Concordo

…com Francisco Seixas da Costa quanto ao problema da Ucrânia:

[…]Posso estar enganado, mas tenho a sensação de que a Europa comunitária, com a sombra da NATO a ajudar, acabou por meter a Ucrânia numa “grande alhada”. Fê-lo por alguma irresponsabilidade induzida essencialmente pelos Estados bálticos e alguns outros países da antiga “cortina de ferro” – a “nova Europa” de Donald Rumsfeld -, como reconhece Teresa de Sousa, ao falar da “obsessão desses países em continuarem a olhar a Rússia como uma ameaça”.

Sei que me arrisco a ser visto como um perigoso “realista”, mas nunca tive a menor ilusão sobre a possibilidade da Ucrânia poder exercer o seu pleno direito de opção estratégica. Há “soberanias limitadas”? Claro que há, porque a geografia não se improvisa. Que o diga Cuba.

Tenho hoje a firme convicção de que a Europa perdeu um ensejo precioso de desenhar um modelo de relacionamento “possível” com Kiev, porventura menos ambicioso mas bastante mais pragmático. Um modelo à medida do país muito particular, geopoliticamente falando, que a Ucrânia é e continuará a ser. A União Europeia não percebeu, ou não quis perceber, as lições que deveria ter retirado da atitude russa na crise da Geórgia – e, em especial, da “liberdade” então recuperada por Moscovo para reatuar com maior liberdade nas suas próprias “águas territoriais”, em face da então mitigada reação de Washington, secundada pelo já então ineficaz gesticular europeu. Se o tivesse feito, não se deixando seduzir por uma agenda marcadamente anti-Moscovo, talvez tivesse ajudado Putin a reconhecer as vantagens de algum reconhecimento de “respeitabilidade” no plano internacional e apostado na sua adesão, pelo menos formal, a uma ordem global mais dialogada.[…]”

(artigo completo aqui)

Efetivamente, até onde estarão os Estados Unidos e a Europa dispostos a ir no confronto com Putin por causa da Ucrânia? Na minha modesta opinião, nada longe. Pelo que é um erro esta atitude proto-bélica, em palavras, adotada nas últimas semanas. Os europeus não podem e os americanos não querem, ou seja, não estão interessados em chegar às últimas consequências neste desafio. É que nem às primeiras. Começando pelas sanções, como pode a Alemanha prescindir dos chorudos negócios que tem com a Rússia e acabar de um dia para o outro com a sua dependência em 30% do gás russo? E os Estados Unidos prescindirem dos russos em relação ao Irão (e à Síria)? Terminando num conflito armado, como sustentar uma guerra no leste da Europa contra uma gigantesca potência militar? Não é possível. Acabarão por “meter a viola no saco”, o que não é bom para ninguém, muito menos para os ucranianos que se querem ver livres de regimes “à russa”.

Pois é. O problema é mesmo “E os ucranianos no meio disto?”. Penso que só teriam a ganhar com uma maior calma, um maior pragmatismo e uma melhor diplomacia dos europeus.

30 thoughts on “Concordo”

  1. Aquela gente não vive sem muros nem cortinas , já vem desde os czares e czarinas, lenines e estalines.

    Quanto mais longe daquela gente melhor, aquilo é tudo do piorio, que se comam uns aos outros.

    Que vão lá os napoleões e os hitlers e que nos deixem descansados nesta distante jangada de pedra.

  2. pois… deverias ter lido o post anterior sobre o mesmo assunto, kissinger acho eu. agora corrige o tiro, mas continua a acertar ao lado. sobre os interesses da alemanha na ucrania e o papel de bruxelas a patrocinar o conflito nada diz, até parece que aquela porra foi toda expontânea, que a merkla tá com pena dos ucranianos explorados pelos russos, que o barroso quer ajudar na conta do gás, que o obama ache que o champagne da crimeia e sandes de caviar fazem mal à saúde dos russos e que os chineses não contam. pena que só meçam as consequências depois de ter feito merda

  3. oh debolbido! formataram-te esse mona para boné quadrado, uno & indivisível. tá um lindo dia para ires fazer vela na janganda de merda, não te esqueças do colete.

  4. A DEMOCRACIA CAI EM CANTOS E HINOS a 09.03.2014 às 11:09
    E EM PALERMAS QUE GOZAM COM MULTIDÕES EM MARCHA

    IN SIMPLEX VELHA MÚMIA FASCIZÓIDE

    zondag 9 maart 2014
    RECEITA PARA EMAGRECER UMA DEMOCRACIA PANÇUDA E OLIGÁRQUICA SUBINDO E DESCENDO ESCADAS PAR LAMENTAR – DESCULPAS PARA NÃO FAZER EXERCÍCIOS EM SÃO BENTO -DO NÃO SUBIMOS PORQUE NÃO QUEREMOS AO NÃO SUBIMOS PORQUE TEMOS REUMÁTICO SENÃO LOGO VIAM….É UM PAÍS SENIL QUE MAL SE ALEVANTA
    NUM PAÍS CORPORATIVO EM QUE ATÉ A ANTIGA F.N.A.T DO ARBEIT MACHT FREI

    SE RECICLOU NUMA I.N.A.T.E.L. PAUPERIZATION MACHT FREI

    É ÓBVIO QUE QUALQUER CORPORAÇÃO PODE EMAGRECER A GORDA DEMOCRACIA

    SUBINDO E DESCENDO ESCADAS PARLAMENTARES

    OU MESMO ARROMBANDO E PILHANDO AS FUNDAÇÕES DO REGIME

    SEJA AO ESTILO LÍBIO OU AO ESTILO UCRANIANO

    SEJA SUBINDO A PASSO DE GANSO OU A SALTO

    AS ESCADARIAS DO PODER

    QUE PODEM SER EM ODESSA OU SÃO BENTO

    POIS COURAÇADOS POTEMKIN HÁ MUITOS

    E MUITOS GUARDAS DE ASSALTO PARA AS REVOLUÇÕES CORPORATIVAS FUTURAS

    ASSIM SE AGORA NÃO SOBEM PORQUE NÃO QUEREM

    AMANHÃ AO ESTILO DE MAIO DE 26 NÃO DESCERÃO PORQUE NÃO QUEREM

    OU PORQUE HÁ MUITO PESSOAL A TENTAR SUBIR

    AS ESCADARIAS DO PODER E NÃO CONSEGUEM JÁ DESCER

    UMA DESSAS….
    Geplaatst door PUTIN? PUT IN…
    Labels: OLHA O PONTAPÉ NOS RELVAS A PASSO DE GANSO…É FRESQUINHO Ó FREGUÊS
    eta velharia gay en uniforme das s.s

  5. Ó Ignatz, este palavrosoque práqui anda, está-nos a ir e sem vaselina o grande sacana.

    E tu, enquanto eu vou na jangada, avança com os submarinos do Portas contra os putins e os chechenos todos, já que os conheces.

  6. a rússia uma ameaça? à economia europeia sem peias? jámé

    no apocalipse económico é quase cómico ver a rússia como uma ameaça

    até dá gás âs nosssas muitass bolhasss

    blog for morons to see and morons to watch
    zondag 9 maart 2014
    E O APOCALIPSE DE 2012 CHEGOU E CONTINUA CONOSCO POIS É UM APOCALIPSE VELHOTE E MESMO A PONTAPÉ NÃO SE MEXE MUITO LOGO ATÉ 2037 TEMOS APOCALIPSE DIZ O NOSSO CAESAR CAVACUS SILVANUS ÀS LEGIÕES DE REFORMADOS E DE LEGIONÁRIOS COM FALTA DE EXERCÍCIO QUE ABOMINAM SUBIR ESCADAS
    EVOLUTION OF CORPORATIVE LIFE IN DEMOCRACY ARE BEING PUBLISHED THIS

    WEEK IN SCIENTIFIC JOURNAL OF CAVACUS SILVANUS

    THE PRICE IS VERY CHEAP

    THE NAME : “ROTEIROS 8”

    FROM ARBEIT MACHT FREI IN A NEW VERSION OR CON VERSION

    TO PAUPERIZATION MACHT FREI E EN FORÇA

    OR E EN FORCA É SÓ A QUESTÃO DE UMA CEDILHA DE CORDA

    O PORTUGUÊS É UMA LÍNGUA QUE SE ENFORCA NELA MESMA

    COMO DIZ SOARES ELE PRÓPRIO…..

    Geplaatst door Semi-frio o gamanço ahn
    Labels: GAMA GAMA GAMAM GAMANDO GAMANÇO GAMADO…ATÉ GAMADA VAI POUCA LETRA Ó CARLOS O DA CRUZ

  7. oh debolbido! não vai dar a lado nenhum, é essa a técnica dizer coisas sem dizer nada, não tem resposta possível. só incomoda por ser muita linha e ter de fazer scroll para passar ao seguinte, tirando isso não se pega e se não lhe derem trela, acaba por ir ganir para outra freguesia. o mário braga é um artolas com pretensões a guru neo-nazi, uma espécie de comuna de direita que dá mau aspecto à causa e afugenta a freguesia, mas o que ele verdadeiramente queria era ser rapper reformado.

