com menos de 30 anos a dizerem que terão todo o prazer em coordená-lo a partir de agora.

    Priceless :D

  3. Haverá sempre causas parcelares justas e respeitáveis, como a Ecologia, os direitos dos animais sencientes, ou até a condição feminina, a idade maior, ou menor, e as chamadas “causas fracturantes”, as tais que partem canelas, para se constituirem Partidos em torno delas. Mas nunca irão a lado nenhum.

    Para além disso, existe na Política portuguesa actual em espaço vazio, entre a Esquerda do PS, demasiado atrofiada, e a Extrema-esquerda parlamentar, demasiado anacrónica, que teria toda a conveniência em ser preenchido por um novo Partido, que transportasse algo do que foram as expectativas iniciais do PRD (do venerando casal Eanes) e do próprio BE, mas sem incorrer nos erros crassos, diria mesmo de palmatória (que aliás lhes foi, e muito bem, eleitoralmente “arrefinfada”), em que estes dois Partidos se deixaram enredar.

    Falemos claro, um novo Partido de Esquerda democrática, que possa ser como que “o CDS do PS”, ou melhor, que consiga juntar um módico de “fermento” ideológico à “farinha” programática (e, quanto a mim, demasiado pragmática) do actual PS, seria um factor de superação de um dos actuais bloqueios com que se debate o espectro político português de há décadas a esta parte, consumada que foi a impossibilidade de concretização política da muito famosa, mas meramente sociológica, “maioria de Esquerda”: ou se escolhe um Governo de maioria parlamentar, mas só pode ser de Direita, ou se grama com um Governo minoritário, se quisermos ser governados à Esquerda.

    Mas para que esta injusta assimetria política possa ser superável, de forma estável e não com as angústias que caracterizaram as anteriores tentativas, mais ou menos assumidas, com as frustradas e decepcionantes experiências do PRD e do BE (já para não mencionar as proto-experiências do MES, ou da UEDS – União de Esquerda para a Democracia e o Socialismo -, nos anos 70), esse tal novo Partido, a construír não diria dos escombros do BE, mas com os contributos de alguns ex-elementos do BE, como Rui Tavares, por exemplo, deve começar por ser fundado em alicerces sólidos e muito claros, que exigem um corte radical com os males que estão na raíz dos fracassos das tentativas anteriores: o programa marxista e a luta contra a Social-democracia (e, em consequência, contra o PS).

    Um novo Partido que seja simultâneamente um Partido novo, sem obediências aos dogmas marxistas e claramente sintonizado com a Democracia parlamentar, tal como vigora na Europa Ocidental, e a economia de mercado, tal como é entendida pelos defensores de um Estado Social de Direito. Sem este “caderno de encargos” inequivocamente cumprido, nunca haverá base política para esse novo Partido vingar.

    Dentro deste modelo democrático ocidental e no quadro da ideologia social-democrata, tal como muito bem defendida por Tony Judt no seu último livro, há quanto a mim espaço para um Partido com preocupações de maior Justiça Social, atenção às causas minoritárias, locais e culturais, mas tudo isto temperado com algo que nunca foi apanágio de Partidos marxistas: a responsabilidade de poder ser chamado a governar e aquilo a que se costuma designar por “sentido de Estado”, que à partida parece uma ideia quadrada e de Direita, mas que é muito mais de Esquerda do que geralmente se pensa.

    Desculpem o relambório, mas este tema é mesmo muito importante e acho que merece a nossa especial atenção. Eu tenho dois Filhos…

  4. Gostei bastante deste post, Penelope. E desde já subscrevo algumas das suas opiniões. Agora, Rui Tavares no PCP: não! E duvido também que o PEV o queira. Mais uma vez afirmo que o PCP não é um campo de refugiados de quem leva tiros de um partido-movimento, movimento-partido ou conjunto de movimentos sem ideologia própria ou com várias ideologias rotativas que está a cair de podre tal é a hipocrisia que ali jaz. Eles sim, são o depósito do lixo do PCP. E continuarão a sê-lo, até ao fim.

