Springtime for Merkel

É difícil, para um leigo, perceber a complexa politica italiana. É ainda mais difícil, para um não-italiano, entender como é que Berlusconi quase ganha as eleições. E é muito mais difícil, para uma pessoa racional, meter na cabeça como é que Grillo passou de uma anedota à força politica mais votada (individualmente) nestas eleições.
De qualquer maneira, o veredicto é claro: os italianos estão revoltados, culpam a austeridade e os políticos convencionais, mandaram Monti e as politicas “responsáveis” da UE dar uma volta ao billiardi grande, e a Itália ficará, nos tempos mais próximos, quase ingovernável.
O que se calhar não é assim tão mau como isso, porque complica muito a vida ao establishment da UE. O que nesta altura é uma coisa boa. Se há alguém que está a precisar de um abanão como deve ser são precisamente os responsáveis que não aprenderam com o caos grego. Talvez acordem agora com os italianos. Aliás, creio que não terão outra hipótese.
Ora, a confirmar-se a continuada degradação da economia italiana e a necessidade de um bailout, as opções em cima da mesa para Merkel e a UE parecem-me, à primeira vista, as seguintes:

1 – Oferecer o bailout e um pacote de resgate completo com condições severas. Observar como não há ninguém com quem negociar isso, zero hipóteses dessas condições serem aceites, e menos que zero hipóteses de serem implementadas. Ver a Itália, uma das maiores economias da UE, entrar em default ou muito próximo disso. Novas eleições, ganha Berlusconi ou Grillo com o seu referendo ao Euro, e Dante abre as portas do inferno. A Itália sai do Euro, e este acaba.

2 – Oferecer um bailout tipo Espanha, com compromisso de continuar medidas de austeridade numa versão “suave”. Observar como mesmo essas medidas não são implementadas. Ver a Itália, uma das maiores economias da UE, continuar com a situação económica em degradação acelerada, e como isso força novas eleições. Ganha Berlusconi ou Grillo com o seu referendo ao Euro, e Dante abre as portas do inferno. A Itália sai do Euro, e este acaba.

3 – Oferecer o bailout sem condições algumas. Ver como Espanha quer imediatamente a mesma coisa, a Irlanda também, e os Gregos observarem que Tsipras é que tinha razão, pelo que a sua popularidade sobe à medida que a contestação aumenta. (Portugal de Passos e Gaspar continua a querer ser bom aluno, embora seja cada vez mais difícil)
Observar então a revolta dos países nórdicos quando se apercebem que é agora impossível continuar a mentir aos seus eleitores e que sim, têm de pagar pelos italianos, espanhóis, gregos, irlandeses e portugueses. E em breve franceses. As portas do inferno são mais uma vez abertas, mas desta vez por Odin.

4 – Partir para um ambicioso programa de recuperação de economia europeia que permita, finalmente, a consolidação orçamental e crescimento na Europa. Algo como isto, proposto pelos próprios alemães. E dar um casaco polar ao Dante, porque por essa altura o inferno congelou.

De qualquer maneira, tempos interessantes à frente, como dizem os chineses. Ah, e Álvaro, sabes as tuas exportações? Esquece.

9 thoughts on “Springtime for Merkel”

  1. brilhante, como sempre. Curioso é ver que em quase todos os cenários estamos de fora. Temos um inferno particular.
    E no entanto, já estamos onde os italianos agora chegaram: na ingovernabilidade.

  2. obrigado, edie. Mas discordo, ainda não estamos, temos uma coligação com maioria absoluta que, mais intriga menos intriga, tem imposto o seu programa.
    Creio que lá chegaremos com Seguro e uma maioria relativa.

  3. não quis dizer que a causa da ingovernabilidade era a falta de sustentação parlamentar ou de pacatez do povo, ou alguma crise política. Estamos ingovernáveis porque os governantes não fazem a mínima ideia de como fazê-lo (governar a sério, não é fazer papel de embrulho). Com Seguro também dava, mas se temos esta magnífica maioria absoluta, esse tipo de desastre vislumbra-se longínquo. Temos de nos contentar com o actual.

  4. Ao ler o post lembrei-me imediatamente de outro qu eli em Novembro 2012

    http://neweconomicperspectives.org/2012/11/2020.html

    “Most agree the vision-shift began with the final collapse of the Eurozone in 2019, an event which had been forecast for some time. The surprise was that the unraveling had begun with Italy, instead of Greece as everyone had expected. It turned out to be the hot Italian blood that first reached a boiling point over the crippling cruelty of the long imposed austerity:…”

  5. “Mas discordo, ainda não estamos, temos uma coligação com maioria absoluta que, mais intriga menos intriga, tem imposto o seu programa.”

    qual programa? desconheço, sei de umas previsões que justificão medidas de austeridade que são revistas regularmente em função da realidade justificando novas medidas de austeridade, até o cavaco já chamou a isto espiral recessiva e o lacas de massamá admitiu que sim. uma cambada que não acerta uma, desemprego, défite, endividamento e abana com a credibilidade ganha nos mercados onde o rating da republica é lixo, é tudo menos governo e o resultado é a perda de controlo ou ingovernabilidade.

  6. bem, para mim a itália já teve o seu baillout no sentido em que o bce alterou algumas das suas regra (práticas) para não a deixar cair (o célebre juro a 1% para os bancos comprarem dívida publica e, em meados do ano passado, a intervenção directa nos mercados). sem isso a itália, tal como a espanha, tinha caído de facto (teve os juros a 10 anos perto dos 8%). podíamo-nos ter juntado a estes países na austeridade soft mas a fome do pote dos artolas e a filha-da-putice bloco/pc não a quis. quanto a um futuro baillout (de facto) da itália isso não vai acontecer, como já não aconteceu anteriormente. a não ser que merkel não queira o euro nem a união europeia, o que duvido muito (embora vá ter que pagar mais para os ter).
    quanto ao álvaro e as exportações, a boleia do sócrates acabou e agora é que vai embora de vez (durante o ano 2013)

  7. Vega9000

    Por onde tens andado? Bem estruturado o teu post! Parabens!
    Tenho que reconhecer que és um elemento perigoso para um sulista, elitista e liberal.
    Foste enviado, directamente pelo Seguro, para aglotinar este blog de renegados socraticos?

    Abraço

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