  8. É engraçado como a “ideologiazinha” dos “debolbidos” (não todos felizmente! conheço alguns do mais são que imaginar-se possa) vem à tona à mais pequena oportunidade!

    Refiro-me naturalmente ao aparvalhado “retornado” que se apressou a abrir estes comentários, não fosse perder-se a porcaria que vomita!

  9. O que a mim me incomoda, é ouvir comentários ALUCINADOS, como da eurodeputada do PS Ana Gomes, e a sua defesa cega do auto-eleito governo da Ucrânia.

    O Presidente agora destituido foi eleito democraticamente.
    O Parlamento não tinha os 2/3 necessários para a sua destituição
    O auto governo que agora se passeia pela Europa , foi nomeado numa praça por braço no ar , por uma percentagem infíma de Ucranianos.
    Neo Nazis detêm alguns ministérios.

    Perante este panorama como pode algum democrata apoiar esta gente.

    Depois da Hungria, a Ucrãnia , tal como em 1938 a Europa anda a brincar com o fogo.

  10. Do que se trata, na Ucrânia e principalmente na Crimeia, é de mais um passo na guerra não declarada da Amérdica, coadjuvada pelos seus sipaios europeus, contra a Rússia, que começou no preciso momento em que “acabou” a outra guerra, a chamada Fria (não confundir Amérdica com América, que também existe mas anda adormecida, coitada).

    Afastar a Rússia da sua base naval na Crimeia é apenas mais uma etapa na estratégia de cerco que visa cortar-lhe completamente o acesso ao mar Negro e, através dele, ao Mediterrâneo.

    O que lhe restaria da zona costeira a leste da Crimeia seria (ou será) a próxima etapa, usando para isso o islamismo muito presente na região, paredes meias com Daguestão, Chechénia e Inguchétia, que não têm o exclusivo dos adeptos de Mafoma. A estratégia já vem de longe, e para o confirmar basta não esquecer o apoio indignado que as máfias humanitárias ocidentais deram aos muito incensados “freedom fighters” chechenos contra a Rússia. Sem negar as barbaridades que os russos aí cometeram, por certo não inferiores em sofisticação às cometidas por americanos no Iraque, Afeganistão, Vietname e outros paraísos turísticos, ou por franceses na Argélia, por exemplo, é de salientar a supersofisticação dos “heróis” chechenos. Uma das suas especialidades era abrir, como num talho, os soldados russos capturados e manietados e tirar-lhes, ainda vivos, bocados das entranhas, como fígado, estômago ou intestino, rindo-se a bandeiras despregadas na cara do desgraçado até ele exalar o último suspiro. Pois é, o apoio a tudo quanto é merda por esse mundo fora já vem de longe: escolas de tortura na Amérdica para torcionários da América Latina, apoio a fundamentalistas islamitas no Afeganistão, “empréstimo” de presos terroristas (muitas vezes nem isso) a regimes como a Líbia de Kadhafi, a Síria ou o Egipto para aí serem selvaticamente torturados, certamente “em busca da verdade”, é só escolher.

    De salientar, ainda, que na nobre arte da vivissecção tiveram os heróis chechenos a colaboração militante e empenhadíssima de alguns dos actuais heróis ucranianos de Maidan, como este democrático e simpático energúmeno, por exemplo, que torturou e matou na Chechénia uns 20 soldados e oficiais russos capturados:

    http://www.infowars.com/this-is-how-the-new-government-in-ukraine-deals-with-opponents/

    Chutada a Rússia da base naval da Crimeia, seguir-se-ia, podem apostar, a mui democrática e humanitária limpeza étnica dos russos que aí vivem (58,5% dos dois milhões de habitantes). Impossível!, dirão alguns ingénuos. Impensável em pleno século XXI, jurarão outros, a “comunidade internacional” não o consentiria! Pois é, um dos primeiros actos legislativos das novas “autoridades” ucranianas foi eliminar o direito, até agora existente, de as regiões utilizarem outras línguas além do ucraniano como línguas oficiais, o que faz com que os 58,5% de russos da Crimeia deixem de poder usar o russo na sua vida diária. Sem esquecer que os que na Crimeia usam o russo como língua principal são à volta de 97%, muito mais do que os chamados russos étnicos. “Se quiserem falar russo, que o façam na cozinha”, disse, muito democrática e sensatamente, um dos novos governantes. Por esta amostra, é bom de ver que os russos não têm nada a temer.

    A famigerada “comunidade internacional” patrocinou e colaborou activamente na limpeza étnica de 200 mil sérvios da Krakina jugoslava, que, tal como agora pretende fazer a Crimeia, declarara a sua independência da Croácia depois de esta ter declarado a independência em relação à Jugoslávia. Os sérvios eram também fortemente maioritários na Krajina, região montanhosa na zona de fronteira e choques entre os antigos impérios Austro-Húngaro e Otomano. Camponeses guerreiros e aguerridos, eram-lhes aí oferecidas terras para servirem de tampão contra os avanços otomanos. O croata Tito, porém, integrou administrativamente a Krajina (que significa precisamente “fronteira”) na sua terra, a Croácia, quando fazia ainda parte da antiga Jugoslávia. Quando esta se desfez, estavam lançadas as sementes da desgraça dos sérvios. Ainda proclamaram a República Sérvia da Krajina, que se auto-administrou durante algum tempo, enquanto os croatas ganhavam coragem para os “limpar”. Fizeram-no finalmente com uma invasão maciça, activamente apoiados em combate por tropas especiais americanas, realidade muito bem escondida mas hoje em dia historicamente aceite como facto. Só sobraram na região quatro a cinco mil sérvios velhos que nem pernas tinham para fugir.

    No Kosovo, andou a bendita “comunidade internacional” a tremer de indignação com os 800 mil kosovares albaneses que os sérvios alegadamente queriam limpar etnicamente. Mas ninguém se importou, ou importa, com os pelo menos 150 mil sérvios que os kosovares albaneses expulsaram para a Sérvia depois de a NATO bombista lhes dar a vitória de mão beijada. 150 mil é uma bagatela, dirá provavelmente a “comunidade internacional”, essa velha e ternurenta prostituta.

    Quanto ao afilhado Kosovo, certo da benevolência da meretriz que tem como madrinha, limita-se, com entusiasmo, a ser um “estado”-bandido, com uma economia que se reduz quase exclusivamente a duas honradas actividades: tráfico de droga com origem no Afeganistão, destinado nomeadamente à Europa, e tráfico de seres humanos, principalmente mulheres para prostituição. É coisa que também parece não incomodar a “comunidade internacional”. A querida e velha prostituta anda muito ocupada no apoio, branqueamento e promoção dos nazis ucranianos, não lhe sobra tempo para mais nada.

    É claro que ao que aconteceu aos sérvios não chamaram limpeza étnica. Expulsaram os que não mataram, ficaram-lhes com os pertences, as casas e as terras e branquearam a coisa com a classificação de “represálias” pelos agravos sofridos. Os sérvios, como toda a gente sabe, são demónios, e disso têm a exclusividade na região, pelo que, da bordoada que lhes deram, só se perderam as que caíram no chão.

    Com precedentes destes, alguém acredita que custa alguma coisa arranjar pretextos para expulsar para a Rússia 1,2 milhões de russos da Crimeia?

    Consumado este maravilhoso objectivo de combate à poluição russa, passar-se-ia, sem demora, à progressiva desestabilização de toda a zona costeira russa do mar Negro que fica a leste, sujeita a forte influência islamita. A estratégia, se bem-sucedida, deixaria o acesso da Rússia a mar aberto reduzido, a médio/longo prazo, às águas geladas do Árctico. Note-se que na costa russa do mar Negro a leste da Crimeia desemboca um gasoduto, que aí se subdivide em dois: o South Stream (que abastece Bulgária, Grécia, Itália e Áustria, pelo menos) e o Blue Stream (que se dirige para a Turquia).

    Capada do acesso ao mar Negro, é certo que restaria ainda à Rússia o acesso ao Báltico, através de uma pequena faixa do golfo da Finlândia, na região de Sampetersburgo, e do enclave de Kalininegrado, este isolado da mãe-Rússia por via terrestre. Mas a táctica do salame tem provado a sua eficácia e o acesso ao Báltico não perderia pela demora.

    Enfraquecida e ajoelhada a Rússia, seguir-se-ia o resto do seu desmembramento, num processo de balcanização que produziria uma mão-cheia de pseudo-Estados da treta, com dirigentes fracos e corruptos que entregariam, a preço de saldo, os recursos das suas regiões à gulodice das mui democráticas e humanitárias corporações ocidentais. E que recursos, caramba! Que maná! Ele é petróleo, é gás, é diamantes, é ouro, é minerais de toda a espécie e feitio, tudo ao preço da chuva, que maravilha, quem é que disse que Deus não existe, porra?

