O castigo como salvação, paradigmas da portugalidade

Ouvindo o Fórum TSF, por exemplo entre tantos outros exemplos, deparamos com múltiplos testemunhos de pessoas a repetirem o discurso da culpa, da necessidade do sofrimento através da austeridade, da cura moral pelo corte de serviços públicos e de rendimentos, do exorcismo pátrio na diabolização de um indivíduo.

Pelo léxico, a sintaxe, o pathos, não andaremos longe se os retratarmos como pertencentes a uma classe média baixa ou baixíssima. Talvez alguns sejam factualmente pobres. Mas querem juntar-se ao cortejo, sentir o poder de, nem que seja por uns instantes, darem um sentido ao absurdo da sua vida ou das vidas que os cercam, das vidas que os ameaçam por serem o que são na sua desgraça. Talvez alguns até sejam votantes da esquerda pura e verdadeira, mas também aí foram sendo constantemente avisados de que habitavam num território entregue a criminosos e que só pela grande expiação colectiva se conseguiria alcançar a terra prometida.

Perante isto, a soberba de Passos-Relvas ganha a sua perfeita definição. E somos confrontados com a pior das misérias: as vítimas transformadas na sombra dos carrascos.

7 thoughts on “O castigo como salvação, paradigmas da portugalidade”

  1. Eu gosto e de ver gajos supostamente de esquerda a teorizar sobre extratos sociais, olhando de cima para baixo com soberba intelectual (e material).
    Cospem agora naqueles que durante anos afim vos mantiveram nas cadeiras do poder, so porque eles, os principais sofredores, ja nao acreditam em promessas ocas de futuros brilhantes ao virar da esquina.
    Estas “classes medias baixissimas”, que voces arrebanhavam em camionetas para enxer as pracas onde discursava o agora exilado rei sol, agora ja nao sao esclarecidas, agora ja nao sabem o que querem, agora ja nao sabem em quem votam. Claramente estao perdidas, caem na mentira facil da direita intrigona, manipuladora, inventona.

    Claro, eles nao tem a clarividencia, eles nao conseguem perceber que a culpa nao foi nossa, que o pais que ainda ha 5 anos tinha um racio de divida publica / pib na ordem dos 80% e que agora ja vai nos 120%, foi mais uma vitima dos “especuladores financeiros”, “da falta de lideres na europa” etc. etc etc.. Eles nao percebem que os quase 400% de divida externa do pais sao uma coisa sem importancia e conjuntural, algo que se pode ignorar enquanto se faz mais uma inauguracao de um hospital publico qualquer que nunca sera concluido.

    Ha, estas classes medias baixissimas, tao diferentes sao hoje do que foram durante 15 anos a fio.

  2. olha. isto faz parelha com aquela coisa que li – no impressionar, brilhar e seduzir- de a maior riqueza da pobreza ser a triste, mas farta, propensão à doença. :-)

  3. nem chove, nem a fitch sobe o rating e o primeiro acha que estamos a fazer progressos com a política de não-fazer-nada-e-esperar-que-passe.

  4. Quem anda na rua e nos transportes públicos não se depara com essa gente masoquista pelo contrário,assiste-se a uma revolta profunda contra a realidade dura da vida que a laparotagem lhes proporciona.Sente-se uma “combustão interna” uma raiva surda em crescimento que terá de se expandir.Não é sem razão que começamos a ver acções dos gorilas policiais completamente desproporcionadas agredindo mulheres e pessoas caídas e indefesas.Alguém ordenou a brutalidade e não é difícil saber quem. Conheço bem o perfil policial que não age autonomamente a menos que se sinta coberto.O mesmo que há tempos veio levantar a lebre-sens blague-do vandalismo na rua numa de acção preparatória para o que já se viu.E se dão asas a esta gente ainda vamos ver a criação de milícias para defesa do regime e claro para a protecção do cidadão ordeiro,o que nem sequer é original.As SA hitlerianas nasceram para quê?

  5. Conheço alguns dessa sub-espécie, Val. Miseraveis que não têm onde cair mortos, sempre a lamentar-se da sua limitada vida, da sua falta de dinheiro, da escassez das suas posses, das suas dificuldades em fazer face ao custo de vida. E é verdade: são pessoas que eu conheço e que tenho por muito pobres. Mas, curiosamente, são grandes acusadores do antigo primeiro-ministro e defensores do actual. Para esta gente este actual primeiro-ministro é uma espécie de redentor. Levarão algum tempo a acordar do logro onde cairam, porque o seu crédito resulta duma espécie de fé; mas, com a passagem de mais algum tempo, creio que acabarão por reconhecer esse logro.

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