José Saramago em 1499 caracteres

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José Saramago com Adrienne Clarkson

Ainda hoje a presença de José Saramago nas letras portuguesas é da ordem da fantasmagoria. Nada fazia suspeitar, por 1980, que uma escrita assim fosse surgir, desarrumando quanto de instalado, e quanto de insubmisso, essa literatura então acolhia. Decididamente, Saramago podia ter sido inventado, previsto é que nunca. Nessa irrealidade nos encontramos ainda. Porque a questão é esta: se é verdade que as grandes escritas são inspiradoras e arrancam o melhor de nós, imitar a deste autor, tentar mesmo só aproximar-se-lhe, produzirá apenas o pastiche, a homenagem.

E todavia – já foi dito, mas importa repetir – muito escritor, ou aprendiz dele, ganhará em ler José Saramago atentamente. Há-de aperceber-se de que a naturalidade ou o artifício, a transparência ou o mal-entendido, a desarmante singeleza ou um requinte de perfídia, são outros tantos efeitos lúdicos, atingíveis com recursos inesperadamente simples, maneiros, à nossa espera no vasto areal do idioma. Se a língua portuguesa permitiu um ‘Saramago’, é porque ela anda grávida de outros.

Quanto ao resto, há muito que estamos conversados. Quem criou Ensaio sobre a Cegueira e Memorial do Convento entrou, e ficou, na literatura do planeta. O Nobel há-de ter sabido muito bem? É mais que certo. Mas nunca essa distinção precária e mundana foi deveras indispensável.

fv

Este texto acompanhou a oferta duma medalha de J.S. no DN do passado domingo. Mas está longe de ser – o leitor atento há-de tê-lo visto – um texto comemorativo.

10 thoughts on “José Saramago em 1499 caracteres”

  1. O pior é que, quando um homem acaba de limpar o cu, este parece estar limpo, mas, na verdade, não está. É uma ilusão. Continua sujo. Sujíssimo. Conspurcado. As cuecas estão cheias de borgalhotas. Há manchas de mijo por baixo da retrete. Não tocou sequer no papel. Está tudo fora do sítio. Desordenado. O chão está forrado de pintelhos. É por estas e por outras, pela inabilidade total para fazerem coisas simples, que os homens não se comparam às mulheres. As mulheres fazem tudo o que, até há pouco tempo, estava reservado aos homens. Trabalham, ganham dinheiro, têm carreiras. Depois, quando chegam a casa, fazem aquilo que se lhes continua a exigir: tomar conta da casa, orientar a empregada se a tiver, arrumar, limpar, esfregar, cuidar dos filhos, educar os filhos, vestir os filhos, fazer as compras, fazer o jantar, fazer máquinas de roupa, estender a roupa, preparar os almoços da escola, passar a ferro. Eu sei que alguns homens vão ajudando nestas tarefas. Mas o facto de se limitarem a ajudar, de não assumirem essas tarefas como suas, só demonstra a sua menoridade. Um homem pode ajudar a mulher a limpar a cozinha, mas não lava o chão, não arruma armários, não arruma a despensa; um homem pode ajudar um filho com os trabalhos de casa, mas não sabe que roupa ainda lhe serve, se é preciso comprar-lhe cuecas ou camisolas interiores. Os homens são o que são. Servem para o que servem. Para pouco mais. São uma espécie em vias de extinção. Acabarão por ser eliminados. Como os dinossauros. Mais cedo ou mais tarde, tornar-se-ão dispensáveis, descartáveis. Mesmo para o coito, se hão-de arranjar alternativas, porque a maioria não vale nada: ejaculam depressam e entram em hibernação logo de seguida.

  2. porra! ninguem dá importância ao fernando. anda um homem todo doutor a pregar à ignorancia… e nada. só patadas e indiferença. já dizia a minha tia alzira: “mais vale só do que mal acompanhado”.

  3. Pois é, só é pena que o DN não se lembre o que o José Saramago fez quando foi seu director….já lá vão uns 30 anos é natural que tenha caído no esquecimento….a verdade é que à altura o DN só podia publicar notícias “vermelhas” -não que tenha nada contra a cor mas a verdade é prefiro a diversidade-assim 24 jornalistas do dito, apresentaram uma carta ao então director José Saramago em que solicitavam que fosse respeitada a liberdade de imprensa, que fossem livres de escrever sobre todas as realidades, afinal estavámos em plena democracia, a resposta foi o despedimento dos 24 sem apelo nem agravo…

  4. Considero Saramago um virtuoso e um escritor incansável. Não considero a sua moral, a sua intolerância, e o seu altivo pressuposto de superioridade e parcialidade.

    Um Génio é universal por natureza.

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