Um Discurso de Despedida falhado

Vou imitar o Luis Rainha, que se imitou a si mesmo (e este jogo de espelhos teria ainda mais para contar…), começando com uma despedida. Não o consegui fazer em tempo útil — o que talvez até me tenha custado o último livro de contos do Alexandre Andrade à pala — e com esse fracasso acabei por resolver o problema do meu primeiro post na Aspirina B. Muitos, e alguns notáveis, foram aqueles que entraram na blogosfera através do layout azulado do BdE. Mérito inquestionável do Zé Mário e do Manuel Deniz, mérito indiscutível de todos os colaboradores que o tornaram num blogue de referência. E de convivência.

Não sei como fui parar ao BdE, por isso não sei porquê. Sei que nunca tinha ligado aos blogues. E continuo a não ligar, mas por mais ilustradas razões.


Então, ao meu segundo post recebi a iniciação que me iria tornar fiel discípulo durante os 356 dias seguintes. Jonathan Coe em post do José Luís Peixoto, Dezembro de 2004 no seu quarto dia e Fernando Venâncio mestre do ritual. São coisas que abalam um gajo, estar a discutir vogais átonas com o Fernando. Logo com o Fernando.

Onze dias depois o Manuel Deniz avança com o inesquecível O TRIUNFO DA AMNÉSIA, post onde Carl Orff soava a suástica. Entrei na conversa às 7 da matina (mais três minutos) do domingo de Natal, tropeçando em ouro, incenso e mirra ofertados por magos comentadores. São coisas que abalam um gajo, estar a discutir a semiótica dum si bemol numa partitura de fagote com o Manuel. Logo com o Manuel.

Entretanto, o Zé Mário ia promovendo os encontros catacúmbicos, o caudal dos posts era amazónico, o Luis Rainha servia um menu completo para dietas surrealistas e o Presidente despedia um primeiro-ministro surreal. Bom demais para ser mentira, o BdE aparecia-me como uma inesperada tertúlia onde se encontravam inteligências generosas, criativas, corajosas. São coisas que abalam um gajo, não são?

O Luis Rainha cometeu a imprudência de me convidar para esta embalagem. Trata-se de um conspícuo erro de casting; mas o homem também tem direito a errar, apesar de tudo. Há uma parte da experiência de comunicação em blogues que incomoda muito bom cristão: a eventual disfuncionalidade dos comentários. Eu e o Luis Rainha somos compadres dessa tara, tendo tido confrontos homéricos que só não resultaram em sessões de bengaladas no Chiado por causa das nossas agendas sobrecarregadas. O que me leva para a lição platónica, glosa heraclitiana, com que vou encerrar o exórdio — o ludos favorece o logos. Eis um blogue.

14 comentários a “Um Discurso de Despedida falhado”

  1. Valupi, caríssimo, belo texto. E fiquei a notar uma injustiça para com o Luís no meu texto. Esqueci-me da belíssima série sobre o surrealismo. Injusto, injusto, mil vezes injusto.

    Ainda bem que ele te convida para aqui. Talvez seja um erro e é verdade que também o Luís tem o direito de errar, mas não creio que seja um erro este convite. Mais, se por acaso for, é daqueles erros bons, que valem a pena. porque também os há.

  2. Que venha esse champagne, que eu também gostei. Só o que resta saber é se este pacto de não-agressão irá durar menos ou mais que o de 1939?

  3. Excelsos

    Estragam-me com mimos, o que só revela que têm bondade (piedade?) para dar e barganhar. Do pouco (e já tanto) que sei, mas também eco do que leio, a expressão “trio de luxo” assenta-vos – João Pedro, Zé Mário e Luís – como luva de finas peles em mão de donzela prendada. João Pedro, estou ainda mais incrédulo do que tu… ;)

    Luís, constato que a minha graxa é de boa qualidade, pá! Almoço e livro sobre(a)mesa. Muito bem, este é mesmo um clube de cavalheiros.

    Caríssimo João André, injusto também eu fui ao não referir pessoas como tu, que são parte integrante do sucesso do BdE. Sempre te destacaste por uma altíssima qualidade intelectual e de escrita, para além de teres uma postura que é um exemplo de boa educação. Sim, prazer e honra em ter partilhado o BdE contigo.

    Bomba, já vi que te sentes em casa. Traz a bagagem, escolhe um quarto e lembra-te que temos aspirina para qualquer dor de cabeça. Não te inibas (as if…).

  4. Ganda Valupi. Acreditas que eu te supunha muito mais veterano nisto? E de certeza não acreditaria – se o não dissesses – que só levas um ano desta tortura. Mas, pronto. A nossa relação com o tempo sempre foi problemática, e isso não acontece só aos outros. E nada melhor que uma ilusão alheia para o teu recomeçar. Espero ir-te lendo agora por aqui, excelso fantasma.

  5. Ilustre Fernando, pois é. Para ser exacto, é um ano de BdE, dado que não me passeei pela concorrência. Aconteceu-me este convite absolutamente surpreendente do Luís Rainha, de tal modo bizarro (ou absurdo…) adentro do contexto da nossa relação no BdE que se tornou inevitavelmente irrecusável. Agora estou no palco, os holofotes são implacáveis e a assistência vai rapidamente dar-se conta da incapacidade do artista. Também essa será uma experiência bem-vinda, afinal; pois que neste microcosmo, onde partilhamos o suave desespero, tudo se ganha, nada se perde e, com sorte, alguma coisa será transformada.

    Olha, eu é que conto com a tua escrita, seja aqui ou ali. Tens um estilo de um apuro estético que fascina, melodia gráfica para olhos que saibam ouvir. E a alma que habita no corpo das tuas palavras tem espaço. Largo, vasto espaço interior. Que paisagens guardas por detrás dos altos muros com que te sonhas, ó Fernando?

  6. Enquanto faces, incontroladas, ardem:

    LEITOR, O COMENTÁRIO ANTERIOR É ILUSÃO ÓPTICA SUA. TENHA CAUTELA. NÃO LHE DÊ MUITAS VEZES.

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