O grande silencio

This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.
TS Eliot

Estive em ambas as manifestações “inorgânicas” que se realizaram a 15 de Setembro e 2 de Março, embora um pouco menos tempo nesta última, limitando-me, por falta de disponibilidade para mais, a descer a avenida, não chegando ao Terreiro do Paço para cantar o tema que serviu de mote à brilhante campanha de marketing da organização.
E sim, a deste ultimo Sábado teve menos gente, o que é natural tendo em conta que não havia um foco específico a combater, como a TSU tão desastradamente comunicada por Passos Coelho em Setembro. E se calhar o tempo estava mais frio. Ou o percurso não era tão aliciante. Ou o metro estava cheio. Ou qualquer outra coisa.
De qualquer maneira, acho que isso talvez seja até um ponto a favor. Tendo em conta que os objectivos desta manifestação eram muito mais difusos (“que se lixe a Troika” continua a ser um slogan tonto), esteve muita gente, muita gente mesmo. E encher uma avenida com um protesto difuso, sem ser num dos dias simbólicos, sem organização profissional tipo CGTP e, mais importante, sem frota de autocarros, é a meu ver impressionante.
Podem ter aparecido menos que nem Setembro. Mas apareceram muitos.
Mas não foram os números, nem os motivos, que mais me impressionaram nesta manifestação. Esta manifestação impressionou-me sobretudo pelo que estava ausente em relação à outra. E o que estava ausente pode ser definido num conceito simples: alegria.
Salve algum, fraco, esforço por parte de alguns activistas, não havia grande palavras de ordem, nem cânticos, nem barulho de panelas, nem slogans memoráveis. Nada. O que me deu por vezes a impressão de estar não numa manifestação, mas num cortejo fúnebre. Houve realmente alturas em que o som que mais se destacava era o do helicóptero. Tudo o resto, tirando o burburinho de fundo, era um impressionante silêncio. Ou, usando um velho cliché que aqui se aplica perfeitamente, um ensurdecedor silêncio.
E no entanto, tendo pouco para dizer ou berrar, milhares apareceram. Como explicar isto?
Há tristeza nas pessoas? Há, com certeza. Desespero? Também. Mas a ideia com que fico é que há sobretudo uma grande falta de fé no futuro, uma falta de respostas para aquilo que as preocupa. Sabem que não querem isto, mas lutam pelo quê, exactamente? Qual é a alternativa? “Que se lixe a Troika”? Onde é que está a esperança que elas merecem?
Lutar contra isto? Sim, claro, foi por isso que apareceram. Mas lutar pelo quê, exactamente? O lado negativo está lá. E o positivo, está onde?
A manifestação de 15 de Setembro foi um aviso ao governo que não valia tudo, que estava a ir longe demais. Na de 2 de Março vi algo diferente. O protesto das pessoas foi dirigido ao governo. Mas o silêncio, creio eu, foi dirigido à oposição. Uns já sabemos que não ouvem. Os outros fariam bem em ter as orelhas no ar.

18 thoughts on “O grande silencio”

  1. Mas será que é assim tão difícil entender que o que as pessoas querem é justiça. Se alguém roubou dinheiro, só tem é de o repor e pagar pelo crime. O BPN é um exemplo, porque carga de água é que tenho de pagar os 7 mil milhões do buraco? Será assim tão difícil apanhar os culpados e descobrir o rasto do dinheiro nas off-shores?
    Porque é que eu tenho a minha reforma só aos 65 anos, e a presidente da assembleia já está reformada desde os 42?
    Porque é que o Jardim Gonçalves tem uma reforma de 174 mil euros, fora as mordomias? Será que descontou para isso?

  2. Caro Vega9000,
    soberbo este teu comentário que me parece uma análise corretíssima do que está a passar na sociedade portuguesa.

