A questão central na escolha de um candidato presidencial

Sampaio da Nóvoa desperta amplas, ou eclécticas, ou variegadas, simpatias na esquerda e no centro. Dentro da imprevisibilidade e frustração que marcam a liderança de António Costa até à data, poderá mesmo vir a ser o candidato presidencial apoiado pelo PS. Mas será a figura de que precisamos nesta altura?

Sirvo-me da estimável opinião do MCF – Enquanto há força, cantai rapazes, dançai raparigas, seremos muitos, seremos alguém – para olhar com mais atenção para o fenómeno da sua popularidade. O Marco disponibiliza e recomenda o seu discurso no 10 de Junho de 2012, garantindo estar ali uma prova de que o homem teve a coragem de dizer, na cara de Cavaco e Passos, o que precisava de ser dito. Ai, sim? Discordo.

O discurso é convencional na sua retórica, o que não tem qualquer mal, apresentando-se sectário na sua ideologia. A ideologia é a do primado do “conhecimento” sobre a “política”, sintetizado num peremptório dogma:

É este o nosso problema: a ligação entre a universidade e a sociedade. É esta a questão central do país: uma organização da sociedade com base na valorização do conhecimento.

Vista a partir da torre de marfim na universidade, sim, poderá ser essa a questão central do País. Para mais ninguém, contudo. Não para os pensionistas, não para os desempregados, não para os utentes dos serviços públicos, não para os que esperam e desesperam pela Justiça, não para quem quer trabalhar com dignidade e segurança, não para os que se assustam e entristecem com a decadente cultura da calúnia promovida pela elite nacional.

Dizer que há uma “questão central” na política que acaba por transcender a própria política é um dos pilares dos posicionamentos populistas. Onde outros apenas recorrem ao moralismo, seja porque se reclamam puros ou porque diabolizam os adversários, o fogoso reitor desfralda a bandeira de todos os iluminados e declara-se crente ingénuo naquilo que Platão deixou cifrado e tão-só para consumo individual.

Falar de sectarismo não me parece em nada excessivo quando listamos e detalhamos as mensagens que foram verbalizadas nesse 10 de Junho de há 3 anos. As denúncias que permitiram carimbar esse discurso como “opositor” são invariavelmente demasiado genéricas, afundando-se num registo metafórico que nem sequer ultrapassa o nível do cliché, surgindo embrulhadas em citações avulsas e politicamente correctas. Espremidas, são palavras que mal escondem uma preocupação narcísica, a procura de um efeito adequado ao tempo e ao lugar. Onde está nesse discurso, numa vírgula que seja, a obrigatória exaltação do Estado de direito? Que sortilégio explicará a oportunidade perdida de dizer a Cavaco e Passos que eles ofendem a República? Como se pode celebrar esse momento como manifestação de coragem se nem um espaço entre letras foi dedicado ao logro eleitoralista que nos afundou em 2011 ou ao emporcalhamento da Presidência em 2009? É preciso não gostar nada de política para desperdiçar uma ocasião literalmente soberana de a fazer.

Sampaio da Nóvoa daria um Presidente da República um gugol de vezes melhor do que Cavaco. Mas também com Fernando Mendes, do Preço Certo, teríamos uma melhoria dessa magnitude. Ou com a minha vizinha do 4º andar. Aqui para o meu palato, nenhum candidato presidencial que abdique do confronto com a “questão central” dos ataques ao Estado de direito, o qual nunca como com Passos e Cavaco foi tão desprezado e maltratado em democracia, ganhará o meu voto. Pelo menos, na 1ª volta.

