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Olhar o Monte (Viagem)

Vejo o monte quando olho para ti.

Tu não sabes mas o teu olhar é uma porta aberta, um convite, uma sugestão de caminho. Olho-te na cidade e penso logo no campo, penso logo na brancura das casas, no azul das barras, no castanho das telhas.

Cheguei aqui cansado, vinha a transpirar, os pés pesavam toneladas e, morto de sede, só descansei quando me deste um copo de água tirada de uma bilha no louceiro. A única música que aqui chega é a do vento, capaz de secar a roupa estendida e as tuas lágrimas.

Vejo o monte quando olho para ti.

Vejo nos teus passos o prenúncio do movimento. És tu que seguras o alguidar da roupa que vais estender entre a última casa e a primeira árvore. Tal como foste tu a sacudir o sono e a trazer à vida do monte a sua velocidade.

Há uma ordem, uma perfeita sintonia de aromas que mistura de modo sábio o odor das flores silvestres aqui à volta e o lento cozinhado por ti decidido no espaço da cozinha onde muitas vezes preparar a refeição é mais do que arte; é uma ciência.

Vejo o monte quando olho para ti.

Habito o espaço sentimental desta imagem por ti povoada. É um dia luminoso, o monte repousa e apenas o esvoaçar da roupa que tu estendeste lembra que vive aqui alguém. As tarefas quotidianas ocupam os seus locatários. Uma humidade difícil de medir percorre e liga a ternura dos teus olhos à respiração da terra.

Vejo o monte quando olho para ti.

Guitarra

(O José do Carmo Francisco pediu a guitarra. Aqui vai ela. O Fado da Meia-Noite existia mesmo, e a minha Mãe aprendeu a tocá-lo numa guitarra feita pelo meu avô. Não consigo encontrar ninguém actualmente que conheça essa melodia. Ter-se-á perdido, infelizmente.)

– Interessa é encher a barriga. – Disse António com um nó na garganta.
Elvira pareceu querer sossegar nele a compaixão pressentida.
– Daqui a dias, não me há-de faltar trabalho a ceifar, se Deus quiser, e a respigar, que sempre trago uns braçadinhos de trigo para casa.
Depois de os ceifeiros porem em descanso as foices e o corpo, às vezes já noite alta se era de lua cheia, ela ficaria ainda colhendo as espigas esquecidas, mais abundantes nas searas segadas por mãos habituadas à caridade, no cumprimento de uma recomendação bíblica que talvez ninguém conhecesse mas que era cumprida como um mandamento divino.
A felicidade de contemplar o rosto de Helena, mais bela à luz somítica da lamparina do que decerto D. Amélia no esplendor do seu palácio, minguava com a visão daquela ceia de couves. Pobre era ele também, mas sempre tinha qualquer coisa mais forte, embora apenas para encher o estômago, já que o que poderia fazer a vontade às gulodices da boca não se punha na mesa dos pobres. Lá vinham, na roda do ano, três ou quatro dos seus dias que mereciam a celebração dos sentidos, com direito a carne, vinho, massa sovada ou malassadas. Mas, para isso, era preciso que Jesus nascesse ou ressuscitasse, e que fingissem todos que eram ricos, como os mascarados do Carnaval fingiam ser reis ou demónios sem deixarem de ter os pés duros como sola e sem passarem de uns pobres diabos. E, se havia a folia do Entrudo e a relativa abundância de alguma outra festa em honra de Deus ou da Virgem, todo o resto do ano era Quaresma.
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Ainda Elvira

(Como eu gosto desta minha personagem Elvira, deixo aqui um pouco mais do seu retrato. É de ter em atenção que a história se passa na viragem para o século XX. Foi sempre uma mulher com má fama na boca do povo. António era um rapaz muito querido, tocador de guitarra, já sem pai, de uma família que se julgava da melhor cepa. Provocou um terramoto em casa quando disse que queria casar com Helena, a filha, cega, de Elvira. Este é um excerto da sua primeira visita a casa delas.)