    Este é o futuro sonhado pela cambada, bem coadjuvada por manadas de sipaios e outros lacaios. E é preciso não esquecer os idiotas úteis, de que a Ana Gomes é apenas um exemplo. Esperemos que não passe tudo de wishful thinking, mas já estivemos mais longe de futuro tão radioso.

    Voltando à Ucrânia, os principais oleodutos e gasodutos que transportam petróleo e gás russos para a Europa passam pelo seu território, e só os distraídos não se lembram das pressões ucranianas sobre a Rússia, até há bem poucos anos, para ter o gás a preço de saldo, usando o direito de passagem como moeda de troca. Para azar dos chantagistas, a vantagem foi substancialmente reduzida com o gasoduto Nord Stream, que fornece directamente gás russo à Alemanha, Holanda e Reino Unido a partir da costa russa do Báltico, na região de Sampetersburgo. A sua construção resultou da cooperação entre Rússia e Alemanha, farta do risco de ficar a tremer de frio no Inverno, à mercê dos humores, birras e chantagens de Kiev.

    Patéticos e anedóticos, a raiar o surrealista, foram os protestos indignados da Ucrânia (e também da Polónia, pelo menos) contra o direito da Rússia de construir a via alternativa pelo Báltico. Tentem imaginar a Brisa a indignar-se com os que optam pelo IC1 em vez da auto-estrada quando vão ao Algarve, para evitar pagar portagem. Não conseguem? Eu também não, mas foi o que aconteceu quando a Rússia construiu o Nord Stream.

    Leiam, se para isso tiverem paciência, o livro “The Grand Chessboard”, de Zbigniew Brzezinski, ex-polaco, ex-conselheiro de Segurança de Jimmy Carter, geostrategista sem papas na língua e sem pudor. Está lá tudo escarrapachado, e a edição que li é de 1997. Citando da primeira página da introdução, eis uma pequena amostra da arrogância imperial: “The defeat and collapse of the Soviet Union was the final step in the rapid ascendance of a Western Hemisphere power, the United States, as the sole and, indeed, the first truly global superpower.” E como se pode ler no resto do livro, não se trata apenas de confirmar a realidade histórica de então, mas sim de a aprofundar e alargar até não ficar pedra sobre pedra do antigo inimigo de estimação, reduzindo-o à irrelevância total. Tudo o que contrarie minimamente tão luminoso destino é para trucidar, sem dó nem piedade.

    http://en.wikipedia.org/wiki/The_Grand_Chessboard

    http://en.wikipedia.org/wiki/Zbigniew_Brzezinski

    É isto, e apenas isto, que está em causa na histeria esgazeada de Kerrys, McCains e Obamas, secundados pelos sipaios Barroso, Rasmussen e Ban Ki Moon e pelos descendentes apalhaçados dos impérios no passado derrotados pela Rússia, como Hollande e Merkel. A História regista que a França napoleónica invadiu a Rússia, e que a Alemanha o fez duas vezes, a primeira com o Kaiser e a segunda com o Adolfo. Não há notícia de a Rússia ter alguma vez invadido ou agredido a França ou a Alemanha, a não ser como resposta a uma invasão e agressão anteriores, e sabem Deus e o Diabo a selvajaria de que essas agressões se revestiram.

    Comprar a Ucrânia cortada da Crimeia seria, para eles, como comprar por um balúrdio um touro reprodutor premiado e descobri-lo capado, pagar por um puro-sangue lusitano e encontrar um burrico coberto de moscas no seu lugar. Compreendo bem o desespero raivoso que lhes ferve nas meninges, mas eles sabem que é assim, o Putin sabe que é assim, eles sabem que o Putin sabe e o Putin sabe que eles sabem que ele sabe. A aposta vai toda para a nossa passividade ou mesmo apoio, resultado da ignorância em que senhores e sipaios se esforçam por nos manter a todos, graças ao completo controlo (ou mesmo propriedade) de tudo quanto é comunicação social, ao servilismo sem vergonha de uma grande parte dos que, por convenção e comodidade, ainda são classificados como jornalistas e a doses maciças de programas televisivos que nos mantêm entretidos com coisas tão importantes como a quantidade de peidos dados por espadaúdos mancebos e não menos espadaúdas e mamalhudas donzelas no espaço de tempo que medeia entre uma lavagem de dentes e uma cagada, quantos liftings fez a Lili Caneças ou quanto custou o último quilo de botox do José Castelo Branco.

    Acordai, dorminhocos, e quando eles vos vierem comer as papas na cabeça dai-lhes uma cornada!

    (Amigos, companheiros, palhaços, perdoai-me o comprimento da homilia, mas pelo menos é grátis, quem não quiser não come. O Sol raiou há muito, entusiasmei-me na divagação e saiu lençol, vou já em seguida para o vale dos ditos)

  11. Excelente, esclarecedor e bem informado. Vou passá-lo aos meus amigos mais distraídos ou que se limitam à nossa “exemplar” comunicação social!
    Lembro-me que acompanhei, com o interesse próprio de que tinha menos 20 anos, a destruição da Jugoslávia construída por alguém com a imensa visão política de um Tito que, sendo croata e conhecendo os “amores” que sempre ligaram croatas a sérvios, foi capaz de superar o seu natural nacionalismo croata para constituir uma federação com assento na Sérvia para não poder ser acusado de favorecer a terra onde nascera!
    Por isso a Jugoslávia se manteve estável e próspera durante largos anos, até que Tito morreu e se esbugalharam os olhos da Europa!

    Do saudoso, não sei se ainda vive, Carlos Pereira da Silva, (vejo tanta informação em Joaquim Camacho que até me assalta a dúvida: será ele o Pereira da Silva?!) recomendo dois excelentes livros provavelmente difíceis de encontrar à venda: DA JUGOSLÁVIA À JUGOSLÁVIA – OS BALCÃS E A NOVA ORDEM EUROPEIA (1ªedição em 1995) e OS NOVOS MUROS DA EUROPA-A EXPANSÃO DA NATO E AS OPORTUNIDADES PERDIDAS DO PÓS-GUERRA FRIA (2001).

  12. Joaquim Camacho:
    O teu ponto de vista também generaliza demasiado “os americanos” e o Ocidente. Se vires a reação dos republicanos, nos EUA, àquilo que apelidam de “inação”, para não dizer cobardia, de Obama no caso da Ucrânia e noutros casos recentes, como a Síria, perceberás que é sempre perigoso generalizar. Podes ler este artigo do NYT sobre o assunto.

    A Rússia, ou numa dada altura a União Soviética, pode não ter invadido a Alemanha ou a França, mas invadiu seguramente a Polónia, a Checoslováquia, a Hungria e por aí fora.

    Havendo alguma verdade no que relatas, também não há como negar que o regime russo é autoritário, liberticida, antidemocrático, oligárquico e repressivo. Não conquista as minhas simpatias. Os regimes que vigoram nas antigas repúblicas soviéticas a sul do império também não se recomendam e, na sua maioria, têm governos-fantoches. Estes regimes estão condenados a prazo. E não será por causa da instigação ou da intervenção do Ocidente.

  13. CÍCERO, não é Carlos Pereira da Silva mas sim Carlos Santos Pereira e eu não sou ele. Conheci-o no DN, onde trabalhei 35 anos, e tenho grande respeito e admiração pelo seu trabalho. Quem me dera saber sobre aquela região e de política internacional em geral a vigésima parte do que ele sabe. É um ENORME jornalista, ao contrário de uma grande parte dos paus-mandados medrosos, moços de recados e mercenários que hoje em dia roçam o cu pelas cadeiras das redacções. Vi-o também em inúmeras reportagens para os dois canais da RTP em zonas de conflito nos Balcãs, de que é um dos maiores conhecedores neste país. Há muito tempo que não ouço falar dele, não sei se ainda é vivo. Tenho cá em casa, e li com muito interesse, “Da Jugoslávia à Jugoslávia”, o outro não conheço. O Carlos Santos Pereira conhece muita gente em toda aquela região, que é capaz de calcorrear de olhos fechados, e ia lá muitas vezes numa moto enorme em que se deslocava também para o DN. Era engraçado, porque não é nada alto e a moto parecia grande de mais para ele. Friso o “parecia”, porque ele não tinha qualquer dificuldade em lidar com ela. Ao que julgo saber, o Carlos Santos Pereira fala, inclusivamente, servo-croático e penso que também russo.

    A informação que tenho sobre o que se passa no mundo e no nosso quintal é limitada e condicionada, porque é isso que os interesses não assumidos fazem: condicionar-nos. Mas há muito que me fartei de ser enrolado e engrolado, pelo que tento beber no máximo de fontes possível para não me comerem as papas na cabeça. Graças a essa metodologia, chamemos-lhe assim, as aldrabices despertam-me geralmente anticorpos instantâneos que filtram a merda e me permitem uma visão mais lúcida e expurgada dos supositórios propagandísticos que, insistentemente, tentam enfiar-nos no sim-senhor. Depois, é só procurar informação sobre o assunto nas fontes que mijam fora do penico para ter uma visão mais próxima da realidade.