  5. Odisseus, assino/plagio imediatamente o que diz no seu comentário, sobretudo com este ideário:
    “Um novo Partido que seja simultâneamente um Partido novo, sem obediências aos dogmas marxistas e claramente sintonizado com a Democracia parlamentar, tal como vigora na Europa Ocidental, e a economia de mercado, tal como é entendida pelos defensores de um Estado Social de Direito. Sem este “caderno de encargos” inequivocamente cumprido, nunca haverá base política para esse novo Partido vingar.”

    Mas este não é já um objectivo do PS – respeito pela democracia parlamentar, actuando numa economia de mercado, sempre atento à justiça social que o Estado deve garantir?

  6. M.G.P. Mendes – tirou-me as palavras da boca. Penso que esses propósitos têm lugar no PS! E o ser-se pragmático não é um defeito, é virtude de quem tem de governar.

  7. Não é depósito do lixo, nas suas palavras. Penso que há pessoas no Bloco que comungam dos ideais do PCP. Alguns até queriam aproximar-se antes das eleições!

  8. claro que queriam aproximar-se para disfarçar o previsível resultado eleitoral, mas a mula do gerómino não foi na conversa.

  9. M. G. P. Mendes e Penélope, claro que todos os requisitos que mencionei são igualmente património do PS. Mas a existência de um Partido menos enredado nos meandros do Poder, sobretudo menos entorpecido com clientelismos e inércias de décadas, seria uma injecção de sangue novo, em termos de ideias e perspectivas para velhos problemas e bloqueios, objectivo fulcral e que receio já não possa ser conseguido únicamente com um PS francamente acomodado e envelhecido. Estou a falar de uma injecção de sangue novo para somar ao do PS, não em competição feroz para roubar o eleitorado deste Partido ou destruí-lo. São coisas diferentes. E só com o PS, quando é que a Esquerda vai poder de novo almejar ser Governo? Ou a alternativa à Direita vai passar a ser o insípido Bloco Central, mais uma maioria absoluta de vinte em vinte anos (como disse o V. P. Valente)? Eu não me conformo com esta fatalidade. Daqui a vinte anos já estarei (provávelmente) reformado…

  10. Subscrevo o que diz o Ulisses. Existe alternativa, com economia de mercado e respeito da democracia parlamentar, que não passe pela politica de contenção/esbulho seguida, na pratica, e ao revês dos seus ideais, pelo PS, com a desculpa de “não haver outra solução” (desculpa estapafurdia quando esta provado que esta politica não soluciona coisissima nenhuma). Uma politica que se preocupa em redistribuir para o trabalho e para as forças produtivas (e não para empresarios mediocres, mal formados, mal orientados e sem futuro) a riqueza que elas, as forças do trabalho, criam de facto.

    Um partido que fosse, à esquerda, o que o CDS/PP é à direita…

    Não haver é péssimo para a democracia, e para o proprio PS…

  11. Odisseus, falas de ‘um PS francamente acomodado e envelhecido’. Deves estar a falar do PS enquanto Governo, porque do PS pós eleições ainda pouco sabemos. Não posso discordar mais. Se Sócrates se tivesse acomodado não tinha tido os problemas que teve. Pelo contrário, os seus Governos foram reformistas e inovadores como ainda nenhum tinha sido. O que não se percebe é que os partidos à sua esquerda não tenham nunca reconhecido a bondade de muitas das medidas levadas a cabo, sendo que algumas até eram bandeiras suas.

    Já que estamos a falar de Verdes e partidos ecologistas, se calhar, o PS devia ter sido mais folclórico. Com as medidas de modernização e informatização dos serviços da administração pública, por exemplo, os membros do Governo deviam ter andado com bandeirinhas a dizer quantas arvorezinhas tinham sido salvas por dia com as toneladas de papel poupadas. O mesmo para os benefícios ambientais com o investimento nas energias renováveis, e etc. É que parece que há pessoas que só compreendem uma ideia se ela for ilustrada.

    E também não percebo por que razão para parecermos muito democráticos temos de ter muitos partidos à esquerda e à direita. Que dizer, então, dos Estados Unidos, um país gigantesco comparado connosco, e que só tem dois partidos, serão menos democráticos do que nós?