40 thoughts on “A questão central na escolha de um candidato presidencial”

  1. Plenamente de acordo com esta posição, Valupi. O próximo candidato presidencial terá que assumir vir a ser um verdadeiro Presidente da República Portuguesa, de todos os portugueses e, obrigatoriamente, que provocar uma fractura em toda esta situação política que tem estado a ser vivida nestes últimos 5 anos, tanto a nível da política rasca, como no descrédito das instituições; nas sucessivas medidas insconstitucionais tomadas pelo governo e promulgadas pelo actual inquilino de Belém, assim como numa justiça que se tem vindo a fazer na praça pública, a toque da especulação jornaleira
    Para que o regime democrático seja salvo, terão que existir democratas a assumir-se totalmente na sua defesa; só que hoje assiste-se a: uns a esfacelar esse sistema por todos os lados, e outros a assobiar para o lado, como se nada tivessem a ver com o assunto.

  2. esse sampaio é mais um cagão que gostaria de ser presidente para fim de carreira. metam o césar dos açores se querem ver marcelos & santanas borrados de cagufa.

  3. depois há outra coisa, o presidente serve para arbitrar, não é para passar rasteiras ou meter golos como fez o cavaco ou querem os nóvoas e os netos.

  4. quero o Fernando Mendes. :-) e por falar em Platão, talvez entrar na brincadeira seja o melhor remédio – ou não fosse uma hora dela bem mais proveitosa do que um mandato de conversa fiada.

  5. Meus caros, eu sim daria um bom presidente da república. Arranjaria maneira de mexer na CRP. Primeira medida: só vota quem demonstrar entender o Estado e o sentido de Estado. Marrecos com o 9º ano de escolaridade estariam fora do baralho, e gajos como os IGNORATEXES seriam proibidos de mostrar as beiças.
    Limpava a AR, desinfetava-a, sobretudo a parte dos xuxas e comunas. Tão a bere? hum? oqueie.

  6. IGNARALHO, já que falas em caruncho, devias tomar cuidado. Olha que tu és um alvo a abater na minha democracia. Para gajos como tu, voltaria aos homiziados….tás a bere?

  7. Confesso que não conheço o trabalho de Sampaio da Nóvoa como reitor da universidade, mas lendo blogues fiquei com a ideia que o homem é o sá carneiro da esquerda. Além das qualidades essenciais que o Valupi referiu, acho que um dos critérios centrais para a escolha de um candidato do PS é a possibilidade deste ganhar as eleições. Confesso que não acredito que Sampaio da Nóvoa tenha um resultado melhor que Soares em 2006, e até ver estou com o Ignatz, não vejo melhor alternativa que o Carlos César.

  8. descrever uma ditadura fascista repressiva e chamar-lhe “a minha democracia”, está ao nível de um energúmeno assim tipo Mário Machado.

  9. Eu acho que o melhor mesmo é perguntar ao Carlos Alexandre qual é que ele prefere… sempre se poupa chatices.

  10. É uma democracia Casa dos Segredos. A malta vota por SMS, mas quem decide é a Teresa Guilherme.

  11. Aqui há tempos num programa de rádio (não me lembro qual), onde havia uma rubrica que pretendia pôr duas pessoas da mesma família a dialogar sobre política, apareceu o Sampaio da Nóvoa e o seu filho. Foi uma sessão comovente sobre as mais “lindas” ideias políticas que nos podem assaltar, ou melhor, sobre a mais pura “correcção política” ao ponto de fazer chorar as pedras da calçada. Os dois estavam embevecidos com as suas próprias ideias e um deles, finalmente, confessou candidamente que até costumavam competir para ver qual dos dois, pai ou filho, era mais de esquerda. Foi um momento que me tocou profundamente. Espero que o filho venha a ser assessor do seu paizinho quando chegar a Belém. Que bem o merece.