    Quanto ao Tito, teria as suas coisas boas, mas a incorporação da Krajina esmagadoramente sérvia na sua Croácia natal não foi certamente uma delas, como ficou historicamente provado pela expulsão dos 200 mil sérvios que a habitavam. Os que nos enchem os ouvidos de indignações hipócritas com as limpezas étnicas que lhes fazem comichão não terão, por certo, qualquer problema em parafrasear, a sério, o que Orwell diria ironicamente: todas as limpezas étnicas são iguais, mas algumas são mais iguais do que outras.

  14. Penélope, o meu ponto de vista de modo nenhum generaliza “os americanos”, como dizes. Faço, aliás, uma distinção clara, logo no início, entre os americanos, habitantes da América, e os adeptos da Amérdica. Viva a primeira, abaixo a segunda!

    Quando falo em Ocidente, é óbvio que me refiro também aos merdosos sem alma para quem os princípios só servem quando daí sacam alguma vantagem, para si próprios ou para os patrões, ou donos, que servem com fidelidade canina. É o caso do Durão Burroso, do Rasmussen ou do Ban ki Moon, que não passam de criadagem. Tenho por eles um profundo desprezo. Como muito bem disse a “humorista” Victoria Nuland, representando a Amérdica, “Fuck the EU!”. Concordo plenamente e acrescento: “Fuck NATO, fuck the UN, fuck them all!”

    Cara Penélope, a diferença entre mim e os Bush/Obama, Cameron/Blair, Hollande/Sarkozy e seus sipaios no Ocidente em geral, quando falam nessas tretas de liberdade e democracia, é que eu acredito nas tretas e eles não.

    Quanto ao artigo do NYT, li-o de uma ponta à outra e a única coisa que vejo é tácticas diferentes para a concretização do mesmo objectivo. A única questão que se põe ao autor e aos outros amerdicanos que cita é em que medida esta ou aquela táctica pode beneficiar ou prejudicar a estratégia, o objectivo final: apertar os tomates à Rússia e continuar a encostá-la à parede, até a desfazer completamente. Para cúmulo do azar, informa-nos o autor do artigo da seguinte irrelevância, sintomática da sua independência de espírito: “My father grew up in western Ukraine, near Chernivtsi.” Pois…

    O americano preto Obama nunca poderia ter sido eleito sem os votos dos americanos brancos. Esse foi um dia feliz para mim, um dia de optimismo, não porque um preto seja melhor do que um branco, mas por os brancos terem sido capazes de ultrapassar preconceitos. Nesse dia reencontrei a América e comovi-me até às lágrimas, não estou a brincar. O problema é que, afinal, o preto Obama tem a alma tão preta como a alma preta do branco Bush, e ainda por cima é medroso. O que achas, por exemplo, da posição de cócoras em que ele tem estado, desde o primeiro mandato, em relação à questão da Palestina? Coitado, ele sabe bem que, se mijar muito fora do penico, dão-lhe um tiro nos cornos enquanto o Diabo esfrega um olho e metem a culpa na Al-Qaeda, no Hezbollah ou no Irão, a que se seguirão sem demora mais uns bombardeamentozitos democráticos, que o stock de bombas humanitárias precisa de ser renovado.

    Tens razão quando dizes que “a Rússia, ou numa dada altura a União Soviética, pode não ter invadido a Alemanha ou a França, mas invadiu seguramente a Polónia, a Checoslováquia, a Hungria e por aí fora”. Pois invadiu, e eu condeno. Mas os EUA não invadiram o Iraque, com pretextos conscientemente mentirosos? E o Afeganistão, e o Panamá, e Granada? E não organizaram golpes de Estado antidemocráticos, e por vezes fascistas, no Chile, no Irão, na Venezuela e por toda a América Latina? E não bombardeiam sem vergonha países com que nem sequer estão em guerra, como o Paquistão ou o Iémen, a pretexto de limpar o sarampo a alguns talibãs?

    “Não há como negar que o regime russo é autoritário, liberticida, antidemocrático, oligárquico e repressivo. Não conquista as minhas simpatias.” Pois não, também não conquista as minhas. Mas eu não estou aqui para defender o regime russo ou o Putin, tenho fé no povo russo e sei que um dia deitará esse regime para o caixote de lixo da História e construirá outro, melhor. Mas também sei que isso será mais difícil se a sua terra for sendo paulatinamente cercada, cortada às fatias e esbulhada de riquezas pelas corporações da Amérdica e do Ocidente em geral, hipócritas que pregam uma coisa e fazem outra e a quem apenas interessa roubar tudo o que puder ser roubado. E a verdade é que Putin representa, hoje, uma necessidade histórica, um tipo com tomates e presença de espírito, capaz de medir bem prós e contras e defender os interesses a longo prazo do país que o elegeu.

    “Os regimes que vigoram nas antigas repúblicas soviéticas a sul do império também não se recomendam e, na sua maioria, têm governos-fantoches”, dizes. E o que achas tu que será o “governo” golpista que está agora no poder em Kiev, que lá chegou com métodos destes:

    http://www.youtube.com/watch?v=jziwcAretek

    E que tem na sua espinha dorsal gente como a que podes ver no próximo link. Peço-te que leias com atenção toda a peça, como fiz com o artigo do NYT, e vejas os vídeos, ainda que, tal como eu, não percebas peva de ucraniano. Aquilo não precisa de legendas, topa-se bem o espírito democrático da coisa:

    http://rt.com/news/ukraine-mp-abducted-threatened-882/

    Não te choca o facto de todas estas barbaridades continuarem a ser completamente silenciadas nos principais media ocidentais? No caso da escuta, em Portugal apenas o “i” se lhe referiu, disseram-me que o “Guardian” também o fez, mas BBC, Sky News, Euronews, CNN, etc. ignoraram vergonhosamente a questão. Das televisões portuguesas, só a TVI lhe fez ontem uma breve referência, à vol d’oiseau, passados alguns dias, mas sem mostrar o vídeo, o que castra completamente o assunto e lhe retira todo o impacto, mais que merecido. Imagina o petisco infindável que seria para esta gente se a escuta dissesse que havia indícios de que tinha sido o Yanukovich a enviar os snipers! É a isto que estamos reduzidos? Regressámos aos velhos tempos em que só conseguimos saber certas coisas pela Rádio Moscovo?

    Voltando à Crimeia, acaso ouviste algum clamor de indignação, neste ou no outro lado do Atlântico, contra a intenção da Escócia de convocar um referendo para uma eventual separação e independência em relação à Inglaterra? Ouviste alguma ocidental voz protestar contra a mesma intenção da Catalunha? Já para não falar do Kosovo. Então porquê o chinfrim com a vontade da Crimeia de se divorciar de um país com o qual nunca teve nada a ver e que se prepara para a fazer pagar bem caro o simples facto de ser russa?

    A Crimeia fez desde o séc. XVII parte do Império Russo e, com o advento da URSS, ficou naturalmente integrada na República Socialista Soviética da Rússia, e não da Ucrânia. O bêbado do Kruschev é que, em 1954, de forma absolutamente arbitrária, tirou a Crimeia à Rússia e a “ofereceu” à República Socialista Soviética da Ucrânia. É claro que nessa época ninguém adivinhava a desintegração da URSS, aquilo era um simples rearranjo administrativo interno, simbólico, que Kruschev alegou pretender assinalar os 300 anos da aliança da Rússia com a Ucrânia, no antigo império. Pois é, ninguém adivinhava e agora deu merda!

    Mas por que carga de água fez Kruschev o que fez? Não se sabe bem, mas avanço-te algumas hipóteses: o homem nasceu na Rússia, mas perto da fronteira com a Ucrânia. Foi muito cedo trabalhar para as minas ucranianas e a primeira mulher dele era ucraniana. Chegou a secretário-geral do PCUS também na Ucrânia. Foi primeiro-ministro igualmente da Ucrânia, etc. Todo o seu percurso de vida parece explicar a borrada que fez, dizem até que nesse dia estava bêbado. A proposta foi apresentada ao Comité Central do PCUS de surpresa e aprovada num quarto de hora, praticamente sem discussão, ora bardamerda para a democracia soviética!

    O sipaios mafiosos que se passeiam agora pelos corredores do poder em Kiev querem cortar com tudo o que tenha a ver com russos, Rússia ou passado comunista. Pois bem, nada melhor do que livrarem-se da Crimeia, que foi “adjudicada” à Ucrânia pela vontade etilizada de um russo, e ainda por cima comunista.

