Pneumáticos

[…] Muitas experiências são impedidas quando haja agarramento a uma linguagem que não é adaptada ao caso (subjectivo, de alguém). Não me venham falar, nem a mim nem a qualquer um de nós, de incorruptibilidade e de corrupção. Falem antes da permanência do fim e do carácter efémero dos nossos inumeráveis “eus”. Não falem de imortalidade da alma se não tiverem tido a experiência sequer de um desejo que, de facto, constitua uma força material na vida interior. Não falem da carne; falem da resistência ao orgulho: do engano próprio, da imaginação, da dispersão da energia de atenção. Não falem de Deus, falem antes do estádio seguinte de presença e compreensão; porque, para vós, isso é “Deus”. Não falem de misericórdia e de perdão dos pecados; falem antes de uma atitude de interesse em relação a si mesmos tal qual são. Não falem de culpabilidade. Não se atemorizem consigo mesmos, nem façam do amor algo consigo próprios. […]

Nota marginal do P. Silvano
“Instrução prática”

Enquanto alguns fogem da religião por estarem ofuscados pelos comportamentos de homens sem fé que nela me(r)dram, ou por não desenredarem o novelo historicista, confundindo culto e cultura, a humanidade resfolega igual a si própria – uma ponte entre o animal e o divino. Os ateus e os cínicos, os cépticos e os ideólogos, todos têm razão; ah, se têm! Mas, nem que eles continuem a ladrar à Lua até que o inferno gele terão a razão toda. O fenómeno religioso, aqui tomado em sentido abrangente, não se abole por decreto ou silogismo. É uma inevitabilidade intelectual, consequência da complexidade neuronal que supera as limitações do espaço e do tempo através da linguagem. O que nos leva para o maior fracasso das actuais religiões, a dita linguagem dita.


Quem passou pela tortura da catequese infantil sabe bem como as informações transmitidas correspondem a meros contos de fadas, relambório ao serviço de uma manipulação social. Fora dessas quatro paredes, o mundão é tudo menos cristão. E aprendemos a viver nele. Só voltamos a enfrentar o arsenal bíblico quando a maturidade (ou a dança do destino) nos permite compreender como as superstruturas cabem dentro de micropsiques, constituindo camada lodosa que a uns prende o pé e a outros faz germinar nenúfares. Onde estamos todos juntos, à excepção de uns raros, é no permanente desconhecimento do que invocamos.

Tanto os proselitistas como os delatores, passando pelos mornos, carecem de matéria de facto para autos-de-fé. Os que são lestos em receitas salvíficas não chegam a ter camada de verniz: assopramos lógica fuzzy e pulverizamos crenças binárias; eles são monomaníacos, que em segundos passam de uma candura nauseante a uma virulência nauseabunda se encostados à parede das evidências (da falta delas, isto é). E os que são rápidos no gatilho ateísta, embora mais frequentáveis, acabam por ser piores do que os primeiros, pois tinham tudo para serem melhores; e não o são. Não o são, e não o são, porque fazem da questão religiosa apenas uma aferição exterior. Contentam-se em objectivar, saciam-se com a ilusão material, preguiçam nas memórias falsas que constituem a sua verdade. Instituem o despotismo iluminado da razão suficiente, sacralizador de um positivismo ingénuo, o qual é idade das trevas para as potencialidades da natureza humana. Quais potencialidades? As da linguagem.

As religiões conservam uma herança de experiências poéticas acessíveis ao comum dos mortais que as consiga descodificar. Dá-se como óbvio o interesse em conhecer esse pecúlio, e, sendo óbvio, a pergunta seguinte não leva ponto de interrogação: tu queres conhecer o que não conheces. Só que os guardiões do templo assustam-se mais que os ladrões, e começam a barricar as portas, gradear as janelas, até que já ninguém consegue entrar e eles, num espanto calado, descobrem que não conseguem sair. Há um tesouro ali ao lado – nenhum curioso para o admirar, nenhum raio de Sol para lhe tirar o bolor. Enfim, dá vontade de falar nisso.

27 thoughts on “Pneumáticos”

  1. Valupi,

    Como sempre, no núcleo tens razão. Sim, rejeitar por princípio o religioso é prova crassa de limitação de vistas e de necessidades.

    Mas farás bem em aceitar explicitamente que a gestão do religioso pelos profissionais hierárquicos tem sido – sejamos simpáticos – algo deficiente. Não que isto não esteja já na humana capacidade de estragar o que há de melhor. Mas é uma mão que estendes aos que te poderiam acusar de seres, na pior acepção, um simples de espírito. A partir daí eles poderão acompanhar-te mais.