  12. Inteiramente de acordo, Guida. Mas esse processo de fusão, a acontecer, ainda vai demorar algum tempo. Tudo dependerá também de quem seja o novo líder do PS. Uma coisa é certa: com as propostas tradicionais da chamada “esquerda”, assentes numa economia muito estatizada, não se irá longe. A qualificação das pessoas e a sua dignidade deverão estar sempre no centro das preocupações da esquerda, mas há que viver neste mundo, agora já sem o “perigo” comunista. É que já nem a direita que prevalece, aqui na Europa pelo menos, é fascista… O combate não vai ser fácil. Líder carismático precisa-se. Com Seguro, não está á vista.

  13. João Viegas, eu também discordo da via imposta para solucionar o nosso problema da dívida. Tanto mais tendo em conta o que se verifica noutros países europeus sujeitos ao tratamento há mais tempo. Não tem conduzido a nada de edificante. Pelo contrário, só tem agravado. Toda a gente pode imaginar que, se nos emprestassem dinheiro a 2 ou 3% nós pagaríamos!
    A situação é inédita, admitamos. Têm acontecido outras intervenções do FMI, mas em países com moeda própria. Para sermos totalmente congruentes com o que pretendes, teríamos de sair do euro, o que não poderia ser feito de imediato e nos conduziria ao caos financeiro e social total. Além disso, os bancos europeus têm a dívida, mas são instituições americanas que detêm as garantias em caso de incumprimento.

  14. É o depósito de lixo do PCP. Isso posso afirmar com toda a naturalidade. O PCP ainda está assente numa ideologia própria, bem definida e bem praticada ao nível de políticas e propostas. Agora, o Bloco? Jamais poderíamos confiar numa esquerda aburguesada, yuppie, que é contra as PPR´s mas que no entanto faz PPR´s a título individual, que é contra as privatizações no sector público e declara acções das empresas sobre as quais é contra a privatização e em meia dúzia de pseudo trotskistas, pseudo Marxistas e pseudo anarco-manifestantes-profissionais que nem sequer sabem o que é o Capital e o Manifesto.

    Eles queriam aproximar-se sim. Mas queriam aproximar-se porque já sabiam perfeitamente que iam levar uma estrondosa derrota nas eleições. E ainda bem que o PCP e o PEV não caíram na cantiga, senão caíriam na redução estrondosa ao nível de deputados em que caiu o Bloco.

    Quanto ao Rui Tavares, que vá para o PS ou que forme um partido só dele. Primeiro, porque a arrogância dele topa-se a milhas. Segundo, porque a mentira dele topa-se a milhas (eu não sou filiado no Bloco e sei quem o fundou) e terceiro, porque ele deveria ter era vergonha na cara em estar a discutir estas trivialidades quando o salário dele é pago por dinheiro dos contribuíntes europeus para discutir políticas europeias e funcionar institucionalmente nas competências que são atribuídas pelos Tratados aos deputados parlamentares europeus.

  15. Estimada “guida”,

    eu é que discordo bastante deste teu comentário, mas vamos por partes.

    Não ponhas palavras tuas no meu: eu não estou a falar do PS enquanto Governo quando digo que está acomodado e amolecido. Falo de toda a história do PS desde que Mário Soares teve a infeliz mas emblemática frase de “meter o Socialismo na gaveta”. A trajectória do PS desde essa altura, não esquecendo todas as virtudes e qualidade que continuou a manter e que me parece que, nesta conversa, nos dispensamos de salientar, não mais deixou de ser uma desjeitada manobra de sustentação e recuo de um discurso e uma prática face ao avolumar das realidades históricas circundantes, quer em Portugal, com a euforia dos anos cavaquistas, quer no plano internacional, com o retumbante triunfo no neo-liberalismo destravado no Ocidente.

    É do PS dos últimos trinta anos que estou a falar, sim, e posso apontar-te, a seguir ao episódio da “gaveta”, outros vários episódios emblemáticos desta estratégia de contenção de danos sem a contrapartida da criação de novos e estimulantes rasgos, mas centro-me apenas num dos mais vergonhosos: a negociação de um Orçamento de Estado com um Deputado avulso da Direita, quando Guterres governava numa situação de maioria mais que relativa e menos que absoluta, ou seja, com tantos Deputados quantos os da Oposição!