    Insisto no ponto principal: do que se trata, na Ucrânia e principalmente na Crimeia, é de mais um passo na guerra não declarada da Amérdica, coadjuvada pelos seus sipaios europeus, contra a Rússia, que começou no preciso momento em que “acabou” a outra guerra, a chamada Fria. Esta nova guerra, surda e hipócrita, não tem nada a ver connosco, é apenas do interesse das mesmas corporações que nos roubam tudo o que podem, sem qualquer escrúpulo, sem qualquer bússola moral e sem qualquer decência. E a realidade objectiva é que é o Ocidente que está ao ataque, limitando-se a Rússia à legítima defesa.

  15. Joaquim Camacho, muito obrigado pela atenção que o meu pequeno comentário lhe mereceu. Veja lá o que nos acontece quando nos aproximamos dos oitenta! Tinha ambos os livros à minha frente e mesmo assim troquei o nome do grande CARLOS SANTOS PEREIRA. Há no entanto para isso uma pequena explicação: é que também fui amigo de um Carlos Silva Pereira que há larguíssimos anos perdi de vista, mais ou menos quando passou a ser professsor no ISEG!

    Quanto ao CARLOS SANTOS PEREIRA, já tenho perguntado por ele a amigos meus que também foram jornalistas mas nenhum me sabe dizer o que quer que seja! O SANTOS PEREIRA era de facto uma figura que dava nas vistas (pelo menos a quem admirava os seus livros e deles conhecia a sua foto! Baixo, magríssimo, farto bigode, ar doentio. Daí e do muito que admirava o seu espantoso trabalho, daí talvez a tendência que tenho para perguntar se ainda é vivo! Quantas vezes o vi a almoçar no Franjinhas! Isto…estamos na idade de recordar!

    Quanto à integração da sérvia Krajina na Croácia que terá acabado mal creio poder ver nela um erro bem intencionado: a mistura daquelas gentes que sempre se odiaram. E para mim o mais triste é pensar julgo que com alguma razão pelo menos o fundamental desses ódios tinha a ver com a religião. A mesma religião cristã e tanto ódio entre católicos e ortodoxos! Como xiitas e sunitas! o que a religião pode fazer à cabeça das pessoas! O que o Ante Pavelic, primeiro ministro fantoche dos nazis, recebido pelo papa Pio XI?, diga-se, o que esse senhor, tendo como carrascos frades franciscanos, foi capaz de fazer a sérvios é de arrepiar os cabelos. O correspondente de guerra e escritor Curzio Malaparte conta algumas dessas tenebrosas no seu célebre KAPPUT!

  16. Gostava de fazer uma pequena sugestão a Valupi. As opiniões aqui expendidas por Joaquim Camacho acerca do problema que hoje preocupa o mundo e que podemos designar simplificadamente por CASO DA UCRÂNIA, são quanto a mim, tão certeiras e pertinazes sem serem, porque não são de facto, facciosas, que bem mereciam que delas se fizesse uma compilação a publicar com a dignidade de post principal! Penso que todos os apreciadores do AspirinaB lucrariam com isso! A mim têm-me enchido as medidas! Muito obrigado a Joaquim Camacho!

  17. Joaquim Camacho: Eu não disse nem nunca me verás dizer que os líderes da revolta na Ucrânia e os atuais dirigentes são exemplos de grandes democratas e políticos serenos e responsáveis. Tudo indica que muitos deles não o são. Mas nem te conto o que era o Ianukovitch. Por razões históricas e outras bem mais atuais, como os exemplos vindos de países vizinhos que se libertaram da “pata” russa, uma grande parte da Ucrânia não está disposta a continuar a depender dos russos, sobretudo no que toca ao regime político. E já há uns anos que o mal-estar se sente. Mas também não me verás dizer que são os americanos que estão por detrás destes golpes com o objetivo de destruir o império soviético no pós-guerra fria. A história não é assim preta e branca.

    Se vires bem, incorres em contradições. Implicitamente, reconheces que a Ucrânia não é a Rússia, ao dizeres que a Crimeia é russa. Ora, se a Ucrânia não é russa, parece-me que tem o direito de escolher um regime político próprio sem se ver cercada de tanques por todos os lados. Por outro lado, à luz do direito internacional e nacional, para o qual os estados de embriaguez dos líderes são irrelevantes, tem legitimidade para considerar a Crimeia como parte do seu território. Evidentemente que os russos não quererão abdicar de uma base que lhe dá acesso ao Mediterrâneo e há muito que trataram de colonizar a península com o envio maciço de cidadãos seus. É aqui que estamos: quererão os russos mais do que a Crimeia?

    Por tudo isto, é impossível eu concordar contigo quando dizes que é o Ocidente que está ao ataque e que a Rússia se limita a uma posição defensiva. O Ocidente está ao ataque aonde? Em Kiev? E que mal vês tu em se apoiarem mudanças no sentido da instituição de Estados de direito, ainda por cima se for esse o desejo das populações? Há alguma boa razão para os ucranianos quererem continuar sujeitos a um regime pró-russo? Como tu próprio reconheces, objetivamente o regime não se recomenda!

  18. “O Ocidente está ao ataque aonde? Em Kiev? E que mal vês tu em se apoiarem mudanças no sentido da instituição de Estados de direito, ainda por cima se for esse o desejo das populações?”

    e as eleições não servem para legitimar essas mudanças ou apoiamos golpes de estado quando o resultado não nos interessa? o desejo das populações agora manifesta-se de braço no ar e é patrocinado pelo barroso. os alemães fizeram a merda, a europa vai a reboque, a merkla rói a corda e negoceia com os russos.

  19. “Mas eu penso que o objetivo é convocar eleições.”

    o dos russos tamém, até vão fazer um referendo na crimeia, coisa que nunca tinha passado pela mona dos quiévianos.

    “Ou entendeste que estes novos dirigentes são para ficar?”

    claro que não e os próximos depende. haverá tantas eleições até que a escolha sirva os interesses da merkla e dos americanos. mas não é isso que está em causa, o problema chama-se ingerência na política interna da ucrânia e terem patrocinado aquela violência toda que abria telejornais. a alemanha quer colonizar a ucrânia, mas quer pagar menos que os russos, esse é o verdadeiro problema. o resto são histórias para embalar revolucionários e almas que acreditam na democracia quando o candidato deles é eleito.

  20. Penélope: Há coisas que sei e outras de que não percebo a ponta de um chavelho, o que acontece bastas vezes. Quando assim é, porém, o remédio é simples: procuro o máximo de informação sobre o assunto e só depois emito opinião. E se as montanhas de papel que tenho em casa não chegam para me iluminar os neurónios, mergulho na Estralinética e pimba: hoje em dia, não há nada mais fácil. Por isso, habituado, como te disse há dias, a outro género de rigor da tua parte, espanta-me que possas dizer barbaridades como esta:

    “Os russos (…) há muito que trataram de colonizar a península [Crimeia] com o envio maciço de cidadãos seus.”

    É falso que os russos “trataram de colonizar a península com o envio maciço de cidadãos seus”. É assunto tão susceptível de discussão como a afirmação de que os japoneses nunca bombardearam Pearl Harbor ou que foram os russos (vade retro!) a crucificar Jesus Cristo. Há muito que os russos são maioritários na Crimeia, os ucranianos sempre foram lá minoritários, e contra isto batatas. O grande humanista Estaline, pai dos povos (dizem) e filho de um comboio de putas (digo), deportou para o Cazaquistão, no fim da II Guerra Mundial, à volta de 200 mil tártaros da Crimeia, por colaboração com os nazis. Mas deportou tártaros e não ucranianos. Os tártaros foram ali maioritários no século XIX, tal como os índios eram maioritários antes de Colombo, e não estou a ver as Américas de hoje a regressar à demografia pré-colombiana.

    De acordo com uma das fontes que consultei, a evolução demográfica da Crimeia foi a seguinte:

    ————————————————–
    1923:
    150 000 tártaros
    306 000 russos + ucranianos (não é feita a distinção nesse ano)
    ————————————————–
    1939:
    218 179 tártaros
    558 481 russos
    154 120 ucranianos
    ————————————————–
    1959:
    0 tártaros (deportados por Estaline para o Cazaquistão)
    858 273 russos
    267 659 ucranianos
    ————————————————–
    1970:
    6479 tártaros (que entretanto começaram a regressar do exílio)
    1 220 484 russos
    480 733 ucranianos
    ————————————————–
    1989:
    38 365 tártaros
    1 629 542 russos
    625 919 ucranianos
    ————————————————–

    Noutra fonte, a famigerada Wikipédia (saliento que não há coincidência total entre as duas fontes, embora tendencialmente, apontem no mesmo sentido), os números são os seguintes, em percentagem (números absolutos apenas nos primeiro e último censos, de 1897 e 2001):
    ————————————————–
    1897:
    33,11% russos (180 963)
    11,84% ucranianos (64 703)
    35,55% tártaros (194 294)
    ————————————————–
    1939:
    49,6% russos
    13,7% ucranianos
    19,4% tártaros
    ————————————————–
    1959:
    71,4% russos
    22,3% ucranianos
    0% tártaros
    ————————————————–
    1979:
    68,4% russos
    25,6% ucranianos
    0,7% tártaros
    ————————————————–
    1989:
    65,6% russos
    26,7% ucranianos
    1,9% tártaros
    ————————————————–
    2001:
    58,5% russos (1 180 441)
    24,4% ucranianos (492 227)
    12,1% tártaros (243 433)
    ————————————————–

    Como podes ver, a realidade é exactamente o contrário da tua tese da “colonização maciça”, pois a percentagem de ucranianos foi sempre aumentando em relação aos russos. Se adoptasse o teu critério, Penélope, poderia dizer que os ucranianos “há muito que trataram de colonizar a península com o envio maciço de cidadãos seus”, mas não o faço porque sou alérgico à asneira.