Bateu à porta com a inquietação como fronteira entre o receio e a esperança. Não se importou que os últimos olhares curiosos à luz dos restos do crepúsculo se dirigissem para si, estranhando a visita, ou talvez não, porque muita gente já teria com certeza ouvido e contado tão improvável amor.
Foi recebido com pouca surpresa, bem menos do que imaginara. Helena mexeu-se na cadeira, inquieta, enquanto ele caminhava em direcção à cozinha, mal iluminada pela luz minúscula da lamparina, que tinha a torcida, acabada de acender, reduzida ao mínimo. Para a cega eram iguais os dias e as noites, e a mãe sabia também os cantos da casa palmo a palmo sem precisar de luz ou de olhos abertos, pelo que poupava no petróleo o mais que podia. Distraíra-se, no entanto, ao recebê-lo com tão vaga claridade e, por isso, pediu desculpa e deu um pouco mais na torcida.
– Ainda está praticamente de dia. – Disse António, apenas para mostrar que nada havia a ser desculpado. Porque a verdade era que a penumbra lá de fora pouco tinha já de semelhante com a luz do dia. E a lamparina nada acrescentara ainda às sombras da noite que chegava, a não ser o pequeno clarão amarelado que iluminava pouco mais do que a si mesmo.
Estava resolvida a dificuldade de começar a conversa. Cumprimentou Helena com um simples “olá”, a que ela correspondeu, envergonhada, dizendo “olá, António”. Seguiu-se um silêncio que seria tanto mais embaraçoso quanto mais se prolongasse. Estranhava que Elvira não lhe perguntasse o que vinha fazer. Com certeza já sabia…
No prato de Helena havia duas batatas cortadas ao meio, no de Elvira nenhuma.
– Quando dei por mim, só tinha quatro batatinhas em casa. A gente amanha-se assim mesmo. – Deu sinal a António para que não fizesse comentários, e convidou por delicadeza: – És servido?
Aquela mulher era muito diferente do seu retrato falado.

Elvira

Elvira ia, desprevenida de penas desta ou da outra vida, aos matos ou ao moinho, e não lhe dava cuidado pensar muito em virtudes que, na sua idade e pela sua condição, eram difíceis de guardar. Do mato voltou sempre igual a como ia, mas na solidão do moinho teve o seu amor de perdição. Se é que amor se podia chamar àquilo, o moleiro na sua ardência juvenil, ela com pouco entusiasmo conformada, porque ele lhe moía o alqueire de milho sem descontar a maquia devida pelo seu trabalho. E mais pudera, se ao menos essa pequena graça lhe não fizesse!…
Habituada a muitas fornadas, a mãe logo notara, na primeira vez, farinha a mais. Admirada, perguntou a Elvira:
– O moleiro esqueceu-se de maquiar o nosso milho?
Bem bom que os pulos do coração não se notam, se não se leva o ouvido ao peito ou a mão ao pulso, e assim escapou de deixar a descoberto uma clara aparência de que escondia alguma culpa muito grave.
– Não senhora, como a gente são pobres, ele teve pena e não maquiou.
Tendendo o pão da maquia a mais, sem mal cuidar no que ouvira, a mãe levantou os olhos para o tecto negro do fumo, e exclamou, como que numa jaculatória de acção de graças:
– Ainda há gente boa neste mundo!…
Quando Elvira percebeu que ia ter um filho numa idade de ter irmãos somente, não pensou que o Mundo se acabasse por causa disso, mas que se acabaria o seu mundo. Iria morrer de vergonha, matava-a a mãe, matavam-na as más línguas – e todas tinham razão nessa morte, que deveria ser quase como morrer deveras. Com muita ansiedade e muito medo esperou o dia de levar a saca com o grão para moer, três noites seguidas em que mal pregou olho, três dias em que mal provou bocado de pão.
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A pianista que me possa perdoar

Estávamos na Casa dos Açores em Lisboa. A sala estava mais que cheia. Era uma sexta-feira à noite. A pianista que me possa perdoar, mas eu só dava atenção à violinista Isabel Dutra Rafael, uma menina-mulher de treze anos, lançando de forma serena, decidida e firme para a nossa atmosfera carregada de emoção, os sons magníficos das peças musicais de Kreisler, Pugnani e Bériot.

