Mistérios de Tancos

O caso de Tancos, pelo que se vai sabendo, tem bastantes ingredientes do clássico conflito entre polícias civis e militares. A tropa não gosta da justiça civil e considera-a intrometida em matérias reguladas pelo Código de Justiça Militar; a polícia civil e os órgãos que a tutelam desconfiam da corporação militar, imaginando que ela cerra fileiras para proteger os seus ou para ficar impune. Em consequência, civis e militares não passam informações uns aos outros e até se pregam partidas.

No caso vertente, o DCIAP tinha sido informado pela PJ, “vários meses antes” do roubo de Tancos, de que “estava a ser preparado um assalto a instalações militares no distrito de Leiria”, mas não só o DCIAP e a PJ não comunicaram esse facto às Forças Armadas e à PJM como parece que até o tentaram ocultar destas, segundo afirmou um antigo subdirector da PJM, o coronel Vítor Gil Prata, no site Operacional em 12 de Novembro de 2017, hoje citado no Público online, mas não no jornal de papel. Trata-se de uma acusação gravíssima, embora pouca atenção tenha despertado entre os fãs políticos do Ministério Público e da santa Joana Vidal.

A PJM, por seu turno, depois da casa roubada, decidiu fazer as coisas à sua maneira, sem passar cartão à PJ. As armas roubadas acabaram por aparecer graças à PJM, mas não o ladrão, que obviamente não actuou sozinho. A PJ e o DCIAP deitaram agora a mão ao ladrão e parecem ter concluído que houve conluio dos militares com o ladrão para este entregar as armas e escapar à justiça. Vai daí, a PJ e o DCIAP prenderam o director da PJM e outros militares, lançando sobre a instituição uma nuvem de suspeitas graves, ainda não bem especificadas. Falta apurar exactamente o que é que a PJM fez para recuperar o armamento, se agiu de modo legal ou ilegal e porque é que o ladrão só agora foi preso, quando há muito que era conhecido da PJM… se não também da PJ e do DCIAP.

Entretanto, o MP/DCIAP deveria ter respondido, mas não respondeu à gravíssima acusação feita por Vítor Gil Prata em Novembro de 2017. Ora, se detiveram o director da PJM, não seria também caso para mandar prender algum alto responsável do Ministério Público, sob suspeita de ter deliberadamente ocultado dos militares informações sobre o assalto iminente a uma unidade militar? Não seria mesmo caso para a procuradora-geral da República ser ouvida? Não haverá, aliás, no caso de Tancos também o habitual dedinho conspirativo do MP? Nada me admiraria!

Como é que os referidos conflitos entre civis e militares se resolvem ou previnem? Aqui têm certamente de entrar o governo e o parlamento, legislando para impor colaboração entre a justiça militar e a justiça civil. Uma solução, a fusão da PJM na PJ, foi avançada há anos por um ministro da Justiça, António Costa. Não sei se a solução era boa, mas a sua proposta foi, como é hábito, ignorada e nada mais se fez.

Para além do clássico conflito entre polícias civis e militares, no caso de Tancos meteu-se também a política, por obra da oposição de direita e da sua obsessão patológica de politizar a justiça e judicializar a política, apontando em tudo o que vai acontecendo a culpa criminosa do governo. Nunca souberam bem explicar porquê, mas logo após a notícia do roubo de Tancos os habituais vocalistas da direita começaram a exigir a cabeça do ministro da Defesa (Rui Rio é quase única excepção nesse coro). Também querem a demissão do chefe de Estado Maior do Exército, o que significa que a direita quer tomar partido no referido conflito corporativo, a saber, pelos polícias civis contra os militares – o que é mais uma imbecilidade épica desta direita desnorteada.