  12. Sampaio da Nódoa

    O que a fauna que pulula aqui no blog ainda não percebeu e que o tempo do socialismo em Portugal já era. Essa forma de comunismo travestido (adjectivo 44) só funciona quando há dinheiro para torrar, e, como já não há…

  13. Mais uma vez, dentro da previsível imprevisibilidade e frustração que marcam a liderança de António Costa até à data, este optou claramente pelo seu característico registo furtivo e taticista:
    1- Não disputou a liderança do PS na oposição, capturou-a no momento que lhe pareceu mais fácil e promissor – o que resultou numa emboscada perfeita, face a um partido cioso da reconquista do poder.
    2 – Este sucesso fê-lo acreditar na fórmula mágica de procurar agradar ao maior “espectro” político e eleitoral possível, retardando ao máximo a tomada de decisões, estas últimas com o seu natural efeito fraturante.
    3 – Há uma divergência total entre os dois ciclos e o que funcionou na tomada do poder interno, pode revelar-se um desastre como estratégia eleitoral e de oposição.
    4 – A questão presidencial tornou-se, por via dessa atitude, muito complexa para AC, que não tem como evitar uma de duas alternativas:
    – ou apoia a candidatura nefelibata de Sampaio da Nóvoa, com todos os problemas associados, designadamente excesso de utopia e voluntarismo, falta de credibilidade; que contagia a proposta partidária do PS e a descredibiliza perante o eleitorado moderado e mais exigente de realismo político;
    – ou, depois do palco que ofereceu a SN, demarca-se da mesma e torna evidente a toda a ala esquerda, que lhe alimenta as expectativas e deseja os votos, mas não acredita nas suas propostas, nem tem condições para ceder aos seus desígnios.
    5 – Não há quadratura do círculo, na prática política – mas apenas no seu comentário ou pré-expectativas – e a indefinição de AC está a ter custos cada vez mais elevados.
    6 – A escolha de um programa político claro, a colocação do PS perante o espectro partidário e a perspectiva de eventuais alianças, são a prova de fogo de AC, que este tem de definir claramente, no seu já tardio calendário de junho.
    7 – O taticismo furtivo não resulta indefinidamente.

  14. Lindo de morrer! O Xuxialismo do vovozinho Marocas ao vivo e com mais uma valente Nódoa. Isto vai ser de partir a moca a rir …

  15. Quando incitado a fazer um comentário sobre os mandatos de António Costa, Sousa Tavares foi peremptório. “Se eu analisar os mandatos de António Costa tenho que dizer que houve coisas que ele fez bem, houve outras que não avançaram nada”, indicou.

    O comentador referiu as obras no Terreiro do Paço como algo positivo, indicando que ficou “muito bonito”, embora tenha demorado muito tempo. Falou também nas contas da Câmara, que “entraram na ordem, mas em grande parte graças ao que o Governo pagou por causa dos terrenos do aeroporto”.

    As “cheias, lixo, buracos nas ruas, grafitis” deixam, no entanto, uma mancha nos mandatos do socialista, uma vez que continuam por resolver. “Não é um balanço brilhante”, adiantou Miguel Sousa Tavares.

    “Mais do que fazer obras de fachada, são as pequenas e chatas obras locais que é preciso fazer, é isso que deve mudar a qualidade de vida. Não me lembro há quanto tempo não vejo uma árvore ser plantada ou um graffiti limpo”, rematou o jornalista.

  16. O mais belo vai ser quando o costa guloso e taticista perder as eleiçoes ou nao conseguir formar governo e alambazar.se com a candidatura a belem. O PS quer/não tem alternativa a mais 4 anos de Passos, além de que se trata do cumprimento da regra do rotativismo bipartidário que vigora naquele parlamento acima de qualquer outra. É pena que ninguém entenda a jogada política do costa e o fim último das suas frouxas propostas governativa e presidencial e o significado desgraçado de tudo isto.

  17. Sampaio da Nóvoa confessou ainda que a sua principal referência é Ramalho Eanes, “pela sua independência e despojamento”. “Quem gosta muito de dinheiro deve afastar-se da política. Eanes deixou essa marca. Mas a marca de Mário Soares e Jorge Sampaio também é importante.”
    http://expresso.sapo.pt/sampaio-da-novoa-nao-e-serio-dizermos-que-somos-candidatos-em-outubro=f918494#ixzz3WcOiXrk1

    eheheheh… esqueceu-se do cavaco, spínola e costa gomes, sempre era mais abrangente. se resultar temos novo prd.

