A sangue-frio

A Europa reagiu com estupefacção, em Março deste ano, perante as notícias de uma possível crise política em Portugal. Ia contra toda a lógica da defesa dos interesses de Portugal e da própria Zona Euro. De imediato, os responsáveis pelas principais instituições europeias fizeram repetidos e lancinantes apelos públicos para a procura de um consenso político que viabilizasse o acordo alcançado pelo Governo junto dos seus parceiros europeus, o famigerado PEC IV. A queda de Portugal corresponderia ao agravamento do risco para os restantes países ainda protegidos precisamente pela resistência portuguesa. Seria mais um trunfo para a estratégia do dominó que apostava no cerco ao Euro.

Cavaco Silva, no período que mediou entre o dia das eleições e a tomada de posse, reuniu com variadas personalidades, incluindo Barroso. Sabia perfeitamente bem qual a situação europeia e as consequências do eventual falhanço nacional na garantia do seu normal financiamento; até porque é um génio da economia e finanças, como faz questão de lembrar amiúde. Acresce que tinha feito campanha eleitoral declarando que Alegre não tinha experiência e competências para lidar com a complexidade da situação internacional, só ele o poderia fazer. Chegou ao ponto de sugerir que a sua vitória teria de ser obtida logo à 1ª volta para que os mercados acalmassem. Foi esta mesma avantesma que no primeiro acto oficial do novo mandato declarou ser necessário derrubar o Governo. E depois, coerentemente, não mexeu uma palha em ordem a promover uma solução que evitasse a crise política. As desculpas que apresentou, não ter sido avisado do PEC IV e os acontecimentos terem sucedido a uma velocidade que não pôde acompanhar, estão ao nível do que inventou para justificar a ausência no funeral de Saramago. É altamente provável que Américo Thomaz tivesse mais vergonha na cara do que este tipo.

Hoje sabemos que a aprovação do Orçamento para 2011 permitiu ao Governo começar decisivamente o processo de adaptação às exigências europeias para a redução dos custos do Estado. Mas sabemos muito mais. Sabemos que esse esforço foi fatalmente boicotado com as consequências económicas do derrube do Governo e ida para eleições. E sabemos que o acordo com o trio de credores impediu que se continuasse a poder escolher as soluções de austeridade menos gravosas para as classes baixa e média. Tudo desabou e piorou, só para que PSD e CDS pudessem ocupar o poder. BE e PCP, quando chumbaram o PEC IV, estavam a defender os interesses dos seus eleitorados? Não, estavam precisamente a garantir que esses interesses seriam prejudicados para além do imaginável.

Será bom que a legislatura se cumpra integralmente e que os portugueses bebam o cálice do seu voto até ao fim. Temos é de ir recordando, ao longo dos 4 anos, esta história em que nos enrabaram a sangue-frio.

14 thoughts on “A sangue-frio”

  1. bem , e o que é que ia ser diferente se fosse o ps , o ps não!!! que tu não gostas , o socrátes , a governar? o dinheiro chovia do ceú e o mandrake mandava a duplicada dívida e o alberto jardim às urtigas num passe de mágica ? ou o acordo assinado pelos partidos que foram ao chá das 5 com a troika não era para cumprir por um dos signatários caso ganhasse as eleições? é isso ? e a cofidis emprestava à mesma? daaaa.
    uma mudança de personagens , mesmo que o enredo seja o mesmo , sempre é menos entediante. que eu já não podia com as mijinhas a conta gotas do sócrates. e com a sua absurda ocupação do espaço mediático , que te esforças por continuar , mas não é cool.
    o passos , mesmo sendo igual de burro , sempre é mais bonito. e discreto. por enquanto.

  2. Val, penso que a análise está correctissima, mas refere-se apenas aos “‘ultimos dias”. Cavaco e o cavaquismo haviam começado a minar o país ha bem mais tempo. Lembra-te do pintelho dos Açores e da Inventona que se lhe seguiu. Se Cavaco não tivesse esta intervenção anterior seria natural que agisse como agiu, precipitando a queda do governo, porque a situação estava insustentável, com a oposição em bloco a atacar cegamente, apoiada em toda a comunicação social, nos sindicatos, nos empresários e, vergonhosamente, na acção demolidora dos magistrados.
    Era inustentável.
    Depois veio a ignominia de Alberto João, bem à imagem dos crápulas da direita grega,que ios nossos jornalistas esquecem sistematicamente de dizer que o descalabro foi obra deles e não do actual governo socialista grego. De modo que se Sócrates áão caisse em Março, caia em Outubro com o chumbo do orçamento e sob o efeito de uma inesperada nova austeridade por causa do abominável homem da Madeira. Portanto, talvez num cenário aterrador.
    O Cavaquismo tirou Sócrates de cima do grelhador. Infelizmente, quem lá está agora é o povo português. Pelo seu feitio do “deixa andar”, até que merece uma boa assadela. Pode ser que abra mais os olhos.