8 thoughts on “Mistérios de Tancos”

  1. A gente não sabe nada, Júlio. Inclusive se o dito roubo não passou de uma canhestra maneira de desviar as armas para algum país sujeito a sanções (por exemplo, se especular fazemos todos). Ainda ontem o El país noticiava que Espanha tinha vendido secretamente armas ao Yémen (https://elpais.com/politica/2018/09/25/actualidad/1537904519_424854.html)
    Um ladrão solitário, estilo malvado (algarvio) do James Bond? Bah! Guerra de polícias claramente há. Tudo o resto é o MP a contar mais uma vez apenas a sua versão. Os senhores oficiais não terão nada a dizer? Já agora a gente agradecia

  2. Óbvio que o chamado “ladrão” é apenas um deles, ou seja, o traficante que encomendou as armas e depois as venderia, possivelmente para o Médio Oriente.

  3. Independentemente de qualquer desfecho este foi sem dúvida o último acto da PJM. Tal e qual os Tribunais Militares há muito tempo. Mais de 3 Milhões de orçamento. Como diz e muito bem Costa, é só deixar as coisas assentarem. Para a direita o alvo foi sempre o Ministro. Para a direita e para o MP. As usual com a santinha.

  4. Com o nivel de armamento que existe no Medio Oriente as armas de Tancos vão definitivamente mudar o rumo do conflito. Só falta roubar uns Cessna com umas metralhadoras em cima para desorientar os sukhoy russos ou os F16 americanos.

    Don’t bogart that joint my friend, pass it over to me.
    https://m.youtube.com/watch?v=-N0IjBgyFoE

  5. Vcs estão mesmo a sério com essa conversa das “armas para o Médio Oriente” ?! Não me façam rir logo de manhã que tenho duas costelas fora de esquadria.

    Tb não percebi se o Júlio dá como assente que houve mesmo um roubo e uma devolução. Afinal, que se saiba, testemunhos externos apenas viram o MG alegadamente roubado já “recuperado” em St Margarida. De resto, e revendo a “fita do tempo” publicada, não deixa de me causar sensação a rapidez ( no próprio dia!!! ) com que se fez a conferência de inventário dos tais paióis. Das duas uma: ou havia muito pouco material ou então….

    Outra questão nunca esclarecida é esta : como é que o MG “roubado” saiu dos paióis e depois da Unidade ? Foi às costas, pelo tal “buraco” que já lá estava ? Eram quantos a carregar ? É que, sabendo-se o que pesa um cunhete de munições, não estou a ver que fosse obra para um par de gandulos a ir a vir pelo “buraco” até completar a carga.

    Quando o MD diz que “por absurdo” pode nem sequer ter havido roubo, só peca pelo “absurdo”, pois contada como está, “absurda” é a historieta do “roubo”.

  6. MRocha, penso o mesmo , é uma historieta muito mal contada, confusa, e cheia de aldrabices.

    Agora a sério, deve haver um Olx de armamento na darkweb, se fosse verdade talvez aí pudesse haver saída para este tipo de material avulso.

    Se quiserem intriga internacional, misterio e segredos de estado dediquem-se ao Bolama, mas aí são capazes de não encontrar “fontes” interessadas. Mas era capaz de dar um bom filme, caramba.

  7. Joe, my man, não precisas de ir à OLX nem a darknada. Qq assoc de caçadores dos meus arrabaldes arranja as 7:65 que forem precisas para as montarias que promovem. Não deve ser coincidência que esse seja o calibre favorito de quem gosta de andar ao javali e não tem grandes orçamentos. De onde achas que elas vêm ? E isto é assim desde que me lembro de ser gente.

    Nos tempos em que fui obrigado a marcar passo, houve um periodo em que me calhou o comando de um esquadrão “pesado”. No dia em que recebi o espólio, foi-me fortemente “sugerido” que deixasse para “depois” a conferência da carga. Como ao tempo era menos parvo do que sou hoje, anui, mas na condição de o comando botar lá a assinatura ao lado da minha. Resultado, no que ao MG se referia: dois meses depois estava na ordem do dia um “auto de destruição de MG obsoleto” . No entanto, os dez caixotes de minas anti-carro que babavam gelamonite e que foram detonados na pedreira abandonada que servia para o efeito, não correspondiam nem a 10 % daquilo que foi efectivamente abatido à carga , e que só existia no papel. Claro de daí para cá a tropa pode ter mudado muito. Mas não acredito que tenha mudado assim tanto.

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