    Tirando para o lado o desastrado ‘slogan’, as pessoas saem à rua apenas para dizer que ali estão a protestar, não se sabe muito bem do quê, mas não faltam razões, que vão desde o corte das suas receitas mensais, passando pela tremenda carga fiscal que se abateu sobre eles, o aumento contínuo do custo de vida, a falta de emprego, o disparate da alteração das rendas, a violência dos cortes na saúde e na educação, a desonestidade de muitos políticos, o insustentável comportamento da justiça, a pouca vergonha que grassa na comunicação sociual, as privatizações à martelada, o apoio ao sistema financeiro, a proteção aos amigos e camaradas de partido, o desastre do discurso da oposição chamada responsável, a demagogia dos do costume, etc. e tal.

    Por estas e muito mais razões, trerá saído muita genta à rua, eu fui um deles, e garanto-te que não foi ‘o que se lixe a “troika” ‘ que me arrastou para lá, mas apenas a falta de um projeto sério para o meu país, e o protesto contra quem anda a fazer de nós ratos de laboratório ou trampolins de acesso ao pote.

  3. também eu, que não fui nem irei a uma outra qualquer, fiquei surpreendida: apesar de saber, por senti-lo desde cedo, que seria um dia muito triste, nunca pensei que seria a tristeza o berro mais surdo, e por isso maior, mas antes a raiva. e fiquei contente por isso – a tristeza é nobre para chegar ao coração – que é o que é preciso, é preciso saber fazer política também com o coração -, ao contrário, que bloqueia qualquer atalho e é capaz de atrair ainda mais, da raiva.

  4. Vega9000

    Boa análise!

    Não basta protestar, cantar a Grândola e dizer basta de austeridade! É necessario mostrar caminhos alternativos válidos e exequíveis. O ajustamento tinha que ser feito, quanto a isso não tenho dúvidas. Penso, no entanto que nem o Governo, nem Bruxelas e muito menos o FMI, tinham uma ideia correcta, do estado em que se encontrava o tecido económico e empresarial português. Daí a surpresa quanto aos números do desemprego.
    Não podemos olhar para trás, muito menos voltar. Há que seguir em frente, mas tendo em consideração que é necessário criar, rápidamente, políticas de investimento público para todo o país que combatam o flagelo do desemprego e as assimetrias regionais. Mas a politica de emagrecimento, racionalização e aumento da eficiência da máquina do Estado terá que continuar.

  5. Não se lembra de há uns anos um slogan muito parecido que surgiu e que era seguinte: “Soares é fixe e o resto que se lixe”. Não será necessário dizer mais nada, espero!

    Quanto ao silêncio, pois! Trata-se talvez de um sintoma que lhe poderíamos chamar de: fatalismo irreversível ou a falta de capacidade critica para actuar entre outras coisas…uma ignorância compactada na massa humana que reage apenas ao chamamento dos media…porque é que lá estão? Quem sabe!

  6. “Há tristeza nas pessoas? Há, com certeza. Desespero? Também. Mas a ideia com que fico é que há sobretudo uma grande falta de fé no futuro, uma falta de respostas para aquilo que as preocupa. Sabem que não querem isto, mas lutam pelo quê, exactamente? Qual é a alternativa? “Que se lixe a Troika”? Onde é que está a esperança que elas merecem?”

    Eis o cerne da questão. O analise penetra no miolo do que a sociedade está a sentir . Como lutar comtra isto, onde está o verdadeiro remedio. Tal vez não se sepa a resposta a curto prazo ou os meios a empregar.
    Embora há uma verdade de fé: Terá que ser o povo quem ordene, terá que ser a movilização social, para que poida haber uma justa redistrução dos bens, ou seja que todos tivermos un mínimo vital garantido, ainda que seja a custo dos grandes ordenados e beneficios de outros. As pessoas que estavam nas manifestações sabem , muitos por terem ja uma idade e experiencia, que não iam obter solução por sairem á rua, mas também no seu peito lateja á esperanza de que algo estão à fazer, e de que quizais seja o único que podem fazer niste momento.

  7. Falta de fé…. tristeza,…. etc etc

    Chavões…. estive na manif de Setembro, e nesta tambem, na primeira fui até á Praça de Espanha e nesta até ao Terreiro do Paço, não sendo uma manifestação CONTROLADA, é natural que se ouvissem menos palavras de ordem , mas daí á tristeza,á falta de fé,á descrença, vai um grande, enorme passo.