  3. Podemos passar a vida inteira a desculparmo-nos com o ” são todos iguais, se lá estivesse o outro fazia o mesmo”, bláblábláblá…Também eu tenho uma bola de cristal que diz o contrário, que piada.
    A verdade é que o que lá estava tinha uma visão muito diferente do que é o estado e do que o estado deve ser para os cidadãos, em relação aos que estão lá neste momento. E é isso que importa aos portugueses.
    Era a diferença entre a sobrevivencia de um estado social “á rasca” por causa das restrições economicas, bem certo, ou a total alienação do estado social , ponto. Se ninguém consegue vêr aqui uma diferença é porque certamente estão a precisar de um bom par de …óculos.

  4. Mário, tens toda a razão, o PS num Governo minoritário não tinha capacidade de se aguentar contra as coligações negativas, comunicação social em campanha e Belém. Logo após as eleições de 2009 se soube que o Governo cairia quando o PSD quisesse. Mas ficou a história para ser contada, porque está cheia de lições.

  5. A sangue frio, Val, então como explicar a reunião de quatro, QUATRO HORAS, entre José Sócrates e o “Passinhos” NA VÉSPERA DA REUNIÃO DE BRUXELAS? Em que o “menino de Massamá” sorriu a tudo o que lhe foi explicado, dando a sua concordância ao plano traçado por Sócrates??? E depois, NA MANHÃ DA REUNIÃO, veio o “Relvinhas” dizer ao país que o PSD aguardava o resultado da mesma, para, de repente, NO FIM DO MESMO DIA, OS PORTUGUESES JÁ NÃO PODIAM SOFRER MAIS MEDIDAS DE AUSTERIDADE, e portanto o PSD não podia aprovar o PEC IV!?!

    A sangue frio, isso sim, foi a tomada de decisão do BE e do PCP, de se colarem à Direita para derrubar um governo cujos resultados começavam a ter tal viragem positiva para o país – basta consultar o INE, que perceberam que as suas estratégias estavam a perder terreno definitivamente…!

    Resumindo, a Direita queria “ir ao pote”, porque tinha muitos podres a virem à superficie – BNP, Submarinos, “Madeira”…! A “esquerda dos puros BE e PCP”, porque estavam a morrer por esvaziamento “do passar da teoria à prática” – a prática estava a ser cumprida por reformas sucessivas e em democracia. Mas tinha a assinatura socialista!

  6. “enrabar a sangue frio é sinónimo de violação. mas a sangue quente é sempre por parte de quem enraba, senão não faz sentido. :-)” – aforismos de uma licenciadazeca de 2.º categoria.

  7. Temos de ir recordando muito para além dos quatro anos. os estragos, infelizmente, vão perdurar muito mais do que isso.

  8. Eu fico é estupefato pelo cromo do valter hugo mãe ter o sucesso que tem. Este também não devia fazer uma operação? Daquelas que a Isabel Moreira defende? É que o gajo não é homem – disso tenhoa certeza. Aliás, ele é tão homem, como o Fernando Nobre é filantropo. Como o Passos Coelho é competente. Como o Sócrates é heterossexual. Questão da casualidade do sucesso. Mas deixo isso para o filósofo VAL… o grande. O magnífico. O perfeito. Assim tipo D. Sebastião.

  9. como nem sou mausinho de todo convosco, digo que quanto a direita concordo com a vossa análise, mas minha gente, mesmo que o be e o pcp, aprovassem as medidas, duvido que o pec fosse resultar.Ok, a europa é da direita e a esquerda tem que pensar porque é que essa europa nos ultimos anos se desviou para direita.Mas sem má fé, austeridade quer seje dura ou menos dura, é um retrocesso para a economia, que so nos vai enterrar mais no atoleiro. Eu prefiro falar do que é que o pasok está a fazer na grecia. As coisas não estão bem lá.
    Dirão-me que a austeridade de socrates era menos dura ,e só atacava um bocadinho.Pois mas como a grecia e outros paises mostram, essas medidas mesmo suaves não funcionam.

  10. Apesar de não gostar do personagem, sou obrigada a concordar com José Gil, quando diz em “O Medo de Existir”, que a sociedade portuguesa auto-induz permanentemente um estado de amnésia colectiva.

    Isso que dizes, Val, só a alguns lembra, e por isso, de erro em erro, cmpriremos nosso fado. (bah)

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