Centeno não disse nada de especialmente chocante

Deixem o Mário Centeno em paz. O programa de assistência financeira à Grécia terminou finalmente e impunha-se o comentário da praxe sobre a ocasião. Como presidente do Eurogrupo, o que poderia dizer Centeno, se não que “todos aprendemos com os nossos erros”, como se ouve no vídeo? Todos incluindo a Grécia, sim, cujos governos anteriores à crise aldrabaram a bom aldrabar as contas. Com a prestimosa ajuda dos amigos da Goldman Sachs, como é sabido. Mas não seria esta a ocasião para desenterrar punhais passados, pois não? Os gregos aldrabaram para a entrada no euro e aldrabaram posteriormente os valores do défice. Para além do regime de privilégios inaceitáveis de que gozava a generalidade do sector público e certas classes profissionais e de um sistema fiscal generalizadamente fraudulento (uma das tais “bad policies of the past” a que o vídeo, de facto, alude).

De certo modo, nós fomos vítimas da Grécia. Embora não tenhamos tido nos nossos registos mais próximos da crise qualquer fraude ou política irresponsável. Tanto assim é que nem teríamos tido resgate algum se a sede de poder do PSD e a cegueira dos radicais do BE e PCP não tivessem deitado a perder o acordo conseguido em Bruxelas.

Posto isto, é claro que a receita aplicada à Grécia (e a nós) foi-lhes servida recheada de preconceitos contra o sul e de propósitos de punição, que menosprezaram completamente as pessoas e  economia e só agravaram a situação de tragédia. Mas, podia Mário Centeno, ministro de um país que substituiu a austeridade pelo normal rigor, deixar de mencionar, ainda que de passagem, os erros da Grécia (de que também fomos vítimas, por errada analogia)? Ou será que a Grécia não cometeu erro nenhum nem havia nada a corrigir? Não é verdade.

Pode Mário Centeno não ter frisado suficientemente, como muitos gostariam, a nunca reconhecida defesa dos interesses dos membros mais ricos da família “euro” que orientou a maior parte das decisões de resgate. Mas não era esse o seu papel neste momento. O predomínio de quem se apresenta, na Europa, com melhor situação económica é uma realidade com a qual teremos de viver praticamente até à eternidade. Mas Portugal está a afirmar – a reconstruir, melhor dizendo – a sua imagem de país sério, autónomo e orgulhoso, por oposição à imagem de cachorro culpabilizado e obediente que o anterior governo passou. Assim, não percebo o alarido. Só o da oposição, claro.

3 thoughts on “Centeno não disse nada de especialmente chocante”

  1. Claro que não! deixem o homem montar-se na maioria absoluta e depois logo verão. Vítimas dos gregos? Ó D. Penélope, onde é que bateu com a cabecinha? Vítimas sim de uns agiotas a quem preferimos chamar ” credores internacionais” que viram outro povo relativamente pouco numeroso, igualmente com tendência para a autoflagelação e resignação ante a miséria, para chupar até ao tutano. Que nos começaram logo a subir os juros a níveis incomportáveis. Contágio? Desde quando é que o défice é uma doença venérea? Acreditámos nisso, nós e a maior parte dos gregos. deixámos que nos matassem gente, que os nossos hospitais se transformassem em pardieiros. Vítimas dos gregos? Não vítimas da burrice que nos levou sempre a votar em gente inábil e corrupta. Vítimas da crendice que nos levou a achar que gente racista como os nórdicos podiam manter uma união justa e sem andar à procura de turismo barato com estes “pretos” do Sul. Vítimas de muita coisa, mas dos gregos? Deixem lá os gregos em paz que já têm miséria que lhes chegue sem precisar de outros pretos do Sul a flagelá-los.
    Quando ao Centeno, está a talhar para carrasco. A cara do homem mete medo. Se o encontrasse numa noite de trovoada! Ó abre que é da moita!

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