Versos que nos salvam

«Versos que nos salvam» era o título da secção de poemas mantida pelo José Mário Silva no velho «BdE» e, em tempos, no «Aspirina». Adoptamo-lo por nostalgia, claro.

Virgílio Rodrigues Brandão é poeta, advogado e colunista do Liberal de Cabo Verde. Reproduz-se um magnífico poema de Virgílio, encontrável também aqui.

ESTELA CANTO E FELICIDADE

Redoma do meu umbigo,
primeiro útero
e mãe.
Lembras-me Estela Canto
nas penumbras tardes de Buenos Aires
à beira do café
com o tango dançando nos coretos
teus lábios de quinta-essência curva
e sorriso prenhe.
Confesso: lembras-me
porque me dói a alma,
todos os homens teus têm duas mães,
gemem quando amam
e procuram por ti sem saberem
– na verdade dizem-se ditames de dias novos
em corpo-longe.
Sim. Ah, sim. Lembras-me
que sou petros in natura
ansiando de trágico o teu riso em noite escura
apagada dentro de luz
em todas as auroras dos gemidos
que ficam nas sombras dos dias…
Sim, lembras-me Estela Canto,
as dores de parto letrino e de dentes
do poeta
e todos os anseios de amanhã
consumindo anos de mar refinado
para perceber de Deus em ti obra
e beijo que podem ser melhoradas…
Lembras-te de me lembrar,
ainda menino,
que posso ser melhorado?…
Recordo-me – expeliste-me de ti…
Lembras-me Estela Canto,
uma parte de Adão em Buenos Aires,
recortando sentidos,
apagando alma de amores,
criando caminhos do belo nas rasuras,
parindo luz numa íris cansada…
Será que sabia que daí chegava a ti
– ao teu Porto Novo e ao teu Fogo –
milho vermelho para construir seiva
para me gerar?
Lembras-me Estela Canto
pois nasci em ti, que foste apagando
o verde e dás sentido ao belo
mesmo nas noites escuras
e no medo cansado que espreita na voz
residente no teu ventre que também balbucia
como o poeta chorou em Genebra
e Buenos Aires quando eu nasci: «Ya no seré feliz.»
O que não sabe, é que é feliz!
Em ti…

Virgílio Rodrigues Brandão

8 thoughts on “Versos que nos salvam”

  1. “Cádê” o Zé Mário, o grande Luis, o temperamental TT… a gente que valia a pena neste buraco.

  2. Meus queridos,

    Vós quereis atenção. Vou então dar-vos alguma.

    Este é um blogue colectivo. Já ele estava em marcha, quando aqui vim aportar. Eu serei, decerto que serei, o menos competente para pôr-vos a esta larga mesa – larguíssima de facto para as minhas posses – o alimento espiritual a que vos achais com direito. Pois aguardai, até outros, bem mais dotados autores do «Aspirina» voltarem de suas altas ocupações. Eu nada mais faço, nem farei, do que ir mantendo o borralho, esperando que as labaredas de novo aqui vos chamem.

    Até lá, senhores, desamparai.

  3. O poema é interessante e tem algumas imagens de força e beleza. No entanto, há ali qualquer coisita de déjà vu cuja relação não consigo destrinçar agora. Fica para uma segunda leitura.

    Até já

  4. O poema é interessante e tem algumas imagens de força e beleza. No entanto, há ali qualquer coisita de déjà vu cuja relação não consigo destrinçar agora. Fica para uma segunda leitura.

    Até já.

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