Do canal do Panamá à cena da alta prestação

Com o alargamento do canal do Panamá, não diz Passos Coelho, mas pensa, “vão vir charters de” navios de grande porte largar no porto de Sines mercadorias destinadas ao continente europeu. Pode ser. Nunca se sabe. Tal como deus, o mar é grande e Le Havre e Roterdão, possivelmente, já eram. Mas alguém me diga se faz algum sentido construir uma linha ferroviária “de alta prestação”, que também exige fundos avultados como o TGV, exclusivamente para o transporte de mercadorias internacionais que ainda não existem e não prever o transporte de passageiros/turistas/profissionais vários, estes existentes, bem vivos e normalmente com pressa, numa linha de alta velocidade? Voltamos à imagem de nós, humanos, ficarmos “a ver passar os comboios”?
Além disso, existem alguns estudos que indiquem a disponibilidade das companhias de navegação internacionais para abdicarem das suas rotas habituais de destino europeu, encurtando-as para uma intermodalidade em Sines? A linha interdita a passageiros não será um enorme risco, criado apenas para contrariar decisões do Governo anterior e tentar cumprir a martelo uma promessa eleitoral?

“O primeiro-ministro disse ontem esperar que a ligação ferroviária de mercadorias entre Sines e Badajoz possa estar concluída até 2014. Depois de o Tribunal de Contas (TC) ter decidido não conceder o visto ao contrato de construção da linha de alta velocidade e de o Governo ter deixado cair defi nitivamente este projecto, o objectivo é concretizar a nova obra antes que ocorra o alargamento do Canal do Panamá, igualmente previsto para daqui a dois anos.
[…]
A linha de alta prestação para mercadorias é um projecto há muito defendido pelo Governo e que ganhou força com o chumbo do TC.”

Fonte: Público

Pergunto-me ainda se esse mítico porto de Sines não iria, no apogeu do seu desenvolvimento, destruir completamente uma boa parte de uma das zonas mais bonitas da nossa costa, causando a sua inevitável ampliação e o seu movimento um enorme prejuízo ambiental e turístico.

4 thoughts on “Do canal do Panamá à cena da alta prestação”

  1. Penélope,

    1º – O Porto de Sines tem muito para onde se expandir sem prejudicar nada na paisagem, não te apoquentes. Como é sabido, o que havia a estragar já foi estragado, com tudo o que lá existe, e que ainda por cima se encontra muito sub-aproveitado. Se há sítio em Portugal em que se pode incrementar o seu atual uso esse é, sem dúvida, o Porto de Sines, assim haja justificação económica. Até o Porto de Lisboa tem potencial para se expandir e só ainda não o foi, no tocante ao tráfego de contentores, devido a todos os bloqueios que existem em termos de infra-estruturas de transporte terrestre, sobretudo no nó ferroviário de Alcântara e na inexistência de uma ligação viária decente à CREL (o prolongamento da Av. de Brasília), o que encarece os seus custos de operação e o faz ficar atrás até de Barcelona. E estamos aqui a falar de uma zona delicadíssima, não só do ponto de vista ambiental, como sobretudo do ponto de vista económico, dado o peso do sector turístico no PIB da Região Metropolitana de Lisboa;

    2º – Uma moderna linha de mercadorias entre Sines e Badajoz é sempre bem-vinda, se for bem pensada e executada, claro. Como seria, ainda muito mais, uma moderna linha de passageiros entre Lisboa e Badajoz (e entre Lisboa e o Porto). Basta de demagogias, de parte a parte;

    3º – Substituír-se aos portos do Norte da Europa é um disparate pueril, mas fazer em Portugal o principal porto atlântico da Península Ibérica só pode trazer vantagens à nossa Economia. O problema está em conciliar os mercados ibérico e nacional: é bom verificar mesmo se a melhor alternativa será Sines, ou Lisboa (ou ambos?), pois sabe-se que, em termos regionais, a quase totalidade das mercadorias que transitam atualmente pelo Porto de Lisboa servem uma zona com um raio de apenas cerca de 60 km ao redor de Lisboa. Propagandas à parte, vamos lá a encarar estes assuntos com a seriedade que eles merecem (mas que os nossos políticos, comentadores e jornalistas raramente lhes sabem dar).

  2. Odisseu (Ulisses?!): Eu considero este tema interessante e, acima de tudo, sério. A justificação económica é que eu gostaria de conhecer.
    À roda de Sines não existe neste momento qualquer atividade industrial digna desse nome, mas o hipotético desenvolvimento e internacionalização do porto iria decerto alterar esse estado de coisas. Será isso bom? O que se ganha e o que se perde? Não se sabe ao certo. Será um porto meramente ou sobretudo destinado a servir Espanha? O que nos pagam por isso? E a que custo para o nosso turismo/ambiente? Não haverá outro ou outros portos nacionais mais vocacionados para essa função e, além do mais, inseridos em regiões industrializadas? Não estarão os portos de Lisboa e Aveiro ou Leixões subaproveitados? E o que tem o canal do Panamá a ver com tudo isto?

    Parece-me existir grande leviandade nestas decisões apressadas e revanchistas. Mas penso que tu concordas.

  3. Mais não posso concordar…

    Mas todo o Complexo de Sines está vocacionado para poder constituir um polo industrial e isso nada tem de negativo. Compara com Lisboa e vê que nem mesmo com todo o exagero de ocupação urbana e industrial – que até já foi maior do que é hoje, em especial na Margem Sul – não conseguiu ainda destruír a Costa da Caparica, cujas Praias se encontram bem mais perto do Porto de Lisboa do que Porto Covo (a zona mais exposta à eventual poluição) está do de Sines. E não te esqueças de que, mesmo sem um elevado volume de carga no Porto de Sines, há sempre perigos ambientais, como aconteceu aqui há umas duas décadas na Praia do Almograve (mais precisamente em 89), com o derrame de petróleo bruto por parte de um petroleiro, e que práticamente só afectou aquela Praia durante esse Verão.

    Mas, como é evidente, só estudos sérios é que poderão levar à tomada das melhores decisões. Que não devem, aliás, ficar coladas a nenhum governante, pois são empreendimentos com fôlegos de décadas…

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