  2. Valupi,

    Quem te lê fica com a ideia que estás a rebelar-te contra o teor da maior parte das coisas que as malvadas escrevem neste blogue. Makes two. Ninguem vê, só tu é que sabes dos odores invisíveis que espirram das gretas da linguagem capacíssima que irá pôr fim às nossa dificuldades em compreenderm o belo espiritual entesourado na gruta desconhecida.

    Solução: transforma a tua linguagem num coisa que se compreenda e que ao mesmo tempo me assegure que não andas ao serviço duma nova marca de laranjada. Ou então diz-me se terei alguma chance de de um dia poder ser um dos comuns mortais que consiga descodificar as experiências poéticas deixadas pela religião.

    Outra boa ideia: podes começar por introduzir-nos à corrente nova ou velha que move as rodas da tua bicicleta e dá-lhe um nome, se tiver. Em suma, diz-nos se és cristo ou crosta.

  3. Valupi,

    Por mim falo quando te garanto que ateus há que não vêem na “questão religiosa apenas uma aferição exterior”. Gente que não se sacia com “a ilusão material”, pois não é nem a razão nem o positivismo que os guia na recusa de uma divindade. Gente que, mui simplesmente, tem uma fé “ao contrário”, que “sabe” até à última fibra dos seus modestos seres que isto é tudo a que alguma vez teremos acesso, que Deus é uma ficção amável e conveniente, nada mais.
    A alma também tem destes caprichos.

    Quanto aos tesouros escondidos nos sagrados canhenhos e nas orações, nada a obstar; partamos nessa demanda, que o gozo promete ser abundante!

  4. Bem-vindo, Fernando! Pois é sobre isso, precisamente, que escrevo: a deficiente gestão do religioso. E se é fácil listar onde e quando tal gestão falhou, tal a exposição dos protagonistas, já mais difícil é a empresa de apontar falhas aos denunciadores das falhas; seja porque estes têm razão, seja porque os outros também têm razões e nem tudo é o que parece ou como aparece.

    Quem me dera saber o que é um simples de espírito. Ou mesmo o que seja ser simples, sem mais.

    Gibel, recebeste um mail que te enviei há umas semanas? Fui buscar o teu emai ao Afixe e a ideia era continuar o nossa conluio esotérico. Se estiveres para aí virado, aqui vai o meu: valupi(arroba)simplesnet.pt

    Quanto à tua alternativa, pois… mas não generalizemos. Continua a haver boas surpresas em estradas já muito percorridas.

    Pirolito [ou seja, caríssimo Bomba], adivinho-te com o livro na mão e sem saberes em que estante o hás-de esquecer. É bom passar por esses transes a cada 6 meses, receita de enfermeiro. Mas asseguro-te teres what it take para time-sharing em montanhas das bem-aventuranças. É só arranjares tempo e pegares numa muda de roupa para o gasto.

    Luís, que Deus seja uma ficção amável e conveniente é uma das primeiras lições da fé. Mas há outras.

    Nolens, e tu, lês latim? Ou só o escreves?

    Ana, gramo-te.

  5. Aqui do alto, onde o comum mortal ainda em vida pensa que Deus vive, rio-me dos padres que imaginam mitos para o seu Deus. Onde nada se pode saber de verdade, a mentira é permitida e a mentira, condição fundante do cristianismo, justifica a grandeza de Deus. Não será o cristianismo uma ocupação contra o tédio dos submissos e uma inquisição da consciência dos ditos intelectuais? Desconhecerão eles que o reino de Deus pertence às crianças, cuja fé reside no espírito que permaneceu infantil e não depende de promessas, sendo ela, a cada momento, o seu próprio milagre. E como muito bem escreveu alguém, alguém que não acredita em milagres não é realista. Não há nada menos cristão do que um Deus pessoal e todos os nossos deuses são pessoais. Inventámos umas teologia normativa e moralmente condicionante
    para termos uma voz com quem falar nos momentos em que mergulhamos no acaso de um eu desestruturante que suspira por um sinal. Fomos apanhados nas teias da linguagem esquecidos de que a própria linguagem nasceu de forma ilógica e posteriormente se fundamentou em falsos silogismos. Por vezes, a religião é o melhor substituto para a falta de fé em nós próprios, na arte, na poesia, no amor, na escrita. O cepticismo contém em si uma absurda fé na lógica. Não conseguimos viver sem fé – parece que a fé funciona como um Lexotan, verdadeiro ansiolítico contra o desconhecimento da morte e nos dá a ilusão do controle. Não conseguimos viver sem lógica – esse edfício assente em exigências demoníacas que dança sedutoramente em nosso redorsem nos deixar ver escravos dos laços da linguagem. Gostava de continuar, mas uma outra nuvem – cúmulos – aproxima-se de mim a grande velocidade, sugestionando uma rota de colisão capaz de provocar uma micro-tempestade sobre as avenidas novas. A deus.

