Haverá margem?

A comunicação de ontem do nosso Ministro das Finanças suscita-me uma série de questões sobre política actual que conviria discutir com a máxima abertura. Para além do estilo inédito do novo governante, acabado de chegar da “Europa”, e do qual se gosta ou não ou, se não se gosta, até se pode considerar encobridor de uma certa crueldade, ele não deixa de ser um liberal, imbuído de um forte espírito privatizador e apologista de um capitalismo totalmente transfronteiras. No fundo, aceita de bom grado, se é que não advoga, a perda de independência. “O capital não tem fronteiras” parece ser a sua casa. Aparentemente, mas só do seu ponto de vista, está em total consonância com a corrente política actualmente dominante nas países europeus, maioritariamente de direita. Chamo, no entanto, a atenção para o facto de os principais dirigentes europeus, ao contrário do senhor Ministro, serem altamente zelosos e protectores dos interesses dos seus países, acima de tudo.

Ora eu pergunto se haverá, se haveria, margem, neste momento, para um governo de esquerda num país da zona Euro? Se haveria margem, por exemplo, para um José Sócrates, com uma visão mais “soberana” do país e directrizes de desenvolvimento próprias. Penso que seria difícil. Em sede do Conselho Europeu seria sempre visto como um pária. Ou então, para satisfazer os ditames dos seus parceiros europeus mais ricos, seria sempre visto como um traidor pelos seus eleitores em Portugal. Uma questão na qual o PS deverá reflectir.

O tal governo económico que muitos acham indispensável existir para dar estabilidade ao euro não poderá nunca ser separado de uma visão politico-ideológica para a Europa no seu conjunto. Enquanto os países com mais peso tiverem governos de orientação neo-liberal, um país com um governo de esquerda será sempre mal visto. E o curioso é que os próprios cidadãos desse país entenderão que terão mais interesse em votar em partidos da linha dominante na Europa. Tudo pensado, verão nisso uma vantagem. Veja-se o que acontece neste momento em Portugal. A maioria acata pacificamente as decisões desta espécie de “delegação” do governo federal da Alemanha. Será isto uma ante-câmara de um governo europeu? Não estará o eleitorado a ser instruído para vender a sua autonomia e identidade em troco de paz e pão?

17 thoughts on “Haverá margem?”

  1. Gostar ou não do estilo do homem é uma questão secundária, claro. Mas ele tem toda a legitimidade para aplicar qualquer forma de liberalismo que lhe der na gana, pois foi isso mesmo que o eleitorado validou a 5 de Junho.

  2. “Uma questão na qual o PS deverá reflectir”

    Agora que passaram as eleições…

    Tivesse “reflectido” umas semanas mais cedo, impelido como estava pela tremenda hipocrisia do PSD, e, posto que tivesse perdido as eleições à mesma, hoje estaria se calhar a fazer outra coisa do que, simplesmente, “reflectir”.

    Assim não sucedeu. Parece que o PS deixa estas “reflexões” para o folclore do Bloco, ou do PCP… ou seja para os profissionais do impossivel.

    A esquerda é um deserto, onde se defrontam falta de competência, falta de apetência e falta de comparência !

    Boas

  3. Quanto estava a ler o texto, lembrei-me logo do que já aqui falámos a propósito das declarações de Luís Amado, onde a tese era precisamente essa: a direita tinha de assumir estas reformas, não podendo a esquerda aguentar o fardo de ir contra o seu ideário.

  4. Quererá isso dizer que a Europa procura arredondar as suas próprias esquinas?
    Será isto uma cama para um governo Europeu?

  5. O eleitorado não se vende, amigo. Mas foi vendido sem um pingo de pudor por uma direita que assaltou o poder com tudo o que tinha à mão, e não foi pouco, ou foi mesmo tudo. O eleitorado foi vendido ao engano pelos mesmos que durante anos não viram a crise até cinco de Junho. Tenho parentes queridos e amigos que a principio tentei alertar. Mas ao meu balbuciar sobrepunha-se a voz tonitroante, sábia e mais verdadeira que a “palavra de Deus” do PR. E com ele foi toda a finança, toda a comnunicaçâo social, toda a justiça e toda a esquerda além PS, em conluio, porque o bocado era apetitoso: ocupar o lugar do PS de Sócrates no governo e no parlamento. E conseguiram. Foi um fartar vilanagem.
    O eleitorado, esse, vi-o ser comido, não vendido.

  6. Cardoso Lopes: Sim, é esse, se bem que, para provar que sabe não ser curto, nos brindou com a comunicação mais pausada de que há memória, com direito a documento de suporte e tempo para lhe virar as páginas… :-)

  7. pois está, como não podia deixar de ser, mas agora como se faz isto? Às tantas invoca-se o último dos diamantes famosos do Temerário, para dar uma chispa no assunto?

  8. א- Como eu já disse por aqui, é triste ver um português comportar-se com reverência, ou submissão mesmo, perante quem se fartou e farta de ganhar com os famosos empréstimos. É certo que quem empresta, manda. Mas isso não nos devia agradar. Um pouco mais de orgulho e desafio só nos ficaria bem. Mas este ministro vem do BCE… Será um executante, que não ousará pôr nenhuma ordem em causa.

  9. mas também assim à vista grossa a única solução prática invocável imediatamente é aquela que tem dito o Cavaco, desvalorizar o euro. Como? Refinanciando as dívidas escaldantes dos Estados-membro com juros mais baixos do que os actuais, substancialmente mais baixos, isso implica uma translocação de ónus. Que moralidade e que inteligência há em o BCE emprestar a juros mais baixos aos bancos do que aos estados? Sufocar?

  10. Kapa: No Expresso de ontem, Daniel Bessa escreve sobre as subtilezas jurídicas dos Eurobonds e sobre o hipotético empréstimo a taxas de juros mais baixas: qual o veículo, quais os credores, quais os avalistas. Vale a pena ler, para ponderar ou discordar. Não tenho conhecimentos suficientes de finanças para contrapor nada, mas fica-se com mais algumas luzes sobre questões práticas.

  11. Penélope: não consigo acompanhar o v. ritmo de produção intelectual e fontes no meio do que estou fazendo, mas verdade se diga que vou fazer alguma coisa por isso com calma,

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