Da Humanidade como sagrado

O protesto contra a lapidação, suscitado pelo caso de Sakineh Mohammadi Ashtiani, ligou mais de 100 cidades, de dezenas de países, em diferentes pontos do Globo. Como podemos ver, as manifestações congregaram números baixíssimos de participantes, em vários casos limitaram-se a piquetes na via pública. O exemplo mais espectacular desta baixa intensidade popular é o de Paris, onde se reuniram entre 200 a 300 manifestantes. Quase tão poucos como em Lisboa, com a agravante de contarem com activistas iranianos na organização e nas intervenções – e estarem em Paris… Fiasco? Falhanço?

Na única manifestação em que participei, algures nos anos 90, fomos uns gatos pingados até à embaixada dos Estados Unidos entregar assinaturas. Pingados não é apenas metáfora, porque choveu o trajecto todo. A causa era Timor. Talvez a minha motivação tivesse nascido de ter uma colega de curso que era timorense, talvez fosse apenas uma mistura de culpa neurótica, pela pressão mediática depois do massacre de Santa Cruz, com curiosidade egoísta, posto que nunca tinha participado civicamente dessa forma. Enquanto atravessávamos Lisboa, escoltados pela polícia e pelos olhares solidários ou indiferentes desse plúmbeo final de tarde, tive a consciência do que estava ali a fazer: não ia mudar o Mundo, ia em peregrinação. Era para mim que se tinha organizado aquele evento, com sorte acabaria por me transformar. O passo candenciado, um generalizado silêncio para palavras de ordem agressivas, nascido do pudor e do sentimento típicos daquela causa e daquele povo, acrescentavam notas fúnebres, elegíacas. O ambiente era o de um funeral interrompendo a cidade, íamos circunspectos e recolhidos. A única sonoridade afirmativa vinha do hino dos Trovante, cantado exaustivamente. Os mortos, o sofrimento, a opressão numa terra distante iluminavam a dimensão sagrada da acção política de uns poucos em Lisboa. Mais do que o poder daquele grupo efémero – poder nenhum, afinal – era a misericórdia universal e a esperança numa acção de origem transcendente que me empurrava para a frente.

Aqueles que se reuniram neste sábado estão nas mesmas condições de qualquer outro ser humano que alguma vez se descobriu embargado de compaixão. A clarividência da justeza dos seus actos ultrapassa qualquer contabilidade. Por poucos que fossem, inúmeras podem ser as sementes que foram lançadas. E será preciso nada entender da tradição cristã para atacar, sequer desprezar, estas humildes expressões de amor pela Humanidade.

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Nota: Ana Vidigal publicou imagens do protesto em Lisboa.

17 thoughts on “Da Humanidade como sagrado”

  1. então o valupi foi até Lisboa, pedir à american embassy, que as mães americanas parissem os filhos e dos dessem à luta para defender a raça portuguesa. Onde ficam os filhos das mães portuguesas? E que fizeram os portugueses antes dessa ida à Embaixada? Abandonaram e deixaram os seus ao «Deus dará» e andaram a brincara os comícios e a dar tiros na república.

  2. Ao ler este post surgiu-me um só pensamento: colocar-se sempre mais além do que se considera ser o possível, para o homem, trazendo para o interior da humanidade fenômenos fronteiriços, fenômenos à margem. Nessa medida, haverá sempre uma etnologia.

  3. Updated 2006 “John Pilger”:

    “East Timor is now an independent state, thanks to the courage of its people and a tenacious resistance led by the liberation movement Fretilin, which in 2001 swept to political power in the first democratic elections. In regional elections last year, 80 per cent of votes went to Fretilin, led by Prime Minister Mari Alkatiri, a convinced “economic nationalist”, who opposes privatisation and interference by the World Bank. A secular MUSLIM in a largely Roman Catholic country, he is, above all, an anti-imperialist who has stood up to the bullying demands of the Howard government for an undue share of the oil and gas spoils of the Timor Gap”.

    A Ana Vidigal por pouco ia-me lavando o cérebro com as suas fotografias. Em três delas podia ler-se em letras gordas WRONG RELIGION. Which is the right darling one, miss?

  4. Edie,
    sabe uma coisa? Essa sua questão tem toda a pertinência. Não não há dúvidas. Na verdade, eu não diria preto do mundo, eu diria que a mulher é a eterna e paciente vítima dos machistas cobardes, sob o silêncio de quem não se achando machista, sempre gosta de ficar «on the top».

    Ressalvo a existência de outros homens que lutam pelas mulheres e ajudam bastante à causa destas, porque as mulheres têm diariamente uma causa: olham-nas como objecto sexual (algumas gostam e dessas não tenho pena),olahm-nas como saco de pontapés, etce e tal.

  5. amor pela Humanidade, aí está a enunciação da única força capaz de melhorar o mundo. Coisas do Espírito Santo.

    Lá pelo Brasiu vai uma mulher à presidência. Brasil, continua a mostrar sempre e sempre a tua cara, fique também esse abraço bonito, és o maior!

  6. Até arrepia, de bonito que é aquele abraço repentino, apertado, gostoso.

    (é, o amor é a solução)

    ⅀,

    toma. de um amigo meu :)
    Mind Games

    We’re playing those mind games together,
    Pushing barriers, planting seeds,
    Playing the mind guerilla,
    Chanting the Mantra peace on earth,
    We all been playing mind games forever,
    Some kinda druid dudes lifting the veil.
    Doing the mind guerilla,
    Some call it the search for the grail,
    Love is the answer and you know that for sure,
    Love is the flower you got to let it, you got to let it grow,
    So keep on playing those mind games together,
    Faith in the future outta the now,
    You just can’t beat on those mind guerillas,
    Absolute elsewhere in the stones of your mind,
    Yeah we’re playing those mind games forever,
    Projecting our images in space and in time,
    Yes is the answer and you know that for sure,
    Yes is surrender you got to to let it go,
    So keep on playing those mind games together,
    Doing the ritual dance in the sun,
    Millions of mind guerrillas,
    Putting their soul power to the karmic wheel,
    Keep on playing those mind games forever,
    Raising the spirit of peace and love, not war,
    (I want you to make love, not war, I know you’ve heard it before)

  7. (também ando ali a ver uma coisa dum guerreiro pacifico, tem um Socrates e tudo, mas estou desconfiado! Para já aposto que anda ali uma conspiração cósmica para me pôr casto!, que é uma solução compreensível, inclusivé debaixo da phronesis, mas demasiado fácil para meu gosto. vamos ter porrada…*)

  8. (ah, mas parei a meio o filme e o resto fica para amanhã, e hoje vou comer uma sopa de espargos de pacote, já fiz uma de espargos verdes frescos e no fim levou queijo feta e ficou bem boa, com um bom chuto de azeite, só que comi um panelão e enjoei, agora acho que a de pacote deve ser mais saudável às tantas…, e depois vou xonar a voar, a voar, once upon a time in America…)

  9. Ora, ⅀, é minha opinião que a sopita de espargos te fez mal, porque não estiveste atento à questão da escolha virtuosa. Empanturro-me ou não? :)

    Sweet dreams.

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