  6. Sim, Valupi, sou poliglota. Falo, escrevo, leio e declamo fluentemente latim, imperativo do meu curso de direito levado demasiado a sério.
    Ecce homo.

  7. Altostratos,

    Funde-te com o Valupi. Talvez que dessa inciativa resulte uma liga que nos convença e orgasmize. A tua prosa é leve umas vezes, como perfume entontecedor, outras vezes levita como que a convidar-nos a acreditar nos nossos próprios olhos. Se os levitas te lessem, iriam gostar muito.

  8. Pirolito (és mesmo tu, Bomba???)
    Nada mais natural do que uma fusão no céu mais alto, onde quase nunca acontece nada e para lá das nuvens, com o Valupi. Sobretudo se ele comparecer mascarado de nuvem, tal como eu. Dois homens vestidos de nuvens reconhecem-se sempre um ao outro, mesmo que esteja a chover copiosamente, lá onde não chove.

  9. Acordei tarde, espreguicei-me para afastar a preguiça e pensei enquanto procurava Deus através da janela: Deus revela-se nas nuvens, no vento, nos círculos, no número 8, nos sacos de plástico e nos pássaros pendurados nas árvores, na comida que nos dá para a alma, num luar de Outono, num bilhete de cinema, num post inesperado, na imobilidade do momento, no simples gesto de espreguiçar. E quer fazer de tal forma parte da nossa vida que só viaja de avião, para vencer os fusos horários. E quando não anda de avião, está lá em cima de cabeça para baixo, a ver-nos sempre ao contrário. Deus tem de ter sentido de humor. Senão, não teria inventado o amor. Deus tem de ser masoquista. Senão, como gostaria de nós? Deus tem de ser panteísta. Senão, como poderia Ele caber no universo? E como poderia a nossa experiência caber nele? A criatura tem de ser mais imaginativa. A salvação não pode vir daqueles que seguem o caminho já percorrido. Vou-me levantar na esperança de fazer um gesto original. Deus espera-me. Ou pelo menos eu assim o espero.

  10. Altostratos,

    Abriste a boca, estragaste tudo. Agora o Valupi, olhando para o teu segundo post, vai pensar que o primeiro apenas mascarava desdem vil ou falta de conversa. E não acredites no que ele diz quando me chama “bomba”, apesar dos seus inegáveis dotes na arte de grafognosia.Ademais, só andarei por aqui até ao desfecho das eleições presidenciais e se tudo correr de acordo com as previsões, vou passar a imitar o “bomba” a partir duma terminal situada no centro do tacho que me foi prometido por um senhor muito importante. Vai haver pirolitos ansiolíticos para todos!

  11. PIROLITO, QUERES PARTILHAR COMIGO ( E COM MAIS 50 ALMAS) UM TIME-SHARING EM MONTANHAS DAS BEM-AVENTURANÇAS, COMO SUGERIU O SEMPRE DELIRANTE ENFERMEIRO CUJO NOME COMEÇA POR UM “V” DE VITÓRIA? CONHEÇO O SÍTIO PERFEITO PARA PASSARES UMA SEMANA POR ANO. FEITAS AS CONTAS, DÁ PARA 52 ALMAS E NENHUMA DELAS SERÁ A DO ALTROSTRATOS. DEIXA O GAJO EM PAZ. ELE ATÉ ESCREVE BEM, DEVIA QUERER SER O VALUPI QUANDO FOSSE GRANDE (NÃO NO NOME, PORQUE O É, MAS NA VIDA).

  12. Chiça! que isto é demais. Primeiro foi o Valupi com uma dose de cocaína que me entrou pelo nariz com tal violência que o meu fraco ateísmo ia passando à reforma. Depois o Altostratos, na mesma veia e a coçar no mesmo nervo. E agora temos as Violetas Tardias, talvez de estufa, refogando as mesmas ideias dum Deus colorido que parece agradar aos três. Vamos lá, meninos e meninas, encolham a prosa e mostrem-me a caderneta das vossas ideias. Há aqui gente que tem mais que fazer.