    Se não me queres perceber, não percebas, mas a minha crítica vai muito para além dos Governos de José Sócrates – que acho, mesmo assim, foram bem melhores do que os de Guterres e, sejamos francos, até do que os de Mário Soares! -, atinge a imagem que o PS enquanto Partido e independentemente de quem seja o próximo líder projecta para a Sociedade portuguesa: um Partido DEFENSIVO, sem causas, cioso de um património valiosíssimo em termos políticos, mas enclausurado numa prática e, sobretudo, num discurso que só são mobilizadores, admitamo-lo com humildade, para os sectores mais politizados e cultos do Eleitorado!

    E isto são aspectos de fundo, que possuem inércias temporais e mentais que não se mudam com uma só nova liderança, daí que seja irrelevante essa tua distinção epidérmica entre um suposto “PS no Governo” e um mirífico “PS daqui para a frente”, porque a trajectória dos próximos anos e meses tem uma componente variável, sem dúvida, que depende em primeiro lugar do próximo Secretário-geral, mas tem uma componente mais forte que é constante e que é determinada pela inércia dos movimentos passados, do curto ao longo prazo, pelo que é determinável com elevado grau de probabilidade!

    E nessa inércia entram os tais bloqueios, as tais cedências ao pragmatismo e a interesses instalados, que óbviamente são inexpurgáveis no seu todo num Partido que assuma responsabilidades de exercício do Poder, mas que neste momento prejudicam dramáticamente a imagem do PS junto de demasiados sectores do eleitorado. E os que mais me preocupam são os que cá estão para continuar a votar (ou a abster-se!!) ainda por muitas e largas décadas!

    E não penses que não acompanho o teu raciocínio quanto à impossibilidade de convergências com a actual Oposição de Esquerda. Claro que é inviável o PS repetir convergências como a que governou e bem a C. M. de Lisboa, nomeadamente ao nível nacional. Mas o que o PS não pode prescindir é do eleitorado desta franja à sua esquerda! E é aí que me parece fulcral a criação de um novo Partido, com uma imagem mais irreverente, mais descomprometida, mas com os tais mínimos olímpicos que referi – absoluto respeito pela Democracia, desprezo pela praxis marxista e inequívoco sentido de responsabilidades – que permita ADICIONAR eleitorado à Esquerda ao do centro-esquerda que é o do PS!

    E não me amesquinhes ao ponto de me julgares defensor de líderes populistas e demagógicos, tipo Macário Correia a andar de bicicleta e a rejeitar beijocas de fumadoras. Nada disso. Mas é preciso mais para ganhar eleições do que prometer continuar a ser uma barreira mal amanhada à terrível ofensiva da Direita. É preciso fazer de novo acreditar que a Esquerda democrática pode passar também ao contra-ataque. Com cabeça, tronco e membros. Foi esta ideia de Esquerda com cabeça que convenceu 5% do eleitorado a votar no BE até 2005. Eu incluído. E foi a atitude dinâmica e responsável de José Sócrates e o seu Governo efectivamente de ofensiva que me reconciliaram com o voto no PS. Mas está visto que sem as pessoas dessa Esquerda que agora inundaram o abstencionismo, vamos passar os próximos anos a arrojarmo-nos ao chão fazendo defesas apertadas, a rezar para a bola embater na trave e no poste e, depois de muito massacre, se calhar mesmo a ter que sofrer e muito com a bola a entrar na nossa baliza. Isso é que eu pretendo a todo o custo evitar. Para legar aos meus Filhos um Portugal mais risonho do que me estão de momento a oferecer a mim.

  16. Odisseus, não é que não queira perceber-te, mas não está fácil. Começas por dizer que quando falas de um PS ‘acomodado e amolecido’ te referes a praticamente toda a sua História, e acrescentas que é um partido ‘defensivo e sem causas’, contudo admites que houve uma evolução positiva com a mudança de líderes, sendo que um deles até te convenceu a alterar o voto no BE para o PS, não há aqui uma contradição?

