Pequeno contributo para um Tratado da Escatologia

Há milhares de anos que os odores associados a certas funcões menos nobres da nossa biologia têm sido continuamente vilipendiados. Já os clássicos gregos se referiam ao “fedor que aproxima o homem do bicho mais rasteiro” e aos “movimentos dos intestinos que trazem ao mundo a baixeza da nossa condição de seres contingentes e imperfeitos “. Mesmo o Cristianismo recusa a caridade a tais eflúvios: Simão o Estilita terá partido para um exílio de décadas no topo de uma coluna de pedra precisamente para expressar o seu desagrado pela falta de instalações sanitárias condignas e resguardadas na sua aldeia.
Mas chega sempre o momento de colocar tudo em causa: e se os odores associados aos ditos “movimentos dos intestinos” tivessem afinal um papel nobre e útil?
Mais — sustenham a respiração que vou revelar-vos hipóteses arrojadas —, e se o cheiro hediondo que tende a rodear até o indivíduo mais angélico mal ele se senta na sua sanita preferida, de livro na mão, fosse um sábio estratagema da Mãe Natureza? E se estamos em presença de um ardil protector, pacientemente urdido ao logo de séculos e séculos de cega mas infatigável Evolução?
O bicho-homem sentado, de calças em baixo e empunhando o seu romance predilecto, está vulnerável como em poucas outras ocasiões. Ainda por cima, e sobretudo se falamos de um exemplar masculino confinado às agruras da vida em família, ele trata de aproveitar aqueles preciosos minutos de privacidade para ler em paz e sossego. Trata-se assim de um momento muito especial e precário.
Tendo tudo isto em mente, não será o tal desagradável odor uma eficaz barreira protectora, desenhada para repelir a aproximação de empecilhos aos prazeres solitários da leitura? Hipótese que causa vertigens pela ousadia: a Evolução a fazer tudo para proteger o nosso convívio com a Literatura!
Ah, sábia Natureza que não dá ponto sem nó.

5 thoughts on “Pequeno contributo para um Tratado da Escatologia”

  1. Já agora, benditos avanços da tecnologia, que me permitem estar sentado no meu trono com o portátil ao colo a ler este belo post.

  2. :)
    Excelente observação.
    Ia ficar aqui, pelo aplauso do modo com trataste o tema, mas o comentário acima, do LRosa “obrigou-me” a chamar a atenção para este tema lá na minha casa.
    Porque eu “ainda sou do tempo” de se levar o tal meterial de leitura para esses momentos de pausa no dia-a-dia, mas ir com o portátil é o máximo dos máximos! BOA! estamos no sec XXI ou não?!

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