  13. Isto está a ficar complicadíssimo. Temos o Caixa Alta, inimigo figadal do Altostratos, a tomar a enaltecer o prestígio do Valupi, e a propor-me uma semana de ares puros em montanhas. Weird stuff.Esperemos que a Margarida, a Susana, a Claudia e o resto das raparigas não fiquem ciumentas quando lerem isto.

  14. Tudo faz sentido, Pirolito, no teu discurso nervoso e impaciente. Menos insinuares que eu sou de estufa. Não sou, sou do tempo real, desse escultor invisível e mesmo que atrasada, por nada gostaria de o acelerar a ele ou de me apressar a mim. A pressa é inimiga da natureza e da verdade. Finalmente, não tenho a caderneta das minhas ideias, porque as perco sempre quando vou na letra “b”. E já agora, o que tens tu contra um Deus colorido em quem, segundo tu mesmo dizes, pelo menos três comuns mortais acreditam? Não achas que três almas são o suficiente para fundar uma religião?

  15. Altostratos, pedia-te que continuasses o comentário interrompido pela chegada de uma outra nuvem. Gostava de saber onde te levaria essa corrente de ar. Mas, se o momento já não for oportuno, sempre te digo que fiquei agradado com o material polémico, mesmo enigmático, que puseste em cima da mesa. A minha dúvida, agora, é a de saber se é chuva ou aguaceiro.

    Nolens, parabéns. Tanto pelo Lácio, como pela seriedade (que nunca é demais, digam o que disserem…). E quem são os autores latinos da tua preferência?

    Pirolito, és um cusco.

    CAIXA, explica-nos lá a tua opção gráfica pela caixa alta. Eu, pelo menos, estou curioso.

    Violetas, belo texto. A ideia de Deus estar de pernas para o ar é uma delícia. (e, estou em crer, absoluta verdade)

  16. Um caso no tribunal impede-me de dar grandes explicações. Já de pasta na mão e código civil na cabeça, deixo cair um ditado popular.

    Felix ille tamen corvo quoque rarior albo.

    Um homem feliz é mais raro que um corvo branco.

    Valupi: As minhas leituras são as seguintes: Cícero, Juvenal, Plínio e Virgílio durante a semana. Compêndios de botânica ao fim de semana, em Colares, quando trato das minhas Lavendula angustifolia (terão elas folhas angustiadas???) e olho à minha volta em busca de um corvo branco.

    Pirolito: também sei algum inglês e prometo-te: I’ll be back (para falarmos da maçonaria, of course)

  17. VALUPI, NÃO SE TRATA TANTO DUMA OPÇÃO GRÁFICA, MAS SIM DE UMA DISTRACÇÃO. ESQUEÇO-ME DO DEDO NA TECLA DA CAIXA ALTA. TALVEZ A PSICANÁLISE JUNGIANA JUSTIFIQUE ESTE LAPSO COM O MEU EGO DIMINUTO (NÃO ME TENHO EM MUITA CONTA; JUNTO DE VÓS, ILUSTRES ASPIRÍNICOS COM DIREITO A CONCÍLIOS E TUDO), QUE DE TÃO PEQUENO SER PRETENDE CRESCER A OLHOS VISTOS E COM ESTAS LETRAS ENORMES ENTRE DOIS COMENTÁRIOS, É DIFÍCIL IGNORÁ-LO, NEM QUE SEJA TÃO SOMENTE PELA MANCHA GRÁFICA. E TU, SE TIVESSES UM ESTILO GRÁFICO, QUAL SERIA? CAIXA BAIXA, ITÁLICOS, BOLD, CONDENSED? E COMO SE CHAMARIA O TEU LETTERTYPE?

  18. QUE RESPOSTA TÃO SIMBÓLICA. MAS ÉS EXTRABOLD ( CATEGORIA A PARTIR DE 90 KG) OU LIGHTBOLD (ATÉ 70 KILOS?). E A SYMBOL PARECE-ME GREGO. AINDA BEM QUE NÃO ESCREVES COM O TEU TIPO; SENÃO VIA-ME GREGO PARA TE ENTENDER… ACASO TERÁ TUDO ISTO ALGUM SIGNIFICADO OCULTO?

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