Saída da escuridão da sala ao lado, surge Eduardina, com um sorriso de mulher-menina e trazendo nas mãos dois belos ramos de flores. Os aplausos continuavam e as flores nas mãos de Eduardina surgiam como pequenas e coloridas vírgulas da nossa festa.

De repente era como se estivéssemos numa sala do Teatro União Faialense, não em 2007 mas no ano de 1897. Aqueles aplausos quentes para a jovem violinista aconteciam no século XIX e não no XXI. Esta ilusão era fácil de explicar. Tinha acabado momentos antes a apresentação do livro «A Horta Antiga» de Carlos Silveira. Uma espécie de fotobiografia da mais bela pequena cidade do Mundo.

De repente era como se estivéssemos dentro do romance «Mau tempo no canal» de Vitorino Nemésio com João Garcia em recruta no quartel da Junqueira e com quarto alugado no Bairro Alto por cima da capelista da Rua da Rosa, esperando carta de Margarida e Margarida a conversar na amurada do Lima com um dos Serpas sobre a famosa linha de backs do Fayal Sport Club que passava as tardes de domingo jogando intermináveis partidas de futebol com o Angústias ou com o Sporting Club da Horta no Relvão da Doca.

A pianista que me possa perdoar, mas eu só dava atenção à menina-mulher do violino e à mulher-menina dos ramos de flores.

José do Carmo Francisco

A serpente cega nos dedos de Fernanda

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E de súbito descubro o rosto de Fernanda na pequena multidão que cruza o Largo das Duas Igrejas, no Chiado. De um lado a Paroquial da Encarnação; do outro lado a igreja privativa dos italianos de Lisboa. Reparo numa serpente cega num dos dedos de Fernanda e lembro-me, de imediato, da Margarida, a heroína do livro Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio.

Margarida no convés de um navio em viagem entre a Horta e Lisboa a conversar com um dos Serpas que fez parte, em tempos, da melhor linha de backs do Fayal Sport Clube nas tardes sem fim do Relvão da Doca. O mítico lugar onde os pioneiros do futebol na Ilha lançaram as raízes do Sporting Clube da Horta, do Fayal Sport Clube e do Angústias. Este lugar onde nos encontramos e eu admiro a beleza da serpente cega num dos dedos de Fernanda, era ponto de passagem de João Garcia quando o jovem aspirante regressava do quartel na Junqueira e, depois de ouvir os últimos boatos nos vários cafés do Rossio, subia por aqui até à Rua da Rosa, ao quarto alugado por cima da capelista, sempre à espera de uma carta de Margarida.

Agora reparo que hoje é dia internacional da mulher. Não sei porquê, mas a verdade é que dos dedos de Fernanda sai um suave cheiro a massa sovada. Afinal já não estamos no Largo das Duas Igrejas, e sim dentro de um romance. Fernanda está com pressa, olha para o relógio e explica que tem que ir abrir as portas da sua livraria.

Eu tenho as minhas obrigações e os meus compromissos. Mas o cheirinho da massa sovada permanece como se tivéssemos os dois, eu e Fernanda, saído do lugar determinado do encontro no Largo das Duas igrejas e entrado logo a seguir nas páginas dum romance inesquecível.