  18. O problema da mole que habita este blog e, discutem (nao pensam) politica. Para voces e como se estivessem a comentar um benfica sporting. O tamanho das vossas palas intelectuais dava para tapar o sol em Portugal, e talvez em Africa.

  19. Tu deves julgar que um nick espelha, ou nao, a inteligencia duma pessoa. Deve ser influencia de ler lixo dum gajo chamado pinto de sousa que preferia ser conhecido pelo segundo primeiro nome, Socrates. Parece que a ironia que alguem preconizou na escolha do seu nick te escapa, como tantas coisas na vida.

    Quanto a esse artigo escrito por um bando de comunas habituados a viver do erario publico desde que tem memoria, tenho as seguintes perguntas para ti:

    Sabes como era a situacao em 2008? Em 1980? Em 1970? Em 1910? Se nao tens termo de comparacao, estes dados nao servem para nada.

    Podes explicar-me como e que, e por que razao, se devem includir em estatisticas paralelas sobre o desemprego, pessoas que ja nao habitam no pais? Porque raio e que, num espaco onde ha livre circulacao de pessoas – um dos pilares da uniao europeia – deviam emigrantes contar para estatisticas do desemprego em Portugal? Como e que alguem pode ser pago para escrever bujardas desta natureza, quando isto nem numa escola primaria era aceitavel.

    Usando um paralelo que talvez entre na tua cabeca de burro, tu costumas calcular quantos pontos teria o Benfica nesta altura se todas as bolas que foram ao poste durante a epoca tivessem entrado na baliza? Achas que a FPF esta a pensar comecar a calcular uma segunda tabela da liga, onde ordena os clubes por remates a baliza, em vez de golos conseguidos? O que e que chamavas a um gajo da FPF que viesse com uma ideia de mxrda como essa? Burro, asno, idiota? Se o farias, porque nao o fazes com este bando de idiotas que se apelam de “cientistas sociais”.

  20. JP Ferra, es mesmo uma inteligencia de ponta, um diamante perdido numa pilha de bosta, que infelizmente ainda ninguem se deu ao trabalho de vasculhar. Liga para a tua maezinha para apoio moral, as maes sabem sempre que os seus filhos sao os melhores do mundo.

  21. A campanha do Marcelo continua de vento em popa … podes ligar-lhe a dizer que cumpriste o prometido .

  22. um fdp que só vê o preso 44 à frente do seu nariz,não tem autoridade politica para criticar as intervençoes de alguns participantes!

  23. Não sei se mais alguém se lembrou disso, mas acho que o Ignatz dava um bom Presidente da Republica, e então teríamos de volta a Primeiro Ministro o famoso 44.

  24. “… mas acho que o Ignatz dava um bom Presidente da Republica…”

    pior do que temos não é possível, qualquer nabo faz um figurão ao pé desse cagalhão vingativo. não era bem isso que querias ouvir, mas é o que se arranja.

  25. Eu voto no Numbejonada para presidente e o Basico para vice. :)
    Quando começam as assinaturas e recolha de fundos para a campanha?

  26. Ignatz, com esta do jornal “I” fez perder o pio ao cegueta e comparsas. Lembra-se de com estes embestados confrontaram a pretensa verdade e grandeza moral e intelectual dos juizes da Relação com a cachorrice dos que pedem factos para a condenação feita a Sócrates? Ora aí está a grandeza de um exemplar juiz da Relação. E logo o presidente. Agora uma dúvida: como é possivel esta notícia não ter sido filtrada e censurada. Palavra de honra que não entendo. Será que há uma guerra surda, que nos escapa, entre os donos disto tudo? Será uma luta de poder entre PSD e CDS? Só pode ser.

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