    E quanto à necessidade de um novo partido à esquerda do PS, dizes que adicionaria eleitorado de esquerda ao PS. Posso perguntar-te que causas poderia este novo partido defender de forma a distinguir-se quer dos partidos de extrema esquerda que já existem, quer do próprio PS?

    Não concordo com os que defendem que faz falta um ‘CDS’ ao PS. Até porque o CDS só cresceu, em primeiro lugar, graças à mediocridade do PSD nos últimos anos, tanto no poder como na oposição, e, em segundo lugar, ao contrário dos restantes pequenos partidos, não se auto-exclui da governação. E se há coisa que as últimas eleições mostraram foi que as pessoas querem ver-se representadas por quem assuma à partida essa responsabilidade. Mas a verdade é que se a governação correr bem a Passos Coelho, o CDS corre bem o risco de perder o peso que tem neste momento.

    Portanto, acredito que com uma liderança forte, pode ser já com o Francisco Assis, o PS terá capacidade para recuperar o eleitorado ao centro e à esquerda, como já aconteceu no passado, e sem depender de nenhum novo partido.

  17. Cara Guida,

    O que eu percebo do que diz o Ulisses é que ele é a favor de um partido de esquerda, que não abandone os seus principios fundamentais e o objectivo de implementar medidas de repartição mais justa e mais efectiva, mas que não se exclua da governação.

    O CDS é isso à direita : um partido apostado em tudo fazer para que os valores reaccionarios do seu eleitorado (Estado reduzido à policia, impostos zero, direitos do trabalho deves estar a sonhar, pretos OK, mas no seu devido lugar, etc.) se traduzam por medidas concretas, efectivas e cada vez mais importantes.

    Eles não ganham (so) porque o PSD é mediocre. Ganham porque cumprem : de facto, nos ultimos 15 ou 20 anos, conseguiram fazer com que os seus valores sejam adoptados pelos responsaveis que nos governam.

    Um CDS de esquerda é um partido que consegue impôr os valores da esquerda, nomeadamente quando o PS governa. Isso é que não tem havido. Temos uma esquerda folclorica e uma esquerda institucional que, de tanto se encostar ao centro, ja nem reconhece o seu proprio discurso a seis meses de distância.

    Ja aqui disse que aprecio o Socrates, vejo que o nosso amigo Ulisses também. Mas isso não chega. Não podemos ter uma esquerda cujo programa se reduz a fazer a politica da direita, mais umas promessas vagas que não cumpre, e ainda por cima dar a cara pelo fracasso dessa politica. Foi o que sucedeu com Socrates. Com pena minha, mas foi.

    E’ que o que vocês dizem, tudo bem espremido, é que não pode haver esquerda senão a que abdica completamente dos seus valores…

    Boas

  18. Prezada “guida”, dizes tu: «não há aqui ([o PS] é um partido “defensivo e sem causas”, contudo admites que houve uma evolução positiva com a mudança de líderes, sendo que um deles até te convenceu a alterar o voto) uma contradição?». Eu respondo que não, porque o que me fez votar em Sócrates foi realmente a prestação, para mim excepcionalmente positiva, do seu primeiro Governo, mas só votei nele porque concorreu pelo PS, percebes agora? Nunca teria votado em Sócrates, escuta bem, mesmo que ele tivesse governado bem, caso se candidatasse por outro Partido que não me oferecesse as garantias políticas que (hoje talvez só) o PS me dá!! José Sócrates fez-me reconciliar com o voto no PS, mas qualquer outro que tivesse feito tão bem ou quase o que Sócrates fez – fosse ele Ant.º Costa, Ferro Rodrigues, Franc.º Assis, ou até Rui Rio! – ter-me-ia feito votar PS! Estou a explicar-me bem (ou ficaste ainda mais confusa? Nesse caso peço imensa desculpa, mas por este meio é-me impossível ser mais claro…)?

    Dizes depois que «quanto à necessidade de um novo partido à esquerda do PS, dizes que adicionaria eleitorado de esquerda ao PS. Posso perguntar-te que causas poderia este novo partido defender de forma a distinguir-se quer dos partidos de extrema esquerda que já existem, quer do próprio PS?».