    Vários estudos salientam também que, nos últimos anos, os russos e os ucranianos têm diminuído em número e em percentagem (principalmente devido à emigração), enquanto a percentagem e o número absoluto de tártaros têm aumentado, devido ao regresso dos descendentes dos deportados por Estaline e ao facto de terem tendencialmente mais filhos do que as famílias russas ou ucranianas.

    Quanto aos tadinhos dos tártaros, abstenho-me de lhes lamentar as “desgraças”, mesmo o tratamento que lhes foi dado pelo paizinho dos povos, por vários motivos, entre eles este (copy paste da Wikipédia):
    ————————————————–
    “Slave trade
    Until the late 18th century, Crimean Tatars maintained a massive slave trade with the Ottoman Empire and the Middle East.[25] About 2 million slaves from Russia and Ukraine were sold over the period 1500–1700.[26] Tatars were known for frequent, at some periods almost annual, devastating raids on the Slavic peoples to the north. In 1769 a last major Tatar raid, which took place during the Russo-Turkish War, saw the capture of 20,000 slaves.[27] ”
    ————————————————–
    Outro motivo é ter visto há dias um grupo deles, em manifestações anti-russas na Crimeia, berrando “Allahu Akbar” como quem diz: “Russos dum cabrão, temos armazéns cheios de cordas para vos enforcar a todos e não vamos perder esta oportunidade!” Não tenho nada contra ou a favor do Alá, coitado do senhor, bem lá no fundo quero mesmo é que o gajo se foda. Aquele berro dos seus indignos adeptos, porém, não era uma manifestação de fé ou orgulho religioso. Pretendia, sim, sublinhar não só uma diferença mas também uma afirmação de superioridade. Para mim, tártaros, ucranianos, russos ou portugueses é tudo a mesma coisa, mas, se algum deles se arma em melhor do que os outros, encontra-me logo do outro lado, nem que esse lado seja oposto ao dos meus compatriotas. É que “Allahu Akbar”, como “programa”, é curto. Nas imagens sonorizadas do conflito na Síria, quando filmadas do lado dos rebeldes, ouvimo-los gritar “Allahu Akbar” quando rebentam com a tropa do Assad, ouvimo-los gritar “Allahu Akbar” quando a tropa do Assad rebenta com eles, imagino que quando fazem uma mija ou arreiam o calhau também berrem a mesma coisa. A quem isso possa interessar, que não é o meu caso, resta saber o que pensa Alá sobre isso.

    Repito o que disse há dias: “A Crimeia fez desde o séc. XVII parte do Império Russo e, com o advento da URSS, ficou naturalmente integrada na República Socialista Soviética da Rússia, e não da Ucrânia. O bêbado do Kruschev é que, em 1954, de forma absolutamente arbitrária, tirou a Crimeia à Rússia e a “ofereceu” à República Socialista Soviética da Ucrânia.” É facto, é História, contra isso nada podes. Tal como nada podes contra outro facto histórico, que é o de os russos serem maioritários na Crimeia desde o princípio do século XX e a “colonização maciça” de que falas ser uma inverdade absoluta.

    A dramatização político-mediática da situação na Crimeia não tem só o objectivo de impedir a independência mas sim, também, o de extremar de tal modo a situação que, se a independência e integração na Rússia, por qualquer motivo, não forem por diante, a relação Ucrânia-Rússia esteja de tal modo degradada que a continuação da base russa numa Crimeia ucraniana se torne insustentável. Nesse caso, o objectivo de vedar o acesso russo ao Mediterrâneo dá um passo de gigante, e muito mais cedo do que os sonhos mais húmidos da velha e ocidental prostituta.

  21. Penélope: Tens evidentemente razão quando dizes que a Ucrânia tem “o direito de escolher um regime político próprio sem se ver cercada de tanques por todos os lados”, embora não me importasse nada que me mostrasses onde estão os “tanques por todos os lados”. Na Crimeia, por exemplo, não vi um único, mas apenas camiões de transporte. Mas o que impediu a Ucrânia de “escolher um regime político próprio” desde que teve a independência? Alguma vez foi invadida pela Rússia? Algum dos actuais países independentes que fizeram parte da antiga URSS foi invadido pela Rússia? A Ucrânia tem uma indústria obsoleta, apesar do gás a preço de saldo que a Rússia lhe vende para evitar que se vá pôr debaixo da asa da NATO, outro nome da velha prostituta agressiva. Algumas das indústrias mais sofisticadas e avançadas que tem (aviões Antonov, por exemplo) resultam de parcerias com a Rússia, que certamente, caso as relações se degradem ainda mais, as deslocalizará para outros locais, provocando mais desemprego e miséria e contribuindo para agravar o desequilíbrio da balança de pagamentos. Se quer pertencer ao Ocidente, que estranheza haverá em que passe a pagar pelo petróleo e gás russos o mesmo que os outros países deste ocidental eldorado? Chantagem russa, berram. Mas não é isso que a velha prostituta ocidental faz (pressionar, chantagear, ameaçar) quando estão em causa os seus interesses? Uns podem e outros não? Voltamos ao Orwell? Todas as putas são iguais mas algumas são mais iguais do que outras? O que impede a “comunidade internacional” amiga, com EUA, Inglaterra e Alemanha à cabeça, de lá investir e modernizar aquela porra toda?

    “E que mal vês tu em se apoiarem mudanças no sentido da instituição de Estados de direito?”, perguntas. Francamente, chamas Estado de direito a um regime de golpistas que ninguém escolheu, que ninguém elegeu, excepto um parlamento desfeito, cercado, borrado de medo, certo de que o passo seguinte era os nazis de Maidan entrarem por ali dentro, agarrarem-nos a todos à mão e enforcarem-nos em massa nas árvores e candeeiros da praça? O que pensaste e disseste tu, se acaso já eras viva e politicamente consciente, aquando do cerco, em 1975, à Assembleia Constituinte, em S. Bento, que, comparada com Maidan, foi uma brincadeira de crianças? Acaso ouviste falar na indignação dos deputados cercados (excepto os do PCP) com a “inadmissível intimidação” a que foram sujeitos?

    “Há alguma boa razão para os ucranianos quererem continuar sujeitos a um regime pró-russo?” Esta é outra pergunta de fácil resposta: não foram os ditos ucranianos que elegeram o regime pró-russo, sabendo perfeitamente ao que iam? Não foram essas eleições reconhecidas como limpas pela “comunidade internacional”?

    “Mas nem te conto o que era o Ianukovitch”, dizes. Mas não contas porquê? Conta lá, para iluminação das massas populares ignaras, se acaso sabes alguma coisa além dos nomes que têm chamado ao homem. Era corrupto, dizem. Pois admito que sim, mas gostaria de ver acusações concretas: recebeu dinheiro para isto, e uns robalos para aquilo, deste, daquele e daqueloutro. A impressão que tenho é que o gajo é um parvalhão, mas isso não é crime. Era um parvalhão democraticamente eleito e foi derrubado, com pretextos mentirosos, por um golpe de Estado que violou descaradamente um acordo assinado pelos próprios golpistas. Com a agravante de esse acordo ter sido patrocinado e assinado pela velha prostituta a que chamam “comunidade internacional”, que agora se enrola, em despudorado bacanal, com os que violaram o que ela assinou. E com a agravante ainda mais vergonhosa de o principal pretexto para o golpe (a morte de 80 manifestantes por snipers) ter sido encomendado e organizado pelos próprios golpistas (que acusaram mentirosamente a outra parte dos seus próprios crimes) e de a “comunidade internacional”, sabendo isso perfeitamente, esconder da opinião pública mundial o facto e orquestrar uma monstruosa operação de encobrimento em toda a comunicação social do planeta. E, como se tudo isto não bastante, tendo os golpistas como tropa de choque a escória da extrema-direita nazi, energúmenos do pior que imaginar se pode.