    Quem saiu á Rua em MASSA pelo menos em Lisboa e no Porto, sabia e bem o que não queria.

    A oposição , ou pelo menos aquela que realmente o é, tem a obrigação de apresentar alternativas claras que mobilizem o descontentamento.

    Quanto a comparações com Setembro, como não existe um manifestómetro, julgo que discutir, se nesta houve mais ou menos pessoas, é um mero exercicio de masturbação intelectual, que não leva a lado nenhum.

    Ou talvez leve a água ao moinho do Passos-Portas.

  8. Vega,

    Portanto…por outras palavras, o “povo” está madurinho para aparecer um salvador da pátria que prometa pão e vinho na mesa, ruas limpinhas e seguras, emprego para todos, que enfrente os “poderosos”, etc…

    Tambem acho que tens razão, estamos é bem fodidos porque os “salvadores” costumam trazer um monte de inconveniente agarrados. Do género, se não compreendes o admirável mundo novo, mando-te a policia a casa, á noite, para te explicar…

    Ainda hoje tenho dificuldade em acreditar que tivemos o azar de nos calhar o Passos e o Seguro ao mesmo tempo, tornando viáveis as alternativas que ainda recentemente seriam absurdas. Que sorte de merda…

    miguel

  9. Estes “camaradas” do socialismo na gaveta , arruados como estão ao memorando da Tróika nao gostam do slogan “que se lixe a troika”

    Entao o que foram lá fazer?

    Colar-se de forma oportunista e canalha com fins eleitorais.

    Nao prestam

  10. “Colar-se de forma oportunista e canalha com fins eleitorais.”

    as próximas serão organizadas pela intersindical e a segurança comuna trata de afastar os penetras & canalhas. ficam reduzidos 100 participantes habituais, mas não faz mal, usam imagens de arquivo ou das manifestações turcas, uns retoques de fotoxope nas cartazes e tá a andar.

  11. “Sabem que não querem isto, mas lutam pelo quê, exactamente? Qual é a alternativa?”

    Precisamente. Os protestos, por paranóias ideológicas, não são utilizados e dirigidos de forma eficaz, dispersando a atenção das pessoas demagogicamente para quem menos culpa tem – a Troika.

    O primeiro comentário de Carlos Sousa faz as perguntas exactas, que poderiam ser um excelente ponto de partida para um protesto eficaz:

    “Será assim tão difícil apanhar os culpados e descobrir o rasto do dinheiro nas off-shores?

  12. os jovens estão muito ocupados a preparar o seu plano de emigração. Hoje são menos em Portugal. Muitos terão desistido do país que desistiu deles.

    Quanto a serem menos os manifestantes, não sei, o que sei é que aquilo foi uma desorganização total.
    às 19:00, meia hora depois de se ter cantado a Grândola no Terreiro do Paço e de se ter quase esvaziado a praça, ainda havia gente a marchar na Rua do Ouro…

  13. parece que o grande silêncio é também o do governo que, ao contrário do que é costume nestas ocasiões, nem que seja para dizer as balelas do costume (“manifestações deste género são perfeitamente normais em democracia”), desta vez disse nada. Prova maior de que há silêncios mais preocupantes que certos barulhos.

    E, Vega, indo de acordo com o que dizes, tu que não chegaste ao terreiro, a palavra de ordem que se ouviu mais alto e durante mais tempo, foi “DEMISSÂO”. Não é a solução. Mas pode ser o princípio dela. Um abanão parecido com o que ilustraste tão bem quando falaste do caso italiano.É um princípio. A solução que nos apresentam é o fim. E isso as pessoas sentem, logo sabem.

    Quanto a cartazes, a banca, os banqueiros, os políticos, o Seguro, o PS, também foram alvo. “Banqueiros não nos representam” era uma das faixas maiores. É intuitivo e pouco articulado? Claro: é uma manifestação.

    Reforçava só mais um episódio que relatei atrás: no Porto, a actuação da polícia levou a que uma massa de gente os corresse do cenário. Foram corridos. È mais um sinal a juntar ao do silêncio. Esta manifestação foi, repito, o princípio de uma nova maré social. É por isso que desta vez o governo disse nada. Medo.

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