    Bem, vou repetir que o meu problema com os Partidos actuais à Esquerda do PS não são própriamente as suas “causas”, mas sim a sua “praxis”. Isto que fique bem claro. Por isso, vou responder à tua importante questão desta forma: um Partido de Esquerda democrática situado à Esquerda do PS poderia defender, como de certa forma já disse o J. Viegas acima, sobretudo medidas de combate à desigualdade económica e social de uma forma diferente do que fazem, como “zombies”, o PCP e o BE, nomeadamente ultrapassando a visão corporativista e sindical das reivindicações e propondo medidas concretas, viáveis e legisláveis, de combate às desigualdades sociais, como maior fiscalização da fraude fiscal, maior carga fiscal sobre os Bancos e outro tipo de Empresas (Farmacêuticas, Construtoras, Sociedades de Advogados, Clínicas Médicas, etc., etc.), higienização dos mecanismos de regulação económica, controle dos mercados financeiros e das aberrações da “economia de casino” (tipo “off-shores”) e muitas outras coisas do género. Já para não falar de outro tipo de causas mais “parcelares”, como a Ecologia, o Urbanismo, a Regionalização e outras, que porém não são tão importantes como as primeiras.

    Vou tentar resumir: um Partido com a matriz ocidental e democrática do PS, em termos políticos, mas com maior ênfase nas causas sócio-económicas de Esquerda (onde o PS se deixou “amolecer”), sem contudo se subordinar aos ditames do marxismo, não iria concorrer com o PS, mas sim arrancar da abstenção (e até do PCP e do BE) muitos votantes que prezam, mais ainda do que a continuidade do sistema democrático e do Estado de Direito, uma Sociedade mais igualitária e mais justa.

    E isto parece-me uma motivação indispensável para se criar de novo um grande “élan” de optimismo e sucesso na Esquerda. Não vai lá só com “tentativa e erro” para encontrar um novo Messias para o PS. Há que ter lucidez sobretudo na derrota.

  19. joão viegas, talvez agora possamos ver quais as diferenças entre um Governo de esquerda e um de direita. É que da última vez que a direita governou aquilo nem foi direita nem foi nada, foi um disparate pegado. Por acaso, o CDS, esse que o joão diz que cumpre, fazia parte e, para além dos submarinos, ninguém, nem o próprio Portas, se lembra de ter cumprido o que quer que seja. Adiante.

    Diz o joão que temos uma “esquerda folclórica” mas de seguida repete esta frase: “Não podemos ter uma esquerda cujo programa se reduz a fazer a politica da direita”.
    Bom, assim de repente, não me lembro de frase mais folclórica.
    Que raio quer isto dizer? Que o investimento na Educação, com todas as reformas que foram feitas, é política de direita? O mesmo para a Saúde. Então e a aposta nas energias renováveis ou na ciência e tecnologia, é de direita ou de esquerda? Será que o programa e-escola e o Magalhães ou as Novas Oportunidades promovem as desigualdades sociais? Só para dar alguns exemplos do que foram as principais apostas do Governo socialista de Sócrates, cujos resultados vão sendo conhecidos e que estão longe de terem sido um ‘fracasso’. E isto ao mesmo tempo que se fazia frente à maior crise internacional das últimas décadas. Coisa sem importância nenhuma e que decerto um Governo de esquerda, com políticas de esquerda a sério, teria resolvido em três penadas.

    Já nem falo de coisas como, por exemplo, a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo, isso então é que tem mesmo pinta de política de direita. :)

  20. João Viegas, que presumo fales de longe (e que por isso tens desculpa): se a política dos Governos de José Sócrates se tivesse reduzido, como dizes, a “fazer a política da Direita”, GARANTO-TE que nunca teria concitado a raiva cega e descomandada de toda a Direita portuguesa – política, económica e social -, como aconteceu práticamente desde o seu primeiro discurso de tomada de posse!