    Pois será um parvalhão, o Ianukovitch. Mas parvalhão é também o cretino de Boliqueime, e não estou a ver o Obama, o John “Heinz” Kerry, o Hollande, o Cameron ou a NATO a mexer uma palha para resolver o (nosso) problema. Tal como não os ouvi, uma vez que fosse, remoer indignações com a intenção da Escócia ou da Catalunha de convocar referendos para eventual declaração de independência. Acaso já perdeste meio minuto a tentar perceber porquê? Todos ouvimos esses filhos da velha prostituta jurar a pés juntos que a declaração de independência do Kosovo era perfeitamente legítima e não violava a lei internacional. Porra, então a declaração de independência da Crimeia viola a mesma lei porquê? Diz-me uma razão, meia razão que seja! Ainda por cima, o Kosovo não passava de uma província da Sérvia, enquanto a Crimeia é uma região autónoma. E que viola também a Constituição da Ucrânia, berram eles, com o gorduroso sipaio Burroso a cacarejar a mesma indignação, no meio de uma nuvem de perdigotos. Porra ao quadrado: e a independência do Kosovo não violava a Constituição da Sérvia, como aliás se fartaram de dizer na altura os dirigentes sérvios?

    Dir-me-ás que o Ianukovitch tinha uma casa luxuosa, que as televisões do mundo inteiro mostraram à exaustão. Mas nenhuma dessas televisões mostrou as casas igualmente luxuosas (que eu vi) do caramelo que agora se diz primeiro-ministro, nem do que se diz presidente, nem da Iulia Timoshenko. E esta não tem uma casa, tem uma carrada delas, sendo que uma das mostradas no Russia Today fazia sete ou oito da do Ianukovitch e só terá rival, eventualmente, nalguma daquelas mansões ultraluxuosas de Hollywood. Ah!, tá bem, já sei, Rádio Moscovo não fala verdade, o Botas de Santa Comba é que tinha razão. Maldita Moscóvia, vade retro, espera só um momentinho que já volto, vou só ali à casa de banho persignar-me e rezar uma ave-maria enquanto arreio o calhau!

    O Ocidente está ao ataque em todo o lado, Penélope, e a Rússia faz o melhor que pode e sabe para se defender. Basta procurares no Google “Major pipelines in Europe”, “Major oil pipelines in Europe” ou “Major gas pipelines in Europe” para teres um saborzinho das motivações da velha prostituta. Podes começar por aqui:

    http://www.google.pt/images?q=major+pipelines+in+europe&hl=pt-PT&gbv=2&sa=X&oi=image_result_group&ei=sV4iU-_yJMOS0AXsoYCYBA&ved=0CDcQsAQ

    Também podes pegar em atlas antigos e modernos e comparar as fronteiras do antigo Império Russo e da União Soviética com a realidade actual, para veres que a coisa funciona assim: ora vamos lá dar uma dentada aqui, e agora outra dentada ali, e mais outra acoli. Não é difícil perceber o que disse há dias: para cortar à Rússia o acesso ao mar Negro falta uma unha negra. A Ucrânia vale principalmente, em termos geostratégicos, pela Crimeia, porque, a prazo, permite eliminar de vez a base russa. A Iulia Timochenko disse há poucos dias que, atendendo ao modo como estão a degradar-se as relações Ucrânia-Rússia, o contrato de concessão do local onde está a base de Sebastopol (que dura até 2042, se não estou em erro) tem de ser denunciado imediatamente e não em 2042 e os russos devem de lá sair de uma vez por todas o mais depressa possível. E a Timoshenko é a futura provável presidente da Ucrânia. Estarás tu à espera, Penélope, que a Rússia fique calmamente à espera que isso aconteça e se conforme sem levantar um dedo? E que se conforme também com a perseguição e limpeza étnica, que inevitavelmente se seguirá, da maioria da população da Crimeia, quase um milhão e meio de russos? Tens mais hipóteses com o Euromilhões.

    Aquilo a que tradicionalmente chamamos Ocidente, agindo em nome do que hipocritamente chama “comunidade internacional”, não passa, insisto, de uma velha prostituta. É uma puta agressiva, carregada de bombas e aviões, mas não deixa de ser uma puta. O modo como se mantém no topo é o velho esquema em pirâmide, daí a cobiça por cada vez mais territórios e países. Para conseguir os seus objectivos, a velha prostituta arranja criados indígenas e sipaios que mantêm na ordem esses territórios, países e povos, que faz e desfaz a seu bel-prazer. Abocanha agora um, esmifra-o o mais que pode e a seguir manda o FMI para pôr os indígenas na ordem. A seguir outro, e depois outro, até ao dia em que não haverá mais países para esmifrar e se chega à derrocada generalizada. E então, para que o pagode não perceba bem o que lhe aconteceu, é provável que provoquem mais uma guerra em grande escala, com a consequente e inevitável terraplenagem purificadora do planeta inteiro.

    Mas e a Rússia do Putin?, perguntarás tu. Pois puta velha será ela também, como a outra, mas, coitada, neste momento não faz mais do que tentar sobreviver, já que a puta ocidental quer abocanhar-lhe a reforma e ficar-lhe com a maior parte das divisões da casa. “Ficas na despensa e já gozas!”, diz a ocidental para a outra, com desprezo.

    O que fazer?, perguntarás tu, numa de Vladimir Ilitch. Pois, quanto a mim, as duas velhas putas (e mais a puta amarela) podiam viver juntas, e nós com elas, nesta grande casa que é o terceiro calhau a contar do Sol, mas isso não passa de wishful thinking da minha parte, pelo que, a prazo, é provável que estejamos de novo todos inseminados, como digo acima, em mais uma daquelas guerras que os historiadores do futuro (se houver futuro e se houver historiadores) dirão que ninguém estava à espera. Nesse futuro radioso, só restará aos nossos descendentes (se os houver) prepararem-se para a guerra seguinte, a tal que o Einstein dizia que seria travada com paus e pedras.

  22. Joaquim Camacho: Não me convences com essa perspetiva predadora do ocidente, versus a atitude defensiva do pobre Putin. Afinal, vives deste lado, presumo, e aprecias a tua liberdade.

    Mas repara que, no meu post inicial, eu até defendo a cautela. O que não significa que não veja de que lado está a liberdade.

  23. Meu caro Joaquim Camacho, é um prazer tê-lo por estas paragens ajudando-nos com a sua capacidade de “ir fundo às coisas e à razão” como diz o Pedro Barroso.

    Os textos que aqui tem trazido, até pela sua ironia descomplexada, têm constituido para mim uma fonte informação sem igual até porque me faltaria a paciência e o saber para a sua aprofundada investigação!

    Estou profundamente do seu lado na sua visão, que muitos teimam em chamar de maniqueísta, de não poupar ao chamado Ocidente a muita, muita merda que tem feito por esse mundo fora. Os exemplos são mais que muitos. Não vale a pena repeti-los até porque o meu caro o tem feito sem contemplações! Claro que do “outro lado” não há “anjinhos”, longe disso. Mas o que seria de esperar?! Leia-se o Chomsky que até é americano e as suas agudas observações e seremos esclarecidos! Os que quiserem sê-lo, claro!

    Para já e enquanto não aparece nas livrarias qualquer estudo mais sistemático (porque não mete o meu amigo, mãos à obra?! Olhe que leitores lhe não faltariam!) sobre este candente problema que, a ver vamos como irá acabar, vou fazer para mim e para a minha “tertúlia de café” um apanhado dos seus excelentes textos!

    Para já, esperemos pelo referendum do dia 16 cujo resultado é por demais conhecido, só para apreciarmos a delícia de comunicação social que iremos ter! Ocorreu-me agora aquela sua observação de há dias sobre o quase silêncio que se ouviu acerca da Escócia e da Catalunha!

  24. Caro Cícero, fico contente por alguém dar por bem sacrificadas as pestanas que queimei a procurar factos e realidades no meio das nuvens de fumo que a cambada nos sopra para cima do focinho 24 horas por dia. Peço desculpa por só agora lhe agradecer, mas estive dois dias sem ligar o garrafão electrónico.

    Quanto ao Chomsky, a maior parte do pessoal deve pensar que é jogador do Zenith ou do Dínamo de Moscovo, tal a eficácia do “jornalismo” mercenário no completo silenciamento do homem.

    Concordo consigo a 100% quando diz que «claro que do “outro lado” não há “anjinhos”», mas por estes lados, paradoxalmente, vingou a tese bushista de que quem não está connosco está contra nosco, perdão: contra nós! Até a nossa amiga Penélope parece ter apanhado o vírus, que manifestou na fórmula “Afinal, vives deste lado, presumo, e aprecias a tua liberdade”. Nem nos meus sonhos mais húmidos pensei que seria um dia quase classificado como putinista, vá de metro, Satanás! Perdão de novo: vade retro, Satana!