José do Carmo Francisco

Um iate, um cais, um copo de gin

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Voltei as costas ao bulício da parte velha da cidade, aos sacos que já cheiram a compras de Natal, à pressa das pessoas nas escadas rolantes dos armazéns e às iluminações da quadra que já estão nas ruas. Uma pequena viagem de Metropolitano é o suficiente para chegar ao Mar da Palha. Com a ponte Vasco da Gama à direita, o Peter lá está à esquerda à minha espera. Um iate, um cais e um copo de gin – eis o lema que, desde sempre, fixei. Não tenho iate, cheguei aqui muito prosaicamente de Metropolitano, mas tenho à minha frente um cais e um copo de gin. Junte-se um livro e uma tosta mista feita com aquele pão tão especial, e temos programa para uma tarde bem passada no Peter do Parque das Nações. Como já estamos no fim do Outono, o dia começa a cair muito cedo. O cinzento vence o azul. Acendem-se as primeiras luzes do lado de lá. Sei muito bem que tenho à esquerda Alcochete e logo a seguir Samouco, Montijo, Barreiro e Seixal, mas o meu espírito diz-me que ali em frente tenho na verdade a Ilha do Pico. As luzes do lado de lá podem ser da Madalena. Estou sozinho na mesa de quatro, mas tenho à minha volta uma solidão povoada. Estão aqui comigo, mesmo sem ninguém os ver, a Eduardina, o Urbano Bettencourt, a Zezinha Lacerda, o Carlos Lobão, o Sidónio Bettencourt, o Emanuel Jorge Botelho, o Álamo Oliveira, o J.H. Santos Barros, o Emanuel Félix. E todos. E todas as vozes. E todos os livros. E todos os filmes a começar por «Gente feliz com lágrimas» de João de Melo e Zeca Medeiros. Sem um iate, mas com um cais e um copo de gin eu posso convocar a paisagem e o povoamento dos Açores aqui no Parque das Nações. E ser feliz. Mesmo se for apenas nestes momentos de alegria breve numa tarde cor de cinza.

José do Carmo Francisco

Eu distorcido pelo tempo

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O jornalista e poeta José do Carmo Francisco enviou-nos este texto sobre o recente romance O Cemitério de pianos de José Luís Peixoto. É com prazer que aqui o publicamos.

Nos Jogos Olímpicos de 1912 em Estocolmo, o maratonista português Francisco Lázaro morreu ao quilómetro trinta. Era carpinteiro numa oficina do Bairro Alto e vivia em Benfica. A partir deste «drama em gente», José Luís Peixoto organiza uma ficção na qual se permite algumas fugas ao verosímil. Por isso há passeios em Monsanto, há a telefonia a tocar, há semáforos e há telefones na casa do carpinteiro ou seja quatro coisas que não existiam em 1912.

Mas o que José Luís Peixoto alcança é uma ponte entre a realidade real de um carpinteiro atleta de 1912 e uma família dum certo tempo português. Uma família onde os alcatruzes da vida colocam amor e morte em doses iguais, onde se respira o verso dum folheto. O verso é o seguinte: «enquanto um de nós estiver vivo seremos sempre cinco». Tal como num poema ou numa oração, as palavras de José Luís Peixoto ligam de novo duas realidades que o tempo separou. As páginas deste livro são um encantatório ponto de encontro entre verdade e ficção. Mas sem equívocos.

O narrador avisa: «O tempo, conforme um muro, uma torre, qualquer construção, faz com que deixe de haver diferenças entre a verdade e a mentira. O tempo mistura a verdade com a mentira. Aquilo que aconteceu mistura-se com aquilo que eu quero que tenha acontecido e com aquilo que contaram que me aconteceu. A minha memória não é minha. A minha memória sou eu distorcido pelo tempo e misturado comigo próprio: com o meu medo, com a minha culpa, com o meu arrependimento».

Este Cemitério de pianos é a inesperada, fascinante e impressiva metáfora do Tempo Português do século XX. E a prova de que a única resposta à morte só pode ser o amor.

José do Carmo Francisco

Actualização
Este texto apareceu já (devo a informação a Rui Almeida, ver caixa de comentários, com a nossa resposta) no blogue Estrada do Alicerce, de Ruy Ventura.