    Digo-te mais, que me parece estares a vogar muito longe da realidade política portuguesa (não vens cá neste Verão?): José Sócrates liderou os Governos objectivamente (não retóricamente) mais à Esquerda desde, pelo menos, o de Maria de Lurdes Pintassilgo. Se calhar já nem te lembras dele…

  21. Odisseus, tinha ficado com a ideia que, para ti, o PS era um partido acomodado, envelhecido e mais umas quantas coisas, vai para mais de trinta anos, e que por causa disso aderiste às ideias do BE, até ter aparecido Sócrates que te reconciliou com o seu partido. Agora, se bem percebi, dizes que se Sócrates tivesse aparecido à frente de um outro partido, calculo que o BE incluído, não votarias nele porque só o PS te oferece garantias. Tens razão, fiquei mais confusa.

    Se calhar já devia ter dito antes que nada tenho contra o aparecimento de novos partidos. Aliás, existem bastantes e não defendo que se devam extinguir, embora tenha dificuldade em acreditar que muitas das ideias que defendem tenham saído da cabeça de pessoas adultas. Aparentemente, não é só para eleger um bom líder para um partido que a coisa vai por ‘tentativa e erro’, o que não faltam são exemplos de tentativas e, sobretudo, erros no aparecimento de novos partidos que tentam ter alguma visibilidade. Não vejo é que seja necessário o aparecimento de nenhum novo partido de esquerda para servir de bengala ao PS. No fundo, alinhando na conversa de que PS e PSD são iguais e que o que faria a diferença na governação seriam os respectivos ‘CDS’ de cada um. Para mim, PS e PSD não são iguais.

    Mas a maioria dessas ideias que enuncias não é já defendida pelos actuais partidos? E o combate às desigualdades sociais e económicas precisa mesmo de um novo partido de esquerda, não reconheces que tem sido uma batalha do PS e que a trava de forma diferente do BE e do PCP? Se não que garantias te oferece, afinal, o PS?

    (Só por curiosidade, por que colocas o meu nome entre aspas? Podia não ser, mas é mesmo o meu nome) :)

  22. Talvez seja (mas o aumento do IVA não foi propriamente de esquerda) e não se contesta que algumas das medidas tenham ido no caminho certo.

    Agora a politica que ele propos nas ultimas eleições não era com certeza de esquerda, e também não era, nem vai ser, solução nenhuma.

    Ja sei que foi tudo por causa “da crise” (“a maior desde 1929”, eu ja ouvi tantas asneiras a este respeito que so peço que me expliquem, assim como se eu chegasse de Marte, o que é que entendem por isso).

    Digo apenas que, com um partido realista mais à esquerda, que fosse uma ameaça real (e não mero folclore), se calhar tornava-se mais dificil, internamente e no exterior, utilizar a desculpa da “crise”, a tal que ameaçava de morte imediata os bancos ha uns dois ou três anos atras, e que não impediu que todos lhes acudissem, ou ja não se lembram desta parte ?

    Eu, nessas coisas, sou completamente oportunista (ou idealista, ou estupido, ou la como é o termo técnico idoneo, ah ja me lembro, é “imbecil”) : voto em função dos programas que me poem à frente.

    So não sei como é que vocês fizeram para votar no que o Socrates propos em 2009 (como eu fiz) e, menos de dois anos a seguir, no que ele propunha agora (mesmo apenas a parte que ele deixou ver). Puseram o voto na boca, encheram com agua e engoliram, foi ?

    Boas.

  23. joão viegas, ora aí está uma rica ideia, um novo partido que começasse por provar por a+b que a crise nunca existiu, que foi mais uma aldrabice que Sócrates inventou numa tarde em que não tinha mais nada que fazer. Parece-me realista e também uma verdadeira ameaça nada folclórica. Força! :)

  24. A crise vem de uma sobrevalorização do valor trabalho em Portugal ? Não vem, pois não ? Uma politica realista de redistribuição (e de desenvolvimento a médio e longo prazo) tem de saber contar com esse tipo de crises, ou não ? O programa de Socrates ia responder melhor à famigerada crise do que o programa do Passos ? Não ia, pois não ?

    Bom, eu sei que para vocês ia, não que o programa do Socrates fosse la grande coisa, mas porque o programa do Passos era mesmo bera e mau e incompetente e feio. Alias, o Passos, ao que se diz por ai, é enteado da propria crise.

    Tudo bem. Expliquem isso melhor da proxima vez e vão ver que vou votar no PS…

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