  25. Penélope: Como não te convenço, dou a palavra a um dos principais gurus da velha meretriz, para veres até que ponto vai o meu “exagero”:

    «In contrast, the scope and pervasiveness of American global power today are unique. Not only does the United States control all of the world’s oceans and seas, but it has developed an assertive military capability for amphibious shore control that enables it to project its power inland in politically significant ways. Its military legions are firmly perched on the western and eastern extremities of Eurasia, and they also control the Persian Gulf. American vassals and tributaries, some yearning to be embraced by even more formal ties with Washington, dot the entire Eurasian continent, as the map on page 22 shows.»
    Zbigniew Brzezinski, ex-conselheiro de segurança de Jimmy Carter, em “The Grand Chessboard” (p. 23), livro de cabeceira de tudo quanto pretende ser gente ao serviço da velha prostituta ocidental. Não é tempo perdido consultar o currículo do rapaz em http://en.wikipedia.org/wiki/Zbigniew_Brzezinski

    Fico especialmente derretido com aquela dos “American vassals and tributaries”, franqueza maior é difícil. E quem são os honrados (?) “vassalos” que o senhor mostra no “map on page 22”, que não posso meter aqui? Elementar, minha cara Penélope:
    — Toda a Europa insular e continental, incluindo os países resultantes do desmembramento da ex-União Soviética e, nomeadamente, a nossa querida Ucrânia e os novos países do Cáspio, como Cazaquistão, Azerbaijão, etc.
    — Tudo o que sobra das Américas, como Canadá e Américas Central e do Sul.
    — Turquia, Egipto, Israel e países do Golfo.
    — Japão, Austrália, Nova Zelândia, Coreia do Sul e uma mão-cheia de países do Pacífico.
    — A maior parte de África, que, como sabes, inclui Angola, Líbia e uma carrada de outros.
    — Etc.

    De fora ficavam, quando o livro foi escrito (1997), Rússia, Jugoslávia, China, Índia, Síria, Iraque, Irão, Afeganistão e pouco mais. Como sabes, Jugoslávia já era, Líbia, Iraque e Afeganistão idem, Síria é um maravilhoso “work in progress”, Irão está na bicha (ou na fila, como se diz agora em politicamente correcto), o resto não perde pela demora.

    Parece que o senhor anda agora um pouco mais moderado, é crítico da influência do lobby israelita nos EUA e também criticou a invasão do Iraque pela Administração Bush, mas, por outro lado, apoiou a intervenção na Líbia. Uma no cravo e outra na ferradura, insondáveis são os caminhos do Senhor (o outro, com “S” maiúsculo), mas o certo é que o livreco continua na berra e continua bíblia. Vê lá que até encomendei novo exemplar, há dias, pois o que tenho cá em casa mais parece uma floresta picassiana de sublinhados e riscos com as cores do arco-íris. Quero ficar com um de cara lavada, para o caso de o querer mostrar a alguém.

    Claro que é sempre possível tapar olhos e ouvidos e fingir que não sabemos de nada, mas aqui o velho rapaz que sou prefere a ainda mais velha sabedoria de que quem não se sente não é filho de boa gente. E já agora, amiga Penélope, eu não vivo “deste lado”, eu vivo em todo o lado, o terceiro calhau é a minha casa mas a galáxia é o meu jardim, e tudo o mais para além dela, para não ser modesto.

    Também é verdade que aprecio a minha liberdade, sim senhora, e por ela sou capaz de afinfar umas cabeçadas em qualquer puta velha que a tente morder, chame-se ela Obama, Bush, Merkel ou Putin. Só que liberdade, para mim, é a que resulta de uma escolha informada e consciente, e não a do rebanho empurrado pelas putas velhas de que vimos falando para o sítio que na altura lhes dá mais jeito e lhes enche mais os bolsos.

    Como a primeira transcrição do guru Zbigniew deve ser suficiente para te encher a barriga ao almoço, toma lá só mais esta, que podes guardar para o lanche:

    «In addition, one must consider as part of the American system the global web of specialized organizations, especially the “international” financial institutions [aspas no original]. The International Monetary Fund (IMF) and the World Bank can be said to represent “global” interests, and their constituency may be construed as the world. In reality, however, they are heavily American dominated and their origins are traceable to American initiative, particularly the Bretton Woods Conference of 1944.»

    Aconselho-to vivamente (pela segunda vez), não custa mais de 20 euros. Encomendei o novo exemplar pela FNAC, com a seguinte referência: ISBN 0-465-02726-1

  26. Joaquim Camacho: Dou-te os parabéns por teres encontrado a explicação do mundo que procuravas. Os americanos são uns imperialistas, dominadores, filhos de quem tu quiseres. A discussão desse tema é recorrente. Vives na Europa, presumo. Gostarias de viver noutra parte do mundo em que não houvesse tentáculos americanos, certo? Não me parece difícil, até porque os aviões não andam cheios.

  27. Ó Penélope, desculpe-me que lhe diga, mas a sua forma um tanto ressabiada de “mandar passear” o Joaquim Camacho com quem travou uma tão interessante polémica que, a meu ver, nos enriqueceu, não me parece própria de alguém que muito tenho admirado também nas opiniões que por aqui vai deixando.
    O JC não me encomendou este, porventura, descabido sermão nem ele precisa que o defendam, mas, enfim…olhe, desculpe lá, saiu-me!!!

  28. Cícero; Joaquim Camacho: Não mandei passear ninguém. Temos diferentes perspetivas. Continuo até mais um pouco:

    Embora eu ache que os ucranianos que desejam verdadeiramente construir um Estado de direito, acabar com a corrupção e tornar o país independente do Kremlin e que estão convencidos de que a Europa os pode apoiar nesse percurso não vão ter sorte nenhuma nos tempos mais próximos, a menos que as coisas se precipitem e o mal menor seja a divisão do país, e embora também ache que a EU, sob influência alemã, está a ir longe demais em promessas e ameaças que não vai poder cumprir, não deixa de me surpreender o descrédito e a falta de solidariedade com que os bons ucranianos são tratados por aqui. Nem todos os que se manifestaram e contribuíram para a fuga de Yanukovitch são nazis e fascistas e muitos dos que o dizem ser são, digamos, reabilitáveis em democracia.

    Sou, porém, levada a concluir que há quem considere que o regime russo ou aparentado é algo de que ninguém, no seu perfeito juízo, se deve querer livrar. É extraordinário. E que os que por lá “perdem o juízo” e se manifestam favoráveis a outro tipo de ordenamento político e económico são marionetas dos americanos e do Ocidente, quando não agentes da CIA. Por favor. Os ditos nazis e fascistas que andarão a agitar uma até agora sossegada e tão ou tão próspera Ucrânia (não é?) fazem parte do «lixo» que, em tempos de grandes mudanças, sempre aparece e que a seu tempo e com o devido enquadramento institucional a democracia acabará por depurar. Salvaguardando as devidas distâncias e diferenças, em Portugal, também andavam uns comunistas a querer tomar o poder por via da captura da máquina do Estado após o 25 de abril. Devia o resto dos portugueses que quis mudar o regime anterior ser confundida com os comunistas e abandonada? A poeira assentou e agora os comunistas limitam-se a fazer o que podem para preservar uns lugares no Parlamento, não tendo qualquer influência no curso político do país nem veleidades, nem hipóteses, de assumirem o poder.

    Para o Joaquim Camacho, o facto de existir um grande país, com aspirações a império, que se opõe ao para-todo-o-sempre-chamado imperialismo americano é, só por si, razão suficiente para qualquer ser que lá habite ou em qualquer das repúblicas satélite aceitar o statu quo. O regime é miserável, repressivo, tirano, tudo se degrada? Ah, mas só o orgulho de se oporem aos malvados dos yankees, os quais são, apenas e tão só, a maior democracia do mundo, compensa tudo isso. É uma honra até viver reprimido. Um prazer. No fundo, será também por isso que é ótimo ser cubano. Havana é uma ruína com vista. Cuba é uma espécie de gaiola. Quem pode sai. Quem fica ainda não acordou da volúpia guerrilheira ou conformou-se, adaptou-se ou seduz turistas (muitas vezes para poder ir embora). Mas, quem lá vai de visita é bem capaz de verter lágrimas de orgulho. Putin aposta muito na vitória passada sobre os nazis. A Rússia vive do passado.
    Os ucranianos passaram muito mal sob o regime estalinista. Milhões morreram à fome. Sem fazer qualquer juízo moral, não faltam exemplos históricos de alianças repulsivas feitas na lógica de que «o inimigo do meu inimigo meu amigo é». Havia irlandeses, por exemplo, que, por ódio aos ingleses, simpatizavam e colaboravam com os nazis. Por mais horrível que possa ser e, coitado de quem era forçado a escolher, já que o outro lado não era melhor, muitos ucranianos limitaram-se a seguir esse princípio na última grande guerra e têm descendentes e seguidores. Penso que tais ideias lhes passarão quando e se se libertarem da Rússia tal como a conhecemos atualmente. Para além de já serem pouco representativos, passariam a residuais. Na Alemanha, afinal, também há nazis.

    Mas as perspetivas não são boas para a Ucrânia. Ninguém no Ocidente está interessado em entrar num conflito militar para defender metade de um país.

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