Rodrigo Moita de Deus, RTP Notícias, ontem, dia 26. Passos Coelho é o mais popular político português. Quando fala, provoca uma onda de enfeitiçamento, um homem extraordinário, o melhor dos primeiros-ministros, um portento, uma sumidade e, no entanto, mas dito numa forma ternurenta, “um mau político”, um tigre (ou será elefante?) à solta numa savana africana. Mais: se ele liderasse o PSD, o Chega não existiria! Rodrigo, ó Rodrigo, e porquê?
Se não acreditam em tanto entusiasmo, vejam aqui:
https://www.rtp.pt/play/p16207/e911811/estado-da-arte
Sinceramente, não percebo a direita portuguesa e a excitação com o Passos Coelho. Nem a cegueira que os leva a dizer que é muito popular e admirado e que, bastaria querer, para ser de novo primeiro-ministro. Devem ser chalupas. Para mim, a única coisa positiva que o homem tem nada tem que ver com capacidades intelectuais ou políticas, simplesmente nasceu com uma bela voz. E para aí. Tudo o resto é muito mau. Mentiu que nem um perdido na campanha eleitoral para 2011, achou giro “ir além da Troica” na austeridade, sem dó nem piedade, usou bastas vezes linguagem boçal para se referir aos portugueses como se ele próprio fosse um exemplo de empreendedor independente e incansável, mostrou zero empatia pelas pessoas que governava, provocou a manifestação mais sentida e abrangente da história da nossa democracia quando pretendeu aumentar a TSU para os trabalhadores e baixar a das empresas, enfim. Tudo isto no activo enquanto chefe do governo, fora o resto dos seus tempos de moinante, de líder da juventude social-democrata, de “empresário”: nada fez digno de louvor até decidir ir tirar um curso à Lusíada (ligada ao PSD) já perto dos 40, inventou uma empresa ligada a técnicos de aeroportos inexistentes para sacar dinheiro europeu (Tecnoforma), investigada pela Comissão, afirmou desconhecer o que eram contribuições para a S Social, era o amigalhaço de pândega política do Miguel Relvas, o homem das equivalências dadas pela escola da vida, e escreveu um livrinho básico neoliberal com a ajuda do António Borges para mostrar que tinha ideias e assim poder ganhar algum crédito junto de quem o poderia eleger para líder.
Na secção “regresso e polémicas” da Wikipedia pode ler-se em relação ao tempo actual:
“Mais tarde, Passos Coelho, pouco tempo depois da tomada de posse de Montenegro como primeiro-ministro, aceitou apresentar um livro ultraconservador com ligações ao Salazarismo e à Opus Dei e com apoio de figuras públicas conservadoras tais como Manuel Monteiro, Diogo Pacheco de Amorim, André Ventura, Rita Matias, Maria João Avillez, António Bagão Félix, Francisco Rodrigues dos Santos e Nuno Melo. Nessa apresentação, Passos atacou os imigrantes muçulmanos, as ex-colónias, a eutanásia, o aborto, o feminismo de esquerda e as bases disciplinares atuais da escola pública, que este considera “sovietizada e esdrúxula”.
Que cartões de visita mais luxuosos. Péssimos. Não passará.
Portanto, Rodrigo, filho, o Passos é um tipo com bom timbre vocal mas medíocre, com uma evolução recente muito pouco recomendável, e que, além de gostar de regressar ao século passado, gostaria também de regressar ao poder mas não se enxerga: não tem noção da memória que a esmagadora maioria das pessoas guarda dele (nem ele nem tu), nem de quão fácil é demoli-lo pelo que fez, nem tem noção de que a sua simpatia e afinidade com o Ventura afugenta até grande parte do PSD, quanto mais os restantes votantes. A direita faria melhor em mudar de mito.
Que partido fará aqui ao ps aquilo que os verdes estão a fazer ao labour? Os defeitos do ps e do labour em termos da não representação dos interesses dos seus eleitores são semelhantes.