Balada para Filipa

(sobre foto Estúdio Goes)

A princesa do mouchão
Menina no meio da terra
Tem nos olhos a canção
Coração em pé de guerra

Da água toda a frescura
Mata a sede aos animais
Em manadas na lonjura
Do lado oposto do cais

Papoilas são raparigas
Na voz da terra a cantar
Água e terra são amigas
Só a água vai para o mar

Olhas a terra trazida
Pelas cheias deste rio
Milhões de dias de vida
Entre o calor e o frio

Memória é pensamento
Auto-estrada é novidade
Os baldinhos de cimento
Passam sem velocidade

Sobre os carros da gente
Numa nuvem de poeira
Vem o vento de frente
Mistura o pó da caldeira

Neste ar em circulação
Onde os nosso pulmões
A olhar para o mouchão
Fazem dos olhos canções

18 thoughts on “Balada para Filipa”

  1. Pois, bem me parecia que isto me estava a fazer lembrar outra coisa, mas com uma diferente circulação de ar. Em 71 o Ary dos Santos fez esta para a Tonicha, não para a Filipa. São coisas que ficam no subconsciente…

    Menina de olhar sereno
    raiando pela manhã
    no seio duro e pequeno
    num coletinho de lã.

    Menina cheirando a feno
    casado com hortelã.
    Menina que no caminho
    vais pisando formosura
    levas nos olhos um ninho
    todo em penas de ternura.
    Menina de andar de linho
    com um ribeiro à cintura.

    Menina da saia aos folhos
    quem te vê fica lavado
    água da sede dos olhos
    pão que não foi amassado.

    Menina do riso aos molhos
    minha seiva de pinheiro
    menina da saia aos folhos
    alfazema sem canteiro.

    Menina de corpo inteiro
    com tranças de madrugada
    que se levanta primeiro
    do que a terra alvoraçada.

    Menina de fato novo
    ave-maria da terra
    rosa brava rosa povo
    brisa do alto da serra.

  2. edie, o Ary dos Santos não percebia nada do assunto, nem sequer faz referências a baldes de cimento, pó da caldeira ou a pulmões.

  3. Meus caros, não é possível fazer comparações. Há aqui apenas um elemento comum: uma «menina». O poema do Ary é lindo, perfeito. Este só é conseguido até ao verso «entre o calor e o frio». Daí até ao fim, temos: «Os baldinhos de cimento/Passam sem velocidade.»; «Sobre os carros da gente (da polícia?)». Mas o que me espanta é: «Onde os nossos pulmões/A olhar para o mouchão/Fazem dos olhos canções». Vocês sabiam que os pulmões têm olhos?! Pelo amor de Deus!

  4. Não me digas que não queres comparações com o Ary dos Santos. Porquê? Achas que és melhor do que ele? A evitar absolutamente é a falta de qualidade dos teus versos – não lhe chamo poesia. Já viste que puseste olhos nos pulmões?! E as nossas palavras é que são «bacoradas»? Perante tão grande disparate, a que não respondes nem dás explicações, só posso continuar a dizer: pelo amor de Deus!

  5. My name.

    Faz um poema sobre bácoros. Eu agora estou sem inspiração. Algo do género,

    O bácoro porcalhão,
    caga e mija no meio de tudo,
    como se o tudo fosse dele,
    É a liberdade, pois então!

    Ó bácoros de fatos lavados,
    Colarinhos brancos e rabo preso,
    Estragais a nossa terra,
    Em vara e com roubalos dados

    Publica aí. É um original.

  6. jcfrancisco, tens a memória curta. Há muito tempo publiquei um texto no Aspirina, intitulado “Ti’Silvina” e foste o primeiro a fazer uma comparação com o “Ninguém escreve ao coronel” de Gabriel García Márquez. Há que ser coerente naquilo que se diz.
    Não vejo o mal das comparações. A intertextualidade em literatura é sempre inevitável e, muitas vezes, malgré soi.

  7. jcfrancisco Jul 1st, 2008 at 22:49

    É uma história paralela a «Ninguém escreve ao coronel» só não percebi se perdeu os dois na guerra ou um na guerra e o outro na emigração. Excelente texto.

    Hoje escreves:

    jcfrancisco Set 10th, 2010 at 19:21

    Escrevam as bacoradas que quiserem mas não façam comparações. Isso é miserável. A evitar, absolutamente.

  8. Granda Cláudia.
    Apanha aí Ó VALUPI!

    Não fosse alguns comentadores teus, onde pensas que estava este blog of yours, man?

    Tu és espertito, andas a seguir os meus conselhos, publicas a Cláudia, o qu eacho bem, meu biatu caralhadu.

    Um abraço e não abuses, manganãoe.

  9. Então, meu, e os pulmões com olhos? Fiquei curioso em saber. Responde, pá! Se calhar tens olhos nos teus, além dos outros três!

    Boa, Cláudia, assim é que é!

  10. Ó Senhor Mário, bem, então, «outros três»? Um não conta, que é cego. Só espirra e manda trovoadas.

    Porra, o JFk é um homem de visão. À atenção dos oculistas e oftalmologistas. Comecem a fazer óculos para os pulmões, devidamente preparados para o dióxido de carbono.

  11. Analisemos o poema de per se. Vejamos que é um conjunto de versos, que muito nos diz do seu autor. As figuras de estilo, a personificação, as parábolas, as comparações, o sentimento.

    Se calhar é uma canção de amigo, ó Cláudia, tu que sabes de literatura, disserta aí sobre a técnica do enjambement, sa fachabor.

    D. Diniz, o homem do pinhal, também foi um óptimo trovador, então? dava pancada na isabel das rosas para se inspirar, contar e cantar aquela versalhada toda, no meio de pernas de frango e vinho da pipa. o TRAQUES nessa altura já anadava por lá, largando e o pinto da Minha Pessoa, rebolava-se no meio da malta em género de bobo da corte, aceitando os ossinhos vitaminados das gentes.

  12. Zé, esta quadra à venda por um euro e 25. Interessado?

    Melhor que eu? Nem Camões!

    Eu sei bem aquilo que valho,

    Só não há olhos em pulmões

    Pra quem não